Anatomia: uma história de amor
Capítulo 16
Hazel quase esperava que a porta da Sociedade Real de Anatomistas de Edimburgo abrisse diretamente para o teatro cirúrgico, aquele que só tinha visto debaixo das bancadas. Mas, em vez disso, depois de Hazel ter levantado e deixado cair o batente de bronze sobre a porta, um criado de libré com uma peruca empoeirada conduziu-a educadamente para uma sala de estar bem arranjada que parecia um salão de luxo ou um clube de cavalheiros. Na lareira, ardia uma brilhante e alegre fogueira laranja, cujo crepitar era o único som que se ouvia naquela sala silenciosa, onde dez ou mais homens de suíças, espalhados por entre poltronas de veludo, bebiam brandy e liam jornais.
Uma parede inteira da sala estava ocupada com cabeças de animais penduradas, zebras e rinocerontes embalsamados, um leão e um elefante cheio de cicatrizes, cujos dentes de marfim tinham sido removidos. A parede oposta estava revestida por enormes estantes, tão altas que exigiam uma escada deslizante para chegar aos volumes nas prateleiras mais altas. Hazel tentou espreitar de relance os títulos dos livros, mas a maioria estava demasiado desbotada para ser possível ver. Os volumes nas prateleiras do fundo estavam todos em latim.
A lareira tornava a sala invulgarmente quente, e Hazel resistiu ao impulso de puxar o saiote e soltar as fitas. As semanas que passara com as roupas velhas de George tinham-na feito esquecer como as camadas de tecido dos vestidos femininos eram asfixiantes, especialmente quando uma mulher se vestia para parecer o mais refinada possível. Precisamente o que Hazel tinha feito. Vestira-se como um soldado revestido com camadas de armadura, com toda a proteção que lhe podia ser proporcionada pela riqueza e pelo gosto decente. O vestido era de um azul sensato, debruado com veludo e um cordão de renda preta. Tinha uma fita lilás a apertar-lhe a gola na garganta. Por outras palavras, parecia uma respeitável senhora da sociedade de Edimburgo, e, embora o criado de libré da Sociedade de Anatomistas pudesse ter-lhe perguntado em privado porque não tinha uma dama de companhia, ele estava num nível demasiado baixo para pensar em desafiar uma mulher como Hazel ou impedi-la de entrar. Ser mulher fechara muitas portas a Hazel Sinnett, mas também lhe revelara uma ferramenta valiosa no seu arsenal: as mulheres eram quase inteiramente ignoradas como pessoas, o que lhe dava o poder da invisibilidade. As pessoas viam as mulheres, viam os vestidos que as mulheres usavam nos passeios pelo parque e as mãos enluvadas pousadas nos cotovelos dos pretendentes no teatro, mas as mulheres nunca eram ameaças. Nunca eram desafios que merecessem ser tidos em consideração. O criado de libré poderia ter recusado a entrada a uma mendiga ou mesmo a um homem estranho, mas Hazel – vestida como os mais abastados – podia passar por ele, se o fizesse rapidamente e fingisse confiança. E foi o que fez.
O Dr. Beecham estava sentado sozinho junto a uma pequena mesa, com uma chávena de chá forte a fumegar ao seu lado. Sobre a mesa estavam espalhados livros e papéis. Uma enorme carapaça de tartaruga servia de pisa-papéis. Apesar de o calor da fogueira irradiar pela grelha, ele continuava com o habitual casaco com a gola levantada até ao queixo.
– Dr. Beecham? – chamou Hazel, em voz baixa. Alguns dos cavalheiros mais próximos resmungaram com a interrupção e depois voltaram às leituras.
O Dr. Beecham acabou de tomar uma nota e depois tornou a pôr a pena no tinteiro.
– Creio que não tenho o prazer de a conhecer, pois não? Por favor, perdoe-me se já tivermos sido apresentados; infelizmente, a minha memória já não é o que era.
– Isso é… uma pergunta interessante, Dr. Beecham – disse Hazel. – Sou… chamo-me Hazel Sinnett. – A rapariga tirou a touca e afastou os caracóis do rosto. – Mas conheci-o como…
– George Hazleton. – Beecham levantou-se e estendeu-lhe a mão.
Hazel apertou-a, incrédula.
– Sim, claro. O Straine falou-me disso… Mas estou a antecipar-me. Menina Sinnett, sente-se, por favor. Posso oferecer-lhe uma chávena de chá?
