Anatomia: uma história de amor

Dana Schwartz · Capítulo 3 de 40

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Anatomia: uma história de amor

Capítulo 1

 

 

O sapo estava morto, não havia qualquer dúvida relativamente a isso. Já estava morto quando Hazel Sinnett o encontrou. Estava a dar o seu passeio diário depois do pequeno-almoço, e o sapo encontrava-se simplesmente ali, no caminho do jardim, voltado de costas como se estivesse a tentar apanhar um banho de sol.

Hazel nem conseguia acreditar na sua sorte. Um sapo, ali, sem mais nem menos. Uma dádiva. Um sinal dos céus. O céu estava carregado com nuvens escuras que ameaçavam uma chuva que ainda não tinha começado. Por outras palavras, o tempo estava perfeito. Mas não ia manter-se assim durante muito tempo. Assim que começasse a chover, a sua experiência cairia por terra.

Atrás dos arbustos de azáleas, Hazel olhou em redor para ver se alguém a observava (a mãe não estava a espreitar pela janela do quarto no segundo andar, pois não?), antes de se ajoelhar e apanhar rapidamente o sapo com o lenço e metê-lo na cintura do saiote.

As nuvens estavam a aproximar-se. O tempo era escasso, por isso Hazel terminou o passeio e voltou rapidamente para o Castelo de Hawthornden. Ia entrar pelas traseiras, para que ninguém a incomodasse, e assim podia escapulir-se imediatamente para o quarto.

A cozinha estava quente quando Hazel entrou apressada, com enormes nuvens de fumo a saírem da panela de ferro que estava ao lume e um cheiro intenso a cebola colado a todas as superfícies. Havia uma cebola picada abandonada em cima de uma tábua. A cebola, a tábua e a faca caída no chão estavam salpicadas de sangue. Os olhos de Hazel seguiram o trilho de sangue até se depararem com a cozinheira sentada num banco, a um canto da cozinha, perto da lareira, a agarrar uma mão e a balançar para trás e para a frente, murmurando para si própria.

– Oh! – gritou a cozinheira, quando viu Hazel. O rosto corado estava cheio de lágrimas e ainda mais vermelho do que o habitual. A cozinheira limpou os olhos e levantou-se, tentando endireitar as saias.

– Não estava à espera de a ver aqui, Menina. Estava só a descansar as pernas. – A cozinheira tentou esconder a mão sob o avental.

– Oh, Cozinheira. Estás a sangrar! – Hazel tentou convencer a cozinheira a mostrar-lhe a mão ferida. Pensou no sapo esmagado na cintura do saiote e na chuva que se aproximava, mas só por um breve momento. Tinha de se concentrar no caso em mãos. – Vá, deixa-me ver.

A cozinheira estremeceu. O golpe era fundo, na parte carnuda da palma da mão calejada.

Hazel limpou as mãos às saias e depois olhou para a cozinheira com um sorriso reconfortante.

– Não vai custar nada. Antes do jantar, já vais estar bem. Tu… – Hazel chamou uma ajudante de cozinha. – … chamas-te Susan, não é? Podes ir buscar uma agulha de costura? – A criada, tímida, acenou com a cabeça e saiu a correr.

Hazel levou a bacia da cozinha para junto da cozinheira e fê-la lavar a mão e limpá-la com um pano da cozinha. Sem o sangue e a fuligem, o golpe fundo ficou bem à vista.

– Assim já não parece tão assustador – tranquilizou Hazel.

Susan voltou com a agulha. Hazel pô-la sobre o lume até ficar preta, e depois levantou a sua própria saia e puxou um fio de seda da blusa.

A cozinheira deu um pequeno grito.

– As suas roupas boas, Menina!

– Oh, que disparate! Isto não presta para nada, Cozinheira, a sério. Olha, receio que isto vá picar um bocadinho. Estás bem? – A cozinheira assentiu. Trabalhando o mais rapidamente que conseguia, Hazel enfiou a agulha no golpe da palma da mão da cozinheira e começou a suturá-lo. A cara da cozinheira, de olhos cerrados, ficou sem cor.

