Anatomia: uma história de amor

Dana Schwartz · Capítulo 29 de 40

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Anatomia: uma história de amor

Capítulo 27

 

Hazel registou a primeira morte de um paciente uma semana depois, um doente com febre romana que adormeceu uma noite depois de ter recusado a água fria que Hazel lhe oferecera, e nunca mais acordou. Não chorou enquanto o envolvia em lençóis e o puxava para a carroça, de forma a levá-lo para o laboratório da masmorra.

Jack encontrou Hazel a soluçar junto ao carvalho vermelho, com o cadáver ainda na carroça. Em silêncio, Jack começou a cavar uma sepultura.

– Tenho de o estudar, Jack – disse Hazel, quando viu o que ele estava a fazer. Quase não conseguia dizer as palavras por entre o choro. – Preciso de todos os cadáveres que conseguir arranjar.

– Este não, querida – respondeu Jack, num sussurro. – Conhecia-lo. Trataste-o. Podes enterrá-lo e chorá-lo. Não tens de o dividir aos pedaços. Ainda não.

Hazel não respondeu. Respirou fundo até parar de chorar, pestanejou para suster as lágrimas e voltou para a casa principal. Quando Jack acabou de enterrar o homem e voltou para Hawthornden, Hazel já tinha os olhos limpos e estava novamente a tratar doentes no solário.

Não havia escritos médicos sobre qualquer tipo de tratamento, quanto mais sobre uma cura, para a febre romana, por isso Hazel começou com remédios pequenos e inofensivos. Dava aos doentes chá com sumo de limão e mel. À tarde, insistia para que bebessem leite com sementes de cardamomo em pó, como o livro aconselhava que se tratasse a tuberculose. As ligaduras eram mudadas três vezes por dia, e o tecido ficava sempre pegajoso e com crostas. Quando conseguiam suportar o cheiro, dava-lhes chá de raiz de hipericão, que Jack preparava. Se ele o tinha bebido em criança e nunca ficara contagiado com a febre romana, talvez contivesse alguma propriedade que pudesse ajudar.

Estranhamente, parecia funcionar, pelo menos em alguns doentes. Uma hora depois de ter dado chá de raiz de hipericão a quatro doentes com febre romana, um deles bateu suavemente no copo e pediu a Hazel que trouxesse um baralho de cartas para jogarem uíste. No dia seguinte, aplicou o pó da raiz de hipericão diretamente nas bolhas.

As cicatrizes não desapareciam, mas a melhoria com a raiz em pó era inegável: carne que estava irritada e vermelha com bocados de pus ficava rosada e lisa. O primeiro doente com febre romana que chegou a Hawthornden, um pescador chamado Robert Bortlock, com umas suíças brancas e um nariz em forma de nabo, até tinha começado a pedir mais comida ao pequeno-almoço.

As crostas da febre romana, que estavam a sarar nas costas dos doentes, recordaram Hazel dos desenhos da varíola que vira nos livros.

Conhecia, claro, a história de Edward Jenner e da vacina contra a varíola – como o médico inglês notara que as mulheres locais que ordenhavam as vacas pareciam ser as únicas a não sucumbir à varíola e imaginara que a exposição à varíola das vacas tinha, de alguma forma, ensinado os corpos a defenderem-se da variante humana mais mortífera. Lorde Almont até já recebera Jenner num dos seus salões, e, embora na altura Hazel fosse demasiado jovem para absorver o que ele dizia, lembrava-se do cabelo grisalho e do lenço branco enrolado firmemente à volta do pescoço grosso e atado com um laço elegante abaixo do queixo.

Mas a inoculação já existia décadas antes disso. Os cientistas compreendiam o conceito, que era possível treinar um corpo para combater uma doença mortal injetando uma versão enfraquecida da mesma, e antes de Jenner e das vacas, as pessoas já usavam as crostas cicatrizadas da varíola, moídas num pó fino, que injetavam sob a pele.

