Anatomia: uma história de amor
Capítulo 25
Assim que Jack ouviu as pancadas nas portas da frente do Le Grand Leon, estava certo de que seriam credores, que vinham reclamar a propriedade. Quando o teatro fechou, o senhor Anthony tinha dado as chaves a Jack, pedindo-lhe que o mantivesse até que pudessem voltar a abrir, na temporada seguinte. Jack podia tratar dos ladrões. A verdadeira ameaça eram os banqueiros.
Num breve clarão de esperança e êxtase, imaginou que talvez fosse Hazel, que fora ter com ele para fugirem os dois. A lembrança daquele beijo ainda lhe perdurava nos lábios, a alegria que causara, a emoção escondida e também o terror. Aquele beijo acontecera na noite do cadáver aterrorizador, o homem com os olhos abertos, que tinham deixado caído na relva para o padre ver. Era mais fácil para Jack fingir que tudo aquilo fora um sonho, que nada sucedera.
O dia ainda mal tinha nascido sobre o cume de Arthur’s Seat, que Jack conseguia ver através da pequena janela da galeria superior, se inclinasse o pescoço e afastasse a cortina. Mas naquela manhã, puxou os poucos cobertores sujos para cima da cabeça e esperou que parassem de bater. Não pararam. Continuaram: pancadas fortes, agitadas, que faziam tremer os painéis das paredes do átrio.
– Ei, o teatro está fechado! Volte noutra altura! – gritou Jack.
As pancadas persistiram. Quem quer que fosse, não seria dissuadido. Jack suspirou e rolou do pano do palco fora de uso que utilizava para transformar a cama em qualquer coisa mais parecida com um ninho de veludo.
– Está bem, está bem, seja lá quem for! Cale-se por um momento que eu já desço.
O senhor Anthony usara correntes pesadas para manter as portas fechadas, e Jack estava a tentar abri-las quando ouviu uma voz do outro lado da porta.
– Jack? Jack Currer? És tu, não és? Por favor, sê o Jack.
Desatou as correntes e, quando abriu a porta, viu à sua frente Jeanette, a antiga espia. Só tinham trabalhado juntos uma vez desde que ela conseguira um emprego como criada em Almont House – só haviam passado três meses desde a última vez que a vira, mas ela parecia ter envelhecido vários anos. Vestia o uniforme de empregada, mas estava enrugado e amarrotado, como se tivesse dormido com ele. Tinha o cabelo áspero sob a touca e a pele pálida e amarelecida. As olheiras por baixo dos olhos encovados eram quase negras. Estava a agarrar o estômago.
– Não tenho mais ninguém com quem possa falar. Se disser à governanta, serei despedida de certeza e não poderei pagar a um médico. Sempre foste bom para mim, Jacks. Alguns dos rapazes disseram-me que estavas aqui e eu… – Voltou a agarrar o estômago e Jack percebeu… ou achou que tinha percebido.
– Está bem, entra – disse Jack, fazendo-a entrar rapidamente pela porta da frente e fechando-a logo a seguir. Podia refrescar-se na casa de banho e, entretanto, ele iria ver se conseguia arranjar uns biscoitos.
Hazel estava com óculos quando abriu a porta da masmorra e viu Jack ao lado de uma jovem mulher com um ar desconfiado e a agarrar o estômago.
– Usas óculos? – soltou Jack, antes de conseguir cumprimentar devidamente Hazel.
– Raramente – retorquiu ela, corando. – Quando fico acordada até tarde. E quando as letras são pequenas. E estou a estudar. Cala-te. O que aconteceu? – Hazel passou por Jack para consolar a mulher que estava com ele. Ela encolheu-se e afastou-se de Hazel.
– Está tudo bem, Jeanie, entra lá – disse-lhe Jack, e depois, voltando-se para Hazel: – Esta é a Jeanette. Conheço-a há muito tempo. Está com um problema qualquer e, como nenhum de nós pode pagar a um médico, pensei trazê-la aqui. Para ver se podes dar uma vista de olhos.
– Não vou para o hospital! – gritou Jeanette. – Estive no hospital dos pobres, e é um horror. Não aguento aquele cheiro outra vez. E os gemidos!
– Vá, não digas mais nada. Ninguém te vai levar a lado nenhum. Podemos ver-te aqui mesmo – tranquilizou Hazel.