– Está quase… quase a acabar… e… e… e… pronto – disse Hazel, dando um nó com o fio de seda. Partiu o fio com os dentes. Não conseguiu deixar de sorrir quando viu o trabalho feito: pontos pequenos, perfeitos e uniformes que finalmente davam alguma utilidade aos bordados enjoativos e estupidificantes da infância. Hazel tornou a levantar as saias – com cuidado, por causa do sapo – e rasgou uma faixa da camisa antes que a cozinheira pudesse objetar ou gritar pelo estrago que estava a fazer. Hazel ligou a mão com o tecido, apertando bem. – Agora, ouve bem: logo à noite, tiras a ligadura e lavas bem. Amanhã, trago-te uma cataplasma. E tem cuidado com a faca, Cozinheira.

Os olhos da cozinheira continuavam a lacrimejar, mas sorriu para Hazel.

– Obrigada, Menina.

Hazel foi para o quarto sem mais demora e correu até à varanda. O céu mantinha-se escuro. Ainda não começara a chover. Hazel respirou fundo e tirou o sapo embrulhado no lenço do saiote. Abriu-o e deixou o sapo cair com um baque molhado sobre o balaústre de pedra.

As partes de Hawthornden de que Hazel mais gostava eram a biblioteca – com o papel de parede verde a cheirar a mofo, os livros com as capas de pele e a lareira acesa todas as tardes – e a varanda do seu quarto, da qual conseguia ver o riacho ladeado por árvores e quilómetros e quilómetros de natureza. O quarto ficava na fachada sul do castelo; não via o fumo a erguer-se do centro de Edimburgo, apenas a uma hora de viagem para norte, por isso, ali na varanda podia fingir que estava sozinha no mundo, que era uma exploradora à beira do precipício do conhecimento humano, a ganhar coragem para dar um único passo em frente.

O Castelo de Hawthornden fora construído sobre um penhasco, com paredes de pedra cobertas de hera que se erguiam sobre bosques escoceses indomados e um riacho fino que corria para tão longe que Hazel nunca tinha conseguido ver onde desaguava. A família paterna vivia ali pelo menos há 100 anos. Tinha a história de Sinnett nas paredes, no pó de carvão e na erva e no musgo que se agarravam às pedras antigas.

Vários incêndios na cozinha, ao longo do século XVIII, tinham obrigado a que a maior parte do castelo fosse reconstruído sobre as suas ruínas, tijolo em cima de pedra. As únicas coisas que restavam da estrutura original eram os portões, na parte da frente da entrada, e um calabouço de pedra gelado construído na encosta da colina, que ninguém se lembrava de alguma vez ter sido usado – exceto como ameaça quando a senhora Herberts apanhou Percy a roubar um doce antes do chá, ou quando o criado, Charles, apostou que conseguia ficar lá trancado durante um dia inteiro, mas não aguentou mais de uma hora.

Na maior parte do tempo, Hazel tinha a sensação de que vivia sozinha em Hawthornden. Normalmente, Percy estava a brincar lá fora ou a ter lições. A mãe, ainda de luto, raramente saía do quarto, deslizando entre as paredes como um fantasma da morte vestido de preto. Por vezes, sentia-se sozinha, mas habitualmente sentia sobretudo gratidão pela sua solidão. Especialmente quando queria fazer uma experiência.

O sapo morto era pequeno e de um castanho lamacento. Os membros finos, que tinham caído sobre as palmas das mãos de Hazel como uma boneca de trapos, quando o apanhou no caminho, estavam agora rígidos e desagradavelmente pegajosos. Mas o sapo estava morto, e avizinhava-se uma trovoada – era perfeito. As peças estavam todas no lugar.

Hazel tirou de trás de uma pedra que estava na varanda um atiçador da lareira e o garfo da cozinha que ela desviara umas semanas antes, à espera que surgisse exatamente uma situação como aquela. Bernard tinha sido irritantemente vago sobre o tipo de metal que o mágico-cientista da Suíça utilizara (“Era bronze? Diz lá, Bernard, de que cor era?” “Já te disse que não me lembro!”), por isso Hazel decidiu servir-se dos objetos de metal que fossem fáceis de arranjar em casa sem que alguém desse por isso. O atiçador da lareira era do escritório do pai, e nem sequer as criadas se davam ao trabalho de lá entrar desde que o pai e o respetivo regimento tinham sido colocados em Santa Helena.

Um trovão distante ecoou pelo vale. Estava na hora. Ela iria acabar com a divisão do mundo entre vida e morte, utilizando a eletricidade para reanimar a carne. O que eram os milagres senão a ciência que o homem ainda não compreendia? E isso não tornava ainda mais milagroso que os segredos do Universo estivessem à nossa volta sob a forma de códigos suscetíveis de serem decifrados por alguém que fosse suficientemente inteligente e tenaz?