Confusa, Hazel sentou-se à mesa, à frente de Beecham. (Os cavalheiros próximos troçaram de Hazel por se sentar, mas voltaram à leitura ainda mais depressa do que da última vez.)
– Fascinante – soltou Beecham, olhando fixamente para a cara da rapariga, como se pudesse ver os ossos e os músculos a funcionarem sob a pele. – Não consigo perceber como é que não a reconheci de imediato. É absolutamente fascinante. As roupas vieram de… alguma loja? De um alfaiate?
– Eram do meu irmão. – E, depois, sem conseguir conter-se, acrescentou: – Ele morreu.
Uma sombra passou pelo rosto de Beecham.
– As minhas desculpas. As minhas sinceras desculpas. Tive um filho que… – Olhou para lá de Hazel por um momento e depois abanou a cabeça. – Não interessa. É um prazer conhecê-la pessoalmente, Menina Sinnett.
– Então, espere só um segundo. O doutor…? – começou Hazel, mas depois pensou melhor. Pestanejou algumas vezes. – Então, o doutor não está zangado comigo?
O Dr. Beecham fez um sorriso compassivo.
– Não, confesso que não estou zangado consigo. Talvez um pouco desapontado com a minha capacidade de observação, mas… não, não. Não estou zangado. Na verdade, estou interessado.
– Interessado?
– Em si. Enquanto espécime. É muito raro ver uma mulher com o seu interesse pelas ciências naturais. E ainda mais raro, devo dizer, ver uma mulher com as suas aptidões. Diga-me… sempre se interessou por anatomia?
E então, quando lhe foi colocada uma chávena de chá à frente e a rapariga se instalou na poltrona de veludo surpreendentemente confortável, Hazel deu por si a contar tudo ao Dr. Beecham. Contou-lhe da infância solitária atrás das paredes cinzentas de Hawthornden, escondida no escritório do pai a ler livros de medicina e alquimia à luz das velas, muito depois de, supostamente, dever estar na cama. Falou-lhe do pai no estrangeiro e da mãe distante, presa num luto perpétuo, obcecada com a saúde do irmão mais novo, o novo herdeiro. Desde que aprendeu a escrever o nome, sempre quis estudar o corpo, aprender as regras pelas quais se regia, compreender como o dominar: esse estranho recipiente que continha a alma. Hazel apercebera-se de como era frágil quando, em criança, arranhou os joelhos e viu pérolas de sangue a saírem das meias. Passava horas a traçar as finas veias azuis esverdeadas sob a pele.
Beecham ouviu-a com toda a atenção, mexendo mais açúcar no chá e acenando com a cabeça enquanto Hazel falava.
– E foi assim que cheguei às suas palestras de anatomia – concluiu.
Tinha omitido como se esgueirara para a sala de operações para ver Beecham a fazer uma cirurgia com aquele milagroso ethereum. Não havia necessidade de meter aquele rapaz, o ladrão de corpos, em apuros.
– Juro que não foi com maldade nem com a intenção de troçar de si. Não consegui pensar noutra forma. Por favor, se me deixarem continuar nas vossas aulas, trabalharei mais do que qualquer aluno que alguma vez ensinaram e aprenderei mais diligentemente. Se puder falar com o Dr. Straine ou convencê-lo a permitir-me continuar os estudos… Serei discreta, se for preciso, e encontrarei uma forma de trabalhar como médica. Ainda não sei como, mas encontrarei. Os seus ensinamentos não serão desperdiçados. Juro que, de alguma forma, passarei no Exame Médico e darei crédito ao vosso curso, sei que darei. – Estava quase sem fôlego quando parou. A boca tinha-se mexido mais depressa do que o cérebro.
Beecham adicionou outra colher cheia de açúcar ao chá e, pensativo, bebeu um gole. Estremeceu e adicionou mais uma colher cheia de açúcar.
Supreendendo Hazel, uma cabeça pequena e que parecia de couro estendeu-se da carapaça de tartaruga sobre a mesa.
– Ah, olá, Galen – saudou Beecham. Deu um pouco de biscoito à tartaruga e acariciou-lhe distraidamente a carapaça, antes de voltar a atenção para Hazel. – Sabe – disse –, não partilho das ideias do nosso amigo, o Dr. Straine, sobre mulheres médicas. Quando se vive tanto tempo como eu, minha querida, aceita-se a novidade onde quer que a encontremos, e não se é nada sem o que é novo.
