Anatomia: uma história de amor

Dana Schwartz · Capítulo 36 de 40

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Anatomia: uma história de amor

Capítulo 34

 

Antes que Hazel se pudesse mexer, o homem do chapéu alto tinha a mão áspera à volta do cotovelo dela. Tinha avançado como um cão de caça nas sombras, tão rápida e silenciosamente que já estava a empurrar Hazel para a frente, em direção ao palco do teatro cirúrgico, quando ela finalmente gritou.

– Menina Sinnett – disse o Dr. Beecham, limpando o sangue das luvas. – Bem-vinda. Confesso que estou realmente encantado por ter pensado em testemunhar a minha cirurgia desta manhã. Sinto sempre as minhas mãos mais firmes quando estou a atuar para alguém. Que monótono fazer arte numa sala vazia, uma sinfonia sem ninguém a ouvir. E a Menina Sinnett é uma das poucas pessoas que, acredito, pode realmente apreciar a importância do que faço aqui. As outras pessoas… – apontou para o barão adormecido, cujo olho estava agora tapado com algodão – … ficam perfeitamente satisfeitas só por conseguirem o que querem. Pagam os honorários e a obra é feita. Não há curiosidade. Não se interessam pela ciência para lá dos seus próprios propósitos tolos e insignificantes. É trágico, à sua maneira, quão pequenas são essas vidas. Quão pouco se preocupam com o mundo fora do próprio corpo. Mas a Hazel Sinnett compreende. O exame foi esta manhã, não foi? Suponho que isso signifique que perdeu a nossa pequena aposta. Não importa, na verdade, não importa mesmo. Estou muito mais feliz por estar aqui. Compreende como é realmente milagroso tirar uma parte viva de um homem e transpô-la para outro, restaurar a dádiva da visão através, bem, de uma dádiva do nosso generoso doador. Demorei anos a conseguir implantar olhos. Os dedos são fáceis. Não demora tempo nenhum. Membros inteiros, uma progressão natural a partir daí. Agora, o coração ainda não domino bem. Ainda estou a trabalhar no transplante de um coração. Mas continuo otimista. O coração será o meu próximo feito.

Hazel cuspiu, lutando contra o aperto viscoso do homem com o chapéu alto. Todas as perguntas que queria fazer estavam a borbulhar-lhe no peito e a que escapou dos lábios foi:

– O que anda a fazer?

Beecham parou de limpar as luvas.

– O que ando eu a fazer? Pensava que era óbvio, minha querida.

Hazel libertou o cotovelo do homem do chapéu alto, e Beecham levantou a mão, indicando ao lacaio que a podia soltar.

– Anda a raptar pessoas. Anda a raptar pessoas pobres e depois opera-as. Usando o seu ethereum e tirando-lhes coisas. Membros, órgãos, olhos.

– “Tirar” é uma forma tão rude de o dizer – contrapôs Beecham, estremecendo ligeiramente. – Viveu uma vida muito protegida, Menina Sinnett, duvido que conheça a natureza terrível das coisas que acontecem na Cidade Velha de Edimburgo entre os verdadeiramente pobres e indigentes. São ladrões e criminosos. Perdem os membros e a vida todos os dias de formas terríveis e desprovidas de sentido. Este ladrão aqui podia ter morrido de fome, ou de tuberculose, ou numa rixa, ou de mil outras maneiras. Uma faca numa luta num pub podia tirar-lhe o olho amanhã e ninguém se importaria. Eu limito-me a pôr ordem no caos. Dou sentido às vidas deles.

– É um assassino – cuspiu Hazel.

– Talvez – concordou o Dr. Beecham, com ligeireza. – Mas também dou vida. Salvo vidas com os corpos que mato. A pobreza é o verdadeiro assassino, Menina Sinnett. Não criei os pobres que sofrem por viverem 20 num quarto, na miséria, enquanto trabalham 20 horas por dia apenas por um pedaço de carne. Acha que isso é vida?

