Anatomia: uma história de amor

Dana Schwartz · Capítulo 6 de 40

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Anatomia: uma história de amor

Capítulo 4

 

 

Era espantosamente fácil morrer em Edimburgo. Todos os dias morriam pessoas. Havia fogos e esfaqueamentos nos becos das traseiras de bares esquálidos. Arranhões que as pessoas pensavam que podiam ignorar ficavam verdes e purulentos, inchados e quentes, até morrerem sem sequer terem tido tempo de ir ao médico público. Os ladrões eram enforcados em Grassmarket Square, Jack tinha-o visto com os próprios olhos, a forma como os corpos se contorciam e depois ficavam imóveis.

Era fácil morrer em Edimburgo, mas Jack chegara aos 17 anos porque sabia sobreviver.

Jeanette já estava à espera no portão lateral da casa junto de Queensferry quando Jack chegou ao fundo da colina.

– É um trabalho novo – revelou ela, quase num tom de súplica, ainda antes de ele poder pedir desculpa pelo atraso. – Quero ficar também com este. A comida é boa. Papas de aveia das verdadeiras para o pequeno-almoço todos os dias, com natas.

– Foste tu que me disseste para vir ter contigo a meio do dia, porra.

– Eu trabalho, Jacks, caso seja preciso lembrar-te. Isso significa que não posso estar sempre a sair para ir ter contigo aos teus buracos fedorentos e entregar-te sabe-se lá o quê.

Os pelos na nuca de Jack eriçaram-se, os sentidos ficaram apurados como uma corda manuseada entre os dedos. Estava uma rapariga na rua a olhar para eles, a uns 15 metros de distância. Jeanette não reparou. A rapariga estava demasiado longe para os ouvir, mas reparara neles, sem dúvida, apesar de estar a fingir que cheirava uma rosa. Era rica – via-se pelas roupas, pelo tecido fino e pelas penas verdadeiras no adorno da cabeça. Era mulher de alguém, tinha de ser para andar a passear na New Town sem desacompanhada, mas não parecia ser mais velha do que ele. Devia ter uns 16 ou 17 anos. Com as meninas ricas, pintadas como bonecas de papel, era difícil dizer.

Jack observou-a pelo canto do olho, vendo uma linha fina da parte de trás do pescoço aparecer desnudada, tão branca que era quase translúcida, quando ela se inclinou, um intervalo entre o vestido e o cabelo.

Jeanette clareou a garganta.

– Não queres, pois não? Porque se não queres, tenho muitos ladrões de corpos desejosos de uma entrega assim de dois. Tenho mesmo, Jack Currer, não penses que não tenho! – Pronunciou cada uma das sílabas do nome enrolando a língua: Curr-er.

– Não, não, eu quero, claro que quero. – Arrancou das mãos de Jeanette o papel que ela lhe estava a dar e vasculhou os bolsos à procura de moedas.

Jeanette falava alto enquanto contava o dinheiro.

– Um é pequeno. Morreu de qualquer coisa. Não estava doente, por isso, cá para mim, deve ter sido a ama de leite que estava encharcada a dar-lhe de mamar. É o que eu acho. Está sempre a acontecer. Esses pequenos herdeiros todos cheios de camisinhas e mais camisinhas a serem amamentados por uma mulher que adormece. O outro é um homem. Cuidado com esse, Jack. Ouvi um moço de estrebaria dizer que achava que ele tinha a doença.

Jack olhou para os nomes e abriu rapidamente o mapa do cemitério.

– Não foi a febre romana, Jeanette, e farias melhor se não andasses a espalhar esses boatos. Assustas as pessoas.

– Não tens medo? – disparou Jeanette.

Jack tamborilou com os dedos na parte de lado da perna. Há anos que trabalhava como ladrão de corpos, levantara corpos em decomposição, podres e doentes, mas, sem saber bem como, nunca adoecera. Não sabia se era um deus a dar-lhe a misericórdia que ele certamente não merecia ou se era pura sorte, mas estava inclinado a acreditar que era a segunda hipótese.

– Não – repetiu. – Não tenho medo.

Jeanette limitou-se a encolher os ombros e depois correu para os jardins nas traseiras da casa, onde podia usar a porta dos criados e fingir que nem sequer saíra.

Jack dobrou o papel, meteu-o no bolso das calças e depois olhou novamente para cima, para a mulher que tinha estado a olhar para as rosas. Ela observava-o, com olhos castanhos estreitos tão escuros que pareciam praticamente pretos. Era bonita, com a beleza que as raparigas ricas têm, de rosto limpo e cabelo penteado. Tinha o cabelo claro, arruivado, espesso e ondulado por debaixo do chapéu. O nariz era comprido e direito, e os lábios voltados para cima num dos cantos. Jack sentiu-se subitamente nu, e um formigueiro quente subiu-lhe até à nuca. Não conseguia tirar os olhos dela. Era como se o estivesse a acusar de qualquer coisa. Ou a conspirar contra ele. Estaria a sorrir, ou seria apenas a inclinação natural dos lábios arroxeados?

Finalmente, para alívio de Jack, os olhos da mulher afastaram-se, e ela levantou um sapato delicado para entrar numa bela carruagem.

As luvas eram brancas e, quando a rapariga desapareceu, Jack apenas conseguiu ver uma mancha vermelha a desabrochar na ponta de um dedo na mão esquerda, com a qual tinha estado a segurar o caule de uma rosa para a puxar para mais perto. Sangue. Um espinho perfurara o tecido fino, e a rapariga não reparara. Uma minúscula flor carmesim naquelas mãos de marfim.

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De Encyclopaedia Caledonia

(29.ª Edição, 1817)

 

William Beecham, de seu nome completo William Beecham, Barão Beecham de Meershire, também conhecido por Sir William Beecham, Baronete (nascido a 5 de abril de 1736, em Glasgow, na Escócia; falecido a 7 de janeiro de 1801, em Portree, Ilha de Skye, Escócia). Cirurgião e cientista médico escocês, presidente e fundador da Sociedade Real de Anatomistas de Edimburgo, mais conhecido pelo estudo da anatomia e pela publicação do Tratado de Anatomia de Dr. Beecham; ou, A Prevenção e Cura das Doenças Modernas. O Tratado, com os diagramas anatómicos detalhados e o registo atualizado de doenças, constituiu a base para a geração seguinte de estudantes de Medicina. Desde então, foi reeditado mais de dez vezes em edições atualizadas. Diz-se que Beecham, segundo os rumores, um nacionalista escocês, recusou o lugar de médico pessoal do Rei Jorge III, após o que nunca mais lhe foi permitido regressar a Londres.

Nos últimos anos de vida, Beecham levou uma vida de reclusão, recusando pacientes ou palestras públicas, e dedicando a sua energia ao estudo da alquimia e do ocultismo. O objetivo assumido por Beecham era a busca da vida eterna. Beecham sucumbiu a um envenenamento devido aos efeitos do consumo experimental de ouro, mercúrio e chumbo em doses elevadas. Após a sua morte, o Tratado do Dr. Beecham continua a ser revisto e publicado pelo neto, William Beecham III.

Casado com: Eloise Carver Beecham, de Essex (nascida em 1742, falecida em 1764). Descendência: John (nascido em 1760), Philip (nascido em 1762), Dorothea (nascida em 1764).

Ver: neto William Beecham III

 

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