Anatomia: uma história de amor
Capítulo 20
Foi preciso lavar duas vezes o cabelo de Hazel com o delicado sabão de rosas da mãe e mais uma hora a escová-lo, mas Iona acabou por tornar Hazel mais ou menos apresentável para chegar atrasada a Almont House, mas não tão atrasada que fosse considerado uma má educação imperdoável. Hazel deixara Iona apertar-lhe as fitas do corpete com força suficiente para conseguir enfiar-se no vestido de veludo azul debruado a renda, e ela própria foi obrigada a admitir – quando olhou de relance para o reflexo no espelho no átrio dos Almont – que lhe ficava bem. A cor azul meia-noite fazia com que o afogueado das faces parecesse rosado, e tinha os olhos a brilhar, apesar de ter estado acordada toda a noite.
– Prima! – exclamou Bernard, indo ao encontro dela à entrada do salão de baile e estendendo-lhe o braço. – Bem-vinda, finalmente. Estás, bem, simplesmente maravilhosa.
Hazel conteve um bocejo, transformando-o num sorriso educado. Apoiou delicadamente a mão enluvada no cotovelo de Bernard e deixou que ele a acompanhasse até ao salão. Estava profusamente iluminado e quente, cheio de corpos e crinolina a rodopiar. Havia centenas de velas altas como soldados em candelabros dourados. Sem saber bem como, já tinha um cartão de dança preso ao pulso e uma taça de champanhe na mão.
Gibbs Hartwick-Ellis deixara crescer um bigodinho infeliz desde a última vez que ela o vira no teatro; estava encostado a um canto, a tentar livrar-se de uma conversa com o grande e gordo Barão Walford, que estava inclinado para a frente e quase a agarrar o pobre Gibbs para o obrigar a ficar ali. Hazel lançou um olhar compassivo a Gibbs. Tinham-na sentado ao lado de Walford num dos jantares dos pais e, mesmo depois de estar a estudar cadáveres, ainda se sentia nauseada ao recordar o hálito dele – já para não falar da forma aterradora como o olho de vidro do barão parecia rolar no globo ocular por vontade própria.
Hazel não conseguia ver Cecilia, mas era impossível não dar pela presença da senhora Caldwater. O tinido daquele riso agudo quase fazia vibrar os cristais. Hazel daria uma volta rápida pelo salão, faria com que a sua presença fosse notada e depois voltaria para o cadáver na masmorra da sua casa. (Esquecera-se de ir à casa do gelo – o corpo só duraria mais algumas horas até que a carne começasse a decompor-se para lá de qualquer utilidade prática.)
Podia dizer que estava com dores de cabeça. Ou que se sentia a desmaiar. Ninguém faria muitas perguntas sobre uma mulher que se sentia a desmaiar nem sobre o fenómeno cultural mais vasto de toda uma sociedade em que as mulheres pareciam desfalecer constantemente. Uma mulher a desmaiar era algo tão fácil de explicar: ou era o tempo, que nesta estação do ano estava excecionalmente quente ou frio, ou, se não fosse uma coisa nem a outra, então seria certamente o corpete da senhora que estava demasiado apertado. Todos esses desmaios faziam, sem dúvida, os homens à volta delas sentirem-se tão úteis e fortes, sendo capazes de levantar uma mulher entre o monte de saias caídas e abanar as mãos em frente ao rosto até que ela pestanejasse, mostrando que recuperara a consciência.
A orquestra começou a tocar uma valsa alegre, e Bernard entrelaçou os dedos nos de Hazel, puxando-a para si. Demasiado contra si. O veludo pesado estava a fazer com a camisa se colasse à pele, e a mão de Bernard estava desagradavelmente suada. Afinal, talvez não precisasse de fingir que estava a desmaiar.
Hazel tentou soltar a mão da de Bernard, mas ele puxou-a ainda mais para si.
– É maravilhoso ver que finalmente saíste de casa, prima – disse calmamente Bernard.
Hazel fez uma ligeira vénia. Tentou lembrar-se de como tinha sido indelicada da última vez que Bernard fora a Hawthornden.
– Quando te vi no outro dia, Bernard… estava doente. Não estava mesmo em condições de ser uma boa companhia.
Bernard levantou uma mão enluvada em sinal de perdão.
– Já me esqueci – garantiu. – No entanto, seria negligente se não te dissesse que as pessoas andam a murmurar. Não tens sido a mesma, ultimamente. Faltas aos compromissos sociais. Tornaste-te praticamente um fantasma. Há semanas que ninguém te vê. Poder-se-ia pensar que tens andado a evitar-me – acrescentou. – É uma tolice, eu sei.