Hazel olhou para o rapaz de cabelo louro e para o rio de sangue que jorrava do local onde outrora estava o olho. Tinha o cabelo empapado em sangue, mas o peito ainda se erguia e descia com uma respiração frágil.

– Ele pode morrer! Aquele rapaz ali está a morrer e matou-o porque o barão queria um olho novo.

O Dr. Beecham deu uma pequena gargalhada.

– Sim, suponho que este caso parece um pouco fútil, não parece? Os ricos querem o melhor. Começou com dentes novos. A maioria dos cirurgiões, se não todos, são capazes de criar dentes falsos a partir da boca de outra pessoa. Mas sou o único capaz de fazer mais. E a maioria das pessoas querem mais. E estão dispostas a pagar. Nem todos os transplantes que faço são por vaidade, minha querida. Só este ano fiz… deixe-me ver… dois fígados, um útero e um pulmão. Tudo para prolongar a vida daqueles que gastam o tempo em arte e literatura e música e ciência. Tirados aos condenados que sofrem vidas de miséria e trabalho árduo. Agora, diga-me, isso está errado?

Hazel não conseguia tirar os olhos do rapaz que sangrava na mesa com uma respiração fraca.

– Por favor! – gritou. – Por favor, ele está a morrer.

Uma sombra de desapontamento atravessou o rosto do Dr. Beecham, mas ele substituiu-a cuidadosamente pela máscara agradável. Estalou a língua.

– Desejava tanto que pudesse compreender as implicações maiores do que faço, Menina Sinnett. Sinceramente. – Havia raiva na voz. – Não vê o que fiz? Não aprecia isso? – Espetou um dedo enluvado na órbita sangrenta do rapaz deitado na mesa, pressionando-o e torcendo-o. – Não, não me parece que aprecie. Provavelmente, ele vai sobreviver, diria eu. Se o choque o matasse, já o teria feito. Na verdade, acho que lhe fiz um favor. Andava a mendigar na rua quando o meu ajudante o encontrou, e, pelo que sei, os rapazes com deformidades físicas suscitam muito mais compaixão nos transeuntes. Se pudesse, talvez me agradecesse. A humanidade é muito maior do que a soma dos indivíduos patéticos, e há uns poucos eleitos capazes de feitos milagrosos como este. Acredita que Deus chora quando os insetos são esmagados sob as pedras enquanto o homem constrói torres, catedrais e universidades?

Hazel abanou a cabeça.

– O doutor não é Deus – replicou, com brusquidão.

Beecham deu uma gargalhada.

– Se soubesse, Menina Sinnett. As coisas de que me tornei capaz ao longo da vida. As coisas que tenho feito ao corpo humano. As coisas que sou capaz de fazer! Mas estou a deixar-me levar pelo entusiasmo.

– O que pensaria o seu avô? O Dr. Beecham, no seu tratado, as coisas que escreve sobre proteger a humanidade e contribuir para o progresso da humanidade…

– O meu avô? O que ele…? Oh! Oh, essa é boa, mesmo muito boa. – Beecham deu outra gargalhada, sonora. Enxugou uma lágrima dos olhos. – Essas palavras foram escritas por um idiota. Um jovem idiota que ainda não tinha vivido. Garanto-lhe, Menina Sinnett, que sou muito mais sábio do que o meu avô, que escreveu essas palavras há tanto tempo.

As sobrancelhas de Hazel uniram-se, mas antes que pudesse dizer alguma coisa, foram interrompidos por alguém a bater à porta atrás de Beecham.

– Outra entrega – disse uma voz abafada do outro lado.

– Entrem – ordenou Beecham,

Dois homens entraram com uma maca, com um corpo escondido debaixo de um lençol. Os homens tinham um aspeto estranho, um baixo e careca, e o outro meio escondido atrás de um enorme bigode. Pareciam-lhe familiares, mas Hazel não se conseguia lembrar de onde.

