Anatomia: uma história de amor

Dana Schwartz · Capítulo 24 de 40

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Anatomia: uma história de amor

Capítulo 22

 

 

Jack já estava à espera lá fora quando Hazel saiu. Estava encostado ao muro de pedra baixo construído um século antes para não deixar passar as ovelhas, a descascar uma laranja com os dedos compridos e a deitar a polpa para a relva. Assim que a viu a aproximar-se, assobiou baixinho.

– Olha quem chegou – disse, observando-a de alto a baixo.

Hazel fez uma pequena vénia, na brincadeira. Vestia calças e uma camisa de George, mas calçara umas botas sujas e desconfortáveis que tinham pertencido a Charles. Nenhuns dos sapatos de George pareciam apropriados para um ataque a uma campa, e Charles ficara mais do que feliz por trocar umas botas de trabalho por um par de botas de montar de George.

Aquele tremor familiar voltou ao peito de Hazel quando viu Jack ali parado, como se estivesse reclinado num barco no Tamisa. Só o estalar dos dedos depois de descascar a laranja revelou o quão nervoso estava.

Não eram raras as vezes em que Jack passava algumas semanas sem ter qualquer notícia de Munro. Aquela parceria era uma questão de conveniência, e muitas vezes Munro preferia ter por companheiro um novato, partindo do princípio de que seria mais fácil de enganar, não lhe pagando o que era devido. Mas nenhum dos velhos conhecidos de Fleshmarket vira Munro, e a estalajadeira da estalagem junto às docas, onde Munro ficara nos últimos meses, disse que ele não tinha ido lá buscar as coisas dele. A mulher, magra e com uma pele macilenta, deixara Jack ir ao quarto de Munro pelo baixo preço de um sorriso encantador e da mentira que era irmão dele. O quarto estava exatamente como se Munro tivesse saído para ir escavar uma sepultura: umas mantas sujas na cama por fazer, um par de sapatos extra no canto do armário e – Jack sabia onde a procurar entre a camada de palha – uma bolsa com moedas cosida na parte de baixo do colchão nojento. Munro podia ter saído da cidade sem se despedir, mas nunca teria ido embora sem o dinheiro. Jack deixou a bolsa das moedas exatamente como a encontrara e prometeu em silêncio a Munro, quando fechou a porta, que havia de descobrir o que lhe acontecera. Mesmo que estivesse morto, Munro merecia um funeral cristão. Até os pecadores mereciam uma lápide.

Jack lambeu o sumo dos dedos e deixou que o ácido picante do citrino o fizesse sair daquele torpor.

– Tenho de admitir – disse, aproximando-se mais de Hazel e vendo o cabelo escondido debaixo do chapéu – que como homem é mais convincente do que imaginei.

Hazel revirou os olhos. Atrás de Jack estava um carrinho de mão com duas pás, uns panos e velas.

– Também tenho fósforos e uma vela para o caso de precisarmos de luz, mas descobri que é melhor tentarmos habituar os olhos à escuridão o mais depressa possível. Temos o caminho para isso.

O cemitério atrás de Saint Dwynwen não ficava muito longe; era menos de uma hora de caminho. Fosse qual fosse o perigo que andava a rondar os ladrões de corpos, era mais avisado ficar fora da cidade durante uns tempos e evitar a zona fina do cemitério de Greyfriars, mesmo no centro da Cidade Velha de Edimburgo. Demasiadas distrações, demasiada gente, um risco demasiado grande.

Talvez fosse um exagero de precaução, mas não pedira a Jeanette que encontrasse um corpo. Não tinha qualquer motivo para desconfiar de que a rapariga tivesse algo que ver com o desaparecimento de Munro, mas também não havia motivos para confiar nela, e continuar vivo implicava confiar apenas em si mesmo. E, pelos vistos – pensou para consigo –, confiar na filha de uma senhora nobre que, por qualquer razão, gostava de se mascarar. Pensando bem, porque é que confiava nela?

Tentou descobrir uma razão plausível: uma das primeiras lições que aprendera nas ruas estreitas e nos becos do lado pobre de Edimburgo tinha sido não confiar em alguém que tivesse menos a perder do que ele. Sabia como era a vida daquelas meninas da sociedade, as restrições que lhes eram impostas, quão precário era o precipício entre um futuro promissor e a ruína. Imagine-se o que seria da reputação dela – da reputação da família – caso se soubesse que andava fora de casa à noite, sem uma dama de companhia, com um rapaz pobre que trabalhava num teatro. Ela também tinha todo o interesse em não ser apanhada naquela noite. Era essa a lógica dele.

