Anatomia: uma história de amor

Dana Schwartz · Capítulo 7 de 40

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Anatomia: uma história de amor

Capítulo 5

 

 

Podia ir sem Bernard, tinha a certeza absoluta. Era apenas uma questão de garantir que cronometrava tudo bem – sairia depois do pequeno-almoço e diria à mãe que ia dar uma longa caminhada pelos campos atrás da casa. Daí, teria de pedir emprestado um dos sobretudos compridos do pai e ir até aos estábulos sem ser vista. Percy não seria um problema – tinha aulas durante toda a manhã. E o quarto da mãe ficava virado para o lado leste do edifício, por isso, mesmo que ela olhasse pela janela enquanto terminava as cartas, não veria Hazel a fugir pela rampa.

Uma carruagem estava fora de questão. Seria demasiado barulhenta e daria demasiado nas vistas. Alguém a podia ver e reconhecer a carruagem no percurso entre a sua casa e Edimburgo. Não, seria muito mais seguro ir de cavalo, levantar o mais possível a gola do casaco de inverno do pai sobre o pescoço e manter a cabeça baixa.

Hazel nunca estivera na Cidade Velha sem alguém a acompanhá-la, mas estava confiante de que não se perderia. Estava tudo organizado como as espinhas de um peixe – a espinha central da High Street, desde o Castelo de Edimburgo até ao Palácio de Holyrood, lá em baixo, com becos e ruelas a ramificarem-se de ambos os lados. Sabia como era o exterior da Sociedade Real de Anatomistas de Edimburgo – o tio mostrara-lhe, certa vez: vigas escuras de madeira e pedra, uma placa dourada ao lado da porta. Não seria difícil de encontrar. Tinha os seis pence para a entrada no bolso, cada vez mais quentes, devido ao hábito nervoso de esfregar os dedos contra as moedas, mas se tudo corresse como planeado, não precisaria delas.

Naquela manhã, ela continuara a planear, passo a passo, enquanto enfiava papas de aveia na boca do outro lado da larga mesa de carvalho da mãe. A sala de jantar informal era, talvez, a única divisão de Hawthornden que podia ser considerada “aconchegante”. Ficava ao lado da cozinha, estava sempre quente e, geralmente, tinha um cheiro agradável à carne que a cozinheira estivesse a assar para o jantar. Embora as paredes da casa, em quase todas as outras divisões, estivessem cobertas – com retratos a óleo e armas de metal e espécimes das viagens do pai resguardados por vidros –, ali a madeira estava à vista, com uma cor castanha convidativa iluminada pelo fogo crepitante que aquecia a chaleira no fogão.

Se pelo menos Bernard não tivesse rasgado o anúncio. Não que Hazel não o tivesse decorado, mas teria sido reconfortante lê-lo uma e outra e outra vez. O cartaz não referia que não era autorizada a entrada de mulheres para assistir à palestra, mas também não era preciso. Além disso, Hazel não queria que alguém a reconhecesse e fosse contar à mãe – ou, pior ainda, ao tio. Não, em vez disso, ia esperar que os sinos da Catedral de Saint Giles dessem as 8h00, quando a palestra começaria, e ficaria no exterior até as portas serem fechadas. Depois, assim que toda a gente estivesse distraída com a nova técnica milagrosa que o Dr. Beecham estava a demonstrar, podia esgueirar-se lá para dentro, em silêncio e sem que alguém desse por isso.

Obviamente, o Dr. Beecham, cujo manual redefinira o campo da anatomia e fizera de Edimburgo a capital das ciências médicas, já tinha morrido. Era o neto, Dr. Beecham III, que tinha agora as funções de presidente da Sociedade Real de Anatomistas de Edimburgo. Hazel repetiu o plano em silêncio vezes sem conta: cavalo, cidade, palestra. Cavalo, cidade, palestra. Se voltasse depressa para casa, chegaria à hora de jantar e podia fingir que perdera a noção do tempo na floresta. A mãe nem repararia; ela mal dava por Hazel. George morrera e Percy era o herdeiro. Que importância tinha a forma como Hazel passava o tempo?

– Graças a Deus, vamos passar a temporada a Londres.

Hazel estava tão distraída com os seus próprios pensamentos que o som da voz da mãe lhe provocou um choque semelhante a uma descarga elétrica.

– Desculpe, o que disse?

Lady Sinnett endireitou-se na cadeira, e o véu que usava sempre sobre o rosto estremeceu.