Mais calma, Jeanette seguiu Jack até ao laboratório escuro da masmorra, embora os olhos ainda se movessem com desconfiança e nervosismo. Hazel tirou os livros e as notas que estivera a estudar de cima da longa mesa e acendeu uma vela nova, reparando que a que tinha estado a usar se derretera por completo.
– Senta-te aqui – pediu Hazel –, e diz-me o que tens. – A rapariga parecia-lhe familiar, mas não se conseguia lembrar onde a tinha visto.
Jeanette obedeceu e endireitou a saia no colo. Vendo Hazel a olhar para a barriga, disse:
– Não estou grávida. Não posso estar. É impossível. Juro. Eu conheço-a, não conheço? Jacks, eu conheço-a. Ela… conhece o Lorde Almont, não conhece?
– É meu tio – explicou Hazel. Reconheceu o rosto dela: era a jovem criada dos Almont.
Jeanette fez um barulho zangado e tentou levantar-se da mesa. Mas só conseguiu içar-se um centímetro até a dor atacar de novo, e Jack ajudou-a delicadamente a sentar-se outra vez.
– Não posso estar aqui – disse. – Se descobrirem que estou aqui… se pensarem que estou grávida, não me deixam trabalhar mais. A senhora Poffroy vai pôr-me na rua antes que eu consiga sequer pestanejar. Conheço as histórias. Sei o que acontece às raparigas quando a reputação delas é destruída.
– Jeanette – disse calmamente Hazel. – Chamas-te Jeanette, não é? Garanto-te que não digo a ninguém que estás aqui. Juro pela minha honra. Além disso, dificilmente a sobrinha de um visconde teria uma enfermaria na masmorra da sua casa, não achas?
– Acho – murmurou Jeanette.
– Então, a solução é muito simples. Tu guardas o meu segredo e eu guardo o teu.
Nessa altura, Jack sorriu para Hazel, e a ternura irradiou-lhe do peito para as pontas dos dedos.
Hazel endireitou os óculos e retirou um livro de notas das prateleiras. Lambeu a ponta da pena.
– Então, Jeanette, qual é o problema?
Jeanette passou a língua pelos pequenos lábios secos e agarrou a saia.
– Não tenho tido as regras. Há séculos. Um mês pensei que tinha perdido a noção das datas, depois passaram dois meses e agora três. E estou com estas dores horríveis, piores do que tudo o que alguma vez tive no estômago. Tenho estado tão mal que não consigo trabalhar sem andar a gemer e a senhora Poffroy teve de deixar a ajudante da cozinha meter-me na cama.
Hazel ponderou cuidadosamente nas palavras de Jeanette.
– E tens a certeza de que não…
– Não estou grávida – garantiu Jeanette. – Juro. Nunca estive com um homem. Alguns tentaram aproximar-se quando eu estava a viver no Fleshmarket, mas eu sabia o que fazer quando me atacavam. Pode perguntar ao Jack, ele dir-lhe-á. Por isso, a menos que tenham descoberto outra forma de uma rapariga ficar grávida sem ser com um homem entre os joelhos, garanto-vos que não há qualquer bebé.
– Posso? – perguntou Hazel, apontando para a barriga de Jeanette. Ela assentiu, e Hazel passou-lhe a mão pelo estômago. Era uma rapariga magra, e o estômago era firme, mas não estava inchado nem a pele era de uma gravidez. Jeanette encolheu-se quando Hazel lhe tocou. – Dói? – interrogou.
Jeanette assentiu.
– Tive um sonho estranho – revelou Jeanette. – Foi quando a dor começou. Comecei a ter os sonhos nessa altura e agora tenho-os quase todas as noites.
– Que espécie de sonhos? – quis saber Hazel.
– Estou deitada, debaixo de uma espécie de véu. Quase como uma noiva, suponho, mas não sei dizer como é esse véu. Bem, tenho o véu em cima de mim e estou numa sala grande com estranhos à minha volta, e depois um homem aproxima-se, e é alguém estranho, com uma cabeça como um animal. E segura uma faca por cima de mim. E só tem um olho. Só um olho grande e gordo no meio da cara. E quando estou a tentar perceber o que vai ele fazer com a faca grande, acordo na minha cama, no quarto dos criados.
Um olho. Era possível que ela tivesse interagido de alguma forma com o Dr. Straine? Que ele a tivesse magoado?
