Anatomia: uma história de amor
Capítulo 36
No dia de Natal, Hazel caminhou pela Cidade Velha, com a cabeça direita e o olhar baixo. Decidira caminhar desde Hawthornden, ao longo de veredas sinuosas e firmes com a geada de dezembro, através de quilómetros de terrenos agrícolas vazios. Doíam-lhe os pés, mas nem dava por isso. Estava apenas ligeiramente consciente de que o calcanhar sangrava, e que o sangue estava a passar pela meia até ao couro da sola da bota. O vento e o mundo tinham-na entorpecido e já nada a magoava.
Passara uma semana desde que Jack fora preso. A mãe e Percy ainda estavam em Londres, e permaneceriam lá durante o resto do ano. Ela estava sozinha na cidade.
As ruas estreitas de pedra estavam tranquilas, como se todas as pessoas de Edimburgo tivessem encontrado conforto em redor das lareiras, abraçando os entes queridos enquanto a ameaça da febre romana continuava a pairar no exterior como nevoeiro. Hazel tinha dado o dia de folga a Iona, a Charles e à cozinheira. Naquele dia, só precisava de uma pessoa.
A sala de aula era exatamente como Hazel se lembrava, de meses antes e de uma outra vida. Não havia cheiro a sangue ou podridão – a sala fora limpa após o fim do semestre e, quando entrou, Hazel sentiu o cheiro a verniz de madeira e álcool.
O Dr. Beecham estava de pé no púlpito, a organizar uns papéis.
– Só um momento, Menina Sinnett – disse ele sem levantar os olhos. – Estou apenas a preparar-me para os estudantes do meu próximo semestre, depois das férias. Nem imagina o quanto ainda é preciso fazer. A papelada, meu Deus. – Dispôs alguns restos de pergaminho em filas mais limpas e depois suspirou e olhou para a Hazel. – Então, olá.
– Vim devolver o seu livro – revelou Hazel. Atirou a cópia do Tratado do Dr. Beecham para cima de uma secretária, levantando uma pequena nuvem de pó. Do bolso da capa tirou o pequeno diagrama da mão e dos dedos que caíra das páginas do livro. Guardara-o, uma espécie de totem que sentia que a ligava ao médico e escritor que outrora tanto admirara. Estivera a olhar para ele na noite anterior, quando as estranhas peças da sua hipótese se encaixaram. Tinha amadurecido as provas. Tinha definido a conclusão.
– Podia ficar com o livro. Tenho vários exemplares – reagiu Beecham, num tom monótono.
– Finalmente, compreendi – continuou Hazel. – Não sei como não o fiz antes, como perdi tanto tempo. Não, claro que sei como. Porque é ridículo. E pensei que era impossível. Mas sempre acreditei que o Dr. Beecham original era o maior médico do mundo, por isso suponho que o devia ter achado capaz de tudo. Pensava que o senhor é que era capaz de tudo.
Em vez de responder, Beecham saiu de trás do púlpito. Fletiu os dedos nas luvas de couro preto que usava sempre e levantou uma sobrancelha.
– Tire as luvas – pediu Hazel.
Em silêncio, Beecham obedeceu, puxando cuidadosamente o couro dos pulsos e depois cada um dos dedos até ambas as mãos estarem nuas.
Cada dedo do Dr. Beecham estava manchado e morto, dez dedos de dez mãos diferentes. Variavam em tamanho e tom da pele, presos à mão de Beecham com pontos pretos grossos, bem feitos, mas visíveis.
– Como pode ver – disse Beecham –, o meu trabalho manual nem sempre foi tão magistral como é hoje. – Mostrou os dedos a Hazel, virando cada mão algumas vezes. – Posso? – Hazel assentiu, e Beecham voltou a calçar as luvas. – Os dedos eram a coisa mais fácil de perder, no início. E antes de aperfeiçoar o meu tónico para os transplantes dos membros, receio ter feito o melhor que pude. Os ferimentos são tão fáceis quando a morte nunca vem. E aí está. Descobriu o meu pequeno segredo. Posso oferecer-lhe uma chávena de chá?
– Então, é verdade – retorquiu Hazel. – É o único Beecham. Foi o senhor que escreveu o livro, o tratado. O senhor…
– Resolvi o puzzle da imortalidade – interrompeu Beecham. – O objetivo final de qualquer médico, imagino. Acontece que os outros não foram tão espertos como eu.
Os pensamentos na mente de Hazel encaixavam-se com um clique de satisfação.
– Nunca houve um filho e muito menos um neto. Apenas o senhor.
Beecham viu a chaleira na pequena lareira atrás de si.
