Anatomia: uma história de amor

Dana Schwartz · Capítulo 16 de 40

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Anatomia: uma história de amor

Capítulo 14

 

 

Hazel só saiu do quarto quando o sol já ia alto. O quarto estava quente e abafado. Tinha suado durante a noite, o que deixara a camisa de dormir pegajosa. Iona deixara chá e uma torrada num tabuleiro junto à porta, mas era impossível saber há quanto tempo fora; há muito que o chá estava frio e a torrada ficara empapada. Hazel obrigou-se a levantar-se, soltando um gemido quando as memórias do dia anterior surgiram de rompante. O olhar do Dr. Straine tinha ficado preso a ela, uma expressão que não sabia analisar bem. Na altura, pensara que poderia ser pena, mas agora, ao conjurá-lo de volta, parecia mais de ressentimento. Ele ressentia-se dela e de tudo o que ela representava, tão simples como isso.

Podia levar-lhe a mal? Quem era ela? A filha rica de um lorde respeitável e capitão da Marinha Real, sobrinha de um visconde e futura esposa do seu herdeiro. Tivera uma mãe negligente que a deixara alimentar o fascínio infantil pela fisiologia enquanto estava mais concentrada em proteger o herdeiro; e um pai ausente que, no entanto, deixara uma biblioteca em casa. Por muito que a rapariga lesse, por mais natural que o estudo do corpo lhe parecesse, o Dr. Straine tinha razão.

O futuro de Hazel seria assistir a bailes em Londres e preparar ementas para os convidados do marido em Almont House. Se o marido permitisse, poderia organizar um salão e convidar pensadores proeminentes, que seriam os homens de descoberta e ação. Seriam os convidados a trazer histórias e ideias. Hazel ficaria sentada num divã, a ouvir. Seria o mais perto que estaria do mundo da ciência – na extremidade da bolha, autorizada a ouvir e a servir chá, e a sorrir e a dizer o que pensava apenas sob a forma de gracejos inofensivos. O seu caminho era finito e certo. Ensinar-lhe anatomia seria como ensinar um porco a ler antes da matança.

Hazel olhou para o canto do quarto, que considerava ser uma pequena biblioteca científica e laboratório: o divã ao lado da varanda, invisível sob enormes pilhas de livros que tirara do escritório do pai. Obviamente, estava lá o Tratado do Dr. Beecham, mas também Estudos Modernos de Química: Uma História da Prática do Médico Real e também Remédios Caseiros, 1802. Também era nesse canto que Hazel guardava os cadernos – montes e montes de cadernos, anos de escrita, na maioria disparates, muito provavelmente ilegíveis – e os espécimes favoritos. Havia borboletas presas a tábuas com agulhas de costura que apanhavam toda a extensão das asas. Sobre a pedra da lareira estava um falcão embalsamado, um presente que um primo distante dera a George, e que ele passara entusiasticamente para a irmã ao ver que ela não conseguia tirar os olhos dele. Os olhos estavam concentrados no bico. A ave estava morta (e, para ser honesta, Hazel tinha de admitir que estava mal embalsamada), mas o bico continuava monstruosamente afiado, como se a ave pudesse decidir voar da lareira a qualquer momento para dissecar um rato para o jantar.

Tudo aquilo parecia agora patético. Os livros, os espécimes que recolhera, as ervas medicinais que colhera no jardim e rotulado tão bem, os cadernos de apontamentos – só de olhar para tudo aquilo, Hazel sentia-se doente. Antes que conseguisse convencer-se do contrário, atirou a roupa da cama para trás, foi até ao canto do laboratório, pegou numa borboleta presa dentro de uma caixa de vidro e atirou-a ao chão.

Tinha o coração acelerado. Soube-lhe bem destruir uma coisa. Fê-lo novamente, com outra redoma que continha um escaravelho egípcio que o pai lhe tinha trazido. Estilhaçou-se no chão, com os pedaços de vidro a brilhar como pedras preciosas no tapete. Hazel pegou numa pilha de livros e atirou-a ao chão. Rasgou punhados de páginas dos cadernos. Havia agora vidros partidos por todo o lado, picando-lhe os pés, e, embora visse manchas de sangue a surgir nas pernas, não sentia qualquer dor. Nos ouvidos havia um eco de gargalhadas que, chocada, percebeu serem suas.

