Anatomia: uma história de amor
Capítulo 13
– A anatomia feminina – disse o Dr. Straine, olhando diretamente para Hazel – é um animal estranho. Esta mulher… foi enforcada ontem, às 11h00, em Grassmarket, pelo homicídio de um dos hóspedes da sua estalagem. Parece uma pessoa pequena, franzina, incapaz de fazer tal coisa.
Alguns dos rapazes da aula riram-se. Hazel, não.
O Dr. Straine limpou o bisturi ao casaco.
– Chamo-me Dr. Edmund Straine. Serei eu a ensinar-vos a parte anatómica dos vossos estudos a partir de agora. O Dr. Beecham, sendo bem relacionado e famoso como é, preferiu deixar esta parte do curso a meu cargo. Como talvez já tenham percebido, o Beecham não gosta de sujar as mãos. – Straine agitou uma mão no ar, fazendo uma pantomima de estar a calçar uma luva. – E podemos imaginar como será difícil encaixar as aulas numa agenda social cheia de chás e sessões de autógrafos. Mas não interessa. Como eu disse, chegou finalmente a hora de aprenderem anatomia.
Thrupp tossiu.
– Já aprendemos muita anatomia – comentou.
O Dr. Straine quase sorriu.
– Não – corrigiu. – Aprenderam teoria. O Dr. Beecham é um excelente médico e um académico muito sábio. Mas receio que o Beecham nunca tenha dominado tão bem como eu a arte da cirurgia. Sim, arte, senhor Thrupp, o equilíbrio delicado de encarar um corpo como carne e, ao mesmo tempo, como veículo de uma alma viva, de sentir o sussurro dessa alma sob o vosso bisturi… – O olho bom de Straine fixou-se num ponto distante, remoto, mas abanou a cabeça e voltou a olhar diretamente para os alunos. – Além disso, o Dr. Beecham parece ter ficado demasiado habituado às salas finas dos lordes e cavalheiros para querer o fedor de um cadáver no seu corpo – acrescentou, com um sorriso de escárnio. – Tudo isto para dizer que, duas vezes por semana, às terças e quintas-feiras, dar-vos-ei aulas de anatomia. As lições do Dr. Beecham versarão sobre tratamentos e remédios. Devo avisar-vos de que não sou tão facilmente impressionável como o meu estimado colega. E garanto-vos que tudo o que eu disser nas minhas aulas será parte integrante do Exame Médico, no fim do período. Por isso, aqueles que entre vós tenham a mais leve esperança de sucesso: prestem bem atenção.
Sem mais demoras, o Dr. Straine enfiou o escalpelo no corpo da mulher morta em cima da mesa, cortando-o desde o esterno até ao umbigo.
A sala de aula tinha sempre um cheiro forte: a sangue, a ferro e aos estranhos líquidos de conservação utilizados nos frascos de amostras que revestiam as paredes. Mas o primeiro corte de Straine na dissecção soltou uma onda de algo horrível no ar. Vários estudantes tiveram vómitos, mas Hazel conseguiu engolir a bílis que lhe subiu à boca.
– O senhor aí – chamou Straine, usando o bisturi ainda a pingar para apontar para Gilbert Burgess. – Nome.
– Gilbert Burgess, senhor. – Estava positivamente verde.
– Quantas câmaras tem o coração, Gilbert Burgess?
Burgess estremeceu. Se tivesse sido Beecham a perguntar, Hazel tinha a certeza de que ele teria respondido num instante. Mas havia qualquer coisa em Straine, fosse a pala no olho, ou a capa, ou o desenho rígido da boca, que o transformava numa figura de terror.
– Hum… seis, senhor? – replicou Burgess, com uma voz que não era mais do que um guincho murmurado.
Straine bateu com a bengala no chão da sala com tanta força que todo o soalho estremeceu.
– Quem é que sabe? Ponham a mão no ar, não tenham vergonha. O senhor aí. – Apontou diretamente para Hazel, que se apercebeu, num movimento que a deixou espantada, de que a sua mão se erguera por vontade própria.
– George – disse em voz baixa. – George Hazleton. E são quatro, senhor. Ventrículo direito, ventrículo esquerdo, aurícula direita e aurícula esquerda.
– Correto – confirmou, com os dentes cerrados. – Então, continue, senhor Hazleton. Diga quais são as quatro válvulas do coração.
Hazel fechou os olhos e tentou lembrar-se do diagrama das páginas do Tratado do Dr. Beecham.
– A válvula aórtica, senhor. A válvula tricúspide. A válvula pulmonar e… e a válvula bicúspide. – Sorriu, com o alívio a invadir-lhe todo o corpo.
– Muito bem, senhor Hazleton – disse Straine, em voz baixa, embora o tom talvez fosse de troça. – Por favor, levante-se e venha aqui para a frente.
Os pés de Hazel obedeceram, e ela foi até à frente da sala, até ficar suficientemente perto de Straine para conseguir sentir-lhe o cheiro: vinho do Porto e qualquer coisa azeda, como limões estragados.
