Anatomia: uma história de amor

Dana Schwartz · Capítulo 4 de 40

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Anatomia: uma história de amor

Capítulo 2

 

Enquanto ia na carruagem a caminho de Almont House, Hazel tentou, em vão, tirar a tinta preta dos nós dos dedos e de debaixo das unhas. Tinha estado a pé toda a noite, a copiar notas de uma velha edição do livro do Dr. Beecham sobre anatomia, que pertencia ao pai. Durante todo esse tempo, mantivera sobre a mesa ao seu lado o anúncio que vira na porta de um bar pela janela da carruagem.

– Para, para! – gritara, batendo na porta da carruagem. Saiu com um salto, arrancou o anúncio da porta e voltou para a carruagem ofegante, demasiado entusiasmada para se preocupar com a possibilidade de alguém a ter visto.

Tinha o anúncio dobrado no bolso da saia. Hazel meteu os dedos sujos de tinta no bolso e tocou-lhe só para se tranquilizar e lhe dar sorte.

Bernard não se ia interessar pela tinta – Hazel até duvidava que reparasse –, mas Lorde Almont iria notar e, conhecendo-lhe o pendor para a decência, o incidente iria certamente parar aos ouvidos da mãe dela. Gostaria que não me envergonhasses à frente do teu tio, Hazel, dizia-lhe sempre a mãe, enquanto levava uma chávena de chá aos lábios finos ou puxava um fio do bordado, ao mesmo tempo que uma criada punha mais lenha na lareira acesa logo de manhã. Não é que me importe que pareças uma pedinte quando vais à cidade, mas sei que isso vai ter repercussões nos convites para a próxima temporada.

Hazel nem sequer conseguia imaginar o que Lorde Almont ou a mãe fariam se soubessem do cartaz que tinha no bolso a anunciar uma demonstração de anatomia pelo famoso Dr. Beecham III, neto do lendário Dr. Beecham e, certamente, o cirurgião mais famoso de Edimburgo, se não mesmo de todo o reino.

Hazel vibrava de excitação só de pensar nisso.

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Era exatamente o tipo de acontecimento a que Hazel queria assistir! Não aos almoços deprimentes com viúvas antiquadas e debutantes insuportáveis nem aos bailes maçadores e intermináveis. Assim que Hazel fez 15 anos, a mãe tinha começado a obrigá-la a ir a Londres para a temporada, apertando-a em crinolina do tamanho de um pequeno sofá para ela poder circular por uma série de salões de baile de braço dado com vários rapazes com um hálito horroroso.

Em teoria, ir a Londres para a temporada significava que um desses rapazes de mau hálito se apaixonaria loucamente por Hazel (ou pelo seu dote respeitável) e casaria com ela, embora isso parecesse inútil, pois era um dado adquirido que casaria com Bernard, mantendo o título e o dinheiro Almont na família.

Bernard não tinha nada de mal, dizia Hazel para si própria. Era bastante simpático, com uma pele relativamente limpa. Era, enfim, maçador, mas eram todos. Era um pouco vaidoso e interessava-se mais pela própria roupa do que pela maioria das coisas do mundo. Mas era um bom ouvinte. Tinha brincado na lama com Hazel quando ainda eram pequenos, por isso não estava à espera de que ela fosse uma dama frágil de porcelana como as outras jovens do seu círculo social fingiam ser.

Conhecia Hazel há tanto tempo que achava o desejo dela de ser cirurgiã um mero capricho, e não um escândalo. Ter um homem do seu lado seria essencial quando chegasse a altura de se inscrever nas aulas e de fazer o Exame Médico Real, e seria ainda melhor se esse homem tivesse poder e um título. Hazel passou os dedos pela dobra do cartaz, ao longo do vinco da folha larga, cheia de esperança.

Estava um dia de outono luminoso, e o ar de setembro era tão límpido como sempre ali perto da Cidade Velha de Edimburgo, onde as casas de madeira se empilhavam no alto da colina como dentes tortos numa boca a exalar a fuligem negra e sibilante da vida quotidiana. Lorde e Lady Almont viviam do outro lado dos Jardins de Princes Street – ao fundo da colina, mas com um universo a separá-los da Cidade Velha: na New Town, numa elegante casa branca em Charlotte Square, com colunas à frente e espaço suficiente para duas carruagens nas traseiras.

Hazel não tinha conseguido tirar a tinta das mãos, por isso, assim que o criado fechou a porta da carruagem atrás dela, meteu as mãos nos bolsos com o cartaz secreto escondido.