– Na verdade, é aí que está enganada, Menina Sinnett. Havia um filho. Dois filhos, os meus rapazes Jonathan e Philip. E a minha bela filha, Dorothea. E a minha mulher, Eloise. Desde cedo, pensei que a minha maior luta contra a imortalidade seriam os meus membros e os meus órgãos a abandonarem-me um a um. E só depois percebi que seria ver todos os que eu amava morrerem à minha volta. Quando a Eloise estava a morrer no parto, implorei-lhe que tomasse o meu tónico, supliquei-lhe de joelhos que quisesse sobreviver e vivesse ao meu lado. Recusou. Eu pensava que ela era uma tola. Na maioria dos dias, ainda penso. Mas em dias como o de hoje, no Natal, bem, às vezes penso que talvez ela tivesse sempre razão. Quem me dera poder voltar a ver os meus filhos. Ela está a passar a eternidade com eles e eu ainda aqui estou. – Beecham serviu-se de uma chávena de chá. – Beba uma chávena de chá. É um oolong maravilhoso. E eu não tenho podido falar com ninguém enquanto… bem, eu próprio, desde que a Eloise morreu. É surpreendente libertador.
– Como é que o fez? – quis saber Hazel, incapaz de resistir.
Beecham sorriu como um gato, e do fundo do bolso do peito do casaco, tirou um pequeno frasco de líquido dourado.
De perto, rolava como magma ou mercúrio líquido, viscoso e brilhante nas bordas com um brilho metálico, ainda assim translúcido. Era um universo envolto em vidro, infinito e eternamente mutável.
– Um tónico – revelou ele. – O meu tónico. Se me perguntam como é que o descobri, suponho que a única resposta é o medo. Medo da morte. Medo de ser esquecido. Sabia desde criança que estava destinado a qualquer coisa maior do que a fábrica de curtumes onde o meu pai trabalhava, onde ele esperava que eu trabalhasse. Só muito mais tarde na minha vida é que aperfeiçoei realmente o tónico. Foi uma obsessão. Se esperava saber o que contém o tónico, Menina Sinnett, decidi há muito tempo que a fórmula pertenceria apenas a mim. Digamos apenas que a resposta é “feitiçaria”. Não é toda a ciência mágica para aqueles que não a compreendem? O fardo do conhecimento é que torna o mundo mecânico. Eu sou imortal num mundo onde todos os milagres foram explicados. – Pôs o frasco sobre a mesa. Hazel, ainda de pé, não tirou os olhos dele.
– Então, o que significa ser imortal? – perguntou Hazel. – Num sentido técnico. Não envelhece? Suponho que não. Pode ser morto?
– Uma pergunta interessante! Há tanto tempo que ninguém me fazia uma pergunta interessante. Está a planear matar-me, Menina Sinnett? A resposta simples a ambas as perguntas é não. Facadas, tiros, estrangulamento. Sem qualquer efeito. Imagino que uma abordagem mais sistémica podia ser desfazer-me em peças, queimando-me até às cinzas… mas, como pode imaginar, tenho sido reticente em experimentar exaustivamente. Sente-se, por favor. Se não lhe posso oferecer chá, no mínimo posso oferecer-lhe uma cadeira.
Hazel organizou os pensamentos na cabeça. Um momento depois, sentou-se à frente do Dr. Beecham e olhou-o diretamente nos olhos.
– Vai matar o Jack Currer. Vão enforcá-lo pelas mortes das pessoas que o senhor assassinou.
O fumo rodopiava por cima da chávena de Beecham.
– Está apaixonada por ele – disse simplesmente Beecham. Não era uma pergunta, apenas uma observação. – Por isso, presto-lhe o maior serviço de todos, Menina Sinnett. O amor não é mais do que a agonia prolongada de esperar que ele termine. O medo de perder aqueles que amamos faz-nos cometer atos egoístas e insensatos e cruéis. A única liberdade é a liberdade do amor, e uma vez desaparecido o seu amado, esse amor pode ser perfeito, cristalizado na sua memória para sempre.
– Ele não merece morrer – protestou Hazel.
– Todos nós merecemos morrer – contrapôs o Dr. Beecham. – É o nosso único direito inato.
– E o Straine? – perguntou Hazel. – Também o prenderam.
Beecham soergueu uma sobrancelha.
– Está a defendê-lo? Ao homem que frustrou as suas ambições médicas.
– Não – respondeu Hazel. – A ele, não. Mas não é culpado. Estou a defender a verdade.
Beecham bebeu um longo gole de chá.
– A verdade não existe, Menina Sinnett. Mesmo as ditas verdades mais básicas da nossa anatomia podem ser manipuladas para se adequarem a novos propósitos. A única verdade é o poder e o único poder é saber como sobreviver.
Pegou no pequeno frasco de tónico que estava sobre a mesa e olhou fixamente para ele. Parecia dourado quando a Hazel o vira pela primeira vez, mas de um ângulo diferente, parecia quase preto reluzente.