– Quando é que estiveste no hospital dos pobres, Jeanette? E para que foi?
A rapariga franziu a testa.
– Acho que não podia ter mais de 7 anos. Foi para tirar o apêndice.
– E o médico… o médico que te operou quando eras criança no hospital dos pobres. Talvez se chamasse Straine? Tinha só um olho e uma pala de seda preta?
Jeanette abanou a cabeça.
– Não. Era um médico francês horrível. Não me lembro do nome, mas não tinha qualquer pala num olho.
– Importas-te que examine o teu estômago? – perguntou Hazel. – Com a blusa para cima? Jack, importas-te de sair?
O rapaz fez uma pequena continência e saiu do laboratório.
– Estarei lá fora se precisarem de mim.
– Não precisamos, paspalho! – disse Jeanette, e levantou a camisa, revelando umas pernas magras e pálidas, e uma barriga ainda mais pálida. Tinha vários hematomas à volta dos joelhos e uma cicatriz horrível cheia de pus, com uns quatro centímetros, abaixo do umbigo.
– Esta cicatriz é de quê, Jeanette? – insistiu Hazel.
– Já lhe disse. Foi do apêndice, quando era criança.
A cicatriz fora cosida com pontos regulares, mas estava vermelha, inflamada e a deitar pus.
– Esta cicatriz não é nova? Já a tinhas?
– Praticamente desde que me lembro – replicou Jeanette.
– Bem, seja nova ou antiga, a cicatriz está infetada. Temos de a limpar e tapar corretamente para que possa cicatrizar outra vez.
– Então, é esse o problema? – questionou Jeanette, tapando-se. – Tem sido esse o problema este tempo todo? A minha cicatriz?
– Não sei se é só esse o problema – retorquiu Hazel. – Acho que uma infeção não deve ser a causa da falta de menstruação. Mas, pelo menos, podemos ajudar a resolvê-lo por agora.
Hazel limpou delicadamente a ferida com água e sabão, e passou algodão embebido em álcool ao longo da mesma. Fez um penso de mel, açafrão e flores de aveleira esmagadas e tapou a cicatriz. Deu uma pilha de pensos de linho novos a Jeanette.
– Muda o penso todos os dias – ordenou, e Jeanette assentiu. – E se não melhorar daqui a uma semana, diz ao Jack para te trazer cá outra vez.
Quando já estava vestida, Jeanette meteu a mão no bolso do avental, com um ar embaraçado.
– Não tenho muito, mas isto é para lhe pagar o trabalho…
Hazel afastou a mão dela.
– Por amor de Deus, nem em sonhos. Por favor, não sejas ridícula. Ainda sou uma estudante. Para ser franca, até fico grata pela oportunidade de aprender com um ser vivo.
Jeanette retirou a mão do avental, agradecida.
– Jack! – chamou Hazel. – Já podes entrar.
O rapaz voltou a entrar, protegendo os olhos. Hazel empurrou-lhe as mãos para baixo.
– Conseguiste curá-la? Trataste-a?
– Não tenho bem a certeza, mas pelo menos já é um começo – revelou Hazel. – E, Jack, se tiveres outros amigos ou conhecidos que precisem de ser examinados… Sabes que ainda não sou médica, mas sei o básico e acredito que o Castelo de Hawthornden é mais simpático do que um hospital de pobres.
– O que estás a dizer? – quis saber Jack.
– Bem, temos uma dúzia de quartos vazios, pelo menos. Com a minha mãe e o meu pai fora, e a maioria dos criados com eles, há muito espaço no salão para montar algumas camas e tapetes para quem precisar de descanso. Temos comida mais do que suficiente; só Deus sabe que a cozinheira ainda não se habituou a cozinhar apenas para mim, para a Iona e para o Charles.
– E as pessoas doentes com… – Jack baixou a voz – … a febre?
– Podes trazê-los – confirmou Hazel, esperando que o tom de voz transmitisse a coragem que ela queria ter. – Qualquer pessoa que eventualmente possa ser contagiosa pode ir para o solário.
Jeanette inclinou a cabeça para cima.
– Conheço um rapaz que foi atropelado por uma carruagem há umas semanas. Partiu uma perna e nunca sarou devidamente. Eu própria vi o osso a sair da pele.
– Trá-lo cá – pediu Hazel. – O Castelo de Hawthornden pode muito bem tornar-se um hospital-escola.
