Anatomia: uma história de amor

Dana Schwartz · Capítulo 21 de 40

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Anatomia: uma história de amor

Capítulo 19

 

 

As pancadas suaves assustaram Hazel, fazendo-a sair de um foco hipnótico. Estava a dissecar um estômago para ver se conseguia fazer um diagrama dos vasos sanguíneos. Ignorou o barulho, pensando que provavelmente seria o som de um pequeno pássaro, um daqueles pretos que chilreavam à volta das árvores ao longo do caminho, mas depois voltou a ouvir as pancadas, um pouco mais nervosas. Truz, truz, truz!

– Menina Sinnett! – Era o sussurro abafado e em pânico de Iona, que tornou a bater. – Por favor, Menina.

Hazel suspirou e limpou um pequeno bisturi ao avental. Tinha-o usado para separar as camadas de revestimento do estômago e estava a fazer excelentes progressos. Mas, com relutância, foi até à porta, apercebendo-se apenas quando se moveu de quão doridos estavam os ombros e o pescoço. Devia estar a trabalhar há horas, tão concentrada na tarefa que tinha em mãos que perdera a noção do tempo. Hazel abriu a porta e ficou admirada quando percebeu que já era de dia.

Iona parecia aterrorizada, e depois olhou de relance para o avental ensanguentado de Hazel e ficou ainda mais aterrorizada.

– Não sabia se a devia incomodar ou não, mas…

Depois de tantas horas na penumbra das velas, que se iam consumido lentamente, Hazel teve de levantar o braço para proteger os olhos raiados de sangue do brilho do exterior.

– Quer dizer que tinhas mesmo de me incomodar? – interrogou. Hazel estivera tanto tempo sem falar que a voz tinha um crocitar estranho e as palavras saíram com mais brusquidão do que pretendia. – Desculpa, não queria que isto saísse assim. Do que precisas, Iona?

Iona estava a contorcer as mãos.

– É que é esta noite, quer dizer, daqui por algumas horas. É o baile.

O dia estava nublado, com nuvens cinzentas espessas e baixas no céu. Era a Escócia. Era suposto o tempo ser deprimente. Então, como é que ainda havia tanta claridade? Hazel queria voltar como um cogumelo para a humidade sombria.

– Que baile?

Iona olhou para lá dela, como se houvesse outra criada que a pudesse aliviar do desagradável dever de ter de voltar a dar aquela informação a Hazel.

– O hum… O baile dos Almont.

Hazel pestanejou enquanto a informação chegava a uma qualquer parte do cérebro responsável por aquele tipo de coisas.

– Oh, bolas. Bolas, bolas, bolas!

Iona olhou para ela com compaixão.

– Já passa do meio-dia, Menina.

– Já passa do meio-dia? Já? Como?! – Tinha estado a trabalhar toda a noite e depois toda a manhã, sem sequer dar por isso. Saiu da masmorra para o caminho lamacento e, ao olhar de relance para a cara de Iona, percebeu como devia cheirar mal. O cabelo estava emaranhado, com uma combinação gomosa de tinta e sangue de cadáver, já para não falar do que, provavelmente, estava debaixo das unhas.

– Vai correr tudo bem – tranquilizou Iona, embora tudo na expressão dela deixasse bem claro que achava bastante provável que não corresse tudo bem. – Disse ao Charles para lhe preparar o banho.

– Tinha de ser – soltou Hazel, dando longos passos pela colina até à entrada principal do castelo. – A única festa da temporada a que não posso faltar. – Iona corria atrás dela. Tinha pela frente uma tarde longa e infeliz, e, Hazel sabia, uma noite ainda mais longa e infeliz.

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