Anatomia: uma história de amor
Capítulo 29
Nenhum dos doentes com febre romana que Hazel estava a tratar com raiz de hipericão estava a ficar curado, mas, surpreendendo Hazel, também nenhum deles morrera. Aparentemente, ela era capaz de conter a doença – limitar a propagação e mitigar os prazos –, mas não era capaz de a derrotar por completo. Por enquanto.
Hazel tomava cuidadosamente nota de cada um dos doentes e do respetivo progresso. Tinha enviado uma cópia das notas na carta que escrevera ao Dr. Beecham, à qual, para sua consternação, ainda não recebera resposta.
– O que é que ele pode estar a fazer? – murmurava a Iona, enquanto retirava uma lasca da canela de um rapaz. – Quanto tempo demora a escrever uma carta?
Iona passou-lhe uma bola de algodão e álcool para desinfetar.
– Não foi há muito tempo, Menina. Ele é um médico bastante famoso, não é? Provavelmente, recebe muita correspondência.
– Sim, deve ser isso – resmungou Hazel. A lasca deslizou da perna do rapaz ainda antes que ele tivesse oportunidade de gritar. – Pronto, já está. Direita como a chuva. E evita corrimões instáveis a partir de agora. Tens sorte por só te termos tirado uma lasca.
Iona acompanhou o rapaz e trouxe a Hazel o doente seguinte, um jovem de cabelo ruivo e um casaco castanho que já tinha visto dias melhores. Parecia cansado e pálido. A camisa esfiapada estava rasgada no pescoço e alguém tentara cosê-la.
– Burgess! – gritou Hazel, surpreendida. Teve de resistir ao estranho impulso de o abraçar com o choque de o ver, como se fosse uma aparição, no laboratório na masmorra de Hawthornden.
– Peço… peço desculpa – disse Burgess, com as sobrancelhas pálidas a unirem-se com a confusão. – Creio que não tenho o prazer de a conhecer. Mas disseram-me que tratavam pessoas aqui? – Olhou para lá de Hazel, assumindo que um médico estaria algures atrás dela. De uma das camas do solário veio um gemido baixo.
– Gilbert Burgess – repetiu Hazel. – Não me reconheces. Claro. – Prendeu o cabelo atrás da cabeça. – George Hazleton, ao seu serviço.
E, então, fosse do choque, da febre ou de ambos, Burgess desmaiou.
– Não acredito – disse ele, quando finalmente acordou numa das camas do castelo. O exame não demorara muito tempo, tinha febre alta e feridas a formarem-se por todo o corpo. Era a febre romana. Iona trouxera-lhe uma taça de papas de aveia com geleia. Ele misturou-as distraidamente, sem conseguir obrigar-se a comer. – Uma rapariga, o tempo todo. Desculpe. uma senhora. E ninguém sabia. Meu Deus, era capaz de matar para ver agora a cara do Thrupp.
– Bem, havia alguém que sabia. O Dr. Straine reconheceu-me e proibiu-me de assistir às aulas dele.
– Ficámos a pensar sobre para onde terias ido quando desapareceste. Alguns dos rapazes achavam que tinhas adoecido, ou que tinhas casado à pressa, ou qualquer coisa do género. O Thrupp tentou convencer-nos de que estavas a fugir das dívidas de jogo, mas eu sabia que isso era tudo uma treta.
– Como vão as coisas por lá? – quis saber Hazel, tentando manter um tom de voz indiferente. – Nas aulas, quero eu dizer. O que têm andado a aprender?
Burgess pareceu envergonhado e olhou para a taça com as papas de aveia, que tinham ficado com um tom rosado por causa da geleia de groselha.
– Desisti – admitiu. – Há umas semanas. Podia culpar a doença, mas a verdade é que a minha cabeça já não aguentava mais. A minha família mal podia pagar as propinas… Tivemos de pedir dinheiro emprestado a todos os familiares com algumas posses… e eu não iria aguentar se chumbasse no exame, depois de tudo isso.
– Então, desististe? Não, Burgess!
Burgess fez-lhe sinal para que não se importasse.