Não havia falta de doentes para Hazel tratar, não havia falta de homens e mulheres pobres e crianças desesperadas por cuidados médicos que não queriam ir para o meio do fedor do hospital de pobres, onde os médicos usavam aventais cheios de sangue e os indigentes dormiam três numa maca.
Na semana a seguir ao tratamento de Jeanette, chegaram uma dezena de pessoas ao laboratório da masmorra em busca da ajuda de Hazel. Na semana seguinte, já eram 30. Entre Jeanette e Jack, a notícia espalhara-se rapidamente e, num abrir e fechar de olhos, Hazel começou a tratar tudo, desde tuberculose a obstipação. Para cada pessoa que chegava à porta do laboratório em busca de tratamento, Hazel tomava notas completas, incluindo idade, ocupação, sintomas e tratamento recomendado.
Tratava as febres com xarope de linhaça, soro de leite e laranja, mantendo os doentes quentes com cobertores e a beberem muito chá. Os ossos partidos eram fixados com talas de madeira e tiras de tecido. As feridas eram cosidas. Quando chegou uma mulher com dores na cara, Hazel arrancou-lhe um molar podre e tratou a gengiva com mel e óleo de cravinho.
Hazel consultava cada vez menos o velhinho Tratado do Dr. Beecham, tornando-se mais confiante nas suas próprias capacidades e no instinto de diagnóstico. Tratava a maioria dos doentes numa tarde e mandava-os para casa, mas outros – como o conhecido de Jeanette, um rapaz chamado Bobby Danderfly, com a perna partida no acidente da carruagem – Hazel ajudava-os como podia na mesa do laboratório e depois deixava-os a convalescer numa cama no Castelo de Hawthornden.
Quando chegou o primeiro doente com febre romana, Hazel reuniu o pessoal na biblioteca.
– Nenhum de vocês tem de continuar nesta casa – começou Hazel. – Sei que é perigoso ter cá os doentes, especialmente os que têm a febre romana. – A rapariga colocara o homem no solário num tapete de palha, e passara a manhã a fazer o melhor que podia para o manter confortável, lavando suavemente o sangue e o pus das bolhas rebentadas e passando-lhe um pano com água gelada na testa febril. – A casa do guarda é mais do que suficiente para quem não quiser viver cá em casa. – Charles, Iona e a cozinheira acenaram com a cabeça com um ar solene. Susan, a ajudante de cozinha, estava carrancuda num canto. – E ninguém vai ao solário, sem ser eu, entendido?
– Não percebo porque temos de ir embora – disse Susan. – Não me contrataram para trabalhar num raio de um hospital. Gostava de saber o que é que a senhora da casa ia pensar de tudo isto.
– Bem, enquanto a minha mãe estiver em Inglaterra, acho que sabem que sou eu a senhora da casa, Susan.
A ajudante de cozinha murmurou qualquer coisa entre dentes.
– E, Cozinheira, acho que não te importas de fazer uma panela de papas de aveia, pois não? Pode ser com a geleia de groselha? Para ajudar os nossos doentes a manterem as forças.
Mesmo com os dias a tornarem-se tão cansativos, cheios de cuidados aos doentes, a misturar cataplasmas e a lavar farrapos, Hazel ainda não conseguia dormir devidamente. Tinha sonhos desconfortáveis, pesadelos com o horror do cadáver que ela e Jack tinham desenterrado da sepultura com aquela cara mutilada. Outras vezes, o rosto que pairava diante dela no vazio sem espaço atrás das pálpebras fechadas era o de Bernard. Em qualquer dos casos, Hazel voltava-se e afastava e puxava os cobertores, até que, com uma mistura uniforme de deceção e alívio, via pela janela os primeiros vestígios com cores pastel da madrugada.
Por vezes, Hazel estava tão exausta que dava consigo a olhar fixamente, sem pestanejar, enquanto estava na mesa de trabalho na masmorra, sem estar a dormir, mas também sem estar completamente consciente.
– Calma aí – disse Jack, segurando Hazel, que vacilou ao levantar-se, numa manhã. Estava na masmorra com ela, a ajudá-la a preparar um lote fresco de chá de raiz de hipericão da forma como se lembrava que a mãe fazia.
– É o cheiro disso – murmurou Hazel, com um pequeno sorriso, depois de Jack a ter ajudado a sentar-se numa cadeira. – Esse chá cheira a estrume e a esterco.
