Anatomia: uma história de amor
Capítulo 15
O letreiro foi colocado na porta gigante de carvalho do Le Grand Leon numa manhã gelada de novembro, pregado pelo senhor Arthur, que se certificou de que estava direito antes de suspirar e voltar para dentro.
– Então, é mesmo verdade? – disse Thomas Potter, o ator principal. Tinha a boca cerrada, numa linha direita. Olhou para Isabella, que estava atrás dele, com uma expressão nervosa sob uma cortina de cabelo louro.
– É – respondeu o senhor Arthur. – E, com o estado em que está a cidade, só Deus sabe se vamos abrir para a próxima temporada. Por isso, é melhor começarem todos à procura de outras formas de ganhar a vida.
Isabella puxou o casaco de Thomas.
– Thom, o que vamos nós fazer para…?
– Havemos de nos arranjar. Hei de arranjar qualquer coisa – respondeu ele, voltando-se para Isabella e dando-lhe um beijo terno no alto da cabeça.
Jack tinha estado sentado nas traves a ouvir. Há dias que andava a ouvir conversas entre o senhor Arthur e o dono do teatro, entre o dono do teatro e a coreógrafa. Durante a última semana, o espetáculo tinha sido feito para filas de cadeiras na maioria vazias, com o veludo vermelho gasto a ficar com uma fina camada de pó. Era demasiado arriscado para os abastados aventurarem-se a ir ao teatro perante a ameaça de uma praga. Por isso, ficavam em casa. Portanto, pelo menos por enquanto, o Le Grand Leon ia ficar fechado.
– Podes ficar à vontade, Jack – disse o senhor Arthur, no dia seguinte, depois de todos os atores terem ido embora, entregando-lhe uma pesada argola com chaves de latão. – Aliás, até gostava que ficasses. Para afastar os ladrões. Não posso pagar muito, ou melhor, nada, mas sempre ficas com um telhado por cima da cabeça, para quando precisares. Vai ser bom ter-te aqui para manteres isto de pé. Para o caso de, tu sabes…
– Para o caso de quê? – perguntou Jack, aceitando as chaves.
O senhor Arthur fez um sorriso triste.
– Para o caso de voltarmos para a próxima temporada – continuou o senhor Arthur. Deu uma palmadinha amigável no ombro de Jack e afastou-se pelo corredor até à entrada, deixando o rapaz num teatro cheio de ecos e fantasmas.
Jack teria de roubar outro cadáver em breve se quisesse comer.
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