Mas se quisesse ser honesto consigo próprio – se se permitisse reconhecer a minúscula verdade escondida algures no cérebro –, não tinha motivo algum para confiar em Hazel Sinnett, mas a verdade é que confiava.

Ela era diferente de todas as raparigas que ele conhecera até então – o som das sílabas era mais pequeno e refinado do que o de Jeanette ou até de Isabella. As raparigas do teatro usavam uma maquilhagem oleosa e espessa; havia qualquer coisa de espantoso em estar junto de Hazel, conseguir ver-lhe as sardas e os cabelos finos caídos sobre as faces.

Jack não sabia explicar. Não era mais bonita do que Isabella. Era baixa, arrogante e rica. Tinha o nariz fino, feições arrapazadas e pestanas e sobrancelhas demasiado claras para o cabelo escuro. No entanto…

No entanto.

Desde que conhecera Hazel Sinnett à porta da Sociedade de Anatomistas, dava consigo a desenhar mentalmente a linha do maxilar dela antes de adormecer. Via o arco fino dos lábios pálidos, as sardas quase invisíveis nas maçãs do rosto. O riso dela estava-lhe cauterizado na memória e não saía de lá: era um eco, mas não diminuía. Uma assombração. Desde o momento em que vira pela primeira vez aqueles enormes olhos castanhos, da cor quente da madeira queimada ou de âmbar polido, a refletir o pôr do sol, Jack tinha confiado nela e continuaria a confiar por muito mais tempo, apesar dos avisos de prudência do seu instinto de sobrevivência.

– Disseste “caminho”? – repetiu Hazel. – Porque haveríamos de ir a pé? Disse ao cocheiro para preparar dois cavalos. Sabes andar a cavalo, não sabes?

– Claro que sei – mentiu Jack. – Só não queria que ficasse preocupada com a possibilidade de os criados saberem… das suas idas e vindas a meio da noite. Não queria causar um escândalo nem nada disso.

Hazel olhou para ele de lado, avançando até aos estábulos.

– A minha casa sempre foi um pouco estranha. A ausência do meu pai, a minha mãe… bem, dito de uma maneira simples, o meu irmão morreu e a minha mãe ficou de luto, e não se preocupou em deixar de estar de luto. Tudo isto para dizer que ninguém se importa muito com o que eu faço ou onde vou, especialmente porque nunca tive de passar pelo pesadelo de ser apresentada à sociedade de Londres, pois estou praticamente noiva desde bebé.

– Está noiva? – Claro que estava noiva, pensou Jack, as mulheres como ela estavam sempre noivas. Eram, a bem dizer, criadas para isso. Porcas engordadas para a matança.

Hazel fez uma pausa. A resposta habitual ficou-lhe presa na língua, e a recordação do que acontecera no Baile dos Almont surgiu-lhe de rompante na cabeça, originando ondas de emoção: primeiro, terror, depois, surpreendentemente, alívio pelo facto de o inevitável ter finalmente acontecido. Hazel deu uma gargalhada, uma boa gargalhada que espantou uns quantos pássaros das árvores onde estavam.

– Acho que estou noiva.

– Não tenho a certeza de que essa seja a reação habitual. A maioria das noivas ficam todas excitadas com essas coisas.

– Ainda não o tinha dito em voz alta. Até agora, quase me parecia um pesadelo.

– Porquê? O homem é feio? Tem marcas de bexigas? Não, deixe-me adivinhar: Vai a caminho dos 60 e tem uma grande pança?

– Por acaso, não. Fez 18 anos em março e, pelo que sei dessas coisas, é bastante bonito. É o Visconde Bernard Almont. Não o conheces, pois não?

Jack abanou a cabeça.

– Mas conheço a casa – disse, inadvertidamente. Hazel olhou para ele com uma expressão estranha. – Toda a gente conhece Almont House. Uma casa grande. Na New Town. – E depois, para mudar rapidamente de assunto: – Então, mas porque é que não quer casar? Viver naquela casa grande, ter muito dinheiro e essas coisas todas?

