Anatomia: uma história de amor
Capítulo 10
Hazel sabia o que aí vinha. Embora Lady Sinnett abominasse os jornais e tentasse manter Hawthornden firmemente selado como um casulo, ainda assim sabia dos rumores e dos medos que tinham começado a circular em Edimburgo. Se a febre regressasse, Lady Sinnett faria tudo o que fosse preciso para manter Percy a salvo. No entanto, veio mais cedo do que Hazel esperava: as malas cheias no corredor, os preparativos frenéticos para um apartamento em Bath.
– Mas nós passamos sempre o Natal em Hawthornden – dissera Hazel, ao ver a mãe a embrulhar cuidadosamente as joias num pano de linho.
– Este ano, não – respondera a mãe. – Este ano, vamos para Bath, para uma pequena estadia antes de irmos para Londres.
Lady Sinnett encostava delicadamente as costas da mão fria à testa de Percy umas dez vezes por dia e suspirava.
– As águas quentes de Bath vão fazer-te bem, meu querido – repetia. Adejava pela casa como uma traça presa, abrindo e fechando janelas ao acaso, murmurando qualquer coisa sobre o “bom ar” para Percy.
No dia antes da viagem, Hazel começou a tossir sem parar. Nessa noite, queixou-se de ter arrepios. Na manhã seguinte, não desceu para o pequeno-almoço. Pediu a Iona que dissesse à mãe que se sentia febril. Da cama, Hazel ouviu a mãe a gritar no andar de baixo. Houve movimentos alvoroçados e sussurros inaudíveis, e depois alguém bateu suavemente à porta do quarto de Hazel.
– Sou eu, Menina Hazel – sussurrou Iona, do outro lado da porta. – A sua mãe mandou-me ficar aqui à porta, para o caso de estar a ficar doente. Ela pergunta que sintomas tem?
Hazel ficou a pensar por um momento.
– Febre, sem dúvida nenhuma. Acho que pode ser só febre. E a visão turva. – E, porque não? – E a minha língua está a ficar verde.
Passos. Depois, passos em sentido contrário. Hazel conseguia sentir a hesitação de Iona no corredor.
– A sua mãe… Lady Sinnett está a pensar que talvez faça mais sentido a menina ficar aqui, em Hawthornden, e ir ter com eles a Bath quando já estiver boa. – Lady Sinnett gritou qualquer coisa do fundo das escadas. – Ou mesmo – corrigiu Iona –, esperar até que estejam em Londres para a temporada e ir ter com eles lá. Só para ter a certeza de que está bem, Menina Hazel.
Hazel fez um sorriso de orelha a orelha debaixo dos lençóis. Tinha aquecido a arrastadeira que usava para aquecer os lençóis e levara um copo com água para poder molhar a testa, no caso de a mãe querer confirmar que estava com febre, mas já devia saber que Lady Sinnett estaria demasiado assustada para se aproximar mais do que o patamar.
– Parece-me bem – respondeu Hazel. E depois, apercebendo-se de que talvez a voz pudesse ter soado demasiado animada, acrescentou: – Se é o que a mãe acha melhor. Para segurança do Percy.
Mais passos, desta vez mais pesados, e Hazel percebeu que a mãe estava no corredor junto à porta do quarto.
– Hazel – chamou Lady Sinnett –, cuide-se bem. A Iona e a Cozinheira ficam cá. E disse a Lorde Almont para mandar mais uma criada, se precisares. – Uma pausa. – Certamente, compreende? – perguntou Lady Sinnett. – Podíamos atrasar a viagem, mas…
– Compreendo perfeitamente, mãe – gritou Hazel. – Aliás, até insisto que vão. Acho que só preciso de descansar. E não faz sentido pôr em risco a saúde do Percy. Fico a descansar em Hawthornden e vou ter convosco ao sul quando já estiver boa. – Acrescentou uma tosse teatral. – Neste momento, estou demasiado doente para sair da cama.
– Então, está bem – disse Lady Sinnett, um momento depois. – Voltaremos a ver-nos em breve. Deixei a morada do apartamento em Bath. Por favor, escreva-nos a dizer como se sente.
– Assim farei.
Ouviu-se o roçagar das saias no chão de madeira. Durante a hora seguinte, Hazel ficou em silêncio a ouvir os sons da casa, enquanto faziam os últimos preparativos para a viagem até Inglaterra, o cão a ladrar enquanto as malas eram levadas para fora de casa, a cozinheira a embrulhar empadas para o caminho, os cavalos a serem aparelhados. Por fim, os últimos passos de Percy e Lady Sinnett à medida que saíam dos quartos, e os ecos dos criados a irem lá para fora para lhes dizerem adeus.
Hazel esperou até o som da carruagem no caminho de gravilha desaparecer. E depois esperou mais meia hora – mais ou menos o tempo que demorariam a chegar ao portão que separava a propriedade de Hawthornden da estrada principal. E, por fim, Hazel empurrou os cobertores para trás, saiu da cama e chamou Iona para lhe pedir uma chávena de chá. Tinha conseguido. Ia passar meses sozinha, sem Lady Sinnett, sem Percy – sem todas as pessoas que podiam pensar que ela estava demasiado doente para sair de casa.
Iona voltou com o bule e duas chávenas. Pousou o tabuleiro e depois olhou para Hazel e sorriu.