Era inútil, irrelevante, insensato. Humilhante. Sentira-se tão orgulhosa por ter reproduzido a experiência de Galvini que Bernard lhe tinha descrito, tão orgulhosa por fazer um truque de salão. Não era nada novo nem útil. Não dera qualquer contributo ao mundo. Tinha feito um sapo dançar para sua própria diversão. E tinha sido ela a rã dançarina desde o início. Que divertido! Olhem, depressa, venham ver: uma mulher que gosta de ler coisas sobre sangue e feridas! Pague dois pence e entre, ela até vai fingir ser cirurgiã, um dia! Não se preocupe se ela sujar as saias com bílis – uma das criadas irá lavá-las. O pai comprar-lhe-á outro vestido. Pague mais meio penny e poderá vê-la com um casaco de homem!

Hazel continuou a rasgar os livros até ter um braço cheio de páginas amachucadas. Abriu a porta para a varanda com um pontapé e, sem pensar duas vezes, atirou-as por cima do corrimão, para o chão lá muito abaixo.

As páginas separaram-se no ar, algumas apanhadas pelo vento. Por um momento, ficaram em suspenso, a voar como um bando de aves perdidas. E depois caíram. Hazel ficou a ver até as páginas desaparecerem sob o dossel da folhagem.

Hazel voltou para dentro do quarto e viu com um novo olhar os estragos que tinha feito. O chão estava cheio de estilhaços de vidro, com pedaços de insetos e penas. Uma garrafa de tinta entornara-se no roupão; uma mancha negra como óleo escorria da bainha. O Tratado do Dr. Beecham estava aberto em cima de um busto de David Hume.

Iona parou à entrada da porta, com uma expressão de choque e horror.

– Menina Sinnett! – exclamou.

– Peço imensa desculpa, Iona. – Hazel apanhou rapidamente uma caneta do sítio onde se espetara como uma seta num retrato do bisavô. – Isto deve ter feito um barulho horrível lá em baixo.

– Os seus pés, Menina!

Hazel olhou para baixo e percebeu porque é que Iona parecia tão horrorizada. Tinha os pés vermelhos, como se estivesse a usar um par de meias coloridas, cobertos de sangue.

– Não dói assim tanto. Vou lavá-los na banheira e ficam limpos como a chuva. E vou limpar tudo isto. Peço desculpa. Devo ter… perdido a cabeça temporariamente.

Iona estava a roer uma unha, muito nervosa.

– Menina Sinnett, o seu… quer dizer, Lorde Bernard Almont, o visconde, está à porta para falar consigo.

– O Bernard? Agora? Para quê?

– Não lhe sei dizer, Menina Sinnett.

Hazel observou-se ao espelho. Ainda estava com a camisa de dormir, que, em alguns sítios, se colava ao corpo com o suor. Tinha o cabelo meio caído e desgrenhado, na ausência de uma touca, e achatado por ter estado a dormir. As mãos estavam cobertas de tinta e sangue, todas arranhadas como se fosse com o bico de uma caneta de um menino da escola.

– Por favor, diz ao Bernard… hum, ao visconde… que estou indisposta e que o visitarei ainda esta semana.

– Muito bem, Menina – anuiu Iona, saindo a correr e deitando um último olhar de tristeza à confusão que reinava naquele canto do quarto.

Hazel suspirou. Endireitou uma cadeira que tinha caído de lado. Os murmúrios ditos com a voz doce de Iona ecoaram lá de baixo. Hazel ouviu a resposta áspera de Bernard, embora não conseguisse distinguir as palavras, e depois ouviram-se passos.

Iona tornou a aparecer.

– Ele insiste em vê-la, Menina – revelou Iona. Trocaram um olhar.

– Está bem – aceitou Hazel, sem entusiasmo. – Suponho que não temos tempo para um banho, mas pelo menos posso escovar o cabelo enquanto procuras umas meias lavadas. – Atarefaram-se as duas com um único objetivo: fazer com que Hazel parecesse tão apresentável quanto conseguissem. Depois de Hazel ter arrancado meia dúzia de lascas de vidro das palmas das mãos, Iona ajudou-a a calçar o par de luvas mais grossas, de um castanho carregado que não deixaria ver sangue, caso as feridas abrissem de novo. Após 15 minutos dos melhores esforços, Hazel parecia… não propriamente bem, mas quase. Ainda tinha olheiras escuras, por ter estado a chorar, e a pele amarelada; o cabelo, que, afinal, teria exigido pelo menos uma hora de escovagem cuidadosa para parecer apresentável, estava escondido sob um dos chapéus de que Hazel menos gostava. Mas parecia humana e, no mínimo, suficientemente bem para ir ao encontro do primo, um rapaz que a vira a saltar nua na lama quando eram crianças.