– Não acredito que deixem viscondessas dissecarem cadáveres – replicou Hazel.

– Como é que iam encaixar isso nos exigentes horários dos compromissos sociais?

– E de certeza que iam ficar com as luvas sujas.

Jack prendeu atrás da orelha um caracol que estava a dançar-lhe na cara.

– Então, deixam viscondessas noivas dissecarem cadáveres?

– Só se não descobrirem. – Hazel sorriu ao abrir o portão do estábulo e encaminhou Jack para junto de um cavalo esbranquiçado preso a um poste, já com a sela montada. Fez uma festa no focinho do cavalo.

O animal tinha o pelo brilhante, conseguiu ver Jack, e um revestimento aveludado cor-de-rosa à volta do nariz, mas o que mais chamou a atenção do rapaz foi a altura alarmante e colossal do cavalo.

Hazel percebeu, pela expressão dele, que Jack estava com medo.

– Eu sei, são maiores do que os póneis que habitualmente são vistos por aí. O meu pai mandou-os vir de Londres. São árabes. Mas são amorosos, a sério. Este é meu. Miss Rosalind – revelou Hazel, acariciando com ternura as ancas da égua castanha, que respondeu com um relincho afetuoso. Hazel viu a expressão de Jack e revirou os olhos. – Eu era pequena quando lhe pus o nome. Não sabia que nomes se davam aos cavalos. Esse é teu, por esta noite. O Betelgeuse.

Apontou com a cabeça para um garanhão tão preto que Jack nem dera por ele, um animal medonho com umas patas finas que era capaz de ser da altura de um primeiro andar. O cavalo, Betelgeuse, deu um relincho desconfiado.

– É lindo – elogiou Jack.

Hazel montou Miss Rosalind com facilidade e tirou as rédeas do poste com um único movimento do pulso. Guiou a égua num trote ligeiro, descrevendo um círculo.

– Não vale a pena ficares aí de pé a fazer cerimónia. Vá, salta lá para cima.

O cavalo, Betelgeuse, atirou a cabeça para trás e olhou diretamente para o rapaz. Não parecia mais satisfeito com a perspectiva de Jack o montar do que o próprio Jack.

– Espere! Pare! – pediu Jack a Hazel, quase sem conseguir disfarçar o alívio. – Tenho o carrinho de mão. Não vamos conseguir trazer o corpo em cima do cavalo. Acho que, afinal, é melhor irmos a pé.

Hazel saltou da sela para o chão, como se as leis da gravidade não se aplicassem a ela.

– O que estás a dizer? – Deu a volta para o lado do estábulo, onde uma pequena carroça estava encostada a um fardo de feno. Sem esforço, levou-a até junto da égua e prendeu-a à sela de Miss Rosalind. – Pronto – disse Hazel, tirando um nabo do bolso e deixando Miss Rosalind sugá-lo da palma da mão. – É simples. E muito mais fácil do que levar um carrinho de mão.

Jack fez um sorriso amarelo.

– Pois é. Muito mais fácil. – Suspirou e, depois, tirou os lençóis e as pás do carrinho de mão e depositou-os na carroça de Hazel. A seguir, deu um passo desenvolto em direção ao enorme garanhão preto. – Vamos lá despachar isto, amigo – murmurou. Rezou uma oração rápida, pôs o pé no estribo e içou-se para cima do cavalo com toda a força que tinha. – Não é assim tão mau! – Era a primeira vez que Jack montava um cavalo. Sentiu-se forte, seguro, como se ele e o animal estivessem ligados, capazes de atravessar rios e saltar vedações.

Bateu ao de leve com os calcanhares em Betelgeuse, para que ele começasse a andar. Mas, em vez de andar, o cavalo reagiu com um solavanco maldoso que fez Jack cair de barriga para baixo. Tinha os nós dos dedos brancos com o esforço de agarrar as rédeas e as pernas a tremer. Hazel e Miss Rosalind já tinham subido alguns metros da rampa. Com os dentes cerrados e mais uma oração (tinha rezado mais nos últimos 40 segundos do que em toda a vida), Jack voltou a sentar-se e a bater com os calcanhares nos lados do cavalo na esperança de o fazer mexer-se.

