Anatomia: uma história de amor
Capítulo 3
– Por favor.
– Não.
– Por favor.
– Definitivamente, não.
– Mas não me deixam entrar sem ti. Não há a mínima hipótese. Mas não me podem impedir de entrar se eu for acompanhada pelo Visconde de Almont.
– Futuro Visconde de Almont. O meu pai ainda está bem vivo, obrigadinho.
– Bem, mas pelo menos és qualquer coisa agora, não és? De certeza que és, no mínimo, barão. Isso há de servir para alguma coisa, jovem Barão de Almont.
– Hazel – avisou Bernard.
– Nem sequer tens de olhar. Podes estar o tempo todo com os olhos tapados.
– Mesmo assim, vou ouvir.
Hazel agarrou o cartaz com a mão e abanou-o.
– Vá lá, Bernard. Quando é que te pedi para fazeres alguma coisa por mim? Se não assistir a isto, nunca mais conseguirei pensar noutra coisa enquanto for viva. Vou levar o cartaz a todos os jantares a que for quando já formos os dois velhos, e tu vais desejar ter-me levado só para me calares.
Bernard continuou a andar.
– Não. – Bernard tinha uma cartola cinzenta nova e, mesmo quando se voltou de lado, Hazel teve a certeza de que ele estava a tentar mostrá-la no melhor ângulo, para que a luz incidisse sobre as extremidades e destacasse o seu queixo forte. O casaco também era cinzento, e tinha um colete de seda amarelo-canário.
Embora a tarde tivesse começado com um frio agradável de outono no ar, enquanto caminhavam ficara um calor sufocante. Hazel sentiu uma gota de suor a escorrer-lhe pelas costas, por baixo das várias camadas de tecido.
– Estás com medo de que a minha mãe fique zangada contigo por…?
Bernard voltou-se e interrompeu-a.
– Estou. Para ser sincero, estou. Tenho medo de que a tua mãe se zangue comigo, mas mais do que isso, Hazel, tenho medo de que a tua mãe se zangue contigo. Fazes ideia dos problemas que vais arranjar quando a tua mãe, ou, já agora, o teu pai, descobrirem que foste a uma palestra de anatomia? Uma palestra de anatomia pública! O tipo de pessoas que assistem a essas coisas! Bêbedos… e violadores! E… e… atores de teatro!
Hazel revirou os olhos e endireitou as bordas das luvas cor de marfim. Tinham sido oferecidas pelo pai antes de partir para Santa Helena.
– Estudantes, Bernard. São eles que assistem a estas coisas. Não interessa, já sei como vou fazer: digo à minha mãe que vou a um piquenique contigo nos Jardins de Princes Street e que só devo voltar à noitinha. Podemos descer a colina e chegar a tua casa à hora do lanche.
Passou por eles uma carruagem senhorial, e Bernard demorou a responder, porque cumprimentou educadamente o cavalheiro que ia no interior com um aceno de cabeça digno. Quando se voltou novamente para Hazel, o rosto readquiriu a mesma expressão de irritação.
– Estudar medicina é uma coisa. É até útil. O meu amigo de Eton, o John Lawrence, está agora em Paris e será um bom médico e fará um bom casamento e será bem-vindo aos nossos jantares. Se querias fingir que ias ser médica, ou enfermeira, acho que isso já era diferente. Mas cirurgiã… Hazel, a cirurgia é uma profissão para homens sem dinheiro. Sem estatuto. Na verdade, são uns carniceiros! – Avançou alguns passos sem perceber que Hazel não estava ao seu lado. – Hazel?
– O que estás a dizer? “Fingir”?
– O que é que eu…?
– Disseste “fingir que ias ser médica”.
– O que eu queria dizer era… Hazel. Quero dizer. De certeza que nunca pensaste… – Parou, e depois continuou. – Vai ser muito útil quando nos casarmos saberes tratar de arranhões e febres!
– Sempre soubeste que eu quero ser cirurgiã – contrapôs Hazel. – Há séculos que andamos a falar disso. E sempre me apoiaste.
– Bem, sim – replicou Bernard, olhando para os sapatos. – Quando éramos crianças.
De repente, Hazel sentiu um sabor a cobre na boca. Tinha a língua pesada. Estavam apenas a um quarteirão de Almont House, com as colunas brancas a reluzirem com o sol da tarde.
– Olha – disse Bernard, já a rodar o corpo para começar a andar. – Vamos voltar para a salinha. Tomamos o nosso chá. – Hazel estava com o cartaz nas mãos, e Bernard estendeu o braço para o agarrar. Rasgou-o ao meio, depois em quatro e, a seguir, amachucou todos os pedaços. Atirou-os para trás dele, para a valeta molhada, e Hazel ficou a ver os pedacinhos de papel a desapareceram. – Pronto. Vamos esquecer esse disparate. Há um espetáculo novo no Le Grand Leon, vamos lá uma noite destas. E levamos a tua mãe. Não achas que é uma ótima ideia?