– Foi melhor assim. Teria sido um péssimo cirurgião. Não era como tu. Tu! Tu eras brilhante. Não acredito que te expulsaram só por usares saias. O descaramento daqueles homens! Juro que passava metade do tempo com vontade de estrangular o Straine. Dava-me arrepios a forma como ele ficava ali parado, sabes? Com aquela expressão no olho? – Burgess arrepiou-se.
– Bem, ainda posso ser cirurgiã – disse Hazel, com um pequeno sorriso. – Ou melhor, ainda há uma hipótese. – Explicou o acordo que tinha feito com o Dr. Beecham, como ainda podia fazer o Exame Médico para ver se passava. O sucesso significaria um estágio no hospital sob a orientação do próprio Dr. Beecham e a autorização para as mulheres poderem assistir às aulas a partir desse momento.
Burgess ficou mais animado com as notícias dela.
– Isso é maravilhoso, Hazel, é mesmo! Tens de passar. Claro que vais passar, és um génio nestas coisas.
– Estás noiva, não estás? – interveio Jack, de um canto. Hazel nem sequer reparara que ele estava ali sentado, a ler um livro de bolso. – Mesmo que passes, será que o teu marido vai deixar-te fazer alguma coisa com isso?
– Não creio que seja ele a decidir – replicou Hazel, com brusquidão.
– Aposto que vai pensar que será ele a decidir – contrapôs Jack, com uma voz glacial.
– Parabéns atrasados! – disse Burgess, para quebrar a tensão. – Pelo teu noivado! Quem é o sortudo?
– Obrigada. É o futuro Visconde de Almont.
Burgess esbugalhou os olhos.
– Hazel, isso é… Oh, bolas! Não posso tratar-te por Hazel! Lady Sinnett, quero eu dizer. Ou melhor, Lady Almont.
– Podes continuar a tratar-me por Hazel. Estamos noivos praticamente desde que nascemos. Ele apenas quis tornar as coisas mais oficiais, só isso. Casaremos daqui a um ano, por isso, entretanto, não vai haver qualquer mudança na minha vida. O Exame Médico é uma preocupação muito mais premente do que a idiotice do meu casamento.
Jack expirou com força, atirou o livro para cima da mesa e saiu da sala. Hazel ignorou-o e voltou-se para Burgess.
– Por favor, diz-me se te lembras de alguma coisa que o Dr. Beecham tenha dito sobre a estrutura do sistema linfático, porque estou completamente desesperada com isso.
A partir desse dia, Burgess passou a ser o tutor pessoal e o maior defensor de Hazel. Sempre que a rapariga acabava de examinar os novos doentes que chegavam ao laboratório – e depois de completar as rondas pelos doentes já nas camas no Castelo de Hawthornden –, ia para a cabeceira de Burgess, e ele ajudava-a a estudar. Burgess era brilhante, com um talento especial para fazer exatamente a pergunta a que Hazel esperava poder escapar por não saber bem a resposta.
Quando Charles trouxe a carta do Dr. Beecham, Hazel estava tão distraída a dizer a Burgess o nome de todos os ossos do ouvido interno que mal se apercebeu do que tinha nas mãos até o pergaminho estar aberto à sua frente.
Cara Menina Sinnett,
Que prazer inesperado ter notícias suas. Espero que se lembre
da nossa aposta e que os seus estudos estejam a progredir a tempo
para o Exame Médico. Devo confessar-lhe que tenho uma profunda
esperança de que venha a ser bem-sucedida.
Infelizmente, não tenho mais notícias positivas a dar-lhe nesta
carta. A inoculação foi tentada em Edimburgo durante a primeira
vaga da febre romana, mas sem efeitos positivos. Pelo contrário, os
poucos doentes que foram sujeitos à experiência sucumbiram à
própria doença.
Não estou familiarizado com a “raiz de hipericão” de que fala
e devo assumir que é um nome regional para uma planta local com
outro nome, mais adequado. No entanto, asseguro-lhe que o meu
estimado avô, durante toda a vida, experimentou uma grande
variedade da flora escocesa local e não encontrou nada que
mitigasse os efeitos horríveis e mortais da doença. Devo aconselhá-
la a cessar todas as experiências e a não continuar a tratar as
vítimas infelizes com remédios populares infundados. Não continue
a utilizar a “raiz de hipericão” em caso algum. Os efeitos positivos
a curto prazo podem mascarar consequências mais mortíferas no
futuro. Para se tornar médica, terá de aprender rapidamente que o
bem-estar do doente deve sobrepor-se ao ego demasiado zeloso de
qualquer médico.
