Anatomia: uma história de amor

Dana Schwartz · Capítulo 26 de 40

Páginas do PDF

Anatomia: uma história de amor

Capítulo 24

 

Sem um corpo novo para estudar, Hazel dedicou todo o tempo e atenção a fazer diagramas e a preservar os órgãos do único corpo que ela e Jack tinham recuperado com sucesso. Colheu amostras de cada uma das feridas causadas pela febre e submergiu as crostas em várias soluções: álcool, tónicos, sal e – por capricho – num pó de raiz de hipericão.

Mas um corpo não seria suficiente se ela queria passar no Exame Médico Real. Hazel mandou vir de Paris, Filadélfia e Roma cópias dos mais recentes livros sobre fisiologia e passou o máximo de horas que pôde a estudá-los. Leu e releu tantas vezes a edição do Tratado do Dr. Beecham que o Dr. Beecham lhe dera que as páginas começaram a ficar macias com os óleos dos dedos. Memorizou as notas escritas nas margens, na maioria pequenas anotações sem sentido. (Pequeno sistema venoso escrito ao lado de um diagrama da vesícula biliar; Tónico de mercúrio? na página sobre o tratamento da gripe comum.)

Ainda assim, Hazel tinha cada vez mais dificuldade em se concentrar. Parecia que, sempre que piscava os olhos, tinha outra visão aterrorizadora daqueles olhos cosidos abertos num horror cego, com um fio preto grosso puxado através de pálpebras finas como papel. Hazel lia até de madrugada para evitar ter pesadelos. Quando não estava a pensar no corpo horrível, punha-se a pensar nos lábios de Jack e na volta que o coração dera dentro do peito quando o rapaz os encostara aos dela. Nenhuma destas coisas a ajudaria a passar o exame. Não podia ficar a pensar nelas, pelo menos por enquanto.

E, assim, Hazel lia enquanto caminhava e lia na cama até altas horas da noite, quando as velas ardiam até ficarem em tocos. Em mais de uma ocasião, Iona teve de substituir o livro que Hazel tinha nas mãos ao pequeno-almoço por uma torrada para garantir que ela se mantinha bem alimentada. Iona também insistia com Hazel para que fosse até aos Jardins de Princes Street, naqueles que podiam ser os últimos dias razoavelmente agradáveis do ano, quando o sol fraco conseguia aquecer um pouco o céu cinzento.

– Vá lá, Menina – disse-lhe, já a preparar as botas de Hazel. – Não pode ficar presa aqui em cima durante todo o inverno. Pode levar os livros para os Jardins! Não seria agradável?

– Os meus livros são pesados, Iona. Pesam uma tonelada. Não ia conseguir arrastá-los para um local apropriado e agradável na relva, e os cavalos não me poderiam puxar, assim como aos meus livros, na carruagem para lá chegar.

– Bem – reagiu lentamente Iona –, talvez pudesse levar apenas um livro para ler nos jardins. Afinal de contas, só ia lá estar durante a tarde.

Hazel engasgou-se com o chá.

– Um livro? Um livro? Agora estás a ser absurda. E se eu o acabar? Ou se o achar impossivelmente aborrecido? O que devo ler se acabar o livro que levar ou se descobrir que é ilegível? E se não me prender a atenção? Alguém poderia entornar chá em cima dele. Pensa nisso. Alguém poderia entornar chá em cima do único livro que tinha e sentir-me-ia abandonada. Com franqueza, Iona, tens de usar a cabeça.

– Então, leve dois livros, Menina.

Hazel suspirou, mas acabou por concordar e partiu para a cidade com três livros na carruagem, consciente de que, provavelmente, Charles e Iona ficariam gratos por terem o castelo mais ou menos só para eles durante algumas horas.

 

Mesmo com o espectro da febre romana a pairar sobre Edimburgo, os Jardins de Princes Street continuavam cheios de pessoas a fazer piqueniques, a empurrar carrinhos de bebé, mulheres a caminhar aos pares, com guarda-sóis – todas as pessoas a celebrar o que, quase certamente, seria o último dia antes da primavera com o sol a brilhar, por mais ténue que fosse, por trás das nuvens e da névoa fumegante. Como era possível que estivessem todos tão contentes? Como podiam os ricos desprezar tão facilmente o caos e o terror que grassava o interior da cidade?