– Retire o coração, senhor Hazleton.
Hazel engoliu em seco, susteve a respiração e obedeceu, evitando olhar para a cara da mulher em cujo corpo a mão acabara de entrar. Segurou no coração, mais pesado do que estava à espera, frio e com um revestimento viscoso.
– Agora – ordenou Straine –, identifique as válvulas que enumerou.
Hazel olhou para o coração, uma coisa estranha colorida de negros e roxos. Tinha uma forma esquisita, não assimétrica, mais gorda numa extremidade do que na outra, revestido numa metade por uma espessa placa bege. Parecia tão completamente diferente do objeto desenhado com linhas pretas elegantes no livro de Hazel que ela nem sequer conseguia ter a certeza de qual era a parte superior.
– Não consigo, senhor – retorquiu Hazel, por fim.
– Não consegue? – ripostou Straine, com um toque cruel na voz. – Mas identificou-as de forma tão competente quando estava sentado?
– Tem um aspeto muito diferente visto pessoalmente, senhor.
– Onde está a vesícula biliar, senhor Hazleton?
Hazel viu a confusão de vísceras por baixo dos olhos. Vermelhos e roxos inchados e a pressionarem-se uns contra os outros, tudo muito estranho e bulboso. Viu o estômago, sabia que aquilo era o estômago… e viu o intestino grosso. E os pulmões. Mas qualquer coisa mais pequena parecia perdida num mar de carne a deteriorar-se, inchada com o gás da decomposição. A visão de Hazel ficou turva e a respiração presa no peito apertado.
– Não tenho a certeza, senhor.
– Então, vejamos um mais fácil. O fígado?
Hazel obrigou-se a olhar outra vez para baixo, para a barriga aberta do cadáver, mas o sítio onde pensava que devia estar o fígado estava cheio com outra coisa – talvez o intestino delgado? – e tudo o resto também não estava onde supostamente devia estar. Ficou em silêncio, a olhar para baixo durante tanto tempo que começaram a ouvir-se risadinhas na sala. Hazel apercebeu-se subitamente de que estavam todos a olhar para ela.
– Não sei – respondeu, por fim, num sussurro.
– Sente-se, senhor Hazleton.
Hazel sentia as faces a arder enquanto voltava para o lugar.
– Que isto sirva de lição a todos – disse Straine, de olhos fixos em Hazel. – O que leem nos livros pode ajudar-vos, se quiserem dar nas vistas na aula, mas servir-vos-á de muito pouco quando estão perante um cadáver. Será que imagina que vai operar nos desenhos dos livros, senhor Hazleton?
– Não, senhor – murmurou Hazel.
Os lábios finos de Straine estremeceram. Não olhou mais para Hazel durante o resto da aula. Quando o sol já se pusera e Straine finalmente os libertou, a rapariga tinha a mão a doer devido ao esforço de tomar notas suficientemente depressa para acompanhar a lição. Hazel guardou o caderno e levantou-se para ir para casa, já a sonhar com o banho que Iona lhe prepararia em Hawthornden.
– Senhor Hazleton – chamou a voz de Straine, vinda da penumbra. – Por favor, fique mais um momento.
O coração de Hazel começou a bater muito depressa. Burgess lançou-lhe um olhar compassivo, mas depois voltou-se rapidamente e correu porta fora antes que Straine lhe pudesse dizer para também ficar. A rapariga tentou inclinar a cara para baixo do colarinho e da capa. Nas semanas em que se vestira como se fosse George, ninguém tinha descoberto o disfarce. (Thrupp, ao chamar-lhe “rapaz bonito”, foi quem esteve mais próximo, e até isso fizera os cabelos na parte de trás do pescoço arrepiarem-se.) Mas Straine tinha-a visto em Almont House. Tinham sido apresentados. E havia qualquer coisa naquele gélido olho bom que a levava a pensar que ele nunca esquecia uma cara.
– Toma-me por idiota? – disse pausadamente, deixando que cada sílaba se demorasse na língua, depois de Hazel se ter aproximado o máximo que se atrevia.
– Senhor? – guinchou.
– Toma-me – repetiu Straine – por idiota? – Estava a falar baixo.
– Não, senhor… claro que não – conseguiu responder Hazel.
– Não gosto de bailes de máscaras, senhor Hazleton. É o tipo de frivolidade a que os ricos se podem dar, a aristocracia com propriedades que não tem mais nada para fazer com o seu tempo a não ser divertir-se disparatadamente uns com os outros até morrerem de barriga cheia. Há pessoas que têm de trabalhar para ganhar a vida, senhor Hazleton, para fazerem o seu caminho com disciplina e esforço e engenho e… – levou a mão ao olho que lhe faltava – … sacrifício. Não ensino por gostar de abater o rebanho de idiotas choramingas que querem brincar aos médicos nem por achar assim tão gratificante demonstrar, ano após ano, os princípios mais básicos da anatomia. Dou aulas por dinheiro, senhor Hazleton, e ensino porque penso que é meu dever educar os homens que irão, de facto, servir como profissionais na minha cidade.