Hazel fez um pequeno aceno com a cabeça.
– Acho que, se não te importares, vou passear mais um bocadinho. Só até ao passeio público. Depois apanho a carruagem para ir jantar a casa.
Bernard olhou em redor, nervoso.
– Sem companhia? Não me parece…
– Só mais um bocadinho. Estamos perto da tua casa. Olha, é já ali. Estarei sempre à vista de todos.
– Se tens a certeza… – concordou Bernard, hesitante.
– Insisto.
– Bem, então, está bem. – Afinal, tinha sido fácil. Bernard assentiu, satisfeito, de novo com um ar afável. Era filho de um visconde, e não havia nada de errado no mundo dele. Estava a poucos passos de casa, onde o esperava um assado para o jantar. – Para a semana irei a Hawthornden. Diz ao Percy que insisto em jogar uíste com ele.
Hazel respondeu com a coisa mais parecida com um sorriso que conseguiu. Manteve-o na cara enquanto via as pernas compridas de Bernard a descerem a rua, até desaparecerem nas sombras de Almont House.
Só então permitiu-se olhar para os restos amarrotados do cartaz que tinha escondido no roupeiro, longe dos olhares indiscretos da mãe e da senhora Herberts, para o poder mostrar a Bernard. Apenas algumas palavras não se tinham dissolvido no lamaçal que corria pela valeta ao longo da rua, fragmentos que pareciam peças de um puzzle.
AO VIVO!
BEECHAM
EDIM…
… ANAT…
… VA TÉCNICA
Deu um suspiro e dirigiu-se para a carruagem que a esperava. Havia alguém fora de Almont House, junto ao portão lateral, onde a estrada curvava para longe de Charlotte Square, em direção a Queensferry Street Lane, com o pináculo da Catedral de Saint Mary’s a parecer espetado na cruz de ferro contra o azul do céu.
Era uma mulher de cabelo ruivo – que podia até parecer ainda mais avermelhado se não estivesse tão sujo – enfiado sob uma touca de criada. Seria uma das criadas dos Almont? Hazel não a reconheceu, mas isso não era surpreendente. Uma casa como a deles teria certamente uma dúzia de criadas que tentariam manter-se invisíveis quando havia convidados. Talvez fosse nova. Parecia muito jovem. Mais jovem do que Hazel. Parecia estar à espera de alguém, pela forma como olhava por cima do ombro e para o fundo da rua, mas não parecia nervosa.
Hazel parou e ficou a observá-la, curiosa. E depois, num piscar de olhos, juntou-se um homem. Não, não era um homem. Um rapaz. Um rapaz alto, muito direito e magro. Estavam os dois conversar, e a empregada entregou-lhe furtivamente um pedaço de papel. Estariam a roubar Almont House? Em plena luz do dia? A praça estava longe de estar vazia, com várias carruagens a passar por Hazel enquanto observava aquele par. Aparentemente, ninguém reparava neles. Era verdade que estavam escondidos na sombra do solar, mas certamente até os ladrões preferiam o coberto da noite.
Hazel aproximou-se, fingindo estar fascinada por uma pequena roseira. Embora estivesse apenas a 30 metros de distância, os dois estranhos não olharam para ela. A criada de cabelo ruivo estendeu a mão, e o rapaz alto deu-lhe algumas moedas. Agora que estava perto, Hazel conseguia ver um nariz comprido e fino, meio escondido pelo cabelo escuro do rapaz.
– Cuidado com esse, Jack – alertou a criada de cabelo ruivo.
Com as moedas escondidas no cinto, a mulher desapareceu, encostada ao exterior de pedra de Almont House, deslizando pela curva até à porta de entrada dos criados.
Que estranho, pensou Hazel.
– Para casa, Menina Sinnett? – Era o cocheiro, o senhor Peters, a perguntar-lhe do fundo do quarteirão. Deu um abanão rápido às rédeas, fazendo os cavalos entrar em ação.
O rapaz que estava nas sombras levantou o olhar e, por um momento, Hazel encarou-o diretamente nos olhos, e os pelos da nuca ficaram logo eriçados. Os olhos dele eram brilhantes e claros e cinzentos. Com aquele nariz comprido, parecia uma ave de rapina, pensou Hazel. Fez um sorriso ou um esgar, ou talvez fosse apenas um truque da luz, porque no instante seguinte já tinha desaparecido, caminhando apressadamente em direção à rua principal, onde o fumo da Cidade Velha, preto e espesso, pairava, e Hazel entrava na carruagem, de volta a Hawthornden, tentando ver mentalmente o rosto dele, mas esse já se desvanecera da memória.
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