Anatomia: uma história de amor

Dana Schwartz · Capítulo 25 de 40

Páginas do PDF

Anatomia: uma história de amor

Capítulo 23

 

 

Para surpresa de Hazel, Jack chegou a Hawthornden antes de domingo à noite. Poucos dias depois da escavação bem-sucedida, Hazel viu-o timidamente parado junto aos estábulos, quando saiu para ir dar um passeio depois do pequeno-almoço.

– Estive a pensar – disse Jack – que, se por acaso estivesse livre hoje, podia ensinar-me a montar. Não estou à espera de aprender logo à primeira, principalmente se me puser em cima de uma besta como aquele Beetle… não sei quê.

– Betelgeuse – corrigiu Hazel, tentando esconder um sorriso ao aproximar-se. – Dizem que é uma das estrelas mais brilhantes que se veem no céu noturno a olho nu.

– E a uma altura impossível, como o cavalo.

Hazel já entrara no estábulo e tirara o enorme cavalo árabe preto da baia. Aproximaram-se os dois de Jack, que, pela expressão, parecia já estar arrependido da decisão de voltar a montar.

Se Betelgeuse conseguisse fazer um sorriso de escárnio, era exatamente o que teria feito quando fitou Jack com um olhar que não podia ser interpretado como outra coisa que não de desafio. Jack levantou o braço para lhe fazer uma festa, mas depois pensou melhor e usou a mão que já estava no ar para prender o cabelo, fingindo que fora sempre essa a intenção.

– Portanto – começou Hazel –, vamos querer que o cavalo te fique a conhecer.

– Acho que já tivemos uma apresentação bastante íntima – comentou Jack.

– Nada de movimentos repentinos. Move-te muito devagar. Estende a mão… isso, muito bem, e agora anda à volta dele, mas sem nunca lhe tirares a mão de cima. Ele precisa de saber onde estás.

Jack obedeceu, sentindo-se ligeiramente idiota a andar à volta do cavalo, enquanto Hazel o observava.

– Agora, põe o pé esquerdo no estribo. Monta sempre do lado esquerdo.

– Porquê?

– Na verdade, não tenho a certeza. Foi assim que me ensinaram. Presumo que tenha qualquer coisa que ver com a aristocracia, mas não faço ideia do que seja.

– Longe de mim querer desrespeitar qualquer coisa que tenha que ver com a aristocracia – troçou Jack, com os olhos a encontrarem Hazel.

Com uma graciosidade surpreendente, Jack subiu facilmente para o dorso de Betelgeuse.

– Ah! – gritou. – Consegui!

Betelgeuse baixou-se para comer umas ervas amareladas, e Jack segurou as rédeas, aterrorizado.

– Agora é com as tuas pernas – revelou Hazel.

Jack inclinou uma sobrancelha.

– Aperta-o aí. E mantém as costas direitas. E tenta não ter medo. Os cavalos sentem essas coisas.

– Sim, está bem. Sem medo.

– Desenterras cadáveres dos cemitérios a meio da noite e tens medo de montar um cavalo? – perguntou Hazel.

– Veja, o problema é este – retorquiu Jack, quando Betelgeuse decidiu começar a afastar-se para a esquerda. – Os mortos não mordem. Não fazem nada de mal. São os vivos que nos magoam.

– Pois, acho que tens razão – comentou Hazel.

A rapariga montou Miss Rosalind, e depois de algum esforço, conseguiram pôr os cavalos a andar lado a lado pelo longo caminho de Hawthornden.

– Provavelmente, hoje não vamos conseguir mais do que isto – disse Hazel, quando regressaram aos estábulos. – Mas, se quiseres, podes voltar amanhã. Talvez seja bom para os meus estudos… fazer um intervalo, apanhar um pouco de ar fresco.

– Combinado – concordou Jack. – Parece-me bem.

Da segunda vez que foram os dois andar a cavalo, seguiram até à extremidade da quinta da propriedade contígua, onde um rebanho de ovelhas pastava placidamente pelas colinas verdejantes. Depois disso, Hazel levou Jack pelo caminho estreito através da floresta até às traseiras de Hawthornden, ao longo do regato.

