Anatomia: uma história de amor
Capítulo 12
As semanas passaram, para Hazel, numa vertigem estonteante. Apesar de as tardes da infância passadas no chão do escritório do pai a memorizar o exemplar antigo do Tratado do Dr. Beecham lhe terem dado inicialmente um avanço relativamente aos outros estudantes, rapidamente se tornou evidente de que precisaria de absorver tudo o que pudesse nas aulas se queria passar no Exame Médico, no fim do período.
Tomava notas o mais depressa que podia para acompanhar o ritmo das aulas do Dr. Beecham, que saltavam do sistema linfático para a estrutura do esqueleto ou para a utilização de sanguessugas na flebotomia moderna; lembrava-os muitas vezes de que as aulas se tornariam cada vez mais difíceis, especialmente quando começassem a assistir a dissecções humanas. Era esse o cerne do curso, era para isso que os alunos pagavam propinas: para terem a oportunidade de ver um profissional autopsiar eficientemente um corpo. Se os corpos eram provenientes de enforcamentos ou fornecidos por ladrões de corpos, Hazel não sabia ao certo. George fora sepultado no cemitério da família junto a Hawthornden, pelo que a família de Hazel nunca teve de se preocupar com a ralé da Cidade Velha de Edimburgo, os homens que se esgueiravam à noite para os cemitérios com pás para retirarem os corpos mais recentemente sepultados.
A princípio, Hazel tinha medo de que o seu disfarce fosse descoberto, que os especialistas do corpo humano a vissem – com um chapéu e umas calças demasiado grandes que nem as bainhas de Iona conseguiam fazer assentar bem – e a identificassem facilmente como aquilo que ela na realidade era: uma jovem vestida com as roupas do irmão. Mas a sala de aula era escura, iluminada por tochas e velas, e os colegas estavam tão concentrados nos cadernos, a escreverem freneticamente para apanharem tudo o que Beecham dizia, que ninguém lhe prestava muita atenção.
Bem, ninguém exceto Thrupp, o rapaz com os sinais e um sorriso que parecia o de um javali prestes a atacar. Quando se tornou claro que Hazel (ou melhor, George Hazleton) era, de longe, a melhor aluna, Thrupp deliciava-se a aproveitar todas as oportunidades para a atormentar. Uma manhã, Hazel descobriu que a tinta do seu tinteiro fora substituída por sangue. Na manhã seguinte, tinha um pedaço de um cérebro preso à secretária com um canivete. Mas nem sequer ele conseguia ter energia suficiente para tornar a vida de Hazel verdadeiramente difícil, pois precisava de estar concentrado para se manter a par da matéria dada.
O Exame Médico estava à espreita, mas havia outra ameaça, mais imediata: apesar de toda a bravata de boas-vindas, Beecham era fanático por castigar a turma, se alguém ficasse para trás. No segundo dia, um pobre rapaz esqueceu-se da pena e foi expulso. No quarto dia, dois rapazes foram liminarmente excluídos do curso porque não conseguiram identificar os principais sistemas do corpo.
– Você aí! Com o colete azul. Diga-me os sintomas da febre romana, Plaga Romana. Nome de guerra, “a febre” ou “a doença”. Então? – Beecham gritara a pergunta a um dos alunos na semana anterior. A cara do rapaz tinha ficado com uma expressão aterrorizada. Hazel imaginou que seria exatamente a mesma expressão que alguém faria se visse um leão a correr na sua direção.
– Hum… er… bem. Febre? – guinchara o rapaz. Thrupp deu uma risada sarcástica. O Dr. Beecham esperou que o rapaz continuasse, com a sobrancelha soerguida, expectante. O rapaz olhou desesperadamente para toda a sala à procura de ajuda. Vendo que ninguém o ajudava, o infeliz levantou-se do lugar, fez uma vénia ao Dr. Beecham e saiu rapidamente da sala.
Quando chegaram ao segundo mês de aulas, a sala – outrora cheia de rapazes a empurrarem-se e a acotovelarem-se para arranjarem espaço nas mesas – tinha apenas dez alunos.
Beecham mostrou-se satisfeito com a evolução.
– Bom dia – saudou, a sorrir, quando chegou. – Só resta a crème de la crème. Teremos alguns grandes médicos entre vocês, não tenho a menor dúvida disso. – Sob o chapéu, Hazel não conseguiu deixar de sorrir.
