Anatomia: uma história de amor

Dana Schwartz · Capítulo 37 de 40

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Anatomia: uma história de amor

Capítulo 35

 

Só dois dias depois é que Jack se sentiu suficientemente bem para viajar de carruagem para o Castelo de Hawthornden e mais uma semana – com as papas de aveia da cozinheira e as mudanças atentas de ligaduras de Hazel – até se sentir suficientemente bem para andar. A ferida da facada estava a ganhar uma crosta sem infeção, e um dia depois de Jack ter conseguido dar uma lenta caminhada pelos jardins do Castelo sem se dobrar com dores, disse a Hazel que estava na altura de voltar ao Le Grand Leon.

– Só para ver as minhas coisas – assegurou Jack. Tinha umas libras escondidas em segurança num buraco nas tábuas do teto e duas camisas limpas – embora Hazel tivesse limpado e desinfetado a que ele vestia quando foi esfaqueado, continuava manchada de rosa no peito, devido ao sangue, e Jack nunca se sentia confortável com os tecidos finos das camisas emprestadas do irmão de Hazel. A rapariga concordou, desde que ele prometesse regressar nessa noite.

– Precisas de um penso novo e ligaduras para ficares devidamente curado. Era só o que nos faltava, teres uma infeção nesta fase.

– Tudo bem. – Hesitou, depois inclinou-se como se a fosse beijar. Em vez disso, pestanejou rapidamente algumas vezes e cerrou e soltou os punhos. – Adeus, então – despediu-se, e virou-se antes que Hazel pudesse responder.

A rapariga ficou a ver da janela até Jack e a carruagem desaparecerem para lá da curva, onde as poucas folhas quebradiças agarradas às árvores contra a geada de inverno lhe bloquearam a vista.

 

Jack não tinha pensado como seria difícil subir ao ninho que construíra para si próprio nas vigas do teatro enquanto tentava evitar que os pontos no peito rebentassem. A meio da escada, teve de fazer uma pausa e recuperar o fôlego. Estava a pensar se valia a pena continuar a subir quando ouviu uma pancada na porta da frente do teatro.

As pancadas eram fortes e persistentes. Estranho. O teatro estava fechado há meses. Jack entrara pela porta do beco, e o senhor Anthony tinha todas as outras chaves do local. Quem estava a bater à porta da frente não tinha nada que ver com o Le Grand Leon.

Jack ficou à espera, ouvindo os sons habituais do edifício, madeira a ranger e ar frio a assobiar através dos lugares no teto onde as vigas não se juntavam por completo. Tornaram a bater, uma pancada dada com nós dos dedos determinados. As pancadas não paravam, por isso Jack foi a arrastar o passo através do átrio empoeirado até chegar à porta da frente, metendo no bolso uma pequena faca e os dedos à volta do cabo por precaução.

– Jeanette? És tu? – gritou. Não houve qualquer resposta.

Abriu a porta e viu à sua frente um polícia, dois guardas e o magistrado. Por instinto, Jack tentou fugir. O agente puxou Jack com força, prendendo-lhe as mãos atrás das costas.

– Ei! – gritou Jack. – O que estão a fazer?

– Estás preso pelo assassinato de Penelope Harkness, Robert Paul, Mary McFadden e Amelia Yarrow. E, sem dúvida, muitos mais. Nojento. – O polícia cuspiu para as botas de Jack.

– Há um engano qualquer. Há algum engano.

Um dos guardas encontrou a faca no bolso do Jack. Tirou-a para fora e mostrou-a ao magistrado, metendo-a depois no próprio bolso, abanando a cabeça em sinal de repugnância.

– Isso é meu! Dê cá isso!

O magistrado clareou a garganta e olhou por cima do nariz para Jack, embora fossem da mesma altura.

– Disseram-nos que talvez te encontrássemos aqui. Parece que alguns dos teus amiguinhos do beco de Fleshmarket não são tão dignos de confiança como talvez queiras admitir. Ladrões, assassinos, traidores. Deus tenha piedade de todas as vossas almas.

– Está a mentir – disse Jack, lutando para se libertar. – Está a mentir. Isto é uma piada! Porque é que eu assassinaria alguém?

– Tens vendido corpos à Sociedade de Anatomistas?

A boca de Jack secou, e a língua parecia-lhe inchada.

O magistrado sorriu.

– Era de prever que um jovem diligente como tu quisesse prescindir de intermediários, por assim dizer. Não é preciso perder tempo à espera de um funeral quando se pode simplesmente matar alguém.

– Isso é mentira – conseguiu sussurrar Jack. – Nunca matei ninguém. Vendi cadáveres, sim, mas desenterrei-os.

O magistrado ignorou-o.

– Muito conveniente, fazer a matança durante um surto de febre romana. Poucas pessoas estariam dispostas a aproximar-se o suficiente para verificar a causa da morte.

O polícia acenou com a cabeça.

– Ele até veio ter comigo, tinha persuadido uma jovem senhora com um esquema elaborado. Para cobrir os seus atos. Tentou a mesma coisa com o filho do visconde. – Fez um sorriso trocista. – Graças a Deus e ao Rei que o jovem Lorde Almont foi suficientemente esperto para ver quem tu és. Quantos mais terias matado só para encher os bolsos?

– Encontrem a Hazel Sinnett! – suplicou Jack. – Encontrem-na, a senhora da casa do Castelo de Hawthornden. Tragam-na aqui, ela vai esclarecer tudo.

O agente da polícia espetou o cotovelo no estômago de Jack, deixando-o sem respirar. O rapaz dobrou-se, mas os dois guardas impediram-no de cair. Sentiu os pontos a rebentar e o sangue da facada começou a escorrer para a camisa.

– Não nos digas o que fazer, assassino. E como te atreves a tentar denegrir o nome de uma das melhores senhoras da nossa sociedade?

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Atualidades de Edimburgo

22 de dezembro de 1817

LADRÃO DE CORPOS LEVADO

A TRIBUNAL POR HOMICÍDIO

Ontem, o tribunal deu início ao julgamento de Jack Ellis Currer, acusado de homicídio. Nos últimos anos, nenhum julgamento despertou tanto interesse na população: Na hora anterior à entrada do prisioneiro, havia uma multidão às portas do tribunal, a tentar vislumbrar o que será, certamente, um processo histórico. Lorde Maclean e outro nobre Lorde já estavam sentados no tribunal alguns minutos antes das 10h00.

Currer é de estatura alta e estava vestido com um fato esfarrapado de prisioneiro. Nada na sua fisionomia indica qualquer dureza peculiar, exceto talvez o corte direito no queixo e o rosto severo. Ao longo do dia, Currer pareceu profundamente perturbado, embora não tenha mostrado qualquer expressão de remorso.

O Dr. William Beecham III foi chamado a depor para testemunhar que tinha visto várias vezes Currer a rondar a Sociedade Real de Anatomistas de Edimburgo, procurando clientes para comprar a sua terrível mercadoria. Bernard Almont, da Casa de Almont, filho do Visconde de Almont, testemunhou mais tarde que ouviu Currer fazer uma confissão completa quando pensou que estava perto da morte, após um esfaqueamento num jogo de cartas que correu mal. Currer estava a viver ilegalmente no teatro fechado Le Grand Leon, onde a polícia o prendeu.

Edmund Straine, médico da Sociedade de Anatomistas, também foi acusado, pela compra ilegal de cadáveres.

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