– Londres – repetiu, com brusquidão. – Para a temporada. Não seja cansativa, Hazel.

– Sim, claro. Londres. – Uns meses infelizes, atada como um peru no Natal e obrigada a sorrir para desconhecidos de olhos a brilhar, de braço dado com Bernard.

– Ainda bem que vamos – repetiu Lady Sinnett –, com tudo o que tenho ouvido.

Hazel tentou manter a voz calma.

– O que tem ouvido? – Ficou com a respiração presa no peito. Então, a mãe sabia. Sabia da palestra e da escola de anatomia. Claro. Como era possível que tivesse sequer pensado guardar segredo, quando…?

– A febre, Hazel – disparou Lady Sinnett. – Obviamente, não existe onde há gente civilizada, mas em Edimburgo, com as casas todas umas em cima das outras e os pobres já meio mortos. Com o ar tão mau em Edimburgo, sinceramente, quanto mais depressa formos para Londres, melhor. Sobretudo, com a constituição tão delicada do Percy.

– Ah. Pois. Tem razão. – Os sinos da abadia do outro lado da propriedade bateram as horas, e a cozinheira apareceu na sala de jantar para levantar os pratos. – Esta manhã, vou dar um passeio – anunciou Hazel, tornando a quebrar o silêncio. – Um longo passeio. Para apanhar este ar tão bom.

De algures lá em cima chegou o som de Percy a bater sem ritmo nas teclas do pianoforte.

– Sim, está bem – anuiu Lady Sinnett, distraída. Hazel bebeu outro gole de chá para evitar que a mãe a visse a sorrir.

 

Demorou menos de uma hora a chegar a Edimburgo, e não se cruzou com vivalma na estrada, a não ser com meia dúzia de camponeses que Hazel não reconheceu e que não se deram ao trabalho de olhar para ela quando ia a passar. Seguiu a estrada principal em direção ao fumo negro cintilante, visível a quilómetros de distância – Auld Reekie, ou Velha Chaminé, o nome por que era conhecida a cidade, o coração pulsante da ciência e literatura da Escócia. Antes de o pai de Hazel partir, tinha-a levado com George a Almont House para ouvirem Sir Walter Scott fazer uma leitura do seu poema narrativo A Dama do Lago. A febre romana tinha levado George menos de uma estação depois. Hazel também estivera doente, agarrada aos cobertores e a encharcar a cama com o suor e o sangue das feridas nas costas. Até que, uma manhã, com a luz amarela fraca do amanhecer a passar pela janela, descobriu que conseguia sentar-se. A cozinheira chorara quando Hazel pedira papas de aveia, a primeira comida que pedia numa semana. Ela tinha sobrevivido, e o irmão mais velho, que era mais forte, mais inteligente e mais corajoso do que ela, morrera.

Hazel sabia que a Cidade Velha era um labirinto de ruas tortuosas. Mesmo lembrando-se de como era a porta da frente da Sociedade de Anatomistas, Hazel continuou em silêncio a ensaiar a forma como perguntaria educadamente a um estranho que lhe desse indicações. Mas assim que deixou o cavalo numa estalagem e começou a andar sobre as pedras de calçada, escolheu um par de estudantes de Anatomia no meio da multidão. Não podiam ser outra coisa: casacos pretos puídos, sapatos manchados e, o mais evidente de tudo, exemplares do Tratado de Dr. Beecham debaixo do braço. Perfeito.

Hazel seguiu-os a pé sobre as pedras molhadas pela chuva até entraram numa viela perto de South Bridge que cheirava a peixe do dia anterior. A viela acabava numa pequena praça, rodeada por todos os lados por prédios com, pelo menos, três ou quatro andares. Os prédios pareciam estar todos inclinados para a frente. O céu estava azul e alegre enquanto Hazel cavalgara até à cidade, mas ali era apenas um remendo acinzentado de água de lavar pratos. No ar havia roupa a secar e cheiro a urina.

Mas ali estava ela: a Sociedade Real de Anatomistas de Edimburgo, gravada numa placa de bronze ao lado de uma porta preta. Alguns homens que estavam no exterior tinham o anúncio na mão. Hazel ficou surpreendida ao ver que, na realidade, pareciam, na maioria, cavalheiros. Lá no fundo, ficara convencida de que Bernard tinha razão, e que ela ia entrar voluntariamente para um antro de rufias e atores de teatro. Mas não – havia cartolas e sapatos de couro verdadeiro. Embora não se conseguisse lembrar do nome deles, reconheceu um ou dois dos salões de Almont House, e susteve a respiração, encostando-se a uma parede de pedra molhada para que ninguém reparasse nela. Não precisava de se ter incomodado. Os homens estavam distraídos com a sua própria importância e não lhes passaria pela cabeça olhar para qualquer pessoa que estivesse um centímetro abaixo do seu campo de visão.