– Acreditas em fantasmas? – quis saber Hazel, enquanto passavam pelos imponentes ciprestes que ladeavam os portões traseiros de Hawthornden. Sempre imaginara que era uma pergunta tola, daquelas que as crianças segredavam umas às outras quando estavam a brincar, mas as últimas semanas, dedicadas ao corpo humano, tinham-na tornado mais curiosa relativamente à morte e ao que acontecia para lá dos véus.

– Porque é que pergunta? – devolveu Jack. Esfregou o pescoço de Betelgeuse. Descobrira que, afinal, o cavalo não era assim tão assustador, depois de o conhecer melhor.

– Nunca vi qualquer prova de que existem, mas acho que há mais qualquer coisa do que eletricidade a dar vida ao nosso corpo. Acho que há uma alma que continua a viver. E, bem, passas tanto tempo em cemitérios. Ou melhor, passavas, suponho.

A expressão de Jack ficou mais constrangida. Desde a malfadada expedição ao cemitério nas traseiras de Saint Dwynwen, deixara de lado o trabalho de ladrão de corpos. Era muito arriscado, pelo menos até ele descobrir para onde estavam os amigos a desaparecer. E não eram só ladrões de corpos – a rapariga que trabalhava na peixaria, que costumava piscar o olho a Jack sempre que ele passava pelo mercado, tinha desaparecido, e o homem que estava atrás do balcão limitara-se a encolher os ombros quando Jack perguntara por ela. Ninguém via Rosie, uma prostituta que costumava fumar charutos com os atores no Le Grand Leon, há meses. Assim que começou a correr o boato de que a febre romana podia estar de regresso, ninguém fez demasiadas perguntas quando as ruas estreitas e apinhadas da Cidade Velha começaram a ter menos pessoas.

– Não sei – replicou Jack. – Acho que acredito em fantasmas. Mas acho que os fantasmas não estão nos cemitérios.

– Porquê? Por ser terreno sagrado?

– Não – retorquiu o rapaz, arrancando uma folha de uma árvore e rolando-a entre os dedos. – Só acho que os fantasmas não querem ser lembrados da morte. Acho que, quando saem dos corpos, querem ficar o mais longe possível deles. Já tive a minha conta de cadáveres, e posso garantir-lhe que não há qualquer razão para alguém querer ficar agarrado àquilo. Somos uns sacos de carne podre, e começamos logo a cheirar mal. Os fantasmas podem ir para onde quiserem, não é? Não há razão para ficarem agarrados aos corpos para serem comidos por larvas.

– É uma maneira bastante negra de ver as coisas – observou Hazel. – Mas acho que há nela alguma poesia.

Continuaram em silêncio até chegarem ao ponto da floresta onde o fluxo do regato diminuía até desaparecer por completo.

– O regato não acaba aqui – explicou Hazel. – Acho que vai para debaixo da terra ou que se torna demasiado pequeno para poder ser considerado um regato. Mas, para lá daquelas árvores… Estás a ver? Ali, ao pé daquela ravina… torna a aparecer.

– E é o mesmo regato? Ou são só dois regatos muito próximos? – perguntou Jack.

– É… – Hazel fez uma pausa. Ia dizer que obviamente era o mesmo regato – como é que alguém podia ser ridículo ao ponto de insistir que não era? –, mas não tinha a certeza se podia apresentar um bom argumento para provar que tinha razão.

– Às vezes, as coisas acabam – comentou Jack. – Olhe ali. – Apontou para um pequeno conjunto de flores com minúsculas pétalas verde-claras, tão claras que quase pareciam pérolas. Cada flor tinha um rebento branco no meio.

Hazel não as reconheceu. Apesar de ter percorrido aquele trilho centenas de vezes, as flores verdes eram tão pequenas e estavam tão próximas do chão que simplesmente desapareciam por entre a vegetação rasteira e o musgo.

– O que são?

– Acho que não sei o nome exato, mas a minha mãe chamava-lhes hipericão. Costumava fazer chás com as raízes. Dizia que eram boas para nos mantermos fortes. – Há anos que Jack não pensava nos chás que a mãe lhe fazia, mas assim que essa memória lhe ocorreu, sentiu o cheiro do chá e o característico sabor amargo dos taninos. – Agora que penso nisso, se calhar a única coisa com que ela podia fazer chás era com ervas daninhas.