– Felizmente, o sabor é só um bocadinho pior do que o cheiro – brincou Jack. – Olha, vou fazer um bule de chá preto para nós. – O rapaz levantou-se para sair quando ouviram uma pancada suave na porta.
Jack e Hazel trocaram um olhar. De repente, a rapariga ficou completamente acordada.
Mais uma pancada. E depois um gemido de dor.
Hazel ia levantar-se, mas Jack fez-lhe sinal para que se deixasse estar.
– Eu vou lá.
Jack destrancou a porta e abriu-a, e Hazel inclinou-se para a frente para ver quem chegara: era uma jovem mulher agarrada à barriga, dobrada com as dores, com o cabelo louro caído à volta do rosto.
– É aqui? – perguntou ela, com a cara voltada para os pés. – Por favor, é este o lugar onde alguém me pode ajudar?
– Isabella? – soltou Jack. A rapariga levantou a cabeça, revelando uns olhos cheios de lágrimas. – Isabella – repetiu. Olhou para a barriga de grávida.
Ela gemeu.
Hazel aproximou-se dele. Viu o sangue e o fluido entre as pernas da rapariga grávida.
– Por amor de Deus, Jack, afasta-te. Está uma mulher a dar à luz à porta.
Jack pestanejou rapidamente e voltou para dentro da masmorra. A boca ainda não se tinha fechado por completo desde que vira Isabella – ali e grávida.
Hazel avaliou rapidamente a situação.
– Santo Deus. Acho que não vou ter tempo para te levar para a casa principal – disse. – Senta-te depressa. Jack, vai a Hawthornden chamar a Iona. Diz-lhe que me traga uma bacia de água.
Jack assentiu e, após mais um olhar rápido para Isabella, saiu a correr.
– Aquele era o Jack Currer? – perguntou Isabella, enquanto Hazel a levava cuidadosamente até à cadeira de madeira.
Hazel estava distraída a verificar mentalmente todas as coisas que teria de fazer para dar à luz um bebé.
– O quê? O Jack Currer. Sim, é ele. Conhece-lo? – Hazel esbugalhou os olhos. – É ele o… o…?
Isabella manteve a mão na barriga.
– O pai? Não. Alistou-se. O regimento dele mudou-se para Yorkshire. Era suposto juntar-me a ele, mas… – Apontou para a barriga. – E também íamos casar.
– Assim, serão dois a juntarem-se a ele num instante – observou Hazel. – A família estará reunida em breve.
– Ele nem sempre foi soldado. Era bailarino no teatro, tal como eu. O Jack também trabalhava lá. Nos andaimes. Foi sempre gentil comigo.
Hazel sorriu.
– Ele é gentil.
– Mas depois o teatro fechou com a febre e agora o meu Thomas está fora, e não sei como vou ultrapassar isto. – As mãos de Isabella tremeram e teve outra convulsão. – Dói tanto! Não me disseram que ia doer assim tanto. – Uma auréola de suor surgiu ao longo da linha do cabelo de Isabella. – Eu só sabia que não podia ir para o hospital dos pobres, com as coisas que ouvi, mulheres a chorar e deitadas no próprio vomitado. Eu só não sabia o que havia de fazer.
Hazel tentou fazer com que a voz soasse o mais confiante possível.
– Isabella. Isabella, não é? Chamo-me Hazel Sinnett. Este bebé vai nascer, e tu e eu vamos ultrapassar isto juntas. – Hazel acendeu o resto das velas do laboratório. – Onde está a Iona com a água? – murmurou.
Quase de propósito, Iona irrompeu porta adentro. Jack vinha atrás dela com vários trapos, parecendo ligeiramente enjoado.
– Ah, maravilhoso. Iona, pousa ali a bacia e ajuda-me. Jack, ajuda-me também. Precisamos de a deitar na mesa.
Os três ajudaram cuidadosamente Isabella até ela estar deitada na mesa de trabalho de Hazel.
– Iona, se não te importares… a minha cópia do Beecham, por favor?
Os olhos em pânico de Isabella passaram de Hazel para Jack, e novamente para Hazel.
– Um livro? Para que é o livro?