No entanto, pensou Hazel, ali estava ela própria a desfrutar do clima anormalmente quente, tentando estudar. Passa no exame e depois preocupa-te com o resto, disse para si própria. Mas passa no exame.

Hazel encontrou um local isolado na relva sob um enorme ulmeiro frondoso e espalhou os livros à sua frente: Tratado do Dr. Beecham, um segundo livro de anatomia e um romance chamado Sensibilidade e Bom Senso, publicado anonimamente e atribuído apenas a “Uma Senhora”. Hazel gostava da autora, fosse lá quem fosse, e levara o romance como recompensa, caso conseguisse completar a revisão do sistema pulmonar.

Hazel instalou-se na relva e puxou o Tratado do Dr. Beecham para refrescar a memória sobre as artérias dos pulmões, mas antes mesmo que conseguisse folhear até chegar às páginas que lhe interessavam, apareceu uma sombra sobre o livro, e Hazel levantou o olhar para ver Hyacinth Caldwater de pé, junto dela, com uma recente, mas enorme, barriga de grávida.

Hazel engoliu o pedaço de bílis que lhe subiu à garganta.

– Oh, Hazel, querida! – arrulhou a senhora Caldwater. – A sociedade tem estado num alvoroço desde o teu noivado! Saíste antes de dançar! Estás bem? E mais importante: Já marcaram uma data? Porque tenho simplesmente de esvaziar o meu calendário social, tem de ser. Não há dúvida de que o vosso casamento será o acontecimento da época. Imagino que Londres em peso estará presente?

Hazel suspirou e fechou o livro.

– Senhora Caldwater. Como sempre, é encantador vê-la.

– Tens absolutamente de me dizer o que pensaste quando o Bernard te pediu em casamento. Confesso que tínhamos pensado que ele ainda deixaria passar mais algumas temporadas até se declarar; vocês ainda são tão jovens. Têm estado tão ausentes esta época. – A senhora Caldwater soergueu uma sobrancelha conspiratória e inclinou-se como se fosse partilhar um segredo com Hazel, mas a voz continuou estridente como um sino de latão. – Metade de Charlotte Square está convencida de que tinhas conseguido seduzir um conde polaco e que o Bernard sabia que devia avançar enquanto ainda tinha uma oportunidade. Ouvi vários rumores de que a tua mãe estava farta das hesitações do Bernard e foi para Londres para te arranjar um noivo inglês e fazer ciúmes ao Bernard! Por que outra razão podia ela ter ido tão cedo? De certeza que está satisfeita por o noivado com o Bernard Almont estar confirmado. Ela vai voltar para casa, agora que estás noiva?

– A minha mãe está em Bath, com o Percy. De férias. Por causa da constituição delicada dele. Para evitar a febre.

O rosto cheio de rouge da senhora Caldwater tornou-se uma máscara de empatia.

– Oh, sim, claro. Oh, minha querida. A tua pobre mãe e tudo o que ela passou. Perdeu o filho mais velho, e o teu pai está fora a maior parte do ano. É difícil para ela, não é?

– É – disse Hazel, desfrutando menos da conversa a cada minuto que passava. – Imagino que seja.

Ignorando de forma hercúlea as tentativas educadas de Hazel para voltar a concentrar-se no livro, Hyacinth Caldwater voltou-se para mostrar o perfil crescente, pondo uma mão sob a barriga de grávida. A senhora Caldwater devia ter pelo menos 40 anos. Pelas delicadas rugas que partiam dos cantos exteriores dos olhos, pelo menos 50, calculou Hazel. No entanto, era inegável: a mulher estava grávida.

Apanhando Hazel a olhar, a senhora Caldwater fez um sorriso radiante.

– Dá para acreditar? É um milagre. O meu marido, o coronel, e eu temos tentado ter um filho desde que nos casámos, há um século. Ah, ah, ah. E agora, finalmente: puf!

– Puf – repetiu Hazel.

– Foi graças a uma consulta com o próprio Dr. Beecham. Falou-me de dietas, fez-me mastigar as pastas mais horrendas que se pode imaginar, mas, bem, está à vista. O homem é um génio. Horrivelmente caro, claro, mas vale cada vintém. Não faço ideia de como é que as pessoas conseguem sobreviver neste país, se não podem pagar aos melhores médicos.