Enquanto Jack continuava perdido nos devaneios, Hazel saltou da égua e começou a colher um punhado de flores com as mãos, tendo o cuidado de manter as raízes leitosas intactas.

– Muitas vezes, a medicina popular é muito mais eficaz do que as sanguessugas e as ventosas que usam nos hospitais – comentou. – A tua mãe deve ter aprendido isso algures.

– Pois deve. – Jack não disse mais nada sobre a mãe nem sobre as suas origens, e Hazel não insistiu. Ele sentiu-se grato por isso. Não queria que Hazel demonstrasse pena dele, o que, honra lhe fosse feita, ela nunca fazia. Hazel era uma das poucas pessoas ricas que Jack conhecia que não agia como se estivesse a fazer-lhe um grande favor ao dignar-se a interagir com ele.

Quando voltaram para os estábulos, Jack deixou-se ficar, escovando os cavalos, apesar de o moço dos estábulos fazer sempre isso ao fim do dia. Betelgeuse sacudiu as crinas em sinal de aprovação. Afinal, tinham ficado amigos depressa.

– Foi a Hazel quem lhe pôs o nome? – interrogou Jack, dando palmadinhas no pescoço do cavalo. – Betelgeuse. O nome da estrela especial.

– Foi o meu irmão George. Ele adorava as estrelas. Quando eu era criança, levava-me às escondidas pela janela do quarto das crianças para o telhado e ensinava-me as formas das estrelas. Ele era diferente de mim. Eu lembro-me de factos e de números. Sei de cor todos os ossos do corpo e os ácidos que posso usar para dissolver a carne. Ele sabia histórias. Ele era… carinhoso.

– Lamento muito que tenha morrido – disse Jack.

– Obrigada.

Jack já não tinha mais coisas inteligentes para dizer – esgotara o seu armazém de palavras, e se ficasse lá mais tempo, acabaria por se humilhar.

– Vemo-nos no domingo à noite – disse abruptamente, e um pouco alto de mais. – Se ainda quiser fazer a escavação, quero eu dizer.

– Quero – confirmou Hazel.

No domingo à noite, quando Jack chegou a Hawthornden, só encontrou um cavalo, Miss Rosalind, já com a sela e a carroça atrelada.

– Achei que, como ainda és um principiante, era melhor levarmos só um cavalo – revelou Hazel, metendo o pé no estribo e içando-se para o dorso do animal. – A estrada é um pouco mais traiçoeira do que a propriedade do castelo.

– Parece-me muito convencida para uma rapariga que, da última vez, me obrigou a escavar o tempo todo – ripostou Jack, atirando o equipamento para a carroça. Estendeu a mão para fazer uma festa nos quadris de Miss Rosalind, mas depois pensou melhor.

– Alguém tem de ser o cérebro da operação e alguém tem de fazer o trabalho braçal – comentou Hazel.

– Eu pensava que a minha parte era ser bonito – brincou Jack.

– Não – replicou Hazel, dando uma palmadinha no pelo aveludado do pescoço da égua. – Não, essa é a da Miss Rosalind.

A viagem para o cemitério pareceu demorar apenas uma fração do tempo que demorara na semana anterior. Hazel sentia-se como se tivesse cavalgado apenas por meros momentos antes de as árvores se separarem e deixarem entrever o pináculo de Saint Dwynwen. As mãos de Jack tinham estado à volta da cintura de Hazel durante todo o tempo, quentes e confortáveis. Era como se a curva das costas da rapariga tivesse sido desenhada para encaixar no peito dele, e ela sentiu uma certa pena quando percebeu que tinham de desmontar e dirigir-se para o cemitério com as pás.

– Ele morreu com a febre? – questionou Hazel, quando já tinham escavado tempo suficiente para a testa estar coberta de suor.

Jack resmungou uma afirmação e não parou de cavar. Tinha-os visto a enterrar o caixão, marcado com tinta vermelha, um “R” sinistro, a pingar, que o hospital começara a utilizar, pois o número de mortos pela febre romana continuava a aumentar.

– É um homem, como da última vez – sussurrou Jack, depois de ter juntado uma grande pilha de terra ao monte acima deles e ter feito uma pausa para limpar o suor dos olhos. – Sem família, sem funeral. Apenas uma caixa de pinho do hospital dos pobres.