Então, os sinos de Saint Giles tocaram, mais alto do que Hazel alguma vez ouvira, vibrando até ao âmago da rapariga. Os homens murmuraram e andaram de um lado para o outro por mais um momento, até que a pequena porta se abriu e começaram todos a empurrar-se para entrar.

Hazel ficou para trás, a observá-los, reparando na impaciência e na forma como se cumprimentavam com uma reserva fria. E foi então que, por entre as capas e casacos compridos, viu um homem que a fez suster a respiração ao reconhecê-lo. Era o médico com uma pala num olho que dera o dente do indigente ao tio Almont, o Dr. Straine. Ele não a viu, ou pareceu não a ver, mas Hazel encostou-se ainda mais à parede de tijolos, pelo sim, pelo não.

Só quando os sinos tocaram a anunciar o quarto de hora é que os homens acabaram de entrar e os vários gemidos e exclamações de reconhecimento finalmente cessaram. Hazel ficou sozinha no beco quando a porta preta se fechou.

Ia esperar cinco minutos – cinco longos minutos – antes de se esgueirar lá para dentro. Seria ela própria a contá-los, esses cinco minutos, enquanto via os lençóis manchados, pendurados nas janelas por cima dela, a ondular suavemente. Afinal, a Cidade Velha não era assim tão má, pensou Hazel. A mãe tinha-lhe contado histórias sobre assassinos à espreita em cada esquina, os outrora cavalheiros transformados em criaturas pela corrupção da própria cidade. Pela forma como Lady Sinnett falava, dificilmente se poderia percorrer um quarteirão da Cidade Velha sem encontrar meia dúzia de monstros da literatura de cordel. Mas ali estava Hazel, e, com apenas 17 anos, conseguira ir até lá sozinha.

Agora. Já tinham passado cinco minutos. Esgueirar-se-ia pela porta, coberta pela escuridão, e veria em primeira mão o Dr. Beecham – o neto do próprio Dr. Beecham! – demonstrar o que o anúncio prometera – “uma revolução no campo da cirurgia”. Ouviu alguns aplausos através da porta. Algo tinha começado. Era a altura certa.

Só havia um problema. A porta estava trancada. Hazel deu-lhe outro empurrão, na esperança de que a madeira tivesse ficado ligeiramente deformado ou inchada, mas não. Estava fechada à chave, e bem fechada. Hazel deixou-se cair no chão, sem se importar que as saias estivessem a ficar molhadas nas pedras. Tinha feito todo aquele caminho em vão.

– Então!?

Uma voz chamou-a do outro lado do beco, mas a sua origem estava escondida pela sombra. Hazel olhou para cima, meio à espera de ver um dos monstros da mãe. Mas não: era um rapaz. Um rapaz que ela já tinha visto, com olhos cinzentos e longos cabelos escuros. O rapaz que ela vira junto de Almont House. Ele inclinou-se para ela e estendeu-lhe a mão. Estava suja, com os dedos a saírem pelos buracos na luva, mas as unhas estavam limpas. Hazel agarrou a mão, deixando que a puxasse para cima.

O rapaz clareou a garganta.

– Eles trancam a porta quando começa a demonstração. O Dr. Beecham odeia interrupções.

Hazel ofereceu-lhe um pequeno sorriso.

– Foi o que eu pensei.

O rapaz afastou o cabelo da cara.

– Não entraste quando podias ter entrado. Eu reparei. Quer dizer, não estava a reparar em ti, mas vi-te.

– Tinha esperança – replicou Hazel, alisando as saias – de me esgueirar lá para dentro quando a demonstração começasse. Para que não reparassem em mim. Imagino que não haja muitas mulheres que venham a este tipo de coisas.

– Creio que não.

Hazel ficou à espera. O rapaz mudou o peso do corpo nos pés e tentou tirar o pó das mãos, esfregando-as nas calças.

– Sou a Menina Sinnett – apresentou-se Hazel, por fim.

Assim que disse o nome, arrependeu-se. Os lábios do rapaz enrolaram-se num pequeno sorriso, e ele curvou-se numa pequena vénia.