O Dr. Beecham não podia ter mais de 50 anos, mas Hazel compreendeu aquele ponto de vista.
– Isso significa – começou lentamente Hazel – que posso continuar na sua aula?
Beecham clareou a garganta e fez sinal a um criado para trazer outro bule de chá.
– Infelizmente, se o Dr. Straine não está disposto a deixá-la assistir às suas demonstrações, não há nada que eu possa fazer para o convencer. Quando ele falou comigo, no outro dia, tentei transmitir-lhe a ideia de que uma mente médica excecional poderia, de facto, vir de uma mulher, mas, lamentavelmente, é um velho casmurro e teimoso.
– Mas, de certeza – reagiu Hazel –, sendo o diretor do curso. Como colega docente. O seu avô foi fundador da sociedade, certamente há alguma coisa…
– Menina Sinnett. Por muito que me custe dizer, é possível que o Dr. Straine tenha alguma razão. As demonstrações anatómicas podem ser bastante… horripilantes. A pele esfolada e os órgãos inchados. Pensando bem, talvez seja melhor proteger a sua delicada sensibilidade. – Bebeu um grande gole de chá e suspirou de satisfação. – E a partir de agora, as aulas são cada vez mais exigentes. Incrivelmente rigorosas. E depois há o Exame Médico. Um processo penoso. Sim, pensando bem, talvez seja melhor…
Uma faísca iluminou o cérebro de Hazel, e ela falou antes que a lógica ou a razão a pudessem extinguir.
– E se eu fizer o Exame Médico? Mesmo sem as aulas. Se eu for autorizada a fazer o Exame Médico?
O Dr. Beecham inclinou a cabeça e levou a pena aos lábios.
– Seria uma experiência – disse.
– Sim – insistiu rapidamente Hazel –, exatamente. Uma experiência. Para testar as minhas capacidades. E se passar, recebo as minhas qualificações e assim permitirá que as mulheres se inscrevam nas suas aulas daqui para a frente. Nas suas e nas do Dr. Straine.
Deixaram mais um bule de chá na mesa, e Beecham agradeceu ao empregado com um sorriso caloroso, antes de se voltar novamente para Hazel. Quando se inclinou para a frente para encher a chávena de chá, a rapariga teve a sensação de ver algo brilhante e dourado, quase resplandecente, no bolso do peito dele. Mas antes que conseguisse ver melhor, Beecham endireitou-se.
– Mas devo avisá-la de que, se pretende fazer o Exame Médico, vai achar quase impossível sem estudar as matérias. Duvido de que alguém possa passar sem dissecções. Até o próprio John Hunter chumbaria.
– Vou conseguir. Posso garantir-lhe que vou conseguir. E não serei a última mulher a tentar inscrever-se no seu curso, Dr. Beecham, garanto-lhe isso também. Quando eu passar, as outras mulheres vão perceber que é possível. E eu vou passar.
Naquele momento, Beecham parecia positivamente alegre. Os olhos brilhavam de entusiasmo.
– Adoro desafios, Menina Sinnett.
– Então, está combinado – disse Hazel, estendendo-lhe a mão.
Beecham aproximou a mão da dela, mas depois levantou-a com um movimento brusco.
– As condições: fará o Exame Médico no fim do período. Se passar, abrirei o curso a qualquer mulher que deseje participar, embora a advirta de que pode não haver tantas com a sua peculiar predileção como parece acreditar. E, no caso improvável de passar, também lhe oferecerei um estágio, comigo, no hospital universitário onde, como deve saber, sou Chefe da Cirurgia. Um estágio raro e muito procurado. – Baixou a mão, pronto para apertar a de Hazel, mas, desta vez, foi ela quem hesitou.
– E se eu chumbar? Se eu chumbar? Todas as apostas têm riscos, não é verdade?
Beecham deu uma risadinha, mas não cruel.
– Muito bem, Menina Sinnett. Considero isto mais uma experiência do que uma aposta. Imagino que os riscos do seu fracasso seriam evidentes. Por um lado, eu seria incapaz de convencer o meu colega Dr. Straine a permitir que, no futuro, outras mulheres participassem no curso. Digamos que, se não passar no Exame Médico, não será capaz de desbravar o caminho no futuro. Esta experiência mais alargada, de uma mulher cirurgiã, será considerada concluída.