– Encontrámos este a escavar sepulturas em Greyfriars, ontem à noite – revelou o do bigode, mostrando uma fila de dentes grotescamente amarelos ao falar. – Sozinho. Ia morrendo de susto.

O estômago de Hazel deu um nó. Deu um passo em frente, mas o homem alto atrás dela pôs-lhe o braço carnudo à volta do pescoço, segurando-a onde estava.

– Não faça isso, Menina – rosnou ao ouvido dela.

O Dr. Beecham fungou.

– Ponham o barão na maca e o corpo sobre a mesa. O barão pode convalescer na sala de recobro. – Os dois homens que levaram a maca assentiram e puseram mãos à obra. Depositaram o corpo embrulhado na mesa ao lado do rapaz que sangrava. O Barão Walford foi colocado sobre a maca e retirado do teatro de operações.

– Um cadáver? – perguntou Hazel, em voz baixa.

– Ainda não – retorquiu simplesmente Beecham. Depois de os dois homens terem fechado a porta, o médico retirou o lençol do segundo corpo.

– Não! – Hazel tentou saltar contra o homem que a segurava. Ele apertou-a com mais força. Ela pisou-lhe os pés e tentou espetar-lhe o cotovelo no estômago, mas ele não reagiu nem fraquejou. Deitado sobre a mesa, calmo como se estivesse a dormir, estava Jack. – Não! – gritou a rapariga. – Por favor, não! Qualquer pessoa menos ele. Por favor.

O Dr. Beecham fez uma pausa. Pareceu interessado.

– Conhece este rapaz?

Hazel pensou no que havia de dizer.

– Eu… eu… – A voz vacilou. Abanou a cabeça. – Por favor, deixe-o ir.

– Estou fascinado com o que faria uma jovem da sua posição social com um ladrão de corpos. Como é que os vossos caminhos se cruzaram? Verdadeiramente fascinante.

Por esta altura, as lágrimas já corriam pelo rosto de Hazel, ficando presas no nariz e na boca.

– Por favor – implorou ela, perdendo a voz. – Por favor.

– Menina Sinnett, estou prestes a ensinar-lhe uma lição muito importante. Tenho vivido uma vida muito longa… sim, mais longa do que imagina… e os apegos, como qualquer ligação tola que possa ter com este rapaz aqui deitado, não têm qualquer utilidade. O prazer é fugaz. A ciência, as informações que podemos recolher, as coisas que podemos aprender… essas são as coisas que duram. São o que fazem um legado. Pessoas como a Menina Sinnett e eu têm o potencial de usurpar o próprio Deus. – O rosto dele tornou-se mais sombrio. – Os apegos são dor. Pode pensar que sabe o que é sofrer, Menina Sinnett; tenho a certeza de que também pensava isso quando tinha a sua idade. Mas a força vem da capacidade de superar esses impulsos humanos. Sentimentalismo. Pieguice.

Hazel não conseguia falar. Continuava a lutar contra o homem que a agarrava, mesmo sentindo os músculos a enfraquecer e a sala começar a girar em redor.

– Acho que lhe vou tirar o coração – disse o Dr. Beecham, com um sorriso pequeno e perverso a puxar-lhe as bordas dos lábios. – Tenho a intenção de praticar um transplante com um coração. É perfeito. – Gesticulou em direção ao primeiro rapaz deitado sobre a mesa. A hemorragia no olho parara e havia agora um coágulo acastanhado. A respiração também parara. – Aqui está um corpo, pronto para o receber. Vamos ver se o ladrão de corpos consegue ressuscitá-lo.

– Não pode – gritou Hazel. – Não pode.

Beecham dirigiu-lhe um sorriso triste e tirou uma faca da mesa. A faca tinha quase dez centímetros de comprimento e estava manchada de sangue de cirurgias anteriores, ainda assim Hazel conseguia ver o brilho na extremidade.

Jack começou a agitar-se sobre a mesa.

