Anatomia: uma história de amor
Capítulo 11
As paredes da sala de aula eram de madeira preta, descascada. Cheirava a serradura e a líquido de embalsamar. Ao fundo da sala, havia prateleiras do chão ao teto. Hazel tentou vislumbrar o que continham antes de se sentar – reconheceu uma fila de várias edições do Tratado do Dr. Beecham, cada uma mais grossa do que a anterior, mas também havia livros em francês, alemão e italiano. Alguns tinham títulos em línguas que Hazel não conseguiu sequer identificar. Um livro estava encadernado com uma pele bronzeada que, percebeu Hazel, passando o dedo pela lombada, podia ser pele humana.
Em todo o perímetro da sala de aula havia frascos com espécimes que já tinham captado a atenção dos outros rapazes que iam frequentar o curso de Beecham: animais preservados num líquido amarelo sujo, órgãos humanos, conjuntos completos de dentes sorridentes. Hazel reparou num frasco que continha dois pequenos fetos humanos, não maiores do que a palma da mão, unidos pela cabeça. Havia mãos e pés separados do corpo e uma fila inteira de cérebros cinzentos leitosos em tamanhos que iam desde uma noz a uma toranja inchada. E depois, formando uma galeria mórbida numa prateleira alta ao longo da parede, estavam as caveiras, pelo menos uma dúzia, na maioria com deformidades estranhas, todas em diferentes estados de decomposição.
Acima deles, o esqueleto de uma enorme criatura marinha, perfeitamente preservada, pendia do teto como se ainda estivesse a nadar por entre uma corrente invisível. Hazel estava tão absorvida pela estranheza do ambiente que só reparou que o Dr. Beecham já estava em cima do estrado quando ele pigarreou delicadamente e esticou os dedos nas luvas, fazendo ranger o cabedal.
Os outros estudantes ficaram tão surpreendidos como Hazel: ocuparam imediatamente os respetivos lugares.
O Dr. Beecham ficou imóvel, à espera que a sala ficasse em silêncio, deixando os olhos demorarem-se em cada um dos alunos. Quando os olhos de Beecham chegaram a Hazel, ela não conseguiu deixar de sentir uma enorme comichão no couro cabeludo sob o chapéu. Os ganchos que ela e Iona tinham usado para prender o cabelo começaram repentinamente a picá-la. Antes de vestir as roupas de George, imaginara que elas lhe dariam mais liberdade do que um espartilho e uma saia. Mas, naquele momento, sentada com umas calças de homem demasiado grandes e uma camisa com um colarinho que lhe dava até ao queixo, sentiu-se completamente desconfortável, com o suor a encharcar o tecido grosso sob as axilas.
Os olhos de Beecham desceram para a mesa de Hazel, para a edição gasta do Tratado do Dr. Beecham, com a lombada descascada e manchas castanhas. Fez uma pequena expressão de desaprovação perante a deterioração do livro, mas depois deslocou misericordiosamente o olhar para o aluno seguinte, um rapaz que não podia ter mais de 15 anos, ainda sem qualquer sinal de um bigode.
– Bem-vindos – disse, por fim, o Dr. Beecham. – Antes de começarmos verdadeiramente, tenho de fazer um breve comentário sobre uma nota pessoal. Há algumas pessoas, talvez não entre este grupo sentado à minha frente, mas de certeza entre as várias salas de aula de Londres, Edimburgo e Paris, que pensam que a minha posição de elite na universidade e na Sociedade de Anatomistas se deve ao meu avô. Garanto-vos: não devo nada ao nepotismo.
Beecham esperou para ver se alguém o confrontaria. Ninguém o fez. Quem se atreveria? Hazel perguntou-se se mais alguém teria assistido à demonstração de Beecham no teatro de anatomia, à velocidade da sua lâmina, à utilização daquele… ethereum.
O Beecham mais velho voltaria a morrer se algum dia visse a evolução que a cirurgia tinha tido desde a sua morte.
O Dr. Beecham manteve a postura impossivelmente direita à medida que continuava a fazer a introdução. Ajustou a costura das luvas de cabedal preto enquanto falava.