– Descobri que uma única gota de tónico – revelou Beecham –, fortemente diluída, é suficiente para assegurar que os membros e órgãos que transplanto se adaptam devidamente ao novo corpo sem infeção… Sei que estava a pensar nisso. – Enrolou os dedos à volta do frasco. – Foi este mesmo frasco que ofereci à minha mulher Eloise, antes de ela morrer. Tenho-o guardado comigo desde então. Sabe, Menina Sinnett, daqui a 100 anos, a ideia de uma cirurgiã pode não parecer tão absurda. E ainda menos absurda 100 anos depois. Será muito mais útil nos séculos vindouros, e, nessa altura, terá aprendido o suficiente para ser mais brilhante do que alguém poderá esperar ser uma vez na vida. Tome. Aceite-o.
Hazel estendeu a mão por instinto e depois fez uma pausa. Na verdade, momentos antes tinha pensado em agarrar no frasco e fugir, mas naquele instante hesitou.
– Dá o trabalho de uma vida assim tão livremente?
– Não é livremente, garanto-lhe. É apenas a segunda pessoa a quem já ofereci este frasco e a primeira, estou certo, que poderá fazer um excelente uso dele. Não importa o que pensa de mim neste momento, Menina Sinnett. Sei que acabará por compreender a enormidade do que consegui. Os corpos cobriam as bases das pirâmides, minha querida. Todo o progresso requer sacrifício humano. Eram os pobres e os indigentes. A cidade já os tinha matado, e eu apenas usei cada pedaço do animal.
Hazel tinha um zumbido nos ouvidos e o coração a bater com força no peito. Pegou no frasco.
– Quanto tempo vai ficar aqui? – perguntou ela, deslizando o polegar ao longo do frasco, que parecia permanentemente fresco. – Em Edimburgo, quero eu dizer. Quanto tempo até que as pessoas reparem que não envelheceu?
Beecham bebeu outro gole do chá.
– Será muito em breve, receio. Acho que a seguir vou para a América. É um país enorme. Um lugar fácil para um homem desaparecer e voltar a fazer-se a si próprio. Então, não quer chá? Ou talvez uma coisa mais forte! Afinal de contas, é Natal. Acho que tenho um brandy bem envelhecido algures por aqui. Ah, aqui está. – De trás do púlpito, tirou uma garrafa com um líquido âmbar. Deitou um pouco no seu chá e depois alguns dedos num copo limpo, para Hazel. – Insisto – disse. – É Natal.
– Então, saúde – brindou Hazel. Bebeu um pequeno gole, que lhe deixou a língua a arder e queimou a garganta.
Beecham ergueu a chávena de chá.
– Ao seu noivado – disse, com um brilho nos olhos. – Soube que foi recentemente pedida em casamento. Até as pessoas importantes ouvem os mexericos da sociedade.
Hazel abanou a cabeça.
– É curioso – interpôs. – Acho que o que disse estava certo. Perder aquele que se ama é a única liberdade.
Na manhã seguinte à prisão de Jack, Hazel acordou sem dúvidas ou medo. Não havia nada que a assustasse numa vida sem a segurança de um título ou de um castelo, nem a ira da mãe ou a desilusão do pai. Viveria como uma bruxa numa sebe, cosendo feridas e dando à luz recém-nascidos, se fosse necessário. Mendigaria nas ruas, trabalharia como criada, navegaria para o continente. A mudança fora espantosa – uma faísca no cérebro, um milagre de fluidos ou eletricidade, e passou a sentir que a vida era completamente diferente. Pela primeira vez nos seus 17 anos, era dona da sua vida.
Queimara todas as cartas por abrir que Bernard lhe enviara por mensageiro desde a sua recusa. Os lírios brancos que lhe enviou foram pelo riacho de Hawthornden.
Quando Hazel terminou o brandy, levantou-se e agradeceu ao Dr. Beecham pela bebida.
– Boa sorte na América – desejou, e virou-lhe as costas para sair.
– Espero que o tome – disse Beecham. – Estava a falar a sério quando disse que o mundo ainda não está pronto para si. Ficaria encantado de ver o que poderá realizar no próximo século. E eu teria finalmente uma mente científica para me fazer companhia.
Hazel voltou-se.
– O único uso que tenho para a imortalidade – replicou – é descobrir se ela irá proteger alguém de um enforcamento.
Beecham levantou-se, surpreendido e boquiaberto. Pestanejou rapidamente algumas vezes e depois tornou a sentar-se.
– Sim – reagiu calmamente. – De facto, a imortalidade é mais forte do que um pescoço partido e um estrangulamento.
Hazel acenou com a cabeça ao médico e saiu, deixando Beecham sozinho na sala de aula, com a lareira a iluminá-lo por trás, fazendo-o parecer menos um homem e mais uma sombra.
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