Hazel pousou delicadamente o atiçador de um dos lados do sapo e depois, com um ar de reverência solene, pôs o garfo da cozinha do outro lado.

Não aconteceu nada.

Aproximou mais o garfo e o atiçador do sapo, e depois, já impaciente, encostou-os à pele do animal. Será que devia…? Não, não, Bernard ter-lhe-ia dito se a cabeça do condenado tivesse sido empalada num espeto. Quando ele voltou da grande viagem, Hazel quase não conseguia respirar com tantas perguntas que lhe queria fazer sobre a demonstração que referira apenas de passagem na carta que enviara da Suíça, uma demonstração feita pelo filho do grande cientista Galvini. Utilizando a eletricidade, Galvini filho fizera as patas de uma série de sapos dançarem e a cabeça de um condenado pestanejar, como se estivessem outra vez vivos.

– Foi verdadeiramente assustador – dissera Bernard, levando uma chávena de chá aos lábios e fazendo sinal à criada para trazer mais uns biscoitos de gengibre. – Mas também maravilhoso, de uma certa maneira estranha, não achas?

Hazel achava que sim. Embora Bernard se tivesse recusado a falar mais sobre o assunto (“Porque tens de ser tão mórbida, prima?!”), Hazel descobriu que conseguia ver mentalmente todos os pormenores da cena, como se ela própria tivesse lá estado – o homem com um casaco de estilo francês no palco de um teatro minúsculo, forrado com madeira, o pano de veludo vermelho atrás dele pesado com o pó. Hazel até conseguia ver as patinhas dos sapos a saltarem para cima e para baixo, como se fossem raparigas a dançar cancã, antes de Galvini destapar a sua atração principal: a cabeça de um homem que fora enforcado. Na imaginação de Hazel, o pescoço dele tinha sido cortado de maneira que se vissem as nódoas negras causadas pela corda.

Nós, homens, tememos a morte, imaginava Galvini a dizer, com um forte sotaque italiano. A morte! Macabra e terrível! Inevitável e sem sentido! Dançamos em direção a ela como se fosse uma linda mulher (Os italianos adoravam falar de mulheres lindas) e a Morte vem na nossa direção com a sua valsa, a acenar, sempre a acenar. Assim que o véu é levantado, nunca mais voltamos. Mas estamos num novo século, meus amigos.

Nesse momento, Hazel imaginava-o a erguer uma vara de metal, como Hamlet com a caveira, e depois a levantar a segunda vara, deixando o raio de luz oscilar entre uma e a outra, enquanto o público murmurava. E a humanidade irá dominar as leis da natureza!

O público sustinha a respiração, enquanto as luzes do palco tremeluziam e, para acentuar o efeito dramático, um estouro e fumo de pólvora cinzento, no momento em que a cabeça do condenado ganhava vida.

Bernard descrevera a cena numa carta que Hazel lera tantas vezes que já tinha memorizado: a forma como a cabeça do condenado saltou quando as varas foram encostadas às têmporas, e como as pálpebras se abriram. Por um momento, era possível que estivesse outra vez consciente, a pestanejar perante o que estava à sua frente – tantos homens com as esposas, e elas com as melhores luvas e chapéus –, e que estivesse, de facto, a ver. Bernard não tinha feito qualquer referência à boca a abrir-se, mas Hazel deu consigo a imaginar uma língua preta pendurada, como se a cabeça estivesse farta de andar a ser mostrada em mais um espetáculo, mais uma matiné para um novo público.

No fim do espectáculo, Galvini agradeceria com uma vénia os aplausos incrédulos, e os cavalheiros regressariam aos respetivos castelos e mansões para divertirem os convidados com a descrição do serão, acompanhado por um vinho do Porto.

Parecia bruxaria, escrevera Bernard. Embora jamais imaginasse um bruxo com umas calças que lhe ficassem tão mal. Bernard também havia dito na carta que comprara uma capa de caça por 400 francos e que vira o Príncipe Friedrich von Hohenzollern com uma igual.

Mas ali estava Hazel, o céu carregado de eletricidade, metal de cada um dos lados do sapo e, ao contrário dos cadáveres de Galvini, o de Hazel continuava insípido, irritante e inegavelmente inerte. Hazel olhou de relance para trás. O quarto estava vazio – a criada, Iona, arrumava-o sempre antes de o pequeno-almoço acabar. Hazel ouvia o trinado do pianoforte que chegava pela janela aberta da sala da música, onde Percy estava a ter uma lição. A senhora Herberts preparava o almoço para levar ao quarto da mãe de Hazel, como era habitual; comia no toucador à frente de um espelho coberto com um tecido preto translúcido. Hazel susteve a respiração e levantou mais uma vez o atiçador.