Betelgeuse obedeceu. Assim que o cavalo percebeu que fora libertado do poste, não só se mexeu, como desatou a galopar, passando por Hazel e avançando a toda a velocidade em direção à escuridão distante entre os enormes pinheiros que ladeavam o caminho.

A rapariga gritou-lhe qualquer coisa, mas Jack só conseguia ouvir o vento e o coração a bater com toda a força nos ouvidos congelados. Havia um outro som, um gemido agudo como uma chaleira a apitar, e Jack precisou de vários segundos para perceber que era ele próprio a gritar.

A cavalgada aterradora não durou muito tempo. Havia algo escuro na estrada mais à frente, algo impossível de distinguir, uma massa negra de uma coisa horizontal a bloquear o caminho. Mas a velocidade do cavalo implicou que aquilo de que se estavam a aproximar rapidamente já estivesse à frente de Jack antes que ele tivesse tempo de reagir: um tronco caído, apodrecido e cheio de insetos.

Betelgeuse saltou e Jack caiu da sela para a terra dura. Deu uma reviravolta no ar e aterrou com a cabeça em cima do tronco apodrecido. O som dos cascos do monstruoso cavalo foi diminuindo ao longe. Jack gemeu. Sentia uma humidade fria vinda do lodaçal a ensopar o tecido do casaco.

Hazel, montada na égua, aproximou-se.

– Pensava que tinhas dito que sabias montar! – gritou ao descer da égua.

Jack voltou a gemer.

– Pensei que ia conseguir.

Com mãos gentis, Hazel ajudou Jack a sentar-se.

Ele esfregou a nuca magoada.

– Parecia que era só, não sei, ir sentado.

– É um bocadinho mais do que isso – disse Hazel. – Desculpa, Jack, peço muita desculpa.

– Nã, a culpa não é sua. – Betelgeuse veio a trote até ao sítio onde Jack e Hazel estavam sentados. O cavalo abriu as narinas com satisfação. – A culpa é dele.

– Achas que partiste alguma coisa? Algum osso? Estás tonto, Jack?

Jack pestanejou várias vezes para afastar a neblina da visão e viu a topografia traçada pelas sombras do rosto de Hazel a poucos dedos de distância do seu. Estava tão perto que Jack sentia a respiração dela na testa, enquanto a rapariga lhe apalpava o crânio à procura de algum alto. A única coisa que estava ferida era o orgulho. De manhã, ia ter uma nódoa negra, mas isso não era nada de novo para um rapaz que vivia sozinho nas ruas desde os 11 anos.

– Estou bem, a sério – garantiu. – Devia preocupar-se era com aquela besta. O cavalo é doido. Sou eu que lhe digo.

E, assim, foram até Saint Dwynwen só num cavalo, Jack sentado atrás de Hazel na Miss Rosalind, com os braços à volta da cintura fina da rapariga. Ela prendera as rédeas de Betelgeuse à sela de Miss Rosalind, e o animal caminhou obedientemente ao lado deles enquanto seguiam por um trilho escuro da floresta que serpenteava entre hectares de terras agrícolas de um lado e um ribeiro do outro. Jack olhou para o Betelgeuse com cara de mau, mas o cavalo não lhe ligou nenhuma.

À exceção do terrível beijo de Bernard, Hazel nunca estivera tão perto de um rapaz. A maioria do tempo que passara com Bernard tinha sido em lanches, nos quais se sentavam um em frente ao outro em poltronas de brocados, enquanto um punhado de criadas traziam pratos de bolos acabados de fazer, ou então em bailes insuportáveis, em que dançavam com os cotovelos para fora, duas figuras completamente rígidas a rodopiarem por salões profusamente iluminados, como os bonecos dos relógios mecânicos. Aquela era uma sensação íntima e estranha. Hazel sentia o calor de Jack nas costas.

Com o suave balanço do cavalo e os braços à volta da cintura dela, Jack não conseguia deixar de admitir que sabia bem estar encostado a Hazel, sentir-lhe o cheiro do cabelo e o subtil odor almiscarado do suor.

– Isso é…? – perguntou Hazel, sem olhar para trás, com um tremor na voz.

– Oh. Oh! – Jack empurrou a pega de uma das pás, que estava a fazer pressão nas costas dela. Corou e amaldiçoou-se entre dentes, e fizeram o resto do caminho em silêncio.