– Devo avisar-vos de que o curso que estão prestes a iniciar não é fácil. Vai colocar-vos dificuldades físicas. Vai colocar-vos dificuldades mentais. Serão postos frente a frente com o estranho, o macabro. A área da medicina está no limiar de grandes mudanças, e tenciono, com os meus alunos, liderar uma caminhada em direção a esse futuro. Iremos aprender noções básicas de anatomia, de fisiologia e de técnicas cirúrgicas. Os fundamentos da arte farmacêutica. No final do meu curso, estarão perfeitamente aptos a fazer o Exame Médico Real antes do Natal e, depois disso, estarão certificados para trabalhar como médicos em qualquer sítio que quiserem no império de Sua Majestade. Todos os anos organizo este curso e todos os anos há alunos que falham. Que desistem. Que são expulsos. Gosto de pensar que tenho experiência para saber, olhando agora para os alunos, exatamente quem de entre vós não terá a perseverança para chegar ao fim. – Fez uma pausa. Os estudantes, desconfortáveis, agitaram-se nos lugares. – As vossas mãos ficarão manchadas de sangue. Poderão até descobrir que as vossas almas estão manchadas de sangue.
O Dr. Beecham tirou um coelho vivo de trás do púlpito. O animal, aparentemente indiferente por estar a ser erguido à frente de uma turma, olhou placidamente para os estudantes. Houve uma onda de risadinhas, a que Hazel também se juntou. Beecham ergueu uma sobrancelha e encostou o coelho ao peito, acariciando-o com os dedos compridos.
– Tudo isto para dizer – continuou o Dr. Beecham – que, se quiserem sair desta sala de aula agora, não vos levarei a mal. Na verdade, considero o autoconhecimento uma forma de sabedoria. O campo da medicina é árduo. Estaria a mentir se dissesse que não perdi mais do que um aluno no decurso de um semestre. – Tirou um pequeno escalpelo do bolso e examinou a lâmina enquanto falava. – Com uma infeção. Com uma doença. Com uma lâmina mal manuseada. Uma vez até… – Pousou o coelho em cima do púlpito. O animal deu um pequeno salto, mas depois ficou sossegado, em silêncio, sob a mão de Beecham. – Com um choque.
E, então, o Dr. Beecham espetou o escalpelo no coelho. Hazel arfou, mas, felizmente, não foi a única. Beecham tirou um lenço do bolso para limpar o sangue que espirrou para a testa.
– Repito. Se querem deixar esta aula, façam-no agora. – O rapaz que estava sentado ao lado de Hazel parecia prestes a desmaiar. Empurrou a cadeira para trás e saiu a correr da sala. – Mais alguém? Não? Ótimo.
Beecham tocou um pequeno sino de latão que puxara de trás do púlpito, o que fez entrar um assistente de avental, carregado com uma caixa cheia de coelhos, felizmente já mortos. Os animais foram distribuídos pelos estudantes, juntamente com bisturis que pareciam já ser utilizados há anos. Hazel tirou uma gota de sangue seco acastanhado do cabo do seu bisturi.
– Foi-vos dado a todos um coelho – disse Beecham. – Tomei a liberdade de os matar por vós. O período começa com anatomia, mas, até que haja mais homens a infringir as leis de Sua Majestade, os sujeitos humanos são em número limitado, para não falar do preço considerável. Portanto, para o vosso primeiro dia: um coelho. A vossa tarefa será identificar e articular os órgãos principais: cérebro, coração, estômago, pulmões, bexiga, fígado, baço, intestino grosso, intestino delgado. – Escreveu o nome de cada parte do corpo com giz no quadro atrás dele e sublinhou.
Hazel olhou para o seu coelho, uma coisinha magra com pelo castanho às manchas. O cheiro lembrou-lhe o das cozinhas depois de o pai e George irem à caça. Olhou outra vez para cima e viu o Dr. Beecham, impaciente e expectante.
– Estão à espera de quê? – disse para a turma. – Comecem!
A luta começou imediatamente, à medida que os rapazes à volta de Hazel cortavam os respetivos animais com os bisturis e começavam a explorar as entranhas. Hazel fez uma pequena pausa, examinando o animal à sua frente. Só levantou o bisturi depois de conseguir ver perfeitamente todos os cortes que faria – o mínimo possível. E, depois, começou a cortar.
