Anatomia: uma história de amor

Dana Schwartz · Capítulo 9 de 40

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Anatomia: uma história de amor

Capítulo 7

 

O teatro cirúrgico estava escuro, iluminado apenas por velas à volta do palco e algumas tochas nas paredes. O palco estava mais baixo do que as bancadas da assistência, para garantir que todos os presentes tinham uma visão clara do procedimento. Por debaixo da bancada, ocultada pelas sombras, estava Hazel, completamente invisível. Por entre o fumo e os pares de pernas impacientes, Hazel conseguia ver o Dr. Beecham no palco, a escolher uma faca de um tabuleiro que estava na mão de um assistente com ar nervoso.

Beecham era um homem bonito que parecia estar na casa dos 40, apenas com uma madeixa grisalha a apimentar o cabelo alourado. O ar no teatro estava pesado e abafado, mas ele usava uma camisola comprida, um colete com uma gola que lhe dava pelo queixo e umas luvas de cabedal preto.

– Parece que nunca as tira – sussurrou um homem, sentado na bancada por cima de Hazel, ao colega que estava ao lado dele. – Nunca trabalha sem as luvas.

– Será porque tem medo de ficar com sangue nas mãos? – murmurou o outro homem em resposta.

Fosse qual fosse a razão, Beecham continuou com as luvas até enquanto escolhia uma faca do tabuleiro, uma lâmina comprida com extremidade serrilhada e cabo de prata polida. Beecham sorriu para ela, demorando-se a ver como a luz das velas a fazia brilhar antes de voltar a colocá-la no tabuleiro. Parecia que se tinha esquecido de que havia um anfiteatro cheio de homens a verem cada movimento que fazia. Hazel estava tão empenhada em observá-lo que só alguns minutos depois é que se apercebeu de que havia um doente atrás dele, um homem de meia-idade deitado numa mesa com uma das pernas tapada com um lençol.

Por fim, Beecham falou.

– Prometi-vos algo extraordinário, cavalheiros, e é algo extraordinário que vos vou mostrar. O meu avô fundou esta sociedade para ser um lugar onde homens da ciência distintos se reúnem para partilhar as suas obras e descobertas. Hoje, vou trazer Edimburgo para o século XIX. – Enquanto falava, voltou a atenção para o doente deitado sobre a mesa e, com um floreado, tirou o lençol que lhe tapava a perna.

O público encolheu-se como um todo. Hazel, também, arquejando com força, mas, felizmente, ninguém a ouviu. A perna do homem era um autêntico pesadelo, inchada e esverdeada nuns sítios, muito vermelha noutros, com o dobro da largura de uma perna normal e cheia de veias arroxeadas salientes.

O Dr. Beecham escolheu outra arma do tabuleiro do assistente: uma serra. Pegou nela descuidadamente, como se estivesse a brincar, e o doente estremeceu.

– Então, então, senhor Butcher. Agora não é a altura para estar com medo.

O senhor Butcher não foi capaz de seguir o conselho. Contorcia-se como uma minhoca num anzol, dando pontapés com a perna boa e batendo com a doente, ao mesmo tempo que abanava a cabeça de um lado para o outro. Beecham baixou a mão que segurava a faca e suspirou.

– Se não se importam, meus senhores.

Das sombras saíram dois homens, um com uma cartola e o outro com um bigode ruivo espesso. Ficaram um de cada lado da mesa onde estava o doente e puseram uma mão nos ombros do senhor Butcher.

– Garanti ao senhor Butcher, antes de ele aqui estar hoje, que o procedimento seria bastante indolor, mas pelos vistos ele não acredita em mim! – disse Beecham. Os cavalheiros da assistência deram pequenas risadinhas. – Mas eu jamais mentiria. Meus senhores!

Beecham tirou do bolso do colete um pequeno frasco com um líquido azulado e leitoso. O frasco não era maior do que uma carta de jogar. Beecham levantou-o muito acima da cabeça para que todos o pudessem ver.