– Jack! Jack, por favor, acorda! – O homem alto pôs-lhe a outra mão sobre a boca, de forma a abafar os gritos. Beecham baixou a faca até ao peito de Jack. O sangue salpicou, atingindo a metade esquerda do rosto do médico, fazendo-o parecer louco. Arrancou a faca, levantando-a para fazer a incisão seguinte, quando os olhos de Jack estremeceram e ele se agitou sobre a mesa.

O Dr. Beecham suspirou. Pousou a faca e pegou no frasco azul de ethereum. Lenta e deliberadamente, enquanto o sangue jorrava da ferida no peito de Jack, Beecham humedeceu outro lenço.

– São poucas as pessoas que sabem fazer um trabalho bem feito – disse, ao mesmo tempo que os olhos de Jack se abriram.

Os dedos de Hazel encontraram uma pena afiada no bolso da capa e depois tudo pareceu acontecer ao mesmo tempo. Num único movimento, apunhalou o peito do homem que estava atrás dela, que caiu para trás, agarrando-se ao peito, onde a pena estava espetada em noventa graus perfeitos.

– Jack! – gritou Hazel. – Jack, o lenço!

Jack despertou sobre a mesa, recuperando os sentidos no momento em que o Dr. Beecham se virou para perceber o que Hazel tinha feito, vendo o capanga caído no chão. Jack sentou-se e arrancou o lenço do punho frouxo do Dr. Beecham. Como que por reflexo, pressionou o lenço sobre o rosto do médico com uma força surpreendente, mantendo-o lá até ele cair na palha manchada de sangue sob a mesa do teatro cirúrgico.

Por um momento, Hazel e Jack ficaram parados, ofegantes e desorientados. Depois, Hazel correu para ele e abraçou-o. O rapaz desmaiou quando ela se afastou, curvando-se sobre os joelhos. Beecham tinha feito apenas uma incisão, à esquerda do coração, mas era profunda.

– Hazel – arquejou Jack, com o rosto a perder a cor.

– Vamos ajudar-te – sussurrou-lhe Hazel. – Calma. Calma. Vais ficar bem. – Hazel puxou um dos braços de Jack sobre os ombros e conseguiu levá-lo até à cadeira de rodas abandonada ao lado do palco. A parte da frente do vestido estava ensopada em sangue, mas Hazel nem deu por isso. O Dr. Beecham estava caído no palco, inconsciente devido ao efeito do ethereum. O homem que Hazel apunhalara com a pena estava caído de lado. Ela não sabia se estava vivo ou morto; só conseguia pensar em tirar Jack dali e pô-lo a salvo.

A rua chegou num borrão de cor e cheiros, tudo a rodopiar e demasiado brilhante, sem que alguém parasse para os ajudar. Precisavam de um lugar seguro, um lugar calmo. Hawthornden ficava demasiado longe; Jack poderia estar morto quando chegassem à carruagem. Hazel não sabia onde ficava o hospital mais próximo.

– Desculpe – disse a um homem que ia a passar por eles com grandes passadas. A voz tremeu-lhe e ela soou como se fosse louca. O homem deitou-lhe um olhar piedoso e continuou a dar passos largos. De algures acima deles veio o som de uma arrastadeira a ser esvaziada para a sarjeta. Ela precisava de tirar Jack da rua. – Vai correr tudo bem – murmurou-lhe. Jack gemeu em resposta. – Se conseguires, faz pressão sobre a ferida.

Vindo de South Bridge, Hazel viu a luz do sol a refletir uma cartola cinzenta que lhe era familiar.

– Bernard!

O chapéu voltou-se. Bernard levantou uma mão para bloquear o sol e perceber quem o chamara.

– És…? Hazel, nem acredito. O que estás aqui a fazer? O que…?

– Bernard, posso explicar-te tudo mais tarde, juro. Posso levá-lo para Almont House? Ele foi esfaqueado, temo que vá morrer.

Bernard hesitou apenas por um momento.

– Sim, claro. Deixa-me ajudar-te.

