Anatomia: uma história de amor

Dana Schwartz · Capítulo 34 de 40

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Anatomia: uma história de amor

Capítulo 32

 

Durante semanas, a data do Exame Médico Real no final do semestre parecera tão distante para Hazel, uma abstração que nunca chegaria a materializar-se. E depois, de repente, tinha chegado. No final, o que aprendera através de intermináveis horas de leitura e ao memorizar o exemplar do Tratado do Dr. Beecham parecia quase cómico, quando comparado com o que aprendera nas poucas semanas em que realmente agira como médica dos doentes que acorriam a Hawthornden. Beecham tivera razão em duvidar de Hazel quando inicialmente tinham feito a aposta; se ela tivesse estudado apenas a partir de livros, nunca se teria sentido preparada. Agora, quase se sentia.

Na manhã do exame, leu as anotações enquanto enfiava papas de aveia na boca, quase sem perceber o que estava a comer, totalmente concentrada nas palavras que tinha à frente. Sistema pulmonar? Linfático? Órgãos? Verificou mentalmente cada área que estudara, uma a uma, surpreendendo-se com a constatação de que, afinal, talvez estivesse preparada.

– Para com isso – disse Burgess, comendo as papas com um vigor que fez Hazel sorrir. Ele estava a melhorar. Apesar de, por vezes, ainda ter tosse com expetoração, as lesões nas costas estavam a diminuir. E recuperara o apetite.

– Paro o quê? – perguntou Hazel, sem tirar os olhos do papiro e deixando cair uma colherada de papas no colo.

– Com o estudo. Sabes tudo de trás para a frente. Não há ninguém naquele exame que saiba metade do que tu sabes.

– Obrigada, Burgess. E agradeço a tua ajuda.

Burgess deu uma gargalhada fraca.

– Soa estranho agradeceres-me, visto que foste tu que me salvaste a vida.

– Um tratamento é bom – reagiu Hazel. – Uma cura é melhor.

– Bem, não tenho dúvidas de que a cura chegará mais cedo se for a Dra. Hazel Sinnett a tentar descobri-la.

– Ainda não sou médica.

– Espera umas horas.

Juntou as penas, a tinta e as facas, assim como o Tratado do Dr. Beecham, mais para dar sorte do que por qualquer outra razão.

– O Jack passou por cá recentemente? – perguntou Hazel a Iona, enquanto esta a ajudava a prender os atacadores.

Iona abanou a cabeça.

– Não o vejo há uns dias. – Depois, ao ver o olhar nervoso de Hazel, acrescentou: – Mas não precisa de se preocupar com aquele rapaz. Consegue safar-se de qualquer problema, sabe como é o Jack. É mais escorregadio do que uma víbora e duas vezes mais esperto.

Hazel só conseguiu assentir. Jack estava bem. Naquele momento, tinha de se preocupar com o exame.

Inicialmente, planeara fazer o exame vestida de George Hazleton; tinha tirado um dos melhores casacos de George para a ocasião e guardara-o no quarto para servir de lembrete diário da tarefa que se aproximava. Mas quando chegou o momento de se vestir, hesitou. Não ia fazer o exame como George Hazleton; ia fazê-lo como Hazel Sinnett.

E, então, Iona ajudou-a, em vez disso, a vestir um vestido que chegara da costureira apenas algumas semanas antes, um que Hazel ainda não usara. A saia era de musselina branca e forrada com uma fita na bainha, caindo em camadas delicadas sobre os tornozelos. O corpete era de seda cor de sangue, com folhos de linho branco nos ombros. O colarinho chegava-lhe ao queixo, para não se esquecer de o manter levantado.

– Não se atrase agora – avisou Iona, depois de acabar de a vestir. – Recordou-me uma dúzia de vezes e eu não me esqueci: é às 8h00 em ponto.

Hazel endireitou os punhos das luvas.

– Não me vou atrasar. Confia em mim. – Ainda se lembrava da primeira tentativa matinal de entrar à socapa na demonstração cirúrgica do Dr. Beecham na Sociedade de Anatomistas, e de estar do lado oposto de uma porta trancada quando o sino tocou pela cidade.

Ainda havia geada no chão quando saiu para a carruagem, um orvalho sólido, congelado e cristalizado durante a noite. Hazel gostou do barulho dos sapatos sobre a relva. Ia ser um dia bom, pensou.