Havia uma coisa que ela ainda não tinha experimentado, mas… De repente, Hazel começou a sentir-se tonta, com a cabeça leve, como se estivesse a ser puxada pelo topo do crânio com um cordel. Tinha os dedos a tremer. Mas, antes de se permitir parar o movimento, enfiou o atiçador de um lado ao outro do sapo. A carne era estranhamente fácil de trespassar, e o atiçador deslizou pela pele castanha, saindo do outro lado molhado, a brilhar com um líquido viscoso indeterminado.

– Desculpa – disse Hazel, em voz alta, e sentiu-se imediatamente uma pateta. Era só um sapo. Era só um sapo morto. Se queria ser médica, tinha de se habituar, mais cedo ou mais tarde, àquele tipo de coisas. Como se quisesse provar a si própria até que ponto era corajosa, rodou o atiçador no meio do sapo. – Toma – murmurou. – É bem feito.

– É bem feito o quê? – Era Percy, atrás dela, com os olhos ensonados e o cabelo desgrenhado, só com uma meia. No seu entusiasmo, Hazel não reparara que o pianoforte se tinha silenciado.

Embora Percy tivesse 7 anos, a mãe continuava a vesti-lo como se tivesse metade da idade, com uma blusa de algodão debruada a azul e aberta no colarinho. Lady Sinnett mimava-o incessantemente, como se o rapaz fosse uma peça de cristal valiosa e incrivelmente frágil. Era egoísta e mimado, mas Hazel não conseguia zangar-se com o irmão, porque, na verdade, tinha pena dele. Hazel desfrutava da rara liberdade que advinha do facto de a mãe dedicar todas as atenções ao rapaz, que, por sua vez, raramente era autorizado a sair de casa, não fosse ele, Deus nos livrasse, arranhar-se num joelho a caminho do jardim.

– Não é nada – respondeu Hazel, voltando-se e escondendo o sapo atrás das saias. – Vá, vai-te embora. Não devias estar a ter a tua lição?

– O Mestre Poglia deixou-me sair mais cedo por me portar tão bem – revelou Percy, com um sorriso rasgado que deixou à mostra uma fileira de pequenos dentes aguçados. Pôs-se a balançar para trás e para a frente. – Brinca comigo. A mamã diz que tens de fazer o que eu disser.

– A sério? – O céu começava a ficar limpo, já com uma faixa de azul visível no horizonte. Para aquilo funcionar, tinha de acontecer rapidamente, enquanto houvesse eletricidade no ar. – Então, porque não pedes à mamã que brinque contigo?

– A mamã não tem graça – retorquiu Percy, como que a cantarolar, saltando ao pé-coxinho. Afastou os caracóis louros dos olhos. – Se for ao quarto da mamã, ela belisca-me as bochechas e obriga-me a recitar em latim.

Hazel tentou lembrar-se se o irmão George teria sido assim em criança, tão piegas e sedento das atenções dos outros, sempre a precisar de uma testemunha que o aplaudisse e lhe desse um beijinho na cara por cada passeio a cavalo ou por cada lição. Pareceu-lhe impossível. Além disso, a mãe não era tão amedrontada nem sufocante nesse tempo.

George era calado e introspetivo. Os sorrisos dele pareciam sempre segredos partilhados do outro lado da sala. Aos 7 anos, Percy já sabia utilizar os sorrisos como armas. Será que Percy se lembrava de George? Era tão pequenino quando o irmão morreu.

Percy suspirou.

– Está bem. Podemos brincar aos piratas – disse, como se estivesse a fazer uma concessão, como se tivesse sido Hazel a entrar no quarto dele e a implorar-lhe que brincasse aos piratas, e só naquele momento, com a sua benevolência, Percy tivesse concordado.

Hazel revirou os olhos.

Percy pôs o lábio inferior para a frente, num amuo exagerado.

– Se não disseres que sim, começo a gritar e chamo a mamã, e ela vai zangar-se contigo.

Mais uma nuvem que passou. Uma mancha de luz foi subindo pela bainha do vestido de Hazel, e o seu calor foi ampliado pelas camadas de saias que tinha.

