Anatomia: uma história de amor
Capítulo 28
Munro bebeu dois bules de chá e comeu um tabuleiro cheio de bolachas antes de se reclinar no sofá, batendo com a mão na barriga e sorrindo para Hazel e Jack, que desde que ele chegara ao Castelo de Hawthornden o olhavam com fascínio.
Munro estalou os lábios.
– Belas bolachas, se é que posso dizer, Menina. Ótimas bolachas, mesmo.
– Obrigada – disse Hazel.
– Munro – chamou Jack, incapaz de se conter por mais tempo. – Por onde tens estado? E como é que perdeste o braço!?
Munro deu um suspiro agitado, com o lábio superior a tremer.
– É uma pena, não é? – replicou ele, levantando a manga esquerda vazia da camisa. – Ainda assim, graças ao bom Deus não é a mão com que disparo. Imagina que tenho uma pistola na mão direita e ainda mato meia dúzia de patos antes de o dono da casa saber que estou na propriedade dele. – Voltou-se e lançou um piscar de olhos atrevido a Iona, que tinha estado a cuidar do fogo na lareira, fingindo que não ouvia atentamente o que estava a ser dito. – Sei cozinhar um galo mau, assado numa fogueira com umas castanhas na barriga, se as conseguir encontrar. O melhor Natal que alguma vez tive foi um galo roubado e castanhas, de volta ao velho quarto em Fleshmarket Close. Lembras-te daquele sítio, Jack? O telhado meio caído e o chão devorado por térmitas, ainda assim não era um lugar mau para essas coisas.
– Munro – repetiu Jack. – O teu braço. Estiveste desaparecido. Semanas a fio.
– Está bem, está bem. A história. Antes de começar, seria possível arranjar mais umas bolachas destas? Oh, obrigado, amor, és um anjo. Caído do céu. Antes de começar, devo dizer-vos já que não me lembro de tudo. Vem e vai, como o nevoeiro. Como se estivesse a ver tudo através do fumo do jantar queimado de alguém. Mas pelo menos sei onde começou, essa parte é fácil: estava a escavar uma campa em Greyfriars, a tentar arrancar o corpo de uma moça que morreu com o bebé ainda na barriga. Matou-se, disseram eles. O namorado já não a amava. Arsénico, ouvi dizer. Mas claro que a família não o admitiu, por isso disseram que era a doença romana. Uma desculpa conveniente, tendo uma praga a dizimar a cidade, é tudo o que vou dizer. Por isso, fui sozinho para o cemitério por volta da meia-noite. Normalmente, teria sido bom ter um parceiro neste tipo de coisas, mas sabes que o Bristlwhistle foi para Calais e o Milstone morreu no mês passado, uma coisa trágica, trágica, e em quem mais dos bandidos devia confiar? Especialmente quando estava a contar fazer uma fortuna com aquela pobre rapariga grávida. Já trabalho nisto há tempo suficiente para não gostar de dividir os lucros, se não tiver de ser. Quando se é pobre há tanto tempo como eu, a ganância não me parece um pecado assim tão mau.
Embalado, Munro continuou a contar a história.
