Anatomia: uma história de amor

Dana Schwartz · Capítulo 35 de 40

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Anatomia: uma história de amor

Capítulo 33

 

O corredor de pedra era mais escuro e estreito do que Hazel se lembrava. As teias de aranha agarravam-se às saias, e ela tentou suster um espirro por causa do pó que flutuava no ar, pairando nos finos retângulos de luz que conseguiam passar pelas arestas da porta lascada atrás dela. Quanto mais Hazel caminhava, mais escuro e frio o corredor se tornava. Depois de dar uns dez passos, lamentou profundamente a decisão; devia estar sentada na sala de exames da universidade, a sorrir das provocações de Thrupp, porque sabia que conseguiria resolver todas as perguntas do exame. O pergaminho ficaria limpo, a caligrafia impecável. Talvez tivesse a melhor nota. Os minutos estavam a passar.

Sacudiu a cabeça como se quisesse banir os pensamentos. Ainda conseguiria chegar a tempo. O chão começou a inclinar-se ligeiramente para baixo, e Hazel ouviu vozes em surdina vindas do outro lado de uma porta que ela não conseguia ver na escuridão.

– … significa que não vai sentir nada, garanto-lhe.

– … eu próprio já fui submetido a este procedimento…

– Escolhemos este por ser jovem? Valeu a pena o dinheiro extra, posso garantir-lhe.

Hazel rodou o pesado puxador de metal e encolheu-se ao ouvi-lo guinchar. Esperou por ouvir gritos ou uma mudança no ritmo ou na temperatura dos murmúrios no palco, mas não a tinham ouvido. Hazel abriu a porta um centímetro, só o bastante para deixar passar uma fresta de luz, e depois, como não houve qualquer reação dos homens que estavam no palco, abriu a porta o suficiente para se virar de lado e entrar.

A primeira coisa que sentiu foi o cheiro da palha – palha fresca colocada no chão do palco e sob as bancadas, presumivelmente para absorver o sangue. Hazel agradeceu em silêncio por todas as lições de etiqueta que a mãe insistira em ensinar-lhe acerca da forma silenciosa como uma senhora devia andar, e avançou lentamente como um suspiro por entre as sombras o mais longe que se atreveu.

Sem o benefício da camuflagem de cem pernas de homens penduradas nas bancadas, Hazel foi obrigada a ficar longe, vendo o que estava a acontecer no palco apenas em formas indistintas. Havia um homem sentado numa cama cirúrgica, a falar jovialmente. Era a voz dele que ecoava pelo corredor. O corpo tapado com o véu continuava na cadeira, com o homem de cartola encostado de forma ameaçadora ao ombro. E no centro do palco do teatro cirúrgico, a brandir o frasco azul de ethereum com uma mão e um lenço de renda com a outra, estava um médico.

O médico tinha um avental de couro de talhante e uma estranha engenhoca a cobrir-lhe a cara. Parecia uns óculos, mas em vez de dois pedaços de vidro, tinha apenas um. Uma lupa circular no centro do rosto do médico, escondendo-lhe a identidade e transformando-o numa criatura da mitologia grega. Ali estava ele: o homem com um só olho com que Jeanette sonhara, um ciclope distorcido com um olho redondo de vidro montado em latão. A íris ampliada brilhava, azul e ondulada, através do vidro como a água do oceano.

– O ethereum é o segredo, meu Lorde. Talvez tenha assistido à minha demonstração no início do semestre?

A figura na cama soergueu-se sobre os cotovelos.

– Não posso dizer que sim, doutor.

O médico molhou o lenço no líquido azul iridescente.

– Bem, o efeito é notável. Acho que os doentes o compararam a uma boa noite de sono. Acordará daqui a umas horas a sentir-se como novo. Na pior das hipóteses, é semelhante a uma má noite de sono. O pior de tudo será a dor no olho novo, mas deverá diminuir dentro de algumas semanas. Verá que a nitidez aumenta de dia para dia.

– Estou ansioso por isso, doutor. – A figura na mesa era o Barão Walford, vestido com uma simples camisa de linho, mas inconfundível. Estalou audivelmente os lábios e tornou a deitar-se na mesa. – Faça todo o mal que puder, doutor – continuou. – Estou ansioso por me livrar de uma vez por todas daquele horrível olho falso.

A expressão do médico era invisível atrás do vidro. Encostou o lenço ensopado em ethereum ao rosto do barão e depois virou-se para a figura tapada com o véu na cadeira.

– Por favor, senhor – pediu o médico ao homem de chapéu alto.

O homem tirou o véu preto da figura na cadeira de rodas, revelando um rapaz, um rapaz de cabelo louro tão sujo que parecia quase castanho, com as mãos atadas no colo e um pano amarrado à volta da cara para o impedir de gritar. O rapaz tentou libertar-se das amarras, chicoteando o corpo para trás e para a frente. Mesmo ao longe, Hazel conseguia ver-lhe o pânico absoluto no rosto, que estava a ficar vermelho como uma beterraba.

– Então, então – soltou o médico, e voltou a molhar o lenço no ethereum antes de o pressionar sobre a cara do refém. O rapaz lutou contra os raptores e depois sossegou.

– Pronto, já está – disse o médico. – Vamos deitá-lo na mesa. Se não se importa, senhor?