– É terrível – observou Hazel.

Jack levantou a cabeça, surpreendido.

– Pois é. – Era terrível. Nem sequer pensara nisso. Ficara tão entorpecido com a enormidade das mortes em Edimburgo que a primeira reação fora de alívio: os caixões de pinho eram os mais fáceis de partir. Ali tão perto de Hazel, outra vez numa cova, Jack sentia a carga magnética da pele dela, o cheiro a sal do suor. Queria beijá-la, mas antes que conseguisse descobrir como, ouviu o metal a partir a madeira.

Ali estava ela, tal como Jack se lembrava, uma caixa de pinho com a parte superior de um “R” a espreitar por baixo da terra.

– É o “R” de febre romana – explicou calmamente. É agora, pensou. Beija-a agora. Mas em vez disso, atirou a pá para a relva e, a seguir, içou o corpo.

Hazel sabia o que fazer desta vez, quando Jack baixou a corda. Trabalhou rapidamente, prendendo-a à volta dos pés do corpo e ajudando Jack enquanto ele içava o cadáver através do buraco do caixão partido pelo toque, para não ter de olhar muito de perto para um rosto em decomposição.

Quando o corpo saiu completamente da sepultura, Jack estendeu a mão para Hazel. Ela agarrou-a, sentindo os calos sob a pele, arranhada e com bolhas devido ao esforço da noite.

– A tua mãe alguma vez te disse se o hipericão era bom para tratar as bolhas? – perguntou, massajando as palmas das mãos, quando estavam sentados ao lado um do outro na relva escura.

– Infelizmente, não.

Hazel registou mentalmente que, de qualquer forma, iria experimentar.

Ficaram sentados mais alguns minutos, a recuperar o fôlego. Jack ponderou se seria suficientemente corajoso para tentar beijá-la, mas depois disse:

– Acho que é melhor despirmos o pobre diabo.

Quando estava na cova, Hazel não notara nada de anormal no rosto do cadáver, mas agora que estavam no chão, não conseguia desviar os olhos. Havia algo de estranho na cara dele, uma concavidade invulgar que fazia com que a pele parecesse massa de vidraceiro. O luar não era suficientemente forte para permitir que a rapariga visse as feições do cadáver mais pormenorizadamente.

– Ainda tens os fósforos e a vela? – interrogou Hazel.

Uma pequena chama crepitou com vida, iluminando os dois rostos com um brilho laranja, e por um momento, Hazel esqueceu-se de onde estava, que estava a lutar contra o frio da noite num cemitério. O brilho da vela transformou o rosto de Jack Currer em algo belo e estranho, com uns ângulos tão afiados que ela sentiu vontade de passar o dedo ao longo das bordas da pele do rapaz para cunhar o perfil dele.

E foi então que Hazel olhou para baixo, para o cadáver, e o sangue gelou.

Os olhos do homem eram umas órbitas grotescas, umas cavernas vazias cheias de larvas. Mas ainda mais horrível: as pálpebras tinham sido cosidas para se manterem abertas. Um fio preto fino em “X” que puxava a parte de cima das pálpebras até às sobrancelhas do morto e a parte de baixo até às maçãs do rosto. Era uma marionete aterrorizadora. Não tinha acontecido nada de natural àquele homem, e o que quer que tivesse acontecido, ele fora obrigado a ver.

Jack fez o sinal da cruz.

– O que é isto? – sussurrou.

– Não sei – retorquiu Hazel –, mas não é a febre romana.

Um barulho que os assustou fê-los sair daquele horrível transe. O som de folhas a serem pisadas. E depois uma sombra a mover-se entre as árvores. Uma pessoa.

– Baixa-te! – sibilou Jack para Hazel, e empurrou-a para a cova que tinham acabado de abrir. Saltou a seguir e baixou a cabeça até ficarem ambos fora de vista, de pé, lado a lado, no buraco estreito.

A testa de Hazel estava coberta de suor. Tinha uma mancha de sujidade do lado direito da cara.

– Está aí alguém? – sussurrou.

– Não sei.