– Bernard – saudou Hazel, quando chegou ao cimo das escadas e o viu de pé lá em baixo –, a que devo o prazer da tua companhia?

– Devias pedir desculpa por me teres feito esperar – retorquiu Bernard, olhando para o botão de punho.

Hazel franziu a testa.

– Então, está bem. Desculpa, Bernard.

O primo ficou todo inchado. Estava com um casaco que ela nunca tinha visto, de um azul brilhante, com um colete amarelo e umas calças a condizer. Hazel teria adivinhado que ele estava vestido como o jovem Werther, se houvesse alguma hipótese de Bernard ter lido o livro. Tinha na mão um ramo de lírios brancos presos com um laço.

– Para ti – disse, metendo-lhe as flores na mão. – Disseram-me no mercado que representam pureza. E devoção. O meu pai disse-me que terias adoecido.

Hazel obrigou-se a sorrir e levou os lírios ao nariz para os cheirar. As mulheres no mercado mentiram-te, queria dizer-lhe. Disseram o que era preciso para te venderam as flores. Viram-te com esse casaco azul brilhante e perceberam que não saberias que os lírios brancos são flores funerárias.

– São lindas. Obrigada.

O peito de Bernard inchou ainda mais.

– Então, como te sentes? Ainda indisposta?

– Sabes como a minha mãe exagera quando se trata da saúde do Percy. Tive um arrepio numa única noite e ela teve de o levar do país para garantir o bem-estar dele.

– Fico aliviado por saber isso – reagiu Bernard, endireitando os ombros. – Não em relação à tua mãe. Quero dizer, por estares bem. – Clareou a garganta e depois continuou. – Vim perguntar-te se hoje podes vir passear comigo nos Jardins de Princes Street.

Desta vez, não conseguiu sequer fingir-se entusiasmada. Pensou na confusão que tinha deixado no quarto, os vidros estilhaçados e as páginas rasgadas que representavam todo o esforço desperdiçado da juventude adulta, e quando abriu a boca, a primeira coisa a sair foi um riso gutural e sarcástico.

– Deves estar a brincar – replicou.

Bernard olhou para Hazel como se ela tivesse acabado de lhe despejar um bule de chá quente sobre a camisa.

– Não… não percebo… – balbuciou.

– Não. Desculpa. Não era isso que eu queria dizer. Só quis dizer… – que toda a minha vida está em chamas, que todo o meu trabalho foi em vão e também que estou cheia de sangue – … que ainda estou um bocadinho constipada. Não me sinto ainda bem para passear.

Bernard olhou-a de cima a baixo com um olhar crítico.

– Bem – acabou por conseguir dizer –, acho-te ainda um pouco pálida.

Uma lasca de vidro espetou-se no calcanhar de Hazel dentro do sapato. A rapariga mordeu a língua para não gritar.

– Se era só isso – disse, por entre os dentes cerrados –, receio ter de encurtar a nossa visita.

Bernard ficou estupefacto.

– O quê?

Um raio de dor disparou até à barriga da perna de Hazel.

– Desculpa, primo. Tenho de te pedir que vás embora.

Uma sombra atravessou o rosto de Bernard, mais escura do que Hazel alguma vez tinha visto na sua expressão. O primo, geralmente jovial e bem-disposto, crescera, sem que ela desse por isso. O maxilar estava mais afiado, a testa ficara mais pequena e a boca mais cerrada.

– Portanto – retorquiu Bernard –, sejamos claros. Está a recusar o meu convite para um passeio.

– Desculpa, Bernard, mas tenho coisas mais importantes com que me preocupar neste momento do que andar pelos Jardins de Princes Street, a fingir que estou interessada no que tens para me dizer. – Foi muito mais cruel do que pretendia ser, mas as palavras passaram-lhe pelo cérebro e saíram pela boca.

Bernard parecia ter sido esbofeteado. Ficou com a boca aberta, como uma truta, durante alguns momentos, até cerrar os lábios.

– Presumo que te verei no baile, claro? – disse, por fim. O Baile dos Almont era um acontecimento anual em Edimburgo, uma oportunidade de o Lorde Almont mostrar as últimas aquisições de arte e de todos os convidados mostrarem os fatos mais caros.

– Com toda a certeza, Bernard – retorquiu Hazel, num tom melancólico.

– Bem, então parece que não temos mais nada a discutir. Bom dia, prima. – Ele saiu com um floreado do casaco azul, deixando que Charles, a pestanejar, fechasse a porta depois de ele sair.