– Nada! Nada – desvalorizou Hazel, voltando rapidamente as páginas. – Só para ver uma coisa. Sim, está tudo bem. Aqui está. – Hazel tirou valeriana seca de um dos frascos. – Mastiga isto. Para ajudar com as dores. Respira fundo, isso é muito importante. Não podes parar de respirar. Deixa-te estar deitada, com as pernas para cima. Assim. E lembra-te: a respiração é muito importante.
– Já fizeste isto antes, certo? Um parto? – perguntou Isabella, quando Hazel já estava entre as pernas dela.
– Não no sentido formal – retorquiu Hazel. – Mas tenho lido muito sobre isso.
A resposta de Isabella foi engolida pelo grito de dor que deu após mais uma contração.
– Vamos fazer assim – instruiu Hazel. – Vais olhar para mim e dizer-me tudo o que vais fazer com o teu bebé e o… o Thomas em Yorkshire. E sempre que te lembrares de qualquer coisa, fazes força. Percebeste?
Isabella anuiu com a cabeça, num movimento fraco.
– Está bem.
– Podemos… podemos passear no parque.
– Boa. Faz força.
– Podemos ensiná-la a ler – continuou Isabella. – Vai ser uma menina. Eu e o Thomas sempre soubemos que ia ser uma menina.
– Boa. Agora mais força ainda.
– Podemos ir passear até ao lago.
– Força! E, Iona, água limpa, por favor!
O trabalho de parto continuou enquanto as velas ardiam até aos cotos. Iona teve de correr duas vezes até à casa principal para substituir as velas, de forma que Hazel tivesse luz suficiente para ver a criança de uma cor vermelho brilhante a abrir caminho para entrar no mundo, com o cabelo já visível, liso e escuro. Algures durante a segunda hora, Jack desapareceu.
– Oh, meu Deus. Isto não é nada parecido com o diagrama – murmurou Hazel.
– O quê? – gritou Isabella.
– Nada! Nada! Deixa-te estar deitada. Vai correr tudo bem. Está quase. Já vejo a cabeça. Isabella? Isabella, estás a ouvir? Vais ser mãe.
Isabella assentiu, mas as lágrimas continuavam a correr-lhe pela cara.
– Só queria que o Thomas estivesse aqui – disse, quase a sussurrar.
– Vais juntar-te a ele num instante. Faz força só mais uma vez.
Isabella gritou. E depois esse grito duplicou, o som de uma menina recém-nascida a gritar ao novo mundo frio a que acabara de chegar.
Hazel envolveu a bebé num pano limpo e pousou-a delicadamente sobre o peito de Isabella.
– Tinhas razão – disse Hazel. – É uma menina. É linda, como a mãe.
A bebé era encantadora – olhos azuis redondos e um grito que se fundiu com o riso de gratidão de Isabella.
– Uma menina. Tenho uma menina.
– Conseguiste.
Isabella olhou da filha para Hazel.
– Também conseguiste. Não sei o que teria feito se não fosses tu, juro.
Isabella e a bebé ficaram então a descansar durante uma hora, enquanto Iona foi buscar algumas fatias de pão com manteiga para todas. Hazel aceitou agradecida e comeu uma fatia. Não se apercebera da fome que tinha. Haviam passado várias horas desde a última vez que comera.
Jack regressou quando Isabella estava a começar a agitar-se novamente.
– Ela não é linda? – perguntou-lhe Isabella. – A minha menina.
Jack tirou qualquer coisa de trás das costas. Era uma caixa de música quadrada, com os lados pintados de cores alegres.
– Queria ser o primeiro a dar um presente à tua bebé.
Isabella chegou-se à frente para pegar na caixa.
– Jack, isto é de mais. – Abriu a caixa de música e a fina melodia de uma valsa encheu o laboratório. A bailarina no centro da caixa, com o cabelo louro, rodou em círculos perfeitos. Era quase impossível ver que a figura de porcelana fora quebrada e colada de novo.
– Obrigada, Jack – agradeceu Isabella. – Ela vai adorar.
– Já tem nome?
Isabella olhou para a menina e depois para Hazel.
– Acho que lhe devemos pôr o teu nome. Hazel. Sei que o Thomas vai ficar satisfeito.
– A bebé Hazel – repetiu Jack.
Hazel não confiava em si mesma para dizer o que quer que fosse em voz alta. Limitou-se a assentir e acabou de secar a bacia que tinha estado a limpar, mantendo-se de costas para Jack para que ele não lhe visse os olhos marejados de lágrimas.
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