– Neste frasco – anunciou – está o futuro da cirurgia. Um composto químico criado por mim. É verdade, como o meu avô escreveu no seu livro, que por vezes o médico tem de agir como boticário e, ao fazê-lo, descobri algo de extraordinário. É, peço-vos que me perdoem, meus senhores, um verdadeiro milagre. – Houve murmúrios de desaprovação e de interesse, e algumas bengalas bateram na bancada, mas o Dr. Beecham continuou: – Eu descobri, sozinho, o segredo que tornará todas as cirurgias indolores.

Desta vez, nem Hazel conseguiu evitar sorrir. O Dr. Beecham fez um ligeiro sorriso e olhou para a assistência.

– Falta pouco, meus amigos, falta pouco. Mas antes de começarmos, creio que devo demonstrar uma das minhas invenções. – Inclinou a cabeça e, a seguir, ouviu-se um estalido e um silvo, assim como o som de vidro a tilintar, e o palco encheu-se com uma luz branca que cegava.

Hazel levantou a manga para proteger os olhos. Beecham foi o único que não estremeceu com a súbita claridade. Em redor do palco havia lâmpadas de gás que Hazel não tinha visto na escuridão, todas ligadas por tubos e agora mais brilhantes do que Hazel alguma vez vira no interior de uma casa.

– O futuro – prosseguiu Beecham – está nas lâmpadas de gás. Descobri que, com algumas modificações, elas tornam o que fazemos no teatro cirúrgico muito mais fácil.

Os homens aplaudiram. Beecham acenou ligeiramente com a cabeça, curvando-se perante aquela aprovação. E depois, quando a assistência se acalmou, olhou para o frasco que tinha na mão. O fluido azul-violeta que continha parecia estar a rodopiar. Agora que a sala estava iluminada, Hazel conseguia ver bem a cor, um azul safira escuro misturado com prateado. As lâmpadas de gás eram tão brilhantes que nem Beecham nem o frasco pareciam ter qualquer sombra.

Beecham ergueu o frasco mais alto, e depois tirou-lhe a rolha. Por um momento, Hazel sentiu um estranho cheiro adocicado, como se fossem flores silvestres podres. Depois, de outro bolso do colete, o médico tirou um lenço branco, com as iniciais W. B. bordadas. Segurou o lenço no alto, como se fosse um mágico, antes de o mergulhar no frasco azul. Quando tirou o lenço, Hazel voltou a sentir momentaneamente o cheiro a flores silvestres podres. Mas também havia outro cheiro a sair do frasco, um odor específico que Hazel não conseguiu identificar.

O Dr. Beecham, com o lenço na mão, aproximou-se do doente aterrorizado. Apesar de os dois homens corpulentos continuarem a segurá-lo com firmeza, o doente contorcia-se o mais que podia. Beecham sorriu, mas não mostrou os dentes.

Voltou-se para a assistência.

– Meus senhores, apresento-vos o ethereum. Ou aquilo a que me habituei a chamar no laboratório de “o truque do escocês”. – Ouviram-se murmúrios de confusão e interesse nas bancadas. Alguns dos homens bateram com os pés no chão, o que fez cair uma aranha no cabelo de Hazel.

Enquanto o doente se debatia, o Dr. Beecham encostou-lhe o lenço à cara com firmeza, abafando os gritos. O doente parou de esbracejar. Os homens nas bancadas ficaram em silêncio. Beecham tirou delicadamente a serra de ossos do tabuleiro do assistente e começou a serrar a perna desfigurada.

Bastaram menos de cinco movimentos para trás e para a frente – e menos de um minuto – para que a perna caísse com um baque húmido e repugnante na serradura que cobria o chão. O rosto de Beecham manteve-se inalterado, até quando um jato de sangue lhe pintou um traço vermelho desde a testa até ao lábio superior. Trocou a serra por um instrumento de metal comprido com um gancho na ponta, puxando algumas das veias que ainda sangravam de dentro do que restava da perna do doente. Fechou cada uma com um nó apertado e depois acenou com a cabeça para um outro assistente, que começou a envolver o coto ensanguentado com um pano.

Durante todo o procedimento, o doente nunca acordou nem gritou. Dormiu como uma criança com sonhos cor-de-rosa.