O criado abriu a porta ainda antes de Hazel bater, com o suor a escorrer pelo colarinho e a careca a reluzir.

Estava qualquer coisa a acontecer no átrio principal: era um corrupio de atividade. Hazel trocou um olhar com Samuel, o mordomo, que passou por ela apressadamente com uma bacia vazia e um pano. Samuel limitou-se a curvar ligeiramente a cabeça.

No átrio estava sentado um homem, um pedinte vestido de farrapos coloridos e cheios de pó, ocupando uma cadeira que Hazel nunca tinha visto e que, provavelmente, fora trazida dos aposentos dos criados. Um médico com uma bata comprida examinava-lhe o interior da boca. O pedinte parecia constrangido naquela mansão tão bem arranjada. Tudo nele se destacava, parecia deslocado. A camisa era a única em todo o átrio que não estava engomada, a cabeça era a única com o cabelo desgrenhado, a cara era a única que estava suja, com uma faixa de suor e gordura a encardir a zona sob o queixo, no local que ele não conseguira lavar. O médico fez uma careta e deu uma palmadinha na face do homem, que, obedientemente, fechou a boca.

Lorde Almont – que estava sentado do outro lado do átrio, numa cadeira mais larga e almofadada, trazida da sala de jantar – levantou-se quando Hazel entrou.

– Ah, Hazel – disse, saudando-a. – As minhas desculpas pelo estado em que encontras esta casa. Presumo que o Bernard esteja prestes a descer. Samuel, diz ao Bernard que a Menina Sinnett chegou.

Hazel respondeu com uma vénia curta e obrigatória antes de voltar a dedicar toda a atenção ao estranho pedinte. Hazel não sabia o que estava a acontecer. Seria o pedinte algum protegido de Lorde Almont? Pertenceria a alguma das instituições de caridade apoiadas por Sua Senhoria? Estaria a candidatar-se a um lugar de criado prestes a ser rotundamente dispensado? Hazel não conseguia imaginar Lorde Almont a contratar pessoalmente os empregados. E porque é que o homem precisava de ser visto por um médico?

– Podemos avançar? – perguntou calmamente o médico.

Pela primeira vez, Hazel reparou no rosto do médico: estava cheio de pústulas e cicatrizes, com marcas vermelhas profundas. Tinha uma pala de cetim sobre o olho esquerdo, mas Hazel conseguia ver o inchaço vermelho fora das suas extremidades. O cabelo era comprido e escuro, preso na nuca por uma fita preta. Tinha na mão uma espécie de grampos metálicos que brilhavam sob a luz que entrava pelas janelas de entrada da casa. A bata estava manchada nos punhos, com uma cor de ferrugem.

Os olhos do mendigo estavam muito abertos, revelando íris rodeadas de branco. No colo torcia um chapéu castanho, como se estivesse a tentar secá-lo depois de ser lavado. Após alguns segundos de silêncio aterrorizado, acenou com a cabeça para o médico, inclinou-se para trás e abriu a boca.

– Talvez a menina… – começou Lorde Almont a dizer, mas antes de concluir a frase, já o médico cumprira a sua tarefa: tinha inserido os grampos na boca do pedinte, torcera-os rapidamente e retirara um molar com um estalido repugnante.

A bacia que Samuel trouxera serviu imediatamente o seu propósito. O pedinte pô-la sob o queixo para apanhar o sangue e a baba que lhe escorriam dos lábios. Nem tivera tempo de gritar.

O médico cheirou e examinou o dente, que ainda estava cheio de sangue.

– Agora, depressa – pediu a Lorde Almont. – Temos de agir enquanto o dente ainda está fresco, se o queremos fixar na gengiva.

Lorde Almont reclinou-se obedientemente e abriu a boca.

O médico pôs uma pasta prateada no fundo do dente e colou-o algures no fundo da boca de Lorde Almont com um pequeno bisturi. O mendigo gemia baixinho atrás deles.

– Agora – avisou o médico, quando acabou –, nada de mastigar carne durante um mês, a menos que a sua cozinheira a deixe muito tenra. Só bebidas brancas e nada de tomates.

Lorde Almont levantou-se e endireitou a gravata.

– Com certeza, doutor. – Tirou do bolso do peito umas moedas, viu quanto perfaziam e depois deu-as ao pedinte com a distância máxima que o braço lhe permitia. – Creio que é, atualmente, o preço de mercado de um molar? – Hazel reparou que Lorde Almont insistia em manter-se longe do homem cujo dente estava agora na sua boca.