– Ufa. Até que enfim! – soltou Hazel, atirando os lírios para uma mesa ao lado e arrancando os sapatos e as meias. Massajou o pé massacrado. – Vou precisar de um banho quente para tirar este vidro. Peço mais uma vez desculpa pela confusão. Vou arrumar tudo assim que estiver… recomposta. Com franqueza, o descaramento dele, entrar sem avisar, agindo como se eu tivesse cometido algum pecado por não querer ir dar um passeio com ele. E o que é isso de “passeio”? É só andar mais devagar do que qualquer passada humana natural para poder mostrar um novo traje a pessoas distraídas devido ao desejo desesperado de mostrar as roupas novas. É um exercício inútil de narcisismo que nem sequer funciona, porque cada um dos envolvidos está demasiado concentrado em si mesmo para proporcionar a admiração de que os semelhantes tanto precisam. É como se o Bernard precisasse de andar a passear pelos Jardins como um pónei de exposição para que as pessoas reparem nas roupas dele; juro que alguém que estivesse em Glasgow conseguiria ver aquele casaco azul. Ufa, consegui tirá-lo. – Hazel retirou um pedaço de vidro particularmente doloroso do pé com as unhas. – Charles, traz-me uma bacia, por favor. Tenho de tirar estes pedaços de vidro antes que se espetem no outro pé.

Charles, que tinha estado à porta, como era seu dever, assim fez. Iona aproximou-se, a roer as peles do polegar.

– Não me leve a mal, Menina, mas foi um bocadinho dura com ele.

Hazel molhou o polegar e deslizou-o ao longo de uma mancha vermelha na perna. Saiu. Ótimo. Era apenas sangue seco e um pequeno arranhão.

– Dura? Ele é um homem, não é? Tem o mundo inteiro a seus pés. Acho que posso recusar-me a ir dar um passeio.

– Mas ele é seu prometido – lembrou a criada, de olhos no chão.

– Ainda não. Por muito que a minha mãe queira que assim seja para se ver livre de mim de uma vez por todas.

Iona engoliu em seco e enrolou uma madeixa de cabelo à volta do dedo.

– Então, talvez devesse ser um pouco mais doce com ele, para garantir…

– Oh, Iona, por favor. Terei a vida toda para ser doce para ele, se ele quiser. Não posso ter uma única tarde de luto pelo meu futuro?

Charles voltou com a bacia e foram os três para o quarto de Hazel para começarem o demorado trabalho de reparar os estragos que a rapariga causara com a frustração.

– É uma pena – comentou Charles, apanhando um besouro que tinha caído da campânula. – Deitar fora estas coisas tão bonitas.

Hazel tirou-lhe o escaravelho dos dedos e segurou-o contra a luz. Era preto, mas no sítio onde o sol da tarde lhe batia quase brilhava um azul iridescente.

– Não os vamos deitar fora, Charles. Vamos apenas varrer os vidros e tornar a colocar os espécimes. Amanhã, vou arranjar vidros novos.

– Ainda bem.

Hazel observou Charles enquanto ele varria. E depois observou Iona a olhar para Charles, e sentiu algo próximo de benevolência a erguer-se no peito como uma maré.

– Sabem – disse –, o Bernard tinha razão. Está um dia lindo para um passeio. Eu própria posso arrumar o resto. Porque não vão os dois até aos Jardins? Levem uma das carruagens.

Os dois criados ficaram a olhar para Hazel, estupefactos.

– Para os Jardins de Princes Street, Menina Sinnett? – perguntou Charles.

– Juntos? – questionou Iona.

– Claro que sim – retorquiu Hazel, com firmeza. – Mas olhem que está frio, não se esqueçam de levar um casaco e um lenço. Mas há sol lá fora e só Deus sabe como isso é raro nesta parte do mundo.

A expressão de Iona oscilava entre terror e prazer. O efeito semelhante ao de uma criatura adorável, mas louca, dos bosques.

– Tem a certeza de que consegue fazer tudo sozinha? Sem mim?

– Iona, não quero menosprezar o trabalho impecável que fazes, mas tenho a certeza absoluta de que aguento uma tarde sem ti. Talvez até vá dar uma volta pela propriedade.

– Fazer um passeio? – disse Iona, com um brilho travesso nos olhos.

– Seria muito divertido.

– Vai ficar bem sem uma dama de companhia? Sem a sua mãe cá em casa, fico preocupada… sabe, com as aparências e tudo isso.

– Iona, há semanas que vou para Edimburgo sozinha.

– Ah – soltou Iona. – Esqueci-me de quando ia vestida como se fosse o George.