– O truque do escocês – disse calmamente o Dr. Beecham.

A sala irrompeu em aplausos efusivos. Caíram mais umas quantas aranhas em cima de Hazel. Quer fosse do ângulo, quer fosse da luz das velas ou da expressão de suprema confiança, Hazel viu exatamente quão parecido o Dr. Beecham era com a gravura feita a tinta do avô na primeira página do Tratado do Dr. Beecham. O nariz pequeno, a testa baixa, até as covas profundas apenas visíveis com a sugestão de um sorriso. Era sinistro. Era inquestionável. A única diferença era o sangue ainda a pingar lentamente do queixo do Beecham vivo.

Os assistentes de Beecham começaram a arrumar o palco, limpando o sangue da mesa e levando a perna cortada. A serradura onde a perna caíra estava tão escura com o sangue que era praticamente preta, mesmo sob a claridade grotesca das lâmpadas de Beecham. Quando acabaram, o doente estava a começar a acordar, pestanejando.

– Já…? – disse o doente.

– Acabámos – respondeu o Dr. Beecham. A audiência começou novamente a aplaudir.

Hazel estava tonta com o calor e o cheiro do sangue acobreado, e com o que acabara de ver. Uma cirurgia! Com os seus próprios olhos! Carne, manchada e estragada, cortada, revelando o vermelho-vivo que estava por baixo, aquelas veias e artérias atadas com a destreza de uma mestra com a agulha de bordar. E, o mais emocionante de tudo, aquela poção, aquele ethereum, ou o que quer que fosse que tinha posto o doente a dormir.

Por fim, Beecham levantou um braço para silenciar o público extasiado.

– As minhas lições de anatomia vão recomeçar neste período. O pagamento deve ser feito por inteiro no primeiro dia de aulas. Devo avisar-vos de que o curso é extremamente exigente, mas posso garantir-vos isto: nunca um aluno meu chumbou no Exame Médico.

Sorriu ao ouvir mais aplausos enlevados.

Aulas! Era isso. A resposta de que Hazel andava à procura sem sequer saber que andava à procura fosse do que fosse. O fio invisível que a trouxera de Hawthornden para aquele lugar específico naquele preciso momento. Já não precisaria de se esgueirar para o escritório do pai para memorizar uma edição já obsoleta do Tratado do Dr. Beecham, com a lombada a desfazer-se, ou de continuar a fazer as pequenas experiências que conseguia inventar com coisas do jardim. Podia passar o tempo inteiro a aprender com um cirurgião de verdade, a examinar corpos, a resolver casos. Podia descobrir a cura para a febre romana! Seria a salvadora da Escócia – como é que a mãe poderia arranjar problemas com ela quando fosse famosa e célebre?

Mesmo em Santa Helena, o pai acabaria por saber, através de cartas e recortes de jornais. O prisioneiro Napoleão iria morrer com o choque da notícia de uma brilhante cirurgiã, e assim o destacamento do pai acabaria e ele voltaria para casa. Se a mãe pensava que Hazel iria para Londres passar a temporada, estava muito enganada. Nem pensar. Teriam de a prender aos cavalos para a conseguirem levar de Edimburgo numa altura daquelas, quando o século XIX estava finalmente a começar e Hazel tinha a oportunidade de participar nesse momento!

Hazel decidiu que seria mais seguro esperar que a sala ficasse vazia e só então voltar pela passagem para o mundo exterior e sair para a rua. Aos poucos, as pessoas começaram a sair, deixando uma dezena de homens a acotovelarem-se para chegarem ao palco e tentarem cumprimentar o Dr. Beecham, na esperança de que alguma sabedoria e importância pudessem ser transferidas através da palma da mão.

Por fim, o ar da sala mudou e, aparentemente, a maioria dos cavalheiros já saíra do teatro. Os assistentes tinham acabado de limpar a mesa e de se retirar para uma sala nas traseiras. Hazel tornou a encontrar a porta escondida e percorreu a passagem estreita até chegar novamente à rua.