– Muito prazer, Menina Sinnett. – Ele continuava a sorrir quando se endireitou.

A parte de trás do pescoço de Hazel ficou vermelha.

– Mandam as boas maneiras que tu agora te apresentes.

O sorriso do rapaz alargou-se, deixando à mostra o brilho dos enormes dentes caninos.

– É assim, agora? – disse o rapaz, sem dizer o nome. Em vez disso, revelou: – Se ainda queres entrar para ver o que está a acontecer, sei uma maneira.

– De entrar para o teatro cirúrgico? – O rapaz acenou com a cabeça. – Sim! Por favor! – Hazel moderou o entusiasmo na voz. – Quer dizer, se não for muito incómodo.

– Não é. Não custa nada. – Sem esperar, o rapaz pegou na mão de Hazel e puxou-a por uma viela tão estreita que a rapariga nem tinha dado por ela antes, com pedras molhadas de cada lado a cheirarem a mofo e a suor. A armação da saia de Hazel raspava nas paredes dos dois lados. O rapaz sabia por onde andava, saltando e circundando as pedras irregulares como se fosse feito de fumo. Chegados a uma porta de madeira, bateu duas vezes. Alguém abriu a porta e, num instante, o rapaz já tinha puxado Hazel lá para dentro, para uma passagem escura iluminada apenas por uma tocha ao fundo.

– Trabalhas aqui? – segredou Hazel, enquanto ele a guiava. – Para os anatomistas?

– Mais ou menos – respondeu o rapaz, olhando para trás, na direção de Hazel. Os olhos cinzentos pareciam brilhar no escuro e, embora o ar estivesse abafado, Hazel ficou subitamente com frio. – Anda. Por aqui.

Percorreram o túnel até ao fim. A tocha na parede fazia a cara do rapaz parecer estranha, cheia de ângulos e sombras. Hazel estava a ouvir vozes por perto – uma conversa sussurrada, a melodia de um barítono tonitruante –, mas não conseguia distinguir as palavras.

– Se quiseres ver, a porta é aqui – revelou o rapaz.

– Não vens comigo? – perguntou Hazel.

– Nã – retorquiu ele. – Já vejo sofrimento suficiente na vida real para precisar de ver um doutor qualquer a fazer isso para ser aplaudido. – Hazel não tinha a certeza se o rapaz estava a brincar ou a falar a sério. Do outro lado da parede, veio o som de um homem a gritar. Mesmo só com a luz da tocha, Hazel conseguiu ver o seu guia a erguer uma sobrancelha, como que a dizer: Estás a ver?

Abriu apenas uma fresta da porta, mas Hazel não conseguia ver o que estava do outro lado. Hesitou.

– Vai correr tudo bem – disse o rapaz. – Acredita em mim.

A rapariga assentiu e levantou as saias para passar o mais silenciosamente possível pelo rapaz. Quando os corpos se encostaram, tão estreita era a passagem, ele desviou os olhos. Hazel pôs a mão no puxador da porta e deu-lhe um pequeno empurrão. A porta abriu-se em silêncio, e Hazel percebeu por que razão o rapaz tinha tanta certeza de que ia correr tudo bem: a porta abriu-se sob a bancada onde os homens estavam sentados. Estava a ver por entre as pernas e as botas deles, mas tinha uma visão perfeita do palco de Beecham, a menos de 20 metros de distância.

Hazel voltou-se para agradecer ao rapaz, mas ele já desaparecera na escuridão.

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De Uma Introdução ao Campo da Medicina

 

para Cavalheiros (1779), por Sir Thomas Murburry:

 

A diferença entre o cirurgião e o médico do século XVIII é muito clara e distinta. O médico pode ser um cavalheiro de posição social e meios consideráveis, com acesso à faculdade de Medicina e a uma educação adequada em latim e nas belas-artes. O seu papel é o de consultar e aconselhar sobre todas as doenças, internas e externas, e fornecer quaisquer cataplasmas ou medicamentos que possam oferecer alívio.

Um cirurgião, pelo contrário, é mais frequentemente um homem de estatuto social inferior, que compreende que um talento para o estudo da anatomia pode proporcionar-lhe um caminho para uma posição elevada. Deve estar preparado para trabalhar com os pobres e deformados, os monstros não amados e tornados horríveis pela guerra ou outras circunstâncias.

O médico trabalha com a mente. O cirurgião trabalha com as mãos e com a força bruta.

 

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