Anatomia: uma história de amor

Dana Schwartz · Capítulo 28 de 40

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Anatomia: uma história de amor

Capítulo 26

 

 

O afeto que em tempos Jack sentira por Isabella parecera tão real, tão imediato e tão importante.

No entanto, na noite seguinte, ao descer em direção ao riacho em cuja margem Hazel estava sentada, percebeu uma coisa: o amor por Isabella fora como ver uma vela numa pintura, uma pintura de um mestre que capta a luz e o brilho que a vela lança sobre tudo em redor, mas ainda assim uma chama feita de óleo sobre tela. Quando olhou para Hazel, a chama estava viva e a lamber o ar em volta. Sentiu o calor e a força, ouviu o crepitar. Estava a ver fogo, sob a forma de uma pessoa, pela primeira vez.

– Foste espantosa – elogiou Jack. – As coisas que fazes, as coisas que consegues fazer. Foi… És impressionante.

Hazel levantou os olhos, mas continuou sentada na margem.

– Não sei o que ando a fazer. Eu estava aterrorizada, Jack.

– O quê? Aterrorizada?

Hazel assentiu.

– Uma vida nas minhas mãos? E se tivesse feito asneira? E se tivesse magoado a bebé ou a Isabella? Nem sequer sabia o que havia de fazer. Como poderia viver com isso?

Jack sentou-se ao lado dela e olhou para o gotejar da água sobre as pedras. O castelo lançava uma sombra escura sobre elas. No dia seguinte ao parto, conseguiram levar Isabella e a bebé para a casa principal, onde Isabella poderia ficar no antigo quarto de George.

– Fizeste tudo na perfeição – assegurou Jack. – A bebé é linda.

– Desta vez – retorquiu Hazel. Fez uma pausa, e Jack ficou a pensar se teria cometido um erro ao descer para lhe fazer companhia, quando Hazel voltou a falar. – Costumava ser tão confiante. E isso é que é estranho: costumava pensar que sabia tudo, que podia fazer qualquer coisa. E depois vi em primeira mão quão fina é a linha entre estar tudo bem e ficar tudo devastado para sempre, e de repente tive consciência de que não sabia nada. Não passo de uma rapariga idiota, com a mania de me mascarar e de fingir. Ainda nem sequer passei no Exame Médico. O que é que eu penso que ando a fazer?

Jack pegou na mão de Hazel. Estava fria, quase como se fosse de cera. Branca e pálida.

– Hazel – sussurrou ele. – És a pessoa mais brilhante que já conheci em toda a minha vida. És incrível.

– Estou assustada – reconheceu Hazel.

– Ainda bem – retorquiu Jack. – Não há nada de errado em estar assustado.

Hazel baixou a cabeça sobre o peito de Jack, e o rapaz pôs o braço à volta dela. Nessa altura, começou a chover, uma chuva que começou tão suavemente que quase parecia uma picada de alfinetes.

– Vamos sair da chuva – disse Jack, e ajudou a Hazel a levantar-se. Começou a guiá-la pelo caminho em direção ao castelo, mas Hazel afastou-se.

– Não – soltou. – Ainda não.

Hazel e Jack caminharam em direção aos estábulos, onde foram acolhidos pelo ar quente e seco, com um cheiro agradável a palha.

Tiraram umas mantas de cavalos das prateleiras e sentaram-se sob o telhado do celeiro com as portas abertas, a ver a chuva a cair do céu escuro sobre os contornos da balaustrada de pedra do Castelo de Hawthornden. O sol já estava a pôr-se. Os dias curtos de inverno tinham chegado a Edimburgo juntamente com um vento amargamente frio.

Hazel meteu as mãos dentro do casaco de Jack para as aquecer.

– Ainda não consegui aquecer – sussurrou.

Nesse momento, Jack inclinou-se para a beijar, pondo os lábios tão ternamente sobre os dela que pareciam mais uma sombra do que carne. E então ela beijou-o também, e passado pouco tempo, já estavam a beijar-se tão profundamente que por um instante não se sentiam como se fossem duas pessoas separadas. Começara a chover com mais força fora da armação de madeira do estábulo, mas nenhum deles se importou. Jack pressionou Hazel contra uma viga e tirou-lhe os ganchos do cabelo, deixando que os caracóis lhe caíssem para lá dos ombros. Afundou o rosto no cabelo dela e respirou profundamente, e depois descreveu com um dedo a curva da face.

– Santo Deus – sussurrou –, és tão linda, Hazel Sinnett.

– Nunca ninguém me tinha dito que eu era linda – disse ela. Nem sequer se tinha apercebido de que era verdade até o ter dito em voz alta.

Jack deixou ficar as mãos sobre as faces da rapariga durante alguns batimentos cardíacos. Depois, inclinou-se e beijou-lhe suavemente as duas pálpebras.

– Alguém devia dizer-te que és linda sempre que o sol nasce. Alguém devia dizer-te que és linda às quartas-feiras. E à hora do lanche. Alguém devia dizer-te que és linda no dia de Natal e na véspera de Natal e na véspera da véspera de Natal e na Páscoa. Alguém devia dizer-te na noite de Guy Fawkes e na noite de Ano Novo e no dia 8 de agosto, só porque sim. – Beijou-lhe gentilmente os lábios mais uma vez, e depois afastou-se e olhou-a nos olhos. – Hazel Sinnett, és o ser mais milagroso que alguma vez encontrei e vou pensar em como és bela até ao dia em que morrer.

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