O mendigo, com as lágrimas a caírem-lhe em silêncio pelo rosto, meteu as moedas na bolsa e foi-se embora.

– As minhas desculpas, Hazel – disse novamente Lorde Almont, quando o eco da porta a fechar-se desapareceu –, por te ter exposto a uma cena tão medonha. Embora o Bernard tenha mencionado que estás inclinada a seguir este tipo de coisas. – Esfregou a parte de fora do maxilar. – É uma coisa assustadora, mas é um pequeno preço a pagar pela nossa saúde e bem-estar. Creio que não deves conhecer o estimado Dr. Edmund Straine, da Sociedade Médica de Edimburgo? Dr. Straine, permita-me que lhe apresente a Menina Sinnett, filha da minha irmã Lavinia.

O Dr. Straine voltou-se para Hazel. Ainda não acabara de guardar o equipamento e tinha na mão um pequeno bisturi a pingar sangue, quando curvou de forma quase impercetível a cabeça para a cumprimentar.

– Como está? – saudou Hazel. O Dr. Straine não respondeu. O olho bom do médico foi diretamente para as manchas de tinta nas mãos de Hazel, que as escondeu de imediato nas saias. Os lábios finos do médico conseguiram ficar ainda mais finos.

Quando o médico falou, foi outra vez para Lorde Almont.

– Muita atenção à carga que o ato de mastigar fará sobre o dente, Sua Senhoria. – Sem dizer mais uma palavra, pegou na mala, rodopiou sobre o salto da bota e saiu pela porta traseira do átrio com um rodopio do seu enorme casaco preto.

– Infelizmente, não tem boas maneiras – sussurrou Lorde Almont, depois de Straine ter saído. – Mas disseram-me que é o melhor da cidade. Custa a acreditar, mas foi um protegido do grande Dr. Beecham, antes de ele morrer. Ficas para o lanche, claro?

Já tinham passado dois anos desde que o pai de Hazel fora colocado em Santa Helena – como comandante da Armada Real destacado para supervisionar a prisão de Napoleão –, e, desde então, Lorde Almont tinha tomado a seu cargo cuidar da sobrinha. Hazel ia uma ou duas vezes por semana de carruagem até Edimburgo para lanchar ou jantar com os Almont, para se sentar na salinha a ler os livros de Lorde Almont, para acompanhar Bernard aos acontecimentos sociais que parecessem imprescindíveis. Pelo menos, a memória de George não pairava como fumo espesso na Casa de Almont como em todas as divisões do Castelo de Hawthornden.

Quando casasse com Bernard e se tornasse finalmente a nova Lady Almont, as memórias negativas podiam fechar-se como a capa de um livro pesado. Teria um novo nome e uma nova casa. Teria uma nova vida. Seria uma nova pessoa, uma pessoa que a tristeza não conseguiria encontrar.

– Ah, Bernard! – exclamou Lorde Almont, quando o filho apareceu ao cimo das escadas. – Lancham cá os dois? Tenho a certeza de que o Samuel pode avisar a Cozinheira.

– Na verdade, tio – contrapôs Hazel –, tinha esperança de que o Bernard pudesse acompanhar-me num passeio.

Bernard saltou o último degrau e ofereceu-lhe o cotovelo. Quando saíram os dois do átrio, as criadas já tinham limpado todos os vestígios da cirurgia que ali tivera lugar apenas alguns minutos antes.

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De As Cidades da Escócia:

 

um Guia para o Viajante (1802),

por J. B. Pickrock:

 

Chamam a Edimburgo “a Atenas do Norte” pelos seus feitos filosóficos, mas agora esse epíteto é também dirigido à arquitetura: pedra branca, ruas largas e direitas, colunas. Começaram a construir a New Town nos terrenos planos sobre os quais se ergue o Castelo de Edimburgo em 1760, creio eu (quando o fedor e a superlotação das casas ao longo de High Street, na colina, se tornaram demasiado penosos para qualquer pessoa com uma educação decente), mas só a partir de 1810 é que as construções no estilo Clássico Romântico começaram realmente a impressionar. De facto, atrevo-me agora a dizer que Edimburgo pode orgulhar-se de ser um exemplo mais belo do estilo Clássico Romântico do que qualquer uma das capitais da Europa.

 

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