Anatomia: uma história de amor
Capítulo 17
Hazel estava tão distraída quando ia a sair da Sociedade de Anatomistas, tão animada pelo seu próprio propósito e determinação, que deu um passo confiante para fora da soleira, de regresso às pedras batidas pela chuva naquele beco de Edimburgo, e chocou imediatamente com um estranho.
– Peço imensa descul… És tu!
Hazel ia pedir desculpa, mas olhou para cima enquanto endireitava as saias e viu-o: o rapaz de antes da demonstração cirúrgica, que a levara para o beco estreito e escoltado, como se fosse o seu próprio Virgílio pelo Inferno, até ao lugar secreto sob as bancadas. Estava diante dela, aparentemente também demasiado atordoado com aquele encontro inesperado para falar, e Hazel conseguiu ver bem o rosto dele.
Sim, era ele, o rapaz de antes, com um emaranhado de cabelos pretos que lhe chegavam ao pescoço e o nariz adunco saliente no meio. E depois havia aqueles estranhos olhos cinzentos, que de perto, Hazel reparou, tinham as íris rodeadas de azul-marinho. O azul estava entretecido nos olhos cinzentos-claros como veneno a dissolver-se na água. Era alto, pelo menos um metro e oitenta, e as calças davam-lhe pelos tornozelos, mesmo com as bainhas descosidas para ficarem mais compridas. A camisa também era demasiado curta, as mangas só chegavam aos punhos, embora Hazel tivesse identificado, pelo menos, quatro sítios onde os rasgões tinham sido cuidadosamente cosidos com pontos desajeitados, mas pequenos.
– Menina Sinnett – exclamou o rapaz, mostrando novamente os caninos pontiagudos. – Ou era Lady Sinnett? Tanto faz, parece que nos encontrámos outra vez.
– Podes chamar-me Hazel. E lamento dizer que não te posso dar a honra de me lembrar do teu nome, uma vez que nunca mo disseste.
O rapaz sorriu e piscou o olho, embora pudesse estar apenas a semicerrar os olhos contra o sol poente que conseguira penetrar no beco junto a High Street e iluminar ambos com a luz amarelo-pálido do esforço do fim do outono para ter sol.
– E também não lhe vou dizer. Não me dou frequentemente com senhoras da alta sociedade, por isso, não acho que seja preciso apresentar-me.
– Já nos encontrámos duas vezes – argumentou Hazel.
– Pois, mas será mesmo um encontro se não lhe disser o meu nome? – contrapôs Jack, piscando mesmo o olho desta vez.
Hazel sentiu um calor desconhecido subir-lhe do umbigo até ao peito, uma excitação terrível que só sentira antes quando preparava uma experiência e antecipava os resultados. Era um sentimento de expectativa, de querer saber o que iria acontecer a seguir, juntamente com a sensação de ter bebido uma taça de champanhe com o estômago vazio.
O rapaz estendeu-lhe a mão, e Hazel apertou-lhe.
No momento em que as peles se tocaram, as bolhas de champanhe no estômago de Hazel espumaram com uma energia frenética. Era o galvanismo, os choques elétricos de Galvini – não havia outra forma de o descrever –, uma corrente de raios que fluía da mão dele através da mão dela e diretamente até ao coração palpitante.
– É maravilhoso encontrá-la outra vez, Hazel Sinnett – disse o rapaz, apertando-lhe a mão. A dele era tão grande que fazia a dela desaparecer por completo.
Da entrada do beco, no sítio que dava para a High Street, um rapaz gritou com as mãos em concha: “Ó Currer! Para com o namoro!” Parecia mais velho do que o rapaz de olhos cinzentos, mas era mais baixo e encorpado, como se o corpo dele fosse um quadrado compacto de músculos.
– Já recebeste o dinheiro? Dá-me metade para eu ir ao pub. Juro por Deus, Jack, não me trames. O Bailey já não me vende mais fiado no Arms e estou mesmo a precisar de uma bebida forte.
Jack resmungou e soltou a mão de Hazel.
– Raios te partam, Munro! Eu tenho o dinheiro. Vai lá ao pub e manda pôr o primeiro copo que beberes na minha conta. Agora, desaparece! – Jack tentou propositadamente evitar olhar outra vez para Hazel, com as faces coradas de vergonha por praguejar em frente a uma senhora.
Munro não pareceu convencido, mas desapareceu para lá do empedrado do beco. Jack ficou a vê-lo ir-se embora e só depois se voltou para Hazel, que estava no mesmo sítio, mas com a testa franzida.
– Então, é Jack… Currer, certo?
Jack Currer, o rapaz de olhos cinzentos, fez uma vénia exagerada.
– Ao seu serviço.
Hazel reparou na sujidade debaixo das unhas dele e na lama incrustada na sola dos sapatos. Olhou de relance a placa da Sociedade de Anatomistas e depois novamente para Jack.
– És um ladrão de sepulturas, não és?
Jack levantou-se da vénia já com a testa franzida.
– Não – disse. – Não, não, não, não. Nunca fui ladrão de sepulturas. Tenho muito cuidado com isso. Veja, se não tirarmos nada da sepultura a não ser o corpo, não nos podem acusar de assaltarmos sepulturas.
– Então, és um ladrão de cadáveres.
Jack olhou por cima do ombro para ver se havia alguém por perto que pudesse ouvir. Estavam sozinhos, a porta da Sociedade de Anatomistas estava bem fechada e o beco vazio. Inclinou-se para ela.
– Prefiro “ladrão de corpos”. Soa um bocadinho mais romântico, não acha?
– Então era por isso que sabias da passagem até à sala de operações. Vendes corpos aos médicos.
– Às vezes.
Hazel observou-o agora mais de perto, de alto a baixo. Parecia ter mais ou menos a idade dela, talvez um ano mais velho. Os dedos finos do rapaz estavam a tremer enquanto conversavam.
– E quanto é que cobras por uma coisa dessas? – perguntou Hazel. – Por um corpo.
– Depende. Está interessada num?
– Depende – respondeu Hazel. – Fazes entregas?
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4 de novembro de 1817
Henry Street, n.º 2
Bath
Querida Hazel,
O teu irmão Percy adoeceu com uma gripe. Passa o dia inteiro a fungar e metade da noite a tossir. É o suficiente para deixar o meu pobre coração em lágrimas. Levo-o às termas duas vezes por dia, e o boticário deu-nos umas gotas de láudano para o ajudar a dormir. Peço-te que te lembres dele nas tuas orações e que peças ao Senhor que o cure depressa. Uma gripe medonha!!!
– A tua mãe, Lady Lavinia Sinnett
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