– Acabei. Quero dizer: acabei, senhor. – Alguns dos rapazes que estavam mais perto de Hazel levantaram a cabeça, incrédulos. Estavam cobertos de suor.
O Dr. Beecham levantou os olhos do jornal que estava a ler na secretária à frente da sala.
– Todos os órgãos – disse. – Não é só o primeiro que está no quadro.
– Eu sei, senhor. Já tenho todos.
Beecham levantou-se e dirigiu-se lentamente até à mesa de Hazel, onde ela removera ordenadamente todos os órgãos necessários e os colocara em filas organizadas ao lado do coelho agora estripado.
– Cérebro, coração, estômago, pulmões, bexiga, fígado, baço, intestino grosso, intestino delgado – recitou Hazel, apontando-os um a um.
Beecham pestanejou algumas vezes, incrédulo.
– Qual é o seu nome, jovem?
Hazel ficou com a boca seca.
– George. George Hazleton, senhor.
– Hazleton. Hazleton, creio que não conheço o nome. O seu pai é médico?
– Não, senhor. Pertence à Armada Real. Mas sempre se interessou muito por filosofia natural, e estudei os livros dele.
– Os livros dele.
– Sim. Aliás, aprendi mais com o livro do seu avô, Tratado do Dr. Beecham.
O Dr. Beecham sorriu.
– Conheço bem. Não podia ter encontrado um manual melhor. Turma, pousem os vossos bisturis. O senhor Hazleton superou-vos a todos. – Inclinou-se para examinar o que restava do coelho de Hazel. – Posso dizer-vos que, em todos os anos em que tenho ensinado este curso, nunca houve um aluno que conseguisse dissecar tão correta e rapidamente. Bravo.
Um rapaz atrás de Hazel tossiu sonoramente. “Graxista”, tossiu outra vez. Os rapazes à volta dele riram-se. Hazel passara tempo suficiente com os irmãos para saber o que aquilo significava: que estava a bajular o professor. O rapaz que estava a tossir tinha vários sinais grandes espalhados pela cara e umas longas patilhas, talvez destinadas a desviar o olhar.
– Já chega, senhor Thrupp.
Thrupp revirou os olhos, enquanto o Dr. Beecham voltava para a frente da sala.
– Agora, e se fôssemos todos para onde o senhor Hazleton já está – sugeriu Beecham, começando a desenhar um diagrama de um coelho esfolado no quadro.
Hazel sentiu uma coisa molhada e fria a bater-lhe na parte de trás do pescoço. Era o coração de um coelho, que caiu ao chão atrás dela, ainda a derramar sangue. Os companheiros de Thrupp riram-se, e ele dirigiu-lhe um sorriso de troça, enquanto Hazel sentia uma humidade viscosa a pingar-lhe do pescoço para o interior da camisa.
Tinha as faces a arder, mas esforçou-se por não quebrar o contacto visual com o rapaz enquanto se baixava para apanhar o coração do coelho e o apertava com força.
Os risos pararam, e Hazel voltou-se para ouvir o resto da palestra do Dr. Beecham, demasiado satisfeita consigo mesma para se preocupar até com o sangue desagradável e viscoso entre os dedos durante o resto da tarde.
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7 de outubro de 1817
Henry Street, n.º 2
Bath
Minha querida Hazel,
Depois do pesadelo que foi a nossa longa viagem – com um tempo horrível, simplesmente horrível –, chegámos a Bath. O ar já está a fazer muito bem ao Percy, mas vou levá-lo imediatamente para as fontes termais naturais como medida preventiva. Quem sabe que doenças terríveis poderá ter apanhado com o ar tão mau das nossas viagens? Estaremos aqui durante vários meses e depois iremos para o apartamento de Londres, onde espero que se encontre connosco. Disse a Lorde Almont que espero que Bernard a peça em casamento ainda este ano, por isso tente chegar a Londres já comprometida, se puder.
– A sua mãe, Lady Lavinia Sinnett
P.S. Espero que esteja melhor. Escreva, sem falta, se a situação piorar.
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