Ficaram à espera, com o coração a bater depressa. Depois, silêncio. A seguir, botas a pisar a terra. Passos. Alguém caminhava em direção ao cemitério. Hazel e Jack voltaram a cabeça para olharem um para o outro, com os rostos tão próximos que Jack conseguia ver o brilho do suor a agarrar-se à testa da rapariga.

– Provavelmente, é só o coveiro – murmurou Jack. – Anda a fazer uma inspeção de rotina. – Mas no preciso momento em que o disse, o coração caiu-lhe aos pés. Normalmente, os coveiros não trabalhavam depois da meia-noite.

– Talvez seja o padre a dar um passeio?

Jack não sabia. Fez um gesto para que se sentassem, para que o topo das cabeças não fosse visível para quem quer que fosse – ou o que quer que fosse – que andasse por ali.

O buraco no chão só dava para estarem os dois sentados lado a lado, com os joelhos a bater na terra solta nas paredes da sepultura. Uma minhoca serpenteou em direção a um olho de Jack, e ele desviou-se instintivamente, ficando mais perto de Hazel. Ela estava a abraçar os joelhos, tentando silenciar a respiração.

Os passos – agora eram inegavelmente passos – continuavam a aproximar-se do local onde Jack e Hazel estavam escondidos.

A rapariga esbugalhou os olhos.

– O cadáver! – Tinham-no deixado deitado na relva, nu. Se quem estava a andar por ali o visse…

– Esquece – sussurrou Jack. – Está demasiado escuro para o verem. – O que Jack não disse foi que, se quem estivesse lá fora se aproximasse o suficiente para ver o corpo, também estaria suficientemente perto para olhar para a sepultura aberta e ver os dois a tremer com o frio da noite.

Os passos estavam agora impossivelmente próximos: o som das botas a ranger na relva molhada soava como se estivessem apenas a algumas fileiras de distância do cemitério, mas nenhum dos dois se atrevia a verificar. E não era apenas um conjunto de passos; Hazel ouviu atentamente e depois levantou três dedos para Jack. Havia pelo menos três homens a caminhar juntos pelas filas de sepulturas lado a lado.

Os passos pararam. Mais uma vez, Jack e Hazel olharam um para o outro. Não havia mais nada que pudessem fazer. Podiam fugir, mas demorariam algum tempo a sair do buraco e, por essa altura, podiam já ter sido emboscados, além de estarem em desvantagem numérica.

– Está tudo bem – murmurou Jack. – Seja o que for, está tudo bem. – Sem pensar, levantou um braço e pô-lo sobre o ombro de Hazel.

Ela olhou para ele com um pequeno sorriso. A rapariga deslocou o seu peso e ouviu o som do salto da bota na madeira. Tinham cavado até ao caixão. Mas agora não havia nada a fazer. Só podiam esperar e rezar para que quem estivesse lá fora não se aproximasse o suficiente para perceber que havia um buraco no chão com dois jovens petrificados.

Hazel pressionou os ombros contra os de Jack, em parte para evitar o frio que passava da terra húmida através do casaco, mas também porque o calor dele – a solidez daquela presença – a deixava menos tonta de medo. Era uma âncora. Estavam ali juntos. O que quer – ou quem quer – que estivesse lá fora, nenhum deles teria de enfrentar sozinho.

Continuaram imóveis, a ouvir passos que pareciam aproximar-se e recuar durante uma infinidade de tempo. As articulações de Hazel doíam-lhe, mas não se atrevia a mexer-se.

Por fim, os passos retiraram-se por completo.

Os únicos sons eram o grito de uma ave noturna e o assobio do vento através das filas de lápides. Mesmo assim, Jack e Hazel mantiveram-se quietos, acocorados na terra oca sobre um caixão.

Uma fina lua crescente tinha-se erguido no céu, afiada como um bisturi, e sob essa luz, Hazel examinou o rosto de Jack: as manchas de lodo ao longo do nariz, os estranhos olhos de falcão, a linha fina dos lábios e as pestanas maiores e mais escuras do que as dela, tão encaracoladas que quase chegavam às sobrancelhas sempre franzidas.

Sentindo o olhar dela, Jack voltou-se.

– Será que…

Hazel inclinou-se e beijou-o. Não tinha antecipado aquele momento, nem sequer imaginara como seria, mas quando Jack se virou para ela, a poucos centímetros de distância, a rapariga sentiu-se atraída para ele como se fosse pela gravidade. Era como magnetismo, o frio dos lábios dela em busca do calor dos dele. Os olhos de Jack abriram-se, surpreendidos, mas depois engoliu o resto da frase e beijou-a também, com força e urgência.