Já estava a anoitecer. Hazel não fazia ideia do tempo que a demonstração tinha demorado, mas a cidade em redor ficara estranha. O ar estava pesado e cheirava a gordura e a peixe. A rapariga precisava de chegar a casa. Já faltara ao lanche, o que teria deixado a mãe furiosa, mas Hazel podia fingir que se perdera na floresta ou algo do género. Teria de ir para casa o mais depressa possível e…

– Menina Sinnett, não era? – Uma voz que parecia madeira com nós mergulhada em mel interrompeu-lhe os pensamentos.

Hazel voltou-se e viu-se cara a cara com o médico com a pala no olho que conhecera em casa do tio.

– Dr. Straine. – O coração de Hazel parecia saltar-lhe do peito, enquanto fazia a coisa mais próxima possível de uma vénia.

O médico era mais baixo do que a princípio supusera. A pose, a atitude e a longa cortina da capa negra davam-lhe o aspeto de um abutre, mas Hazel ficou admirada por descobrir naquele momento, em que estavam a um metro de distância, que eram praticamente da mesma altura.

– Estremeço só de pensar no que estará a fazer na Cidade Velha uma jovem do seu estatuto social. – Franziu os lábios e semicerrou o único olho visível. – Sem uma companhia.

As mãos suadas de Hazel ficaram pegajosas dentro das luvas. Obrigou-se a fazer uma imitação de um sorriso e fez questão de não olhar para a porta da Sociedade de Anatomistas.

– Vim apenas dar um passeio para desfrutar do tempo – replicou Hazel.

A mentira era tão óbvia que a cara dele refletiu-o instantaneamente. O Dr. Straine dobrou os dedos. O cabedal das luvas rangeu.

– É uma pena – disse – não admitirem senhoras na Sociedade de Anatomistas. Sempre achei que o sexo fraco tem… uma influência calmante nos impulsos sanguíneos dos homens.

– É verdade – respondeu secamente Hazel.

O olho de Straine parecia capaz de penetrar através da roupa e da pele de Hazel, mesmo até aos ossos. Por fim, voltou a falar.

– Dê os meus cumprimentos ao seu tio. – Voltou-se sobre os calcanhares, e antes que Hazel pudesse responder, já se tinha ido embora.

As ruas tinham mesmo mudado. Já estava ainda mais escuro, e havia desconhecidos a olhar maliciosamente por portas e janelas. Hazel prendeu as saias à sua volta e foi rapidamente até à rua principal, onde pelo menos ainda restava o último brilho dos raios de sol a ser refletido pelas pedras da calçada.

Quando Hazel chegou a Hawthornden, já só havia luz na cozinha. A rapariga pegou numa vela para ir até ao quarto sem que ninguém desse por ela. A cozinheira estava a jogar às cartas com a ajudante; Hazel viu as sombras das duas alongadas na parede da copa e ouviu o riso tonitruante da cozinheira. Subiu as escadas e viu que a porta do quarto de Lady Sinnett estava fechada. A criada de Hazel, Iona, dormitava sentada numa cadeira junto das brasas já praticamente apagadas. Levantou-se para desapertar o vestido de Hazel e ajudá-la a deitar-se.

– Foi…? – começou a dizer, mas Hazel abanou logo a cabeça. De repente, sentiu-se tão exausta que nem conseguia falar. Era como se o peso daquele dia se tivesse abatido sobre ela todo de uma vez, deixando-lhe os membros pesados como se o sangue fosse chumbo derretido.

Enquanto se deitava, já meio morta, no colchão, Hazel reviu a demonstração vezes sem conta, tentando guardar todos os pormenores na memória, esculpindo-a como uma litografia no cérebro. Só quando estava prestes a adormecer, apenas com um fio ínfimo a prendê-la à consciência, é que se apercebeu, com um sobressalto, de qual era o terceiro cheiro naquele frasco violeta de ethereum. Era uma recordação guardada no fundo da sua mente, através dos corredores curvos e dos labirintos, de quando Hazel estava deitada naquela mesma cama, tonta com náuseas e desidratação. Naquela altura, tinha a certeza de que a doença a iria levar. O frasco mágico do Dr. Beecham cheirava a flores silvestres, a mofo e a morte.

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