Saint Dwynwen ergueu-se do horizonte como fumo, um pequeno edifício cor de ferro com um pináculo fino retorcido.

– Devíamos deixar os cavalos aqui – sussurrou Jack. – Fazer o resto do caminho a pé.

Hazel assentiu. Deslizou com graciosidade de cima da égua e estendeu generosamente a mão a Jack, que a aceitou, conseguindo, ainda assim, aterrar com um baque ao lado dela. Estavam rodeados pela floresta, por musgo húmido e por lama debaixo das botas. Hazel prendeu os cavalos a um ramo ali perto, enquanto Jack tirava o equipamento da carroça: duas pás, um lençol nojento e uma corda comprida.

– Aviso-a de que isto não é um trabalho nada agradável.

– Não te preocupes. Não vim à espera de diversão. – Jack conseguiu ver o brilho do sorriso matreiro de Hazel entre as sombras.

Foram os dois até às traseiras da igreja, onde os mausoléus e os túmulos se erguiam em sinal de aviso, como sentinelas silenciosas. Quando chegaram à vedação pontiaguda do cemitério, Jack saltou imediatamente por cima, por força do hábito. Hazel ficou do outro lado.

– É mais fácil do que parece – sussurrou Jack, olhando de relance para a pequena casa paroquial, onde havia uma única vela acesa junto de uma janela, para que ninguém tivesse a ousadia de se aproximar. – Se consegue montar aquela besta daquele cavalo, garanto-lhe que também consegue saltar esta vedação. A sério.

Hazel hesitou e, por um pequeno momento, Jack convenceu-se de que tudo aquilo fora um erro, levar Hazel para ali, que ela ia fazer com que fossem apanhados ou ia gritar – mas, entretanto, já ela tinha saltado. Passara por cima da vedação sem sequer ficar com as bainhas das calças presas.

– Então, onde é a sepultura? – perguntou, ofegante.

Era a vez de Jack sorrir. Inclinou a cabeça e foi à frente dela em direção ao canto sudeste do cemitério, onde vira o funeral, uns dias antes. Infelizmente, às escuras, com a cabeça meio tolhida pelo medo e pelo cheiro persistente do cabelo de Hazel, Jack teve muito mais dificuldade em encontrar a sepultura recente do que planeara.

– Juro que é algures por aqui – murmurou Jack. Quanto mais tempo ali estivessem, mais arriscado era. O truque para ser um bom ladrão de corpos era entrar e sair antes que alguém a meio metro de distância desse pela presença.

Hazel andava devagar, tentando ler os nomes esculpidos nas lápides. Parava à frente de cada uma, com a boca a fazer em silêncio as formas dos nomes.

– Tantas crianças – disse, em voz baixa.

E tantas mortes em 1815, o ano em que a febre dizimara Edimburgo sem dó nem piedade, matando ricos e pobres, nobres e criados. Era frequentemente uma doença lenta e brutal, tão contagiosa nas horas antes da morte que havia famílias que deixavam os doentes a sofrer sozinhos em casa, a chorar e a bater nas janelas, implorando que alguém entrasse, uma pessoa qualquer, para lhes dar a mão enquanto morriam. E atingia crianças, assim como adolescentes rapazes e raparigas. Era essa a verdadeira crueldade da doença: muitas vezes levava quem ainda não tivera oportunidade de viver.

– É aqui – sussurrou Jack. Estava à frente de um monte de terra por alisar, húmida e recentemente mexida, com uma pequena cruz de madeira.

Hazel juntou-se a ele e pegou numa das pás.

– Então, agora escavamos – disse Hazel.

– Agora escavamos.

Trabalharam em silêncio durante quase uma hora. De vez em quando, Jack levantava a cabeça para se certificar de que continuava a não haver movimento na casa paroquial, mas Hazel, surpreendendo-o, mostrou-se uma trabalhadora extraordinariamente diligente. Raramente levantava a cabeça, trabalhando metodicamente e com um ritmo hipnótico, com o som da pá a escavar a terra e depois da terra a assentar à superfície. Escava. Assenta. Escava. Assenta.

