Anatomia: uma história de amor

Dana Schwartz · Capítulo 2 de 40

Páginas do PDF

Anatomia: uma história de amor

Prólogo

 

Edimburgo, 1817

– Despacha-te!

– Estou a cavar o mais depressa que consigo, Davey.

– Então, cava mais depressa.

A noite praticamente não tinha luar, por isso Davey, de pé sobre a relva molhada, não conseguiu ver Munro revirar os olhos para a sepultura que cavava. Estava a demorar mais tempo do que o normal – a pá de madeira que Munro conseguira roubar das traseiras da estalagem em Farbanks era mais pequena do que a de metal com que tinha começado naquela noite. Mas também fazia menos barulho, e isso era o mais importante. Desde que o Cemitério de Thornhill contratara um guarda para vigiar as sepulturas, era essencial não fazer barulho. O guarda já tinha apanhado três dos seus amigos e eles não conseguiam pagar as multas. Davey nunca mais os vira na rua.

Havia qualquer coisa de errado. Davey não conseguia dizer o que era, mas havia algo de estranho naquela noite. Talvez fosse o ar. O fumo gorduroso que cobria a Cidade Velha de Edimburgo era sempre denso, pesado com o cheiro do óleo de cozinha, de tabaco e da combinação nociva de dejetos humanos e sujidade que mandara os ricos para as novas casas na encosta e do outro lado dos Jardins de Princes Street. Naquela noite, não havia vento.

Davey não disse nada a Munro sobre o estranho sentimento que o invadira. Munro ter-se-ia limitado a rir dele. Devias estar alerta para com os vigias, não com sentimentos estranhos, diria Munro.

Ao longe, Davey conseguia distinguir uma vela a arder na casa paroquial por trás da igreja. O padre estava acordado. Àquela distância, seria possível ele ver o cemitério por entre a escuridão? Provavelmente, não, mas e se decidisse ir dar um passeio à noite?

– Não podes fazer isso mais depressa? – sussurrou Davey.

A resposta chegou sob a forma do som inconfundível de madeira a bater em madeira. Munro tinha chegado ao caixão. Os dois rapazes sustiveram a respiração para o passo seguinte: Munro levantou a pá o mais alto que pôde e baixou-a com toda a força. Davey estremeceu com o estampido da tampa a partir-se. Ficaram à espera – de um grito, de cães a ladrar –, mas nada se mexeu.

– Atira-me a corda – disse Munro. Davey assim fez e, ao fim de pouco tempo, Munro já tinha atado habilmente a corda à volta do pescoço do cadáver. – Agora, puxa.

Enquanto Davey puxava a corda, Munro, ainda dentro da sepultura, ajudou a guiar o corpo do pequeno buraco do caixão até ao mundo à superfície, um estranho nascimento ao contrário de um corpo já morto. Munro conseguiu tirar os sapatos do morto quando saiu do caixão, mas foi Davey quem o despiu e atirou as roupas outra vez para a cova. Roubar um cadáver era ilegal, mas se tirassem algum bem da sepultura, estariam a cometer um crime.

O corpo era de uma mulher, tal como Jeanette lhes dissera. Jeanette trabalhava como espia para o ladrão de corpos que lhe pagasse mais nessa semana, intrometendo-se nos funerais, chegando-se o mais à frente possível para ter a certeza de que quem estava a ser enterrado não tinha uma dispendiosa placa de pedra por cima do caixão para impedir exatamente o crime que estavam a cometer.

– Nem pedra nem família – tinha garantido Jeanette, quando apareceu à porta da casa de Munro, em Fleshmarket Close, a coçar o pescoço e a mostrar-lhe um sorriso largo por baixo de uma cortina de cabelo acobreado. Jeanette não podia ter mais de 14 anos, mas já lhe faltavam uns quantos dentes. – Ou pelo menos não tinha muita família. O caixão também parecia barato. Pinho ou coisa do género.

– Não estava grávida, pois não? – perguntou Munro, esperançoso, erguendo as sobrancelhas. Os médicos estavam tão desejosos de dissecar corpos de mulheres grávidas que estavam dispostos a pagar o dobro. Jeanette abanou a cabeça e estendeu a mão para receber o dinheiro. Assim que anoiteceu, Munro e Davey fizeram-se ao caminho com o carrinho de mão, pás e corda.

Davey desviou os olhos enquanto tirava o vestido cinzento simples do cadáver. Mesmo às escuras, sentiu-se a corar. Nunca despira uma mulher viva, mas já perdera a conta às vezes que tinha tirado a roupa a uma mulher no dia a seguir a ter sido enterrada. Olhou para a lápide meio escondida pela terra e pela escuridão: PENELOPE HARKNESS. Obrigado pelos oito guinéus, Penelope Harkness, pensou.

– Manda-o para aqui – pediu Munro, lá de baixo. Davey atirou-lhe o vestido. Assim que as roupas da mulher estavam novamente no caixão, Munro içou-se de dentro da cova para a relva molhada. – Já está – disse, batendo as mãos para sacudir a terra. – Vamos encher outra vez a cova e despachar isto. – Munro não o disse, mas também sentiu qualquer coisa estranha, uma inusitada rarefação do ar que tornava mais difícil respirar. A vela que se via pela janela da casa paroquial já se apagara.