– Vão para o hospital dos pobres – observou Hazel. – Muitas morrem lá.

A senhora Caldwell deu uma gargalhada, como se Hazel tivesse dito uma piada.

– Com franqueza, o hospital dos pobres! – Tornou a dar uma palmadinha na barriga. – Bem, nós os dois precisamos de ser devidamente alimentados. Por favor, dá cumprimentos meus à tua mãe e fica à vontade para tomar um chá a qualquer hora em Barton House. Estás tão magrinha! É um ultraje. Escandaloso! Eu própria te engordarei, se for preciso.

– Adeus, senhora Caldwater e parabéns pela sua bênção – despediu-se Hazel, e antes que a mulher pudesse voltar atrás com outra pergunta impertinente, abriu o livro e puxou-o para perto da cara. O Dr. Beecham era um génio, isso era certo. Embora Hazel tivesse de desconfiar ligeiramente do bom senso de alguém que trabalhasse para trazer mais Caldwaters ao mundo.

Hazel folheava o volume de Beecham quando algo caiu dele: um pequeno pedaço de pergaminho, tão dobrado que ela não reparara que estava invisivelmente preso algures entre as páginas. Desdobrou-o cuidadosamente: o pergaminho estava amarelecido e rasgado nas margens. Parecia ter vários anos, muitos mais do que o livro onde estava contido.

Era um desenho a tinta de uma mão humana, com os dedos descolados. As setas identificavam cada uma das veias que ligavam os dedos à palma da mão. Para Hazel, pareciam as notas de alguém pronto a realizar uma cirurgia intensiva.

O pergaminho era frágil como a asa de uma borboleta, a tinta quase desbotada. Seria possível que fosse uma nota do próprio Dr. Beecham original? Guardada e preservada pelo neto, que a atirara para uma pilha e acabara por se enfiar dentro de um dos seus livros? A caligrafia era inclinada e angular, mas perfeitamente precisa, com todas as letras regulares e exatas. Teria Beecham querido que ela a encontrasse? Recordações da mente científica mais brilhante da história escocesa recente, doadas para a inspirar, como um gesto de boa-fé?

Hazel desejava ter podido conhecer o primeiro Dr. Beecham, o homem que dedicara a vida à compreensão do corpo humano. Aquele desenho num pergaminho era o trabalho de um homem dedicado como um monge, um homem que estudara articulações e músculos e veias com tanta paciência e cuidado que os conseguia reproduzir com perfeição no papel. Hazel olhou do papel para a própria mão uma e outra vez. Era quase o suficiente para a fazer chorar.

Uma outra sombra atravessou-se no seu trabalho, alguém de pé junto dela, que tossiu para chamar a atenção e, por um momento terrível, Hazel convenceu-se de que Hyacinth Caldwater voltara para fazer mais perguntas sobre uns quantos temas íntimos ou desagradáveis. Hazel afastou o livro, pronta para uma desculpa educada, e deu com o noivo, Bernard Almont.

Ele voltou a tossir educadamente.

– Lamento perturbar a tua leitura. A estudar, presumo?

Hazel assentiu.

O primo estava com um casaco azul-marinho e umas calças cinzentas. O efeito, pelo menos para Bernard, era consideravelmente discreto e adulto.

– Posso sentar-me? – perguntou Bernard.

Mais uma vez, Hazel assentiu.

Bernard abriu um lenço e depois sentou-se ao lado de Hazel na relva.

– A minha intenção era ir a Hawthornden ou, pelo menos, enviar uma carta, mas tive muita dificuldade em arranjar coragem, suponho. Lamento a forma como agi no baile, como atirei o noivado para cima de ti. A forma como agi na passagem dos criados. Admito que talvez tivesse bebido mais champanhe do que era aconselhável, mas isso não é desculpa. – Clareou a garganta. – Não me comportei como um cavalheiro. Um pedido de casamento não devia ser um assunto público e, se quiseres recusar, prima, ficarei tremendamente triste, mas respeitarei o teu direito a fazê-lo.

O balão crescente de vergonha e embaraço e alívio – de tudo o que acontecera com Bernard – rebentou no peito de Hazel.

– Obrigada, Bernard – disse.