Porque é que ninguém experimentara algo semelhante com a febre romana? Era uma doença infecciosa em muito menor escala do que a varíola, mas, certamente, se a mesma técnica funcionasse, os médicos de Edimburgo poderiam salvar milhares de vidas. Seria possível que houvesse tão poucos casos de cura da febre romana que a inoculação nem sequer parecesse uma possibilidade? Hazel imaginou que devia pelo menos haver qualquer coisa na literatura, um artigo no Scottish Journal of Medicine ou um estudo publicado em Londres. Mas não encontrou o que quer que fosse. Decidiu escrever ao Dr. Beecham, da Sociedade de Anatomistas, pedindo-lhe a opinião.

Dr. William Beecham III

Real Sociedade de Anatomistas

Edimburgo

Caro Dr. Beecham,

Espero que esta carta o encontre bem e asseguro-lhe que

continuo a estudar muito para o Exame Médico. Como parte do

meu estudo, comecei a fazer exames rudimentares de vários

escoceses que sofrem de uma variedade de enfermidades médicas,

incluindo, lamento dizê-lo, a febre romana. Espero que perdoe a

minha insolência, mas gostaria de lhe pedir a opinião sobre o

assunto. Foi feita alguma experiência no que diz respeito à

inoculação contra a febre romana? A conselho de um rapaz local, e

com base nas suas memórias de um remédio popular infantil, tratei

doentes com um chá feito de raiz de hipericão e, ao ver resultados

positivos, adicionei uma cataplasma de raiz de hipericão em pó ao

penso que apliquei sobre as bolhas. O efeito tem sido encorajador.

Tão encorajador, de facto, que pensei que talvez as crostas

cicatrizadas pudessem ser usadas numa inoculação. Sei que o seu

horário deve ser proibitivo, mas, se arranjar tempo, por favor,

escreva-me.

Com os meus respeitosos cumprimentos,

Hazel Sinnett

Castelo de Hawthornden

 

No mínimo, ele poderia orientá-la para a literatura adequada da comunidade científica. Mas, bem lá no fundo, Hazel fantasiava sobre qual poderia ser a resposta dele, sobre a hipótese de poder escrever de volta uma carta salpicada de tinta devido à excitação, pontuando cada frase com um ponto de exclamação, porque ela tinha descoberto, a resposta sempre estivera lá! E mais ninguém teria de sofrer de febre romana, porque a vacina podia ser enviada para toda a Escócia. A sociedade de Edward Jenner celebrá-la-ia com um jantar e um evento de gala. O próprio rei iria requisitar a presença dela na corte. Dificilmente precisaria sequer do Exame Médico; seria instantaneamente a médica mais famosa do reino, tudo antes dos 20 anos.

Quando não estava no laboratório a examinar um novo doente ou no primeiro andar do Castelo de Hawthornden, andando de cama em cama, Hazel dava consigo parada no átrio de entrada, à espera da resposta de Beecham. Quando ouviu uma pancada na porta da frente do castelo, sentiu um nó no estômago. Pela janela, viu Jack no relvado sul, a ensinar a Charles os truques básicos da luta de espadas.

– Não, não – gritou a Iona. – Eu vou à porta. – Alisando as saias, abriu a porta, mas deparou-se com uma coisa ainda mais inesperada do que uma carta.

– Os meus cumprimentos, Menina – disse o rapaz, curvando-se num arco profundo. Tinha a cara e o cabelo cobertos de fuligem. Quando se endireitou, sorriu para ela, mostrando vários dentes em falta. – Ouvi dizer que o Jack Currer tem parado por aqui. Diga-lhe que o Munro voltou do mundo dos mortos.

Surpreendida, Hazel mandou o rapaz entrar e ajudou-o a tirar o casaco. Uma das mangas ficou a abanar, vazia. Aquele rapaz, o Munro desaparecido, regressara ao mundo dos vivos, mas só com um braço.

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