– Portanto, lá fui eu sozinho para Greyfriars de noite, sem sequer me dar ao trabalho de levar uma tocha, por conhecer tão bem o terreno. Garanto-vos que podia ir de olhos vendados e não tropeçava numa única pedra. Não há uma única pedra nem um formigueiro naquele lugar que eu não conseguisse farejar numa noite sem lua e de olhos fechados. O portão estava aberto. Foi a primeira coisa estranha de que me lembro. Saltei por cima dele por hábito, mas lembro-me disso muito claramente. Estava fechado, mas não trancado, quero eu dizer. Por isso, presumi que alguém tinha chegado primeiro do que eu, outra pessoa ia ficar com a galinha dos ovos de ouro, por isso vou a correr até à sepultura e não há lá ninguém. A terra alisada do enterro, mas ninguém a tinha desenterrado. Não está ninguém no cemitério. Não há vento. Era como se até os fantasmas tivessem parado de se mover. O silêncio era tanto que conseguia ouvir o meu coração a bater nos ouvidos. Lembro-me bem dessa parte. Não me lembro se é importante ou se significa alguma coisa, mas é a pura verdade: a noite estava mais silenciosa do que eu alguma vez ouvira. As luzes até estavam apagadas em casa do George Heriot. Nem sequer uma vela na janela. Começo a escavar, mas ainda não tinha sequer escavado uns centímetros quando de repente aparece um homem mesmo à minha frente. É a única forma de o explicar, ele apareceu mesmo à frente do meu nariz. Nem sequer o ouvi chegar, nem sequer o ouvi respirar. Tinha um chapéu que lhe tapava a cara e, no escuro, não consigo perceber que tipo de cara é que estava debaixo dele. Mas ainda tenho a minha pá e ponho-a à frente da cara dele, e digo-lhe para não dar nem mais um passo. Este corpo é meu, digo-lhe, fui eu que o encontrei e mais, cheguei aqui primeiro. Qualquer ladrão de corpos que se preze sabe que não se rouba um cadáver a alguém que já está a roubá-lo. Mas aquele homem, aquele fantasma ou o que quer que seja, apenas sorri, e eu vejo uma fila de dentes amarelos na sombra. E é nessa altura que tenho a sensação de que já o vi, que ele foi um dos homens que foi ter comigo e com o Davey naquela noite, lembras-te, Jack? E então, penso: Oh, ele é um bófia. Faço de conta que vou começar a correr, mas antes que conseguisse dizer às minhas pernas para correrem, o cavalheiro agarra-me e enfia-me um lenço molhado na cara, com um cheiro adocicado… não sei. Cheirava a flores e a morte. Tentei suster a respiração, tentei lutar contra ele, mas depois tudo ficou pesado e tonto, e quando dei por mim, já o sol tinha nascido e ele estava a empurrar-me numa cadeira com um véu por cima da cabeça. Estávamos na Cidade Velha, eu sabia pelos cheiros e pela forma como as pedras da calçada saltitavam, e tenho quase a certeza de que atravessámos uma ponte, mas não conseguia ver onde. Já vos disse que tinha aquela renda preta por cima da cabeça… um véu ou qualquer coisa, como se fosse uma viúva de luto ou uma avozinha qualquer. Tentei correr, mas era como se as minhas pernas tivessem desaparecido, e não conseguia mexer os braços. Mal conseguia ver por baixo do tecido, por isso não podia fazer nada a não ser esperar e ter a esperança de que ele me deixasse por tempo suficiente para eu arranjar uma maneira de me libertar. Chegámos a um prédio com uma placa dourada na porta e o homem de chapéu bateu algumas vezes, e eles empurraram-me lá para dentro, através de uma grande sala e para outra que parecia um teatro. Era como se fosse um teatro, com bancadas e tudo, e tinha serradura no chão… Não confundo esse cheiro com nada no mundo. Nessa altura, tiraram-me o véu. Não havia ninguém na plateia, só duas mesas no palco e um médico com uma bata. Havia um velho a dormir em cima de uma das mesas. Talvez não fosse velho, era difícil de ver, mas pareceu-me velho. E devia ser velho para estar a dormir. O homem de cartola recebeu o pagamento do médico e deixou-me a olhar, na esperança de que não reparassem que eu ainda estava vivo quando me tentaram matar. O médico afiou uma faca e foi nessa altura que não aguentei e desatei a gritar, acho eu, ou talvez tenha só latido como um cão. E então ele pegou no seu próprio lenço e ensopou-o num líquido azul. Tentei mexer-me, tentei correr, juro, mas foi como se estivesse amarrado, apesar de os meus membros estarem livres. O meu cérebro estava mal. Encostou-me o lenço à cara e foi o mesmo cheiro outra vez. Um cheiro a corpo apodrecido e a uma flor doce como o perfume de uma senhora. E depois a sala ficou escura e a rodopiar, e eu já não conseguia gritar. Era vudu ou algo do género. Não doía, mas devia doer, mas não doía. Tive a sensação de que ia adormecer e fiquei com as memórias todas turvas. Se não tivesse acordado aqui sem o meu velho amigo… – apontou com a cabeça para o sítio onde antes tinha o braço esquerdo – podia ter pensado que talvez tivesse sonhado tudo aquilo ou bebido de mais na noite anterior. Acordei no hospital Saint Anthony, com a sensação de que tinha o corpo todo em chamas. Preso numa cama com duas pobres almas, ambos pedreiros com as pernas esmagadas sob um tijolo do tamanho da Ilha de Skye. Éramos uma visão desgraçada.