– Não acreditas que ela morreu da febre, pois não? – sussurrou Davey. A pele da mulher não tinha pústulas nem sangue, mas, por aqueles dias, era impossível ignorar os rumores. Se a febre romana já tinha realmente voltado a Edimburgo…

– Claro que não – replicou Munro, com convicção. – Não sejas parvo. – Davey suspirou e fez um sorriso débil na escuridão. Munro sabia sempre como fazê-lo sentir-se melhor, afastar os medos que lhe rastejavam para o cérebro como ratos nas paredes.

Em silêncio, os rapazes acabaram o trabalho. A sepultura estava tão bem coberta de terra e ervas daninhas como nessa manhã, e o corpo, rígido com o rigor mortis, estava no carrinho de mão, tapado com uma capa cinzenta.

Havia qualquer coisa a mover-se na extremidade do cemitério, junto ao muro baixo de pedra que se estendia por todo o lado oriental. Davey e Munro viram-na e voltaram a cabeça para seguir o seu movimento, mas quando os olhos se adaptaram à escuridão, já tinha desaparecido.

– Era só um cão – disse Munro, com mais confiança do que aquela que sentia. – Vamos embora. O médico gosta que voltemos antes do nascer do dia.

Davey empurrou o carrinho, e Munro foi andando ao lado dele, agarrando o cabo da pá com mais força do que era habitual. Já estavam quase a sair do cemitério quando três homens de capa lhes apareceram no caminho.

– Olá – disse o primeiro homem. Era o mais alto dos três, e parecia ainda mais alto porque estava de cartola.

– Bela noite – continuou o segundo, careca e mais baixo do que os outros.

– Perfeita para um passeio – interveio o terceiro, cujo sorriso amarelo era visível até às escuras sob o bigode.

Davey percebeu que não eram guardas. Talvez fossem ladrões de corpos, como eles.

Munro, claramente, pensou o mesmo.

– Saiam da frente. Ela é nossa. Vão bater a outra porta – ameaçou, pondo-se à frente de Davey e do carrinho de mão. A voz tremeu-lhe ligeiramente.

Davey olhou para baixo e viu que os três homens tinham sapatos de cabedal fino. Não havia qualquer ladrão de corpos que usasse sapatos daqueles.

Os três homens riram-se quase em uníssono.

– Tens toda a razão – disse o mais baixo. – E, claro, nem nos passa pela cabeça chamar os guardas. – Deu um passo em frente, e Davey viu uma corda por baixo da manga da capa dele. O que aconteceu a seguir foi inacreditavelmente rápido: os três homens avançaram, e Munro passou por eles com um salto e correu a toda a velocidade em direção à cidade.

– Davey! – gritou. – Corre, Davey!

Mas Davey estava paralisado, ainda atrás do carrinho de mão, obrigado a hesitar naquele momento entre abandonar ou não Penelope Harkness, enquanto via Munro correr ainda mais depressa e desaparecer. Quando os seus pés o deixaram seguir o amigo, já era tarde de mais.

– Apanhei-te – disse o homem alto, pondo a mão carnuda à volta do pulso de Davey. – Vamos lá, isto não vai doer nada. – O homem tirou uma faca do bolso.

Davey tentou libertar-se, mas, por mais que puxasse ou se torcesse, não se conseguiu soltar.

O homem com a faca fê-la deslizar delicadamente pelo braço de Davey, revelando um trilho de sangue vermelho que, na escuridão, parecia praticamente negro.

Davey estava demasiado assustado para gritar. Viu em silêncio, sem sequer pestanejar, tamanho era o pânico, o homem careca a tirar do bolso um frasco com um líquido arroxeado e viscoso, abri-lo e estender o braço.

O homem da cartola abanou a faca por cima do frasco até uma gota do sangue de Davey cair para o líquido que estava lá dentro. O líquido começou por escureceu e depois mudou de cor, para um amarelo brilhante e dourado. Iluminou a cara dos três homens, todos com um sorriso rasgado.

– Maravilhoso – exclamou o do bigode.

 

No dia seguinte, enquanto fazia a sua caminhada matinal, o padre encontrou um carrinho de mão abandonado com o corpo rígido de uma mulher que enterrara no dia anterior. Abanou a cabeça. Os ladrões de corpos da cidade estavam a ficar mais atrevidos – e mais perigosos. Onde iria Edimburgo parar?

OceanofPDF.com

De Tratado de Anatomia do Dr. Beecham;

 

Ou, A Prevenção e Cura das Doenças Modernas

(17.ª Edição, 1791), pelo Dr. William R. Beecham:

 

Qualquer médico que deseje tratar eficazmente qualquer doença ou ferimento caseiro vulgar tem primeiro de saber anatomia. O conhecimento do corpo humano e de todas as partes que o compõem é elementar para a nossa profissão.

Neste tratado, apresentarei os fundamentos de anatomia que descobri ao longo das minhas décadas de estudo, juntamente com as ilustrações que eu próprio desenhei. No entanto, as ilustrações não substituem a descoberta ativa, e em primeira mão, da anatomia através da dissecção, e nenhum futuro médico poderá esperar jamais prestar um serviço à nossa profissão sem primeiro dissecar, pelo menos, uma dúzia de corpos e estudar as partes que os compõem.

Embora alguns dos meus colegas de profissão em Edimburgo recorram a medidas nefastas, contratando os serviços ilegais dos chamados ladrões de corpos, que roubam os corpos de inocentes, os cadáveres fornecidos aos meus alunos na minha escola de anatomia em Edimburgo são sempre os infelizes homens e mulheres vítimas da forca, que, segundo a lei britânica, estão destinados a prestar um último serviço aos seus compatriotas como penitência final.

 

OceanofPDF.com