Os dois conseguiram levar Jack por Lothian Road, passando por Saint Cuthbert mais depressa do que Hazel teria conseguido sozinha.

– Quem é ele? – perguntou Jack, com uma voz débil, ao virarem para Princes Street, torcendo o pescoço para olhar vagamente para Bernard.

– Chiu. Silêncio agora – retorquiu Hazel. – Estamos quase a chegar.

Verdade seja dita, sempre que Bernard olhava para Hazel com a boca aberta, como se estivesse prestes a fazer uma das muitas perguntas que, sem dúvida, lhe passavam pela mente, abanava ligeiramente a cabeça e voltava a olhar em frente, até que chegaram à entrada dos criados de Almont House.

– Há um quarto vazio no segundo andar – indicou Bernard. Dois criados de libré saíram quando os viram a aproximar-se, e ajudaram Hazel a levar cuidadosamente Jack pelas escadas do corredor dos criados até um pequeno quarto com uma cama por fazer. Embora houvesse uma janela minúscula por cima da cama, o quarto estava muito sombrio.

– Podem trazer-me uma vela, por favor? E uma bacia com água? E panos limpos, se tiverem? – pediu Hazel.

Com Jack já deitado, Hazel pôde ver melhor a extensão do ferimento, os danos que a faca de Beecham causara no peito. Começou a tirar a camisa a Jack, embora uma parte do pano estivesse presa à crosta de sangue seco. A ferida era mais profunda do que ela pensava; a carne em redor já estava quente e cor-de-rosa brilhante, e da ferida da facada, com vários centímetros de comprimento, jorrava sangue púrpura. Bernard estremeceu e sentiu vómitos, saindo depois do quarto para que Hazel pudesse trabalhar.

Depois de limpar a pele de Jack, Hazel pôde soltar a respiração que parecia estar a suster no peito há horas. A ferida era profunda, sim, mas nenhum órgão vital fora atingido e, sendo uma incisão tão limpa, Hazel conseguiu cosê-la bem e manter a pele unida para evitar que infetasse.

À tarde, Jeanette entrou no quarto, com o cabelo enfiado sob uma touca, com uma pilha de roupa de linho limpa e sílex para acender a lareira.

– Quando o Hamish, que é o criado de libré, quero eu dizer, disse que tínhamos uma senhora médica cá em casa, imaginei logo que tinha de ser a Menina Sinnett. – Os olhos dela pousaram no estômago de Jack. – É o Jack – reconheceu, com o ar desorientado de uma criança confusa. – Aquele ali é o Jack. É o Jack.

Hazel assentiu.

– Jack – repetiu Jeanette, apática, aparentemente sem conseguir aceitar que era mesmo Jack. Deu um passo em frente e entregou os lençóis a Hazel. – O Jack não se magoaria. O Jack nunca se magoa. O Jack não morreria.

– Acho que ele não vai morrer, Jeanette – revelou Hazel. – Vai ficar bom.

Ao ouvir aquilo, Jeanette deu uma gargalhada estranha.

– Claro que vai! Com uma médica assim.

Hazel fez um sorriso débil.

– Ainda não sou médica, Jeanette.

– É mais médica do que muitas dessas fraudes no hospital dos pobres – sussurrou Jeanette, com uma energia renovada, enquanto acendia a lareira. – Pelo menos, ouviu-me. Qualquer outra pessoa teria dito que eu estava louca.

Assim que o fogo começou a crepitar na lareira, sentaram-se as duas a fazer vigília a Jack por um curto espaço de tempo, até que Jeanette se levantou.

– Vou buscar-lhe o jantar. Deve estar esfomeada.

Hazel não tinha pensado em comida o dia todo. Não fazia ideia de quanto tempo estivera no quarto com Jack; só sabia que a pequena janela quadrada, por onde antes entrara a luz do sol, agora mostrava o crepúsculo. Jack dormia, mas a respiração estava estável e regular. Os olhos tremeluziram e Hazel conseguiu distinguir os vasos sanguíneos vermelhos que traçavam o caminho sob as pálpebras. Passou-lhe um dedo ao longo da face, a pele pálida escurecida pela sombra da barba por fazer.