– Não te lembras de mais nada? – perguntou Jack, inclinando-se para a frente sobre os joelhos.
Munro abanou a cabeça.
– Fiquei lá uns tempos, enquanto tentavam perceber como é que eu tinha perdido o braço. Contei-lhes tudo, do homem e do teatro e do lenço húmido e tudo isso, mas parecia que ninguém queria saber de mim para nada. Achavam que era um bêbedo que se tinha metido em apuros, e acho que que não posso dizer que não fosse verdade. Tentei sair do hospital o mais depressa que pude. Cheirava a merda e a morte ali dentro, e um dos tipos na minha cama ressonava como um elefante constipado. A comida não era muito má, se conseguíssemos tirar os bichos. As larvas são como nós, a tentar aquecer-se, a tentar comer qualquer coisa, não as podemos levar a mal por isso. Ei, acham que posso beber qualquer coisa mais forte do que chá? Já que aquilo por que passei é mais ou menos uma provação, como costumam dizer.
Hazel acenou com a cabeça, e Iona foi buscar o uísque ao armário.
– Os médicos do hospital disseram-te alguma coisa sobre a ferida? Alguma coisa sobre a razão por que tinhas ficado sem o braço?
– Por acaso disseram que os pontos estavam muito bem cosidos. Como se tivessem sido feitos por alguém que sabia o que estava a fazer.
– Posso?
Munro encolheu os ombros e tirou a camisa de cima do ombro esquerdo, mostrando o que lhe restava do braço. Fora cortado na articulação; não tinha nada abaixo do ombro. E, tal como Munro dissera, os pontos pretos eram pequenos, direitos e regulares. A ferida tinha um pouco de pus e a pele em redor estava vermelha e inchada, mas os pontos estavam perfeitamente no lugar.
– Mas porque é que alguém te tiraria o braço? – interrogou Jack, estupefacto. – Não consigo compreender.
O uísque de Munro chegou, e ele agradeceu a Iona com uma piscadela de olho e depois bebeu um enorme trago.
– Também não percebo – disse ele, limpando os lábios com a manga do braço que lhe restava. – Não vou poder escavar mais, o problema é esse. E como é que agora vou conseguir um trabalho honesto? Não consegui arranjar um trabalho honesto quando tinha dois braços…
– Havemos de te arranjar qualquer coisa – garantiu Jack. – Podes vir trabalhar comigo no teatro.
– Ah, boa piada! – resmungou Munro. – Não estive assim tanto tempo fora para não saber o que se passa lá. Está fechado por causa da peste, não é? Como é que vai o teu trabalho no teatro, Jack?
O rapaz afundou-se na cadeira.
– Podemos arranjar-te qualquer coisa aqui em Hawthornden – interveio Hazel. – Precisamos sempre de alguém que ajude a cuidar da propriedade. E… e caças? Tenho a certeza de que a Cozinheira ficaria encantada com mais alguns coelhos.
Munro inchou o peito.