– Senhor…
– Vamos deixar-nos de estratagemas, Menina Sinnett. Se, como afirma, não me toma por idiota, então peço-lhe que me diga porque continua a achar-se tão capaz de me enganar? – O sangue de Hazel transformou-se em gelo. Lentamente, levantou os braços para tirar a cartola do irmão, revelando o cabelo preso com ganchos por baixo. – Deve ter-se divertido muito, tenho a certeza.
Hazel olhou para o chapéu enquanto falava.
– Senhor, peço desculpa pela fraude, mas garanto-lhe que não o fiz por brincadeira. Quero mesmo aprender anatomia e quero mesmo ser cirurgiã.
– Ah, ah! – O riso de Straine agitou o esqueleto do animal marinho pendurado no teto, mas não lhe chegou qualquer alegria ao olho.
Hazel estava a escaldar.
– Se acha que, por ser mulher, não consigo aprender…
Straine interrompeu-a com outra risada gélida.
– Afinal, toma-me mesmo por idiota, Menina Sinnett. Que vergonha. Afinal, talvez a considerasse mais inteligente. Não, ao contrário de alguns dos meus colegas mais lamentáveis, não teria qualquer objeção em ensinar a mulher rara com uma mente capaz de estudar filosofia natural e anatomia. Sim, no todo, o cérebro feminino é mais pequeno, mais suscetível à histeria e às emoções, menos inclinado para a razão. Mas não há qualquer motivo para pensar que não existe a possibilidade de emergir um espécime entre o sexo feminino que pudesse ser ensinado.
Havia, então, uma hipótese! Aquilo seria um ramo de oliveira? Haveria a esperança de Straine ter visto Hazel como essa exceção? Talvez, se deixasse a máscara e implorasse perdão, ela pudesse continuar na aula dele. Abriu a boca para começar um pedido de desculpas, mas antes que conseguisse formar qualquer palavra, Straine continuou.
– Não, recuso-me a ensinar mulheres por uma razão simples: não perco o meu tempo nem a minha energia com diletantes. Não há lugar no nosso mundo para uma mulher praticar medicina, Menina Sinnett, por muito triste que isso a possa deixar. Outra consequência de crescer sem o brilho dos privilégios é que nos tornamos rápidos a dissipar ilusões e fantasias. Nenhum hospital contratará uma cirurgiã, assim como nenhuma universidade. Ainda menos disposto, imagino, estaria um doente a sofrer sob a faca de uma mulher. Por isso, veio para aqui sob o pretexto tolo de não ser sobrinha do Visconde de Almont, filha de um lorde, de não casar com um filho igualmente frívolo da sociedade e dedicar o resto da vida a dar-lhe filhos e a oferecer jantares. Estou errado, Menina Sinnett?
Hazel não sabia o que dizer. Ele continuou a olhar fixamente para ela. Não havia no rosto o mais pequeno laivo de bondade ou clemência; era cruel, com marcas de algo que talvez estivesse próximo de piedade.
– Talvez tenha vindo assistir a esta aula com boas intenções. Talvez tenha dito a si própria que não era uma brincadeira e talvez até tenha acreditado nisso. Mas não perco o meu tempo com estudantes que não irão ser médicos, independentemente do sexo. Infelizmente para si, Menina Sinnett, o seu sexo exclui-a. Embora me pareça que a sua inteligência também a teria excluído. Não volte a pôr os pés na minha sala de aula.
Hazel sentia os olhos a arder com as lágrimas. Tentou pestanejar para as afastar, mas não resultou. Os olhos ficaram quentes e vermelhos, e uma lágrima correu-lhe pelo rosto.
– Não tente suster as lágrimas por minha causa – disse Straine. – As mulheres têm tanta dificuldade em controlar as emoções. Pode ir, Menina Sinnett.
As lágrimas ameaçavam transformar-se em soluços. No cérebro de Hazel nadavam mil coisas que ela poderia dizer – desculpas, insultos, réplicas –, mas todas se dissolviam quando tentava falar. Estava como que aparafusada ao chão, enquanto Straine se voltava para o pergaminho e tomava algumas notas, trabalhando como se a rapariga não estivesse ali. Hazel continuou de pé durante o que poderiam ter sido apenas cinco segundos ou uma eternidade, antes de sair a correr da sala. Fez a viagem de regresso a Hawthornden num torpor, tonta de vergonha e embaraço e raiva, tudo ao mesmo tempo. Foi apenas quando finalmente chegou ao seu quarto, despiu as roupas de George e as atirou pelo quarto que os soluços lhe escaparam do peito. Nesse momento, deixou-se cair ao chão, vestida apenas com a camisa de dormir, e chorou.
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