– Vá, vão-se embora antes que fique tarde. Eu aviso a Cozinheira para vos deixar o jantar, para o caso de chegarem tarde.

O sorriso de Charles teria conseguido acender todas as lâmpadas de Hawthornden de uma só vez. Levantaram-se os dois e lá conseguiram sair desajeitadamente porta fora, cada um a tentar educadamente deixar passar o outro, até que Charles fez uma vénia e Iona passou à frente, tropeçando depois nos atacadores.

– Equilibra-te, rapariga! – disse ele, agarrando-a rapidamente pelo cotovelo.

Hazel acabou de arrumar a confusão que tinha feito no laboratório amador em meia hora, apanhando e endireitando os papéis que não atirara da varanda e pressionando-os entre as capas dos livros para tirar os vincos. As emoções do confronto com Straine pareciam agora muito menores, mais distantes, como se tivessem encolhido para um tamanho que lhe permitisse guardá-las ordenadamente numa caixa de chapéus e depois esquecer-se delas no fundo de um armário.

Ouviu um zumbido vindo da cozinha e sentiu um odor com origem na cozinha. A cozinheira estava a fazer tarte de peixe, um dos pratos preferidos de Hazel, e ninguém parecia ser capaz de lhe fazer justiça como a cozinheira. Hazel deu a curva para dentro da cozinha e viu a cozinheira a espalhar um monte de puré de batata num prato gigante. Uma panela com molho de natas fervia em lume brando.

A cozinheira sorriu quando viu Hazel.

– A mão está melhor do que nunca – disse, orgulhosa, erguendo a palma da mão onde Hazel lhe suturara o corte. – Nem um bocadinho de pus… Para dizer a verdade, estava um pouco preocupada com isso, mas não a queria incomodar, de tão ocupada que tem andado ultimamente. Com a doença e tudo isso. – O sorriso da cozinheira revelou uma fenda entre os dentes, e Hazel não pôde deixar de lhe sorrir de volta.

– Não ter pus é bom – concordou Hazel. – Deixa-me ver. – O golpe, que tinha sido enorme, era agora uma linha cor-de-rosa bordada por Hazel. – Acho que já posso tirar esses pontos.

– Tive muito cuidado com eles. Nunca estiquei a mão.

– Ótimo. Ficou muito bem curado. – Hazel tirou um gancho do cabelo e, segurando a mão da cozinheira contra a luz do fogo, tirou com cuidado cada um dos pontos. A cozinheira encolheu-se e olhou para o lado, mas os dedos de Hazel foram ágeis, e tudo estava terminado antes que a cozinheira tivesse oportunidade até de gritar. – Pronto – disse Hazel. – Acho que nem sequer vai ficar com cicatriz. Se ficar, vai ser pequena.

– Dificilmente seria uma cozinheira sem cicatrizes na mão, Menina Sinnett.

– Espero que te contentes com menos uma. Vim aqui para te dizer para guardares o jantar do Charles e da Iona. Talvez cheguem tarde. Disse-lhes que podiam ir juntos ao Jardins de Princes Street.

A cozinheira bateu as palmas.

– Ora, que bom para eles!

Susan, a ajudante da cozinha, deixou uma pilha de pratos bater no lava-louça.

– Já não era sem tempo! – disse, a soprar. – Passo a vida a dizer àquele rapaz para fazer qualquer coisa. Ele está sempre a olhar para ela, é um milagre que consiga trabalhar.

O calor da cozinha – da cozinheira, do fogo, do cheiro da tarte de peixe – encheu Hazel e empurrou para longe todos os sentimentos negativos da manhã e do dia anterior. Sentira as mãos seguras e competentes com a agulha e o gancho enquanto retirava os pontos com todo o cuidado. Gostou dessa sensação de competência, de ver o golpe da cozinheira, de saber como o tratar e de ter sido capaz de o fazer. Talvez tivesse sido tola por pensar que podia seguir um caminho como cirurgiã na esfera pública, mas talvez tivesse sido igualmente tola por fingir que, entretanto, era inútil não aprender tudo o que podia. Quando casasse com Bernard, deixaria Hawthornden e o laboratório improvisado e os livros do pai. Iria para Almont House apenas com o enxoval e a mente. Com a mãe e Percy em Bath, e o pai no estrangeiro, esta poderia ser a última vez na vida em que teria oportunidade de assistir a palestras sem ser descoberta. Talvez houvesse uma resposta.

– Importa-se de guardar um prato quente também para mim? – perguntou Hazel. – Tenho um recado para fazer em Edimburgo e posso voltar tarde.

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