– Mesmo com uma mão, não há ninguém na Escócia que seja melhor atirador, posso garantir isso. Obrigado, Menina. Com toda a sinceridade. – E tirou o boné e levantou-se apenas para se dobrar pela cintura num arco profundo. Algumas cartas de jogar e moedas falsas caíram-lhe dos bolsos para o chão, e ele corou enquanto as apanhava.
– E a história acaba aí? Não te lembras de mais nada? Será possível que houvesse um homem só com um olho? Que o médico, na sala de operações, tivesse uma pala num olho?
Munro bebeu outro gole de uísque.
– A história é essa. Fiquei uns tempos no hospital até me mandarem para casa, fui ao pub, depois vim à procura do Jack. Quanto ao médico, não sei ao certo. Essa parte é toda muito confusa. Não reconheceria a cara dele mesmo que tivesse três olhos.
Hazel ficou sentada, a pensar. Alguém raptara Munro, usara ethereum – o que mais poderia ter sido? – e cortara-lhe o braço. Isso era o que ela sabia. As incógnitas eram o porquê e o quem. O desconhecido é que era preocupante, mas não tão preocupante como a incógnita seguinte: Quando é que iriam atacar de novo? Porque parecia, pelo menos a Hazel, que quem andava a raptar e mutilar os pobres de Edimburgo não tinha intenção de parar.
Hazel mandou Charles ir chamar um polícia, que chegou a Hawthornden ao pôr do sol. Tinha um bigode tão grosso e direito como cerdas de vassoura, e as narinas abertas de irritação desde o momento em que as botas dele entraram naquela casa.
– Sente-se, por favor – disse-lhe Hazel. – Iona, vai buscar um bule de chá.
– Obrigada, Menina – agradeceu ele, e sentou-se muito direito na cadeira em frente a Munro, que estava reclinado no sofá. Hazel estremeceu, vendo Munro através dos olhos do guarda: sujo de gordura e fuligem, as mangas da camisa amarelecidas, o cheiro a bebida a flutuar em redor como perfume.
– Então – começou o polícia, após Munro ter contado a história –, embebedaste-te, tiveste um pesadelo e acordaste sem o braço.
Hazel levantou-se, irritada.
– Não, não é nada disso! Anda qualquer coisa a acontecer na Sociedade de Anatomistas, quer haja ou não alguém diretamente envolvido. Estão a usar o teatro cirúrgico. E a usar ethereum. No mínimo, tem de fazer uma investigação!
Foi a vez de o polícia se levantar. O bigode tremia enquanto falava e apanhava as gotas de saliva que lhe saíam da boca com cada som de “p” pontuado.
– Menina, não me diga o que eu “tenho” de fazer. Neste ou em qualquer caso. Pertence a uma boa família e vou presumir que este… este lamentável charlatão a enganou num esquema montado para atrair a sua empatia e o seu dinheiro, e não que me chamou intencionalmente como parte de uma partida grosseira.
– Senhor, não percebeu bem – replicou Hazel. – Ele está a dizer a verdade. Não é o único a quem foram amputadas partes do corpo. Há qualquer coisa…
O guarda interrompeu-a com um ronco. Abanou a cabeça.
– O seu cérebro está demasiado ocioso, Menina. Devaneia. – Tornou a pôr o boné e aproximou-se de Hazel para falar com ela sem que Munro ouvisse. – Aqui entre nós, estas coisas acontecem constantemente com a ralé da Cidade Velha. Encontram um ouvido compassivo e inventam todo o tipo de histórias mirabolantes para despertar a piedade.
Hazel soltou-se dele.
– Posso garantir-lhe, senhor, que está enganado.
O lábio superior do guarda estremeceu e o bigode vibrou.
– Servi com o seu pai na Marinha Real, há alguns anos, contra os franceses. Vim aqui a Hawthornden como cortesia. Mas agora vou dizer-lhe, Menina, espero que o seu pai regresse antes que a filha se torne uma perturbação pública, em vez de uma simples tola.
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