Hazel assentiu e deram um aperto de mão. A mão de Beecham estava fria; Hazel sentiu-a gélida, mesmo através da luva.
– Muito bem – rematou Beecham. – Estou ansioso por vê-la no exame. Ah, só mais uma coisa! – Levantou um dedo enquanto procurava na pilha de livros que lhe davam pelo cotovelo. – Ah! Cá está. Uma edição mais recente do Tratado do Dr. Beecham. Para estudar. Por acaso reparei que a que levou para a aula estava um pouco desatualizada. E ainda pior por estar tão gasta, se não levar a mal que o diga.
Hazel pegou no livro. A luz da lareira refletiu-se nas letras douradas da capa:
TRATADO DO DR. BEECHAM SOBRE ANATOMIA
OU, A PREVENÇÃO E CURA DAS DOENÇAS MODERNAS
pelo Dr. William Beecham
24.ª Edição, 1816
– Obrigada – agradeceu Hazel, folheando-o. Reparou que tinha algumas notas à margem. – Tem a certeza de que não se importa? Tem algumas notas.
O Dr. Beecham fez-lhe sinal para que não se preocupasse.
– Só uns rabiscos, tenho a certeza. E agora, com a sua licença, tenho de voltar às minhas notas. Estão a ocorrer mortes terríveis no coração da cidade. Terríveis.
Hazel endireitou-se, muito atenta.
– Já ouvi falar! Dizem que é outra vez a febre romana. O Dr. Beecham! Apareceu num jornal a falar sobre isso.
– Pois. Dei comigo a examinar os corpos. Terríveis, verdadeiramente terríveis.
– Então, acha que é verdade? – perguntou Hazel, em voz baixa. – A febre romana voltou?
O Dr. Beecham pareceu abatido. Assentiu.
– Parece ser esse o caso. E parece haver tão pouco interesse no público quando são os pobres que morrem. São tão poucos os que se importam.
– O meu irmão, que morreu… foi com a febre – revelou Hazel, evitando os olhos do médico. – O meu irmão George. Da última vez que a febre assolou Edimburgo.
– George – repetiu lentamente o Dr. Beecham. – George. Claro. As minhas mais sinceras condolências pela sua perda. – Olhou para lá de Hazel durante tanto tempo que ela ponderou se devia ir-se embora. Quando estava prestes a levantar-se, Beecham voltou a falar. – Morte magis metuenda senectus. Sabe latim, Menina Sinnett? –
– Só um pouco, lamento dizê-lo. É… hum… qualquer coisa como “tememos a velhice…”?
– “A velhice devia ser mais temida do que a morte.” – Beecham voltou a assumir uma postura distante, e os dois ficaram em silêncio por alguns momentos, ouvindo a lareira continuar a crepitar e os homens de suíças em redor a fungar e a virar as páginas dos jornais. Por fim, o Dr. Beecham voltou a falar. – Bem, espero que estude muito e passe no exame, Menina Sinnett. – O reflexo das chamas fez crescer um brilho laranja nos olhos dele. – Especialmente se a febre romana tiver regressado à nossa bela cidade. Talvez seja a Menina Sinnett quem finalmente descobre a cura.
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De Uma História da Prática
do Médico Real (1811):
A filosofia da medicina durante o período Tudor foi dominada pela noção dos quatro humores, encontrada nos escritos de Hipócrates (c. 460 a.C.) e desenvolvida por Galeno de Pérgamo (c. 129 d.C.), o notável médico da Roma Antiga.
Os médicos trabalhavam no pressuposto de que cada indivíduo tinha um humor dominante, ou fluido, que determinava a sua personalidade, e qualquer doença podia ser entendida no contexto de um excesso ou uma deficiência do referido humor. Os quatro humores eram: sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra.
Simpático,
Quente frequentemente
Sangue Sanguíneo e brincalhão e risonho; Ar Primavera Fígado
húmido aspeto rosa-escuro e
boa pele
Desanimado, muitas
Frio e vezes esquecido; ficará
Fleuma Fleumático Água Outono Cérebro
húmido com o cabelo branco
ainda novo
Amargo,
Bílis Quente temperamental e Vesícula
Colérico Fogo Verão
amarela e seco infeliz; a pele pode ter biliar
um aspeto esverdeado
Bílis Melancólico Frio e Preguiçoso e de saúde Terra Inverno Baço
negra seco frágil; cabelo preto e
olhos pretos
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