Jack envolveu Hazel com os braços e beijou-a como se fosse a única fonte de oxigénio. Tinha as mãos no cabelo dela, a subir-lhe pelo pescoço, ao longo da linha do maxilar. As pontas dos dedos traçaram os lóbulos aveludados daquelas orelhas perfeitas. Nenhum dos dois sabia que um beijo podia ser assim, que era assim que devia ser: sem esforço. Era como se os lábios do outro fossem o único lugar a que alguma vez tinham pertencido e o próprio destino os tivesse levado àquele preciso momento, aterrorizados e doridos numa sepultura meio escavada, só para que os dois se pudessem juntar.

Quando Hazel se afastou, tinha o rosto afogueado.

– Desculpa – disse.

– Não peças desculpa – replicou Jack. Hazel aninhou-se nele, com a curva da coluna perfeitamente encaixada no peito do rapaz. Jack baixou um braço sobre ela, e ficaram a observar a lua e a ouvir os sons da noite.

 

Acordaram com um céu cinzento baixo e um padre a olhar para eles. Jack pôs-se de pé e rastejou para fora da pequena trincheira, que parecia ainda mais estreita à luz do dia. As paredes de terra seca tinham-se desmoronado enquanto dormiam. Jack estendeu uma mão para Hazel e puxou-a para a relva.

– Bom dia, padre! – saudou Jack, num tom jovial. – Linda manhã. Um pouco de nevoeiro, mas eu cá não me queixo.

– Posso explicar – disse Hazel.

O padre esbugalhou os olhos de terror. Olhou para o cadáver mutilado deitado nu no chão e depois novamente para Hazel e Jack, e mais uma vez para o cadáver e depois para eles.

– Desaparecei daqui, demónios profanos! – gritou. – Desaparecei, vós, os mortos, deste mundo dos vivos! – Dobrou os joelhos velhos e apanhou um torrão de terra. Atirou-o a Jack e Hazel. – Xô! Xô! Esta terra é sagrada e consagrada. Fugi!

Hazel levantou as mãos para proteger os olhos.

– Senhor padre, isto é tudo um mal-entendido…

Mas Jack interrompeu-a:

– Sim! Nós somos os mortos-vivos acordados! E nós iremos… – puxou o braço de Hazel – … agora. Arghhhh! – Balançou os braços no ar… – Vossa santidade é demasiado poderosa para nós! – E depois sibilou como uma cobra.

Antes que qualquer um deles conseguisse ver a reação do padre, viraram-se e correram em direção às árvores. Misericordiosamente, Miss Rosalind ainda estava à espera deles, rabugenta e pronta para a próxima refeição, mas suficientemente feliz para os levar de volta para Hawthornden.

Alguém, três “alguéns”, andaram no cemitério de noite, alguém andava a levar ladrões de corpos e acontecera qualquer coisa horrível aos olhos de um cadáver – mas Hazel não conseguia pensar em nada disso naquele momento. Os pensamentos rodopiavam-lhe no cérebro e dissolviam-se na exaustão como natas a serem mexidas em chá fraco. Tudo o que conseguia fazer era manter-se direita e acordada sobre Miss Rosalind, com as mãos de Jack Currer na cintura, a sonhar com a sua cama com brasas a aquecerem os lençóis, e a tarte de peixe acabada de fazer pela cozinheira, e a sensação dos lábios de Jack nos dela.

Beijara Jack Currer numa sepultura, e ele tinha-a beijado, e mesmo com tudo o resto que tinham enfrentado, aquele fora momento em que o coração lhe batera com mais força em toda a noite.

Quando Hazel regressou à casa principal do Castelo de Hawthornden, abrindo a porta de madeira rangente o mais silenciosamente possível, encontrou Charles a dormir no banco de veludo no corredor junto à porta da biblioteca. Iona dormia profundamente mesmo ao lado, com a cabeça encostada ao ombro dele. Hazel fechou a porta devagar e tirou as botas de forma a poder esgueirar-se para a cama sem os acordar.

OceanofPDF.com