– Tenho estado doente. É só isso, Bernard.
O primo sorriu, mas o sorriso não lhe chegou aos olhos. Pareciam estar a rodopiar mais depressa do que os outros pares em redor.
– Passei por Hawthornden umas quantas vezes. Para te visitar. Mas a tua carruagem não estava lá.
– A sério? – retorquiu Hazel, esperando que o tom fosse leve. – Que estranho. E que insólito reparares nisso.
Sem avisar, Bernard pôs o braço à volta da cintura de Hazel e puxou o corpo dela contra o seu numa pretensa valsa. Ela quase perdeu o fôlego com o atrevimento dele.
– Andas a visitar outro pretendente, é isso? – perguntou, com sarcasmo.
Hazel quase deu uma gargalhada na cara dele.
– Não – replicou, tropeçando ao tentar acompanhar o passo dele na pista de dança. – Posso garantir-te que não há qualquer outro pretendente.
Os olhos de Bernard estavam fixos e frios. Parecia ter mais traços do pai do que Hazel alguma vez notara.
– Estavam umas botas no átrio de entrada da tua casa – garantiu Bernard, com os dentes cerrados. – Umas botas de cavalheiro. Alguém suficientemente íntimo para tirar as botas em tua casa, se bem que eu não consiga imaginar quem possa ser. Se fosse alguém do clube, presumo que já teria sabido. Juro por Deus, Hazel… – Apertou as mãos de Hazel com tanta força que a rapariga sentiu dor. – Se andares a humilhar-me, eu… – Soltou-lhe as mãos, em vez de concluir o pensamento. O cabelo dele, tão perfeitamente penteado e encerado, tremeu ligeiramente, tal era a emoção.
– Bernard – sussurrou Hazel –, aquelas eram as velhas botas do George. Juro. Calço-as quando ando pelos jardins e vou até ao riacho, para não sujar as minhas de lama. – Ficou aliviada por conseguir dizer apenas parte de uma mentira.
– Ah. – A expressão dele ficou mais suave. – Então, está bem. Talvez estejas interessada em dar um passeio pelo nosso jardim de inverno? Garanto-te que é encantador no outono, com o tempo ameno como tem estado.
Hazel olhou de relance em redor. Ninguém estava a olhar para eles com qualquer interesse. Até a Menina Hartwick-Ellis, geralmente uma observadora tão ciumenta de tudo o que Hazel pudesse estar a fazer, namoriscava alegremente o filho do embaixador da Dinamarca, quase sem tirar os olhos do belo rapaz louro durante tempo suficiente para pestanejar.
– Não achas que é melhor levarmos uma dama de companhia? – questionou Hazel.
– Que disparate. – Bernard deu o braço a Hazel e levou-a até à porta de entrada dos criados. – Tu querias ir só comigo a uma qualquer demonstração horrenda de cirurgia na Cidade Velha!
Estavam na entrada dos criados para a cozinha, um pequeno corredor húmido apenas com algumas lamparinas a tremeluzir. Passou por eles um criado apressado, com um tabuleiro de bolos, que desviou educadamente os olhos.
Hazel tentou soltar-se e voltar para a festa.
– Bem, na demonstração de cirurgia não estaríamos propriamente sozinhos, mas…
Antes que pudesse concluir a frase, Bernard pressionou os lábios contra os dela. A língua serpentou sobre os lábios fechados de Hazel, obrigando-a a abrir a boca.
Os lábios dele eram frios e estranhos, e a língua pegajosa. Uma parte do cérebro de Hazel estava a dizer-lhe para lhe dar uma bofetada e se soltar dele. Pensou em mil palavras duras, mas parecia completamente incapaz de as forçar para lá da garganta. Também o corpo estava a sofrer de uma estranha paralisia. A única coisa que conseguiu fazer foi ficar ali, com os olhos abertos como um peixe, à espera que Bernard finalmente a soltasse com a satisfação de um beijo nos lábios dela. Limpou a parte de baixo da cara com a manga e agitou as sobrancelhas.
O estômago de Hazel deu uma reviravolta sobre si próprio, e ela tentou não fazer uma careta ao olhar para o rosto de Bernard – para a vermelhidão, para a insipidez morta dos olhos, para os lábios finos ainda a brilharem com o suor. Portanto, aquilo era um beijo. Era algo sobre o qual lera em romances e poemas, e que inspirara grandes artistas. Era mais húmido e mais frio do que ela imaginara.
Por fim, Hazel recuperou a voz e soltou-se de Bernard.