Aquela confiança durou até a carruagem terminar de subir a encosta até à Cidade Velha de Edimburgo; pela janela, Hazel vislumbrou pela primeira vez outros possíveis médicos a caminhar em direção à sala de exames da universidade. Formavam um grupo sério, homens de casacos escuros e botas usadas, com óculos e expressões de intensa concentração. Caminhavam sobre as pedras da calçada a olhar para os pés, de testa franzida. Hazel sentiu um aperto no estômago, e o pequeno-almoço transformou-se em bílis na garganta. Os balanços da carruagem estavam a deixá-la agoniada.

– Podes parar a carruagem – ordenou ao cocheiro. – Vou a pé a partir daqui.

Quando abriu a porta, foi recebida pelo frio – o vestido era demasiado fino para o frio de dezembro, e esquecera-se de levar um casaco de peles. Hazel caminhou rapidamente para se aquecer ao passar a ponte em direção à universidade. Ninguém reparou nela enquanto se apressava ao longo da rua empedrada, passando por lojas que cheiravam a carne quente e a cerveja cediça, por mendigos enrolados debaixo de cobertores sob os beirados, por rafeiros com pelos duros a agitar excitadamente as caudas musculosas com os restos de comida abandonados, por crianças a jogar um jogo com copos e dados, por um homem com uma cartola a empurrar uma cadeira de rodas com alguém tapado com um véu.

Hazel ficou petrificada. O homem e a cadeira desapareceram para lá de uma esquina, para um beco. Como é que Jeanette o tinha descrito? O sonho com um véu. E Munro contara a mesma história. Descrevera precisamente aquilo, aquela cena exata, ser conduzido através da cidade sob um pesado véu negro. Ninguém na rua parara ou notara qualquer coisa de estranho. Aos olhos dos outros, era uma viúva idosa de luto ou uma inválida a passar uma manhã fora de casa.

A rapariga susteve a respiração por um momento e viu o homem e a cadeira saírem da rua principal e dirigirem-se para um beco, o mais próximo que dava acesso à Sociedade de Anatomistas. Hazel deu um passo em frente, incapaz de resistir à tentação de espreitar ao virar da esquina. Viu uma capa a abanar e uma porta a fechar-se, confirmando o que já sabia: quem quer que estivesse na cadeira de rodas estava a ser levado para o teatro cirúrgico.

Foi então que se lembrou. Era segunda-feira, o dia em que o Barão Walford ia ser operado na Sociedade de Anatomistas. Não fora isso que dissera? O que iria acontecer atrás daquela porta fechada?

Tinha muito tempo antes do exame – partira tão cedo que podia ter ido a pé de Hawthornden até à universidade e estar instalada no seu lugar quando o exame começasse, ainda com tempo para encher o tinteiro. Não havia qualquer problema em dar uma espreitadela. Ver o que estavam a fazer. Certamente, não seria nada. O Barão Walford estava embriagado ao jantar. Provavelmente, estavam apenas a pôr-lhe um novo olho de vidro, e a mulher na cadeira era… uma viúva idosa que ia encontrar-se com o neto, um académico.

Ela tinha tempo. Tinha tempo de sobra. Hazel desejava que Jack estivesse ali, a tentar meter-lhe juízo na cabeça, dizer-lhe que estava a ser ridícula, que devia ignorar o barão e a mulher e manter-se concentrada. Concentrada em chegar à universidade, em fazer o exame, no futuro. Mas Jack não se encontrava ali; estava algures na cidade sem ela, e Hazel estava sozinha naquela esquina movimentada, a roer as peles das unhas enquanto ponderava mentalmente cada uma das alternativas.

A decisão foi tomada no momento em que viu a cadeira de rodas desaparecer para lá da porta, quando o coração começou a bater-lhe nos ouvidos e a excitação e medo lhe arrepiaram os cabelos na nuca. Hazel tirou o chapéu, olhou em redor, para verificar se alguém estava a observá-la, e desapareceu no pequeno beco ao lado do edifício, onde apenas alguns meses antes um rapaz que ela ainda não conhecia como Jack Currer lhe mostrara uma entrada secreta.

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De Tratado de Anatomia do Dr. Beecham: Ou,

A Prevenção e Cura das Doenças Modernas (17.ª Edição,

1791), pelo Dr. William R. Beecham:

O objetivo de um médico é proteger e servir o seu semelhante. É esta a única diretiva de quem se compromete com esta ilustre profissão: ajudar os necessitados. O objetivo do estudo deve ser a expansão do conhecimento, mas nunca em si mesmo. Deixai o conhecimento em si mesmo para os filósofos. A vida de um médico é demasiado curta para ser desperdiçada no mundo ocioso dos académicos – se ele usa a mente, deve também usar as mãos.

 

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