– Porque não vais à cozinha e perguntas à cozinheira o que está a fazer para o lanche? Aposto que, se fores já perguntar-lhe, ela faz aqueles bolos de limão que adoras.

Percy ficou a pensar. Fez uma expressão carrancuda para Hazel e para o que quer que a irmã estivesse a esconder atrás da saia, mas, um momento depois, deu meia-volta e foi-se embora, sem dúvida descendo as escadas estreitas que davam acesso à cozinha para atormentar a cozinheira e a senhora Herberts. Hazel tinha feito a jogada certa: não havia escolha possível entre brincar com ela e comer bolos de limão.

Já não lhe restava muito tempo, mas, antes de continuar, Hazel tinha de fechar a porta à chave. Não podia haver mais intrusos. Foi até à porta e rodou a chave pesada até ouvir o estalido gratificante. E depois foi rapidamente até à varanda, onde algumas gotas de chuva tinham caído enquanto ela se afastara, pintalgando as pedras de preto. Se ia acontecer, tinha de ser naquele momento.

Tornou a levantar o garfo da cozinha e acenou-o por cima dos membros do sapo como se fosse um xamã. Nada. Talvez a demonstração que Bernard vira fosse um truque. Se calhar, nem sequer havia um cadáver, mas um homem escondido sob a mesa, com o pescoço a sair de um buraco na madeira e a maquilhagem a dar-lhe um ar macilento à pele, fazendo-a até perder o brilho e a cor. Quantas gargalhadas o ator – o mentiroso – e Galvini filho deviam ter dado no fim do espetáculo, enquanto contavam o dinheiro que haviam recebido e se embebedavam com os colegas medíocres que usavam maquilhagem gordurosa.

E foi então que o sapo se mexeu.

Ter-se-ia mexido? Ou fora a luz que a enganara? Ou uma brisa vinda do vale? Hazel não sentira nada. As saias não se tinham agitado. Acenou com o garfo por cima do sapo morto e empalado, uma e outra e outra vez, sempre mais depressa, mas nada aconteceu. E foi então que percebeu.

Tirou a enorme chave do bolso e baixou-a lentamente em direção ao sapo, e o animal começou a mexer-se. O sapo, que pouco antes pendia sem vida do espeto, agitava-se agora cheio de energia. Ainda tinha vontade de viver, como se estivesse a tentar fugir. Parecia uma coisa tirada de um conto de fadas, pensou Hazel. Tira-me deste atiçador, parecia o sapo dizer, e concedo-te três desejos! Ou talvez de um pesadelo, como as histórias dos panfletos de cordel que por vezes a tutora de Percy lhe dava com uma piscadela de olho. Os mortos ganham vida e querem vingar-se dos vivos.

Estava a funcionar! O que era aquilo? Magnetismo? A chave conduzia a eletricidade, isso era óbvio, mas de que metal seria feita? Teria de a examinar bem, fazer vários ensaios, utilizando todas as combinações de metais que conseguisse identificar.

Radiante, Hazel continuou a passar a chave sobre os membros agitados do sapo. Mas após um minuto, a agitação abrandou, parando depois por completo. Fosse qual fosse a magia que estivera presente no tempo, nos humores do sapo morto, no atiçador da lareira, na chave do quarto – tinha-se esgotado.

O sapo estava outra vez morto, e Hazel ouviu, vindo do outro quarto, o som da mãe a chorar. Chorava praticamente todos os dias desde que George morrera com a febre.

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De Tratado de Anatomia do Dr. Beecham;

 

Ou A Prevenção e Cura das Doenças Modernas

(24.ª Edição, 1816), pelo Dr. William R. Beecham,

Revisto e alterado pelo Dr. William Beecham III:

 

A febre romana (Plaga Romana) revela-se primeiro sob a forma de bolhas nas costas do doente. Ao fim de dois dias, as bolhas começam a rebentar, manchando as costas da camisa do doente com sangue (daí o nome – febre romana –, dada a semelhança com as várias facadas nas costas de Júlio César). Outros sintomas incluem gengivas enegrecidas, letargia, diminuição da micção e dores. Nomes coloquiais para a doença: Doença Romana, as Bolhas, Febre do Trolha, Morte Vermelha. Quase sempre fatal. No verão de 1815, ocorreu um surto em Edimburgo, que levou mais de 5 mil almas.

Embora a taxa de sobrevivência seja muito reduzida, os que a vencem mantêm a imunidade. Não se conhece qualquer cura.

 

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