– Achas que sou louca, Iona? – sussurrou Hazel, mais num tom de afirmação do que de pergunta.
Iona abanou a cabeça.
– E, além disso, não terá muito tempo para loucuras quando for Viscondessa de Almont. Pode bem aproveitar agora.
Hazel tentou resistir a que um sorriso lhe surgisse nos cantos dos lábios.
– E a minha mãe… não desconfiou de nada?
Iona deu uma gargalhada.
– Claro que não. Preocupa-se tanto com o Percy que creio que a teria deixado cá só por a achar pálida ao pequeno-almoço. Pobre menino.
– Pobre menino? Pobre Percy? Ele tem todas as atenções do mundo.
– Não é nada bom ser assim tão resguardado. Os rapazes precisam de ar puro e de um bocado de lama nos joelhos de vez em quando.
– O George passava os dias à procura disso, e olha como acabou. Oh, Iona, lamento muito.
Iona tinha-se apaixonado perdidamente por George quando ele voltara de Eton para passar as férias de verão, já com um bigode fino e com mais de um metro e oitenta de altura. Andava sempre atrás dele como uma cachorrinha perdida de amor, repetia tudo o que ele dizia aos outros criados e entornava o chá com os nervos sempre que ele estava presente.
– Era tão lindo, não era? – disse Iona.
Hazel assentiu e afastou o pensamento que parecia borbulhar à superfície do cérebro, como espuma num lago, todos os dias durante os últimos dois anos: Talvez devesse ter sido ele, e não eu. Era um pensamento ilógico, terrível e cruel. Hazel sabia tudo isso. Mesmo assim. Iona olhou pela janela, de olhos fixos e enevoados, com alguma memória distante de George a passar-lhe pelo rosto.
– Sabes – retomou Hazel –, o Charles, o criado, está a ficar um rapaz muito bonito, já reparei. E não consegue tirar os olhos de ti. Já o apanhei mais de uma vez a fazer tempo na biblioteca, na esperança de te apanhar a acender a lareira. Está caidinho por ti.
– O Charles? A sério?
– E não vai ser criado para sempre. Antes de o meu pai se ir embora, lembro-me de o ouvir dizer que o Charles daria um ótimo criado particular.
Iona perdeu-se momentaneamente em pensamentos ou fantasias, e Hazel viu um sorriso a aparecer-lhe nos cantos dos lábios.
– E diz que ele olha para mim?
– Palavra de honra.
A luz da janela bateu nas faces de Iona por baixo da touca, e Hazel era capaz de jurar que ela estava a ficar corada.
– Bem, basta de disparates. Temos mais que fazer – cortou Iona. Recuou e piscou um olho para ver melhor Hazel. – Acho-a muito parecida com o seu irmão. Vista de lado. O mesmo nariz, as mesmas sobrancelhas. – Olharam as duas involuntariamente para o corredor, onde o retrato de George estava pendurado na parede. Hazel sabia que Iona estava a ser amável. Hazel era bastante bonita, mas toda a gente tinha reparado na beleza deslumbrante de George desde que eram crianças.
– O mais importante – disse Hazel – é que ele não era muito mais alto do que eu.
Com a ajuda de Iona, Hazel já estava, pouco tempo depois, vestida com uma das camisas de musselina de George, um colete, um casaco e umas calças.
– Estas calças são bonitas. Mas não parecem lá muito modernas – dissera Iona, com um par de calças pelo joelho na mão, enquanto estavam a ver a roupa de George. – Mas suponho que devia ser o que se usava há uns anos.
– Não – retorquira Hazel. – Calças compridas. Com suspensórios. Tenho de parecer um médico, não um dandy.
Quando acabaram e limparam o pó a um chapéu que estava na prateleira de cima, Hazel Sinnett podia passar facilmente por um cavalheiro.
– Acho que estas botas lhe vão ficar grandes – indicou Iona, tirando um belo par de Hessians de cabedal preto que deviam dar pela barriga da perna, mas que em Hazel dariam até aos joelhos.
– Não faz mal – reagiu Hazel. – Metemos umas peúgas na biqueira. Tem de haver um sobretudo algures, nem que seja um do pai…
– Gravata? – perguntou Iona.
– Não, estou a tentar passar pelo George, não pelo Beau Brummell.
Iona ficou de olhos esbugalhados.
– Não lhes pode dizer que é o George. De certeza que eles sabem que o George m…
– Garanto-te que nem distinguem George Sinnett de Adão. Mas acho que tens razão, devo usar um nome falso. O que achas de George… Hazleton?
Iona limpou as lágrimas dos olhos e esboçou um ligeiro sorriso.
– Acho que lhe fica bem, senhor George Hazleton.
– Além disso – acrescentou Hazel –, se vou pagar as propinas de todo o semestre adiantadas em dinheiro vivo, duvido que se importassem mesmo que me apresentasse como Mary Wollstonecraft.
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De Memórias do Reverendo
Sydney Smith (1798), por Sydney Smith:
Não havia cheiros iguais aos escoceses… Quem andasse pelas ruas imaginaria que todos os médicos têm estado a administrar catárticos a todos os homens, mulheres e crianças da cidade. No entanto, é um lugar invulgarmente belo e estou num equilíbrio constante entre admiração e ansiedade.
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