Atentamente,
Dr. William Beecham III
Hazel leu a carta uma e outra vez. Sentia como se tivesse levado uma bofetada na cara. Deixou cair o papel das mãos, e Burgess apanhou-o, lendo em silêncio as palavras.
– Bem, acho que foi uma boa ideia – disse Burgess, por fim. – E o chá de raiz de hipericão tem sido a única coisa, desde que tenho esta maldita febre, que me faz sentir que a minha cabeça não está prestes a explodir, diga o Dr. Beecham o que disser. Ele não é assim tão importante! Sabes que o avô dele acabou por enlouquecer? Alquimia e coisas do género. Talvez muitos deles sejam loucos. Esquece isso, Hazel.
A rapariga acenou distraidamente com a cabeça. Tinha sido tola e demasiado ambiciosa. Era apenas uma criança, enquanto alguns dos médicos mais famosos do mundo já estudavam a febre romana há alguns anos, sem qualquer resultado. Ainda nem sequer tinha passado no Exame Médico e era arrogante ao ponto de achar que descobrira algo que o Dr. Beecham não conseguira. Tinha a cara a arder e arrancou a carta das mãos de Burgess. Rasgou-a em mil pedaços e atirou-os ao fogo, não por raiva, mas por uma humilhação profunda.
– Não faz mal – disse Hazel, estendendo o braço para tirar das mãos de Burgess a caneca de chá que ele estava a beber. – Pelo menos por agora, vamos dar ouvidos aos especialistas.
Burgess agarrou a caneca e bebeu mais um gole em protesto.
– Nem pensar.
– Muito bem – retorquiu Hazel. – Vamos fazer como queres, mas se alguma coisa correr mal, tu é que ficas com o peso na consciência.
Burgess mais um gole.
– É só chá. E faz-me sentir melhor. Não sei do que é que o Dr. Beecham estava a falar, mas és tu que me tratas, não ele, e, para que conste, confio em ti, Dra. Sinnett.
Foi quase o suficiente para a fazer sorrir.
Não sorrira muito nos últimos dias. Além de ainda estar à espera da resposta do Dr. Beecham, Jack praticamente desaparecera de Hawthornden desde o reaparecimento de Munro, tentando arranjar um novo emprego.
– Podes ficar aqui – sussurrara-lhe Hazel, uns dias depois da chegada de Burgess, enquanto ainda estava deitada. Ele vestira uma camisa velha e o casaco que deixara pendurado nas costas da cadeira dela.
– Não posso simplesmente ficar aqui – retorquira Jack, espalhando água fria da bacia sobre a cara. – Preciso de arranjar trabalho. Sabe-se lá daqui a quanto tempo é que o teatro vai voltar a abrir. Se por agora é muito perigoso roubar cadáveres, tenho de arranjar outra coisa qualquer.
– É muito perigoso, Jack – concordou Hazel. – Não sabemos quem apanhou o Munro nem porquê. E a polícia não vai ajudar os ladrões de corpos… partindo do princípio de que não é a própria polícia que os anda a atacar. Por favor, promete-me que não vais voltar a roubar cadáveres.
– Prometo – murmurou Jack. Atou as botas, beijou Hazel na testa e partiu de Hawthornden a pé. Desde então, ela nunca mais o viu.
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20 de dezembro de 1817
Henry Street, n.º 2
Bath
Minha querida Hazel,
A notícia do teu noivado chegou finalmente a Bath e estou absolutamente deliciada. Que alegria saber que terás alguém para cuidar de ti e que o teu querido primo Bernard se tornará finalmente teu marido. O único acontecimento recente que me trouxe a mesma alegria foi o Percy ter (finalmente!) recuperado da constipação.
Estou ansiosa por te ver e ao teu futuro marido em Londres durante a temporada. Como sabes, o Percy vai estudar para Eton no próximo ano. Creio que talvez permaneça em Londres para estar perto dele, para o caso de a gripe regressar.
Estou muito orgulhosa de ti.
– A tua mãe que te adora, Lady Lavinia Sinnett
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