– Não sei que diabo pensaste que estavas a fazer, mas vais enlamear-nos aos dois. Se alguém tiver visto o que aconteceu…
Bernard pôs as mãos nas ancas e encheu o peito.
– O quê? Um criado? A tua reputação está intacta, Hazel. Eu continuo a querer casar contigo, por isso podes considerar-te completamente segura.
Por um momento, uma outra vida apareceu de rompante à frente de Hazel, uma vida em que andava a mendigar pelas ruas, ia viver para Yorkshire e ser George Hazleton para sempre. Talvez pudesse tornar-se parteira, a louca que vivia numa cabana minúscula na floresta com uma panóplia de raízes e ervas e chás malcheirosos que ajudavam as mulheres necessitadas. Seria cirurgiã, professora, bruxa – uma história contada em tom de ameaça a debutantes nervosas antes de serem apresentadas à sociedade. Um mito.
Mas a imagem de uma vida alternativa durou apenas um momento, até desaparecer como pó na palma da mão num dia ventoso. Não havia outra vida a não ser tornar-se Viscondessa de Almont, casar com Bernard. Os beijos dele seriam os primeiros e os últimos que ela conheceria.
Bernard inclinou-se e tornou a beijá-la.
– Anda – disse-lhe ele, agarrando-a mais uma vez pelo braço. – Vamos voltar para a festa.
Hazel deixou que ele a levasse de novo pela entrada dos criados para o som dourado do salão de baile. Flutuou como que adormecida, sem prestar atenção a Bernard, quando ele se aproximou da orquestra e segredou ao ouvido do primeiro violinista, que parou de tocar.
Os pares pararam de repente, tropeçando por cima das saias. Bernard ergueu um cálice de cristal e bateu-lhe de lado algumas vezes com uma faca, pedindo a atenção dos presentes. Lorde Almont estava perto dele, com um sorriso de felicidade.
– Peço a atenção de todos – começou Bernard, numa voz que se esforçou para que soasse profunda. – O meu pai, o visconde, a minha mãe, a viscondessa, e eu queremos agradecer a todos por se terem juntado a nós nesta pequena festa. O baile anual é uma tradição de que eu gosto particularmente, e que espero se mantenha por muitos e muitos anos. Peço desculpa por interromper as festividades, mas tenho um pequeno anúncio a fazer. A encantadora Menina Sinnett e eu estamos noivos. Ou, pelo menos, estamos a um pequeno momento disso. Hazel, minha querida, aceitas casar comigo?
A visão de Hazel tornou-se um túnel escuro e de contornos indistintos. Um tinido ecoou-lhe pelos ouvidos e a língua transformou-se em areia dentro da boca.
Todos os olhos da sala se voltaram para Hazel, e os sorrisos dos presentes adquiriram a dimensão de bocas de lobos escancaradas. De repente, o vestido da rapariga tornou-se insuportavelmente quente, fazendo-lhe tanta comichão no pescoço e nas mangas que ela sentiu bolhas a crescer sob o tecido. Fez-se silêncio na sala, exceto pelo tilintar das taças de champanhe. Estavam todos à espera de a ouvir dizer qualquer coisa, de ouvir a resposta dela.
Sem conseguir produzir mais nada, Hazel ergueu os cantos da boca num meio-sorriso estranho.
– Ah! – gritou Bernard.
Os aplausos pareceram-lhe tiros de canhão. Hazel esquivou-se aos votos de felicidades e aos afagos na cabeça. Sentiu que estava com dificuldade em respirar com aquele vestido. Talvez não fosse o vestido; talvez fosse o salão, a casa, a vida. O negrume nos cantos da visão estava a crescer, e as sílabas soaram-lhe espessas e pesadas na língua, quando tentou dizer a alguém que precisava de sair dali.
– Coitadinha, deve precisar de comer qualquer coisa!
– Se calhar bebeu demasiado champanhe! Ai, ai!
– Deitem a pobrezinha numa cama.
– Deus sabe bem que ela não terá muito descanso na cama de casada!
Uma qualquer alma gentil levou Hazel para a sua carruagem.
– Por favor, apresente as minhas desculpas a Bernard – ouviu-se a murmurar para alguém, antes de o cocheiro fazer estalar o chicote sobre os cavalos. A carruagem avançou a toda a pressa, levando Hazel de volta para a segurança de Hawthornden. Mas ela sabia que essa segurança era temporária. O futuro estava a ir ao seu encontro, apesar de ela estar a fugir dele, puxada por quatro cavalos, o mais depressa que podia.
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