O homem de chapéu alto ajudou o médico a tirar o rapaz da cadeira para a longa mesa no centro do palco, diretamente ao lado do Barão Walford, que estava deitado com um ar pacífico, como se estivesse apenas a dormir. Arrastaram o corpo do rapaz como se fosse uma boneca de trapos.

– Foi um pesadelo encontrar um olho com a cor certa – confessou o homem da cartola, com uma voz arranhada como gravilha. – Apanhei uma dezena de rapazes até arranjar um com o tom certo. “Mogno”, não é? Não me diga que não era mogno.

– Sim, sim – replicou o médico. – Posso imaginar a dificuldade. Mas pelo que este agradável cavalheiro na mesa está a pagar, penso que lhe devemos dar exatamente o que quer.

O homem do chapéu alto clareou a garganta.

– Quanto é que ele vai pagar? Por uma coisa destas?

– Ora, ora, Jones, sabe que é má educação falar de dinheiro. Mas garanto-lhe que vai pagar o suficiente para querer que o olho novo seja igual ao antigo. – O médico ajustou a lente da lupa e escolheu um bisturi da mesa. – O procedimento em si é bastante simples, especialmente porque o cliente já não tinha um olho. A órbita já estava preparada. Agora, só precisamos…

Baixou o bisturi de uma forma repugnante sobre a cara do rapaz, que estava inconsciente, mas ainda preso pelos pulsos. O rapaz não se mexeu enquanto a faca do médico se enfiava abaixo do osso da sobrancelha e abria um corte espesso pelo nariz abaixo.

– E já está cá fora – disse o médico, tirando o olho esquerdo do rapaz da órbita. – Jones, por favor, vá buscar pó de raiz de feijão, pó de prata e a cataplasma que guardo no frasco preto no armário.

O homem do chapéu alto estava a olhar para o corte aberto no rosto do rapaz e a sorrir horrivelmente, como se fosse um lobisomem. Assentiu e obedeceu, levando os três ingredientes que o médico pedira.

– É mágico, é o que é, doutor – murmurou o homem do chapéu alto, enquanto o médico deitava uma gota da cataplasma na órbita vazia do barão e depois punha o globo ocular do rapaz.

– Não tem nada de mágico, Jones – contrapôs o médico, com alguma impaciência, continuando a encher a órbita com os pós. – É apenas ciência. E, claro, um conhecimento do corpo humano aperfeiçoado ao longo de décadas de prática. – Riu-se um pouco, ainda concentrado na operação que estava a fazer.

Hazel estava petrificada de terror. Tinha a voz presa na garganta; os pés pregados ao chão, pesados como se fossem feitos de aço derretido. A mente ia pensando nas coisas que devia fazer, nas ações que devia tomar: interrompê-los com um grito, tirar a faca das mãos do médico ou, no mínimo, fugir para ir pedir ajuda, voltar a chamar o polícia, arrastá-lo pela passagem no beco e forçá-lo a ver o que estava a acontecer. Algures no fundo da mente, sentia a pressão ténue do exame. Provavelmente já tinha começado, mas se corresse, talvez ainda conseguisse chegar a tempo. Contudo, o corpo não obedecia à mente. O terror dentro dela tornara-se um ser vivo, um monstro que lhe transformara as veias em gelo e os músculos em água. Não conseguia fazer mais nada a não ser continuar a observar enquanto o médico completava a terrível operação, prendendo o olho de mogno do rapaz no rosto inchado e corado do Barão Walford.

Quando a cirurgia ficou concluída, o médico afastou-se e examinou o trabalho, inclinando a cabeça. Limpou a faca ao avental e, a seguir, meteu a mão no bolso e tirou um pequeno frasco com qualquer coisa dourada e brilhante que iluminou o rosto do médico como se fosse uma vela.

– E pronto. Só uma gota para não infetar e ter a certeza de que o olho novo funciona – murmurou, inclinando delicadamente o frasco de modo que uma única gota dourada caísse sobre o rosto do barão.

– O que devemos de fazer com ele? – perguntou o homem do chapéu alto, apontando com a cabeça para o rapaz amarrado, cuja órbita agora vazia derramava um rio de sangue sobre a mesa e sobre a palha no chão. – Está a sangrar que nem um desalmado.

O médico estava distraído, com toda a atenção dedicada ao barão.

– Ah – soltou. – Algodão na ferida para parar de sangrar. – Deu uma rápida olhadela ao rapaz. – Não tenho a certeza se este vai sobreviver, Deus o abençoe. Vamos mantê-lo aqui durante umas horas, para ver se recupera. Se morrer, manda-o para as traseiras do hospital dos pobres. Sabe o que tem de fazer, Jones. Se alguém perguntar, foi a febre romana. – Voltou-se para o barão, inclinando-se para apreciar o seu próprio trabalho, as centenas de pequenas veias que colocara e selara para dar ao homem o olho novo pelo qual pagara. – Creio que é um dos meus melhores trabalhos, Jones.

– E também um dos mais rápidos – retorquiu o homem do chapéu alto. – Feito em metade do tempo de alguns dos outros trabalhos.

– Bem, eu tentei – reagiu o médico. Tinha o cabelo escorrido com o esforço. Tirou a lupa e limpou o suor da testa com uma mão enluvada, e a seguir o Dr. Beecham virou-se para as bancadas do teatro cirúrgico e olhou diretamente para onde Hazel se encontrava. – Afinal de contas, hoje tivemos público.

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