Bernard inspirou, satisfeito.

– Então… casas comigo? Por favor, diz que sim. Eu sei que tenho sido horrível, mas não há ninguém que eu consiga tolerar, nem de perto, como tu.

A memória sensual de Jack regressou à mente de Hazel, o calor que ele emanava, como o beijo dele fizera com que o peito apertasse e a cabeça acelerasse. Estava outra vez na sepultura com ele, os corações a bater em paralelo. Sentia os cabelos suaves na nuca dele, quando o envolvera com os braços, o cheiro almiscarado do suor, a flores de sabugueiro e hortelã, a doçura terrena que a fazia desejar poder fechar os olhos e viver toda a vida no dorso de um cavalo com ele atrás dela, a apertá-la.

Hazel pousou o livro e olhou para o rosto ansioso e expectante de Bernard. Estava a fazer-lhe uma pergunta para a qual ela já sabia a resposta, soubera-a durante toda a vida. Só havia uma vida para ela, se quisesse sobreviver.

– Sim, Bernard – sussurrou. – Caso contigo.

– Que maravilha! – Beijou-a, e Hazel inclinou-se para deixar que ele a beijasse. Manteve os olhos abertos, e viu as pestanas de Bernard a tremerem de prazer. – Vamos esperar pelo regresso da tua mãe à cidade para começar os preparativos a sério, mas a minha família vai querer uma festa em grande.

Hazel não sabia bem o que dizer. Limitou-se a assentir novamente e a apontar para o livro.

– Ah, pois, claro – disse Bernard. – Prometi que te deixava continuar a leitura. – Levantou-se e sacudiu a sujidade do lenço sobre o qual se sentara. Franziu a testa ao ver uma pequena mancha, e depois dobrou o lenço e tornou a metê-lo no bolso. Preparava-se para ir embora, mas antes de virar completamente as costas, fez uma pausa e levantou um dedo. – Há…? Peço desculpa por estar sequer a dizer isto, nem sei porque estou a perguntar, mas… tiveste outro pretendente? Sei como soa ridículo, mas tem havido uns rumores… Bem, sabes como estas coisas podem ser.

– Não – respondeu Hazel. – Nunca houve um conde russo ou um duque bávaro nem qualquer outra pessoa que a New Town tenha inventado para se divertir enquanto o teatro estiver fechado.

Bernard sorriu e fez uma vénia antes de ir embora. Hazel continuou a ler à luz cada vez mais fraca do sol, até ficar demasiado escuro para distinguir as palavras nas páginas, perguntando-se onde estaria Jack Currer naquele preciso momento e por que razão a mentira inocente que dissera ao primo lhe surgira tão prontamente.

OceanofPDF.com

De Observações do Diarista

Samuel Brass (Vol. 1, 1793):

 

Diga-me, por favor, o que aconteceu ao Dr. William Beecham, Baronete? Ninguém alguma vez o acusaria de ser um bon vivant, mas nos últimos meses parece que se retirou completamente da sociedade. Assisti ao almoço anual do Conde de Tooksbery, no Hampshire, na semana passada, e a condessa comentou que achava que o doutor não estava no seu perfeito juízo desde a morte da esposa. “E quem é que trata um médico que enlouquece!”, disse-me antes de ir consultar o Marquês de Fountaine sobre as tendências mais recentes da jardinagem.

A estimativa da condessa é generosa. Lábios menos amáveis sugeriram que a loucura do doutor está relacionada com uma obsessão pela alquimia e a Pedra Filosofal. Embora o doutor nunca tenha sido muito sociável, pelo menos era uma figura presente na cena social londrina. No ano passado, passou o verão na Ilha de Skye e simplesmente nunca mais regressou a Inglaterra. Lady Sordell insinuou que o doutor pode ter caído das boas graças da Família Real e que o retiro na Escócia era, na realidade, um exílio por ordem da Rainha Charlotte. Infelizmente, não acredito nisso. Tendo assistido a várias festas onde Beecham ficava infeliz a um canto, posso atestar pessoalmente que Beecham nunca desfrutou da companhia de alguém, a não ser da esposa, dos livros e da tartaruga de estimação. Não tenho dúvidas de que a retirada de Londres foi uma preferência pessoal da sua própria infeliz e insociável vontade.

OceanofPDF.com