Beecham deu a aula do dia (sobre a recolocação de ossos partidos e os ligamentos das pernas), mas quando os alunos estavam a juntar as notas, levantou uma mão para que ficassem nos respetivos lugares.
– Amanhã vai ser um pouco diferente. Ontem à noite, houve um enforcamento em Grassmarket, uma pobre assassina, e tivemos a sorte de conseguir ficar com o exemplar. – Houve um tagarelar de entusiasmo. Thrupp deu um soco jovial no braço do colega. – Embora, em condições normais, eu esperasse até uma fase mais adiantada do nosso semestre para uma dissecção humana, a carne fresca não aparece quando um homem quer!
Demasiado impaciente e ansiosa para conseguir dormir, Hazel chegou à aula no dia seguinte quase uma hora mais cedo e encontrou-a vazia. O púlpito do Dr. Beecham fora substituído por uma mesa comprida. Hazel preparou a pena e o tinteiro, e ficou à espera. Os restantes alunos foram chegando pouco a pouco, alguns sorrindo educadamente para Hazel, mas a maioria ignorando-a. Dez minutos antes da hora marcada para a aula começar, entraram dois assistentes por uma porta lateral da sala, transportando algo volumoso por baixo de um lençol. Colocaram cuidadosamente em cima da mesa e tiraram o lençol.
Ali estava. Um cadáver. Uma mulher que podia ter 50 e tal anos, mas também podia ter 30 – era difícil dizer. Tinha as têmporas cinzentas e a cara cheia de rugas, inchada, mas imóvel, com uma certa serenidade. Beecham dissera que ela era uma assassina, mas não havia nada naquela cara que a fizesse parecer como alguém capaz de matar. Ali estava ela: uma coisa estranha, nua, exótica, à espera que uma faca a cortasse como castigo final para os seus pecados.
De exterior da sala chegou o eco tonitruante dos sinos da igreja a baterem as horas: estava na hora de a aula começar. Mas Beecham, que todas as manhãs já se encontrava na sala de aula quando Hazel chegava, não estava lá. Os alunos começaram a agitar-se nos lugares.
– Talvez seja um teste – disse Gilbert Burgess, um rapaz nervoso com uma madeixa de cabelo louro caída sobre a testa, que nunca conseguia lembrar-se dos ossos da mão. – Talvez seja suposto começarmos a dissecar o corpo. E ele está algures a ver! À espera para ver o que fazemos!
Thrupp sugou ar entre os dentes.
– E talvez seja suposto enchermos a tua cara gorda com algodão, Burgess.
Burgess tornou a encolher-se na cadeira.
Hazel clareou a garganta.
– Pelo menos conseguimos ver a cara do Burgess. Há algum nariz por trás das marcas das bexigas, Thrupp?
Até os amigos de Thrupp se riram em uníssono, até ele dar uma cotovelada a um deles nas costelas. Burgess dirigiu um sorriso pequeno e agradecido a Hazel.
– Oi – rosnou Thrupp a Burgess. – Tens sorte por teres este rapaz bonito para te defender. Achas-te algum cavalheiro com esses casacos forrados, Hazleton?
– Acho – respondeu Hazel, com o ar gingado mais masculino que conseguiu fazer. – Acho mesmo. E as senhoras parecem achar o mesmo. – Burgess riu-se do que ela disse, soltando uma gargalhada grande e sonora, e Thrupp calou-se, revirando os olhos.
Parecia que era suposto eles estarem a fazer qualquer coisa. O relógio marcou dez minutos depois da hora, e a seguir quinze. Hazel estava prestes a ir à sede da Sociedade de Anatomistas, na extremidade do quarteirão, perguntar se tinha acontecido alguma coisa que estivesse a atrasar o Dr. Beecham, quando a porta se abriu. Mas não foi o Dr. Beecham que entrou. Hazel sabia quem era pelo porte, pela capa e pelo bater da bengala no chão de madeira ainda antes de ver a pala no olho.
– Bom dia – disse uma voz que fazia lembrar gravilha molhada. O Dr. Straine foi até à parte da frente da sala e ficou parado à frente do corpo nu. O seu olho bom focou-se imediatamente em Hazel. Tinha-a conhecido como Hazel. Sabia quem ela era. A rapariga tentou desaparecer por baixo do colarinho da enorme camisa de George. Rezou rapidamente a qualquer deus que estivesse a ouvi-la para que o seu disfarce não a traísse.
O Dr. Straine ergueu o bisturi e uma sobrancelha.
– Vamos começar.
OceanofPDF.com