O momento foi tão calmo e íntimo que Bernard, de pé na entrada da porta, baixou o olhar para os pés, em desconforto. Saiu e voltou alguns segundos mais tarde, batendo ao de leve com os nós dos dedos na porta estalada.

– Vi uma criada prestes a subir com o teu jantar e pensei trazê-lo eu mesmo – disse Bernard, depositando um prato de frango assado na pequena secretária da divisão. Sentou-se na única outra cadeira do quarto. – Espero não estar a perturbar, meu amor?

– Claro que não – replicou Hazel, desviando o olhar.

– Ainda bem. E… como é que ele está?

– Vai ficar bom – respondeu Hazel, observando o rosto de Jack. Teria ele sido sempre assim tão belo? Teriam aqueles lábios sido sempre assim curvados num arco de Cupido, para que a ponta de um dedo pousasse perfeitamente nesse arco? Teriam as orelhas sido sempre assim tão macia, encaracoladas como conchas? Teria o cabelo sido sempre tão grosso e encaracolado? O peito, conseguia ver mesmo através das ligaduras, era largo, mas côncavo na clavícula. Hazel queria descansar a cabeça sobre ela para sempre.

– Suponho que talvez agora me possas dizer o que está a acontecer – disse Bernard, tentando fazer com que a voz soasse amigável.

Hazel contou tudo, os corpos que encontrara sem membros e órgãos e, por fim, o que vira quando se infiltrara furtivamente na Sociedade de Anatomistas.

– Estão a tirar homens e mulheres pobres das ruas e a vender os seus corpos, peça por peça. Ele usa aquele… aquele ethereum para que fiquem inconscientes enquanto os opera, e depois ele… o Beecham tinha mais qualquer coisa, um frasco com algo que usou durante a cirurgia para fixar os órgãos. Não sei exatamente como, não sei o que é, mas o Jack, quero dizer, este rapaz e eu mal escapámos vivos.

– E este rapaz é…?

– É um ladrão de corpos. Rouba cadáveres dos cemitérios e vende-os a médicos e anatomistas para estudar. Comprei-lhe alguns. Para estudar para o exame. Mas ele é um homem respeitável… é mesmo. Trabalha no Le Grand Leon. É um bom homem.

Bernard assentiu, sem mostrar qualquer reação no rosto, mas sem nunca tirar os olhos de Hazel. Permaneceu em silêncio durante um minuto, antes de Hazel continuar.

– Bernard – disse Hazel, num tom grave. – Está a acontecer qualquer coisa muito séria. Qualquer coisa real. Não sei quantos estão mortos ou quantos vão morrer ou serão mutilados pelo Dr. Beecham. Preciso que vás à polícia, ou fales com o teu pai sobre isso, mas tens de ser tu a fazê-lo. Eles vão acreditar em ti; têm de acreditar em ti. És um visconde.

– Filho de um visconde.

– Não interessa. Sabes que não interessa. Tentei falar com o guarda e ele ignorou-me. Mas agora vi-o com os meus próprios olhos, Bernard, juro que é verdade. Acreditas em mim, não acreditas? Ele hoje pôs um olho novo ao Barão Walford! Da próxima vez que vires o Barão Walford, ele terá um novo olho! Diz-me que acreditas em mim.

– Acredito em ti, Hazel – garantiu Bernard. – Afinal, és minha noiva. Temos de confiar um no outro. – Levantou-se com firmeza. – Então, vou-me embora e voltarei a ver-te em breve. – Deu um beijo seco na face de Hazel. – Até lá, meu amor.

Hazel não tirou os olhos de Jack. Se o tivesse feito, poderia ter visto a coisa que ardia como brasas atrás dos olhos de Bernard.

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