Até que um som quebrou o ritmo – qualquer coisa distante, na floresta. Um restolhar de folhas. Talvez as garras de um pequeno animal sobre o tronco de uma árvore. Hazel não reparou, mantendo a pá ao mesmo ritmo, mas Jack levantou a cabeça. As árvores estavam demasiado escuras para se conseguir distinguir o que quer que fosse. Eram só os cavalos, disse para si próprio. Tinham de ser os cavalos. Fazia aquilo há tempo suficiente para não se deixar assustar pelas sombras.

Foram atingidos depois por um som mais imediato: o do metal contra a madeira, o som da pá de Hazel a vibrar contra o caixão de madeira.

– Muito bem – disse Jack –, agora, vou parti-lo.

Hazel assentiu e protegeu os olhos de quaisquer pedacinhos errantes de madeira, quando Jack levantou a pá no ar e a empurrou para baixo com uma única estocada confiante na tampa do caixão. Estalou como um tiro de pistola. Jack atirou a pá para o lado do buraco que tinham feito e depois içou-se.

– Atira-me a parte de cima do caixão. A seguir, vou mandar-te corda para baixo. Ata-a à volta dos pés, e eu puxo-o, que é pesado.

Hazel assentiu com a cabeça numa concordância silenciosa. Torceu a parte da tampa que estava partida, tirou-a e, a seguir, avaliou o que acabara de revelar: uns pés enfiados nuns sapatos castanhos velhos tão gastos que quase não se seguravam e o cheiro terrível a putrefação e morte. Uma larva serpenteava entre os dedos dos pés do cadáver, e Hazel teve de tapar a boca com a manga.

– Gostava de poder dizer que nos habituamos – sussurrou Jack, tapando o nariz.

Quando atirou a corda para Hazel, olhou de relance para a floresta, para o lado onde lhe parecera ter visto a sombra. Havia lá um movimento qualquer. Qualquer coisa impossível de distinguir. Talvez fosse só um animal, uma raposa a espreitar por entre a vegetação baixa e húmida. Tudo o que Jack podia fazer era acabar o trabalho rapidamente e sair dali.

Hazel enrolou várias vezes a corda à volta dos tornozelos do corpo e depois deu um nó apertado.

– Já está.

Jack começou a puxar a corda e espalhou-se sobre a cara de Hazel um pedaço de terra vinda do sítio onde a corda deslizava pela parte lateral da sepultura. A rapariga tentou ajudar a guiar o corpo para fora do caixão e para cima, através da fenda cheias de lascas da madeira, mas foi Jack quem fez mais força, puxando o corpo até este chegar, a começar pelos pés, ao mundo dos vivos – quase dois metros acima.

A seguir, Jack baixou a mão para ajudar Hazel a subir.

– Agora temos de o despir. Não podemos levar a roupa. Afinal de contas, não somos ladrões.

De pé por cima do cadáver, concluíram a tarefa, com a escuridão a proteger a modéstia do morto.

– Isto é estranho – disse Hazel. – Parece que estamos num funeral.

– Acabamos por nos habituar – retorquiu Jack, já a começar a embrulhar o corpo com o lençol. Içou o morto para cima do ombro com facilidade. Hazel pensava que Jack era um magricela, mas era surpreendente forte. Baixou o corpo sobre a carroça com cuidado e depois fez sinal a Hazel e apontou para o cavalo.

– Faça favor, minha senhora.

Hazel subiu para sela de Miss Rosalind e depois baixou a mão para ajudar Jack a sentar-se atrás dela.

Chegaram a Hawthornden quando o céu estava a clarear, num cinzento nebuloso. Jack seguiu Hazel até à masmorra e depositou o corpo em cima da mesa.

– Queres beber um chá ou qualquer coisa? – perguntou Hazel, depois de alguns segundos na penumbra. – Podemos ir até ao castelo; tenho a certeza de que a Cozinheira já se levantou, se quiseres tomar o pequeno-almoço.

Jack abanou a cabeça. Tirou o cabelo da cara.

– Nã, é melhor voltar para a cidade – respondeu. – A pé.

– Então, está bem. – Hazel olhou para o corpo, ainda embrulhado no lençol de Jack. – Acho que vou precisar de mais do que um cadáver – disse-lhe. – Se souberes de mais algum que tenha morrido com a febre.

– Desses há muitos – replicou Jack. Hazel olhou para ele, alarmada por vê-lo a sorrir. – Vamos combinar para a semana que vem, à mesma hora.

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