Anatomia: uma história de amor
Capítulo 18
O Castelo de Hawthornden erguia-se no topo de uma colina escarpada e, descendo o estreito caminho do jardim, à esquerda da fachada de pedra do edifício havia uma pequena porta de madeira metida na própria encosta, diretamente por baixo da propriedade. Era uma porta manchada, branqueada pelo sol e inchada pela chuva e a humidade, e quase invisível naquela noite escura e sem luar – com uma pequena grelha metálica ao nível dos olhos que se abriu com um tinido quando Jack Currer bateu à porta.
– Quem está aí? – disse uma voz do outro lado da porta. Era uma voz de mulher, de Hazel, a fingir-se confiante e com uma profundidade masculina artificial para afugentar alguém suficientemente louco para tentar invadir a propriedade.
Jack ergueu a lanterna que segurava, de forma a iluminar a cara.
– Não seja burra, sou eu. Quem mais conseguiria encontrar uma porta escondida a meio da noite para o raio da masmorra que vocês construíram ao lado do castelo?
– Qual é a senha?
– Ah… hum… – Jack olhou para a palma da mão, onde escrevera as palavras com tinta. O suor tinha feito com que as letras ficassem esborratadas e unidas. – Morto… vivos… bo… Não, não, espere. Qualquer coisa com doces?
Hazel suspirou e abriu a pesada porta para a masmorra, que rangeu.
– Mortui vivos docent.
Jack empurrou o carrinho de mão, passando por Hazel, para dentro da câmara subterrânea.
– Desculpe, faltei às aulas de latim em Eton.
Hazel teve de se encostar à parede húmida para evitar que ele lhe passasse por cima.
– Mas é óbvio que não faltaste às lições de etiqueta.
Jack acabou de empurrar o carrinho de mão e largou as pegas. Respirou fundo devido ao esforço e limpou as mãos às calças, deixando uma risca de tinta.
– Mortui vivos docent – repetiu. – Afinal, o que é que isso quer dizer?
Hazel olhou para o volume escuro escondido debaixo da manta no carrinho de mão de Jack.
– “Os mortos ensinam os vivos.” Li isso num livro.
A masmorra estava iluminada com tochas a arder na parede e algumas lamparinas sobre a mesa de trabalho. Não havia qualquer janela para o mundo exterior, a não ser a grelha deslizante, que Hazel cerrou com firmeza quando a porta já estava fechada e trancada. Sobre a mesa havia uma coleção de estranhas ferramentas prateadas. Jack reconheceu algumas, como as facas e a serra de ossos. Mas outras tinham arestas curvas e pegas como tesouras. Formavam um conjunto irregular, com algumas peças já enferrujadas e outras feitas claramente de prata fina. A coleção de uma gralha que guardava tudo o que encontrava.
Pregados à parede havia dois pares de grilhões, onde um preso podia ser pendurado pelos pulsos.
– Este sítio é usado? – perguntou Jack, um pouco amedrontado. – Como uma masmorra, quero eu dizer.
– Pode ser – respondeu Hazel. Jack deu uma gargalhada. – A verdade – acrescentou ela – é que acho que nunca foi usada para prisioneiros. Esteve vazia durante toda a minha vida. Até agora.
Jack pegou num pequeno bisturi com um cabo de madeira e rodou-o nos dedos.
– Até agora, quando decidiu transformá-la num laboratório privado.
– É mais ou menos isso.
– A sua mãe e o seu pai não se importam? Que a filhinha saia de casa de noite e vá para baixo da escarpa confraternizar com ladrões de corpos.
– O meu pai pertence à Armada Real e foi colocado em Santa Helena, para supervisionar o exílio de Napoleão. A minha mãe está… – Hazel hesitou até encontrar as palavras certas – … de férias, em Inglaterra. Ela nunca me presta atenção, nem mesmo quando está cá. – Havia algo no rosto de Jack – a forma como o lábio se enrolava nos cantos, os olhos de um cinzento frio que pareciam intermináveis, como se fossem janelas para um oceano extenso e calmo que se estendia por milhas – que lhe dava vontade de dizer coisas, de se abrir e dizer o que nunca dissera em voz alta. Talvez fosse porque ela nunca tivera alguém com quem partilhar essas coisas em voz alta.
– Então – disse Jack, aproximando-se mais de Hazel, com a luz da tocha a dançar-lhe no rosto –, está sozinha num grande castelo. Pensava que uma senhora nunca estava sozinha.
Um estranho choque elétrico percorreu o corpo de Hazel, que se apercebeu repentinamente da leviandade das suas ações. Tinha dito a um estranho onde vivia, convidara-o a entrar e depois dissera-lhe que vivia sem proteção. Jack podia ser perigoso. Podia pertencer a um bando de ladrões que chegariam assim que o rapaz desse o sinal, e uma horda de criminosos saquearia Hawthornden e deixá-la-ia amarrada e amordaçada num canto.
Involuntariamente, Hazel pegou na maior faca que estava em cima da mesa.
– Talvez eu não seja uma senhora – disse Hazel.
Jack olhou-a de alto a baixo e depois começou a rir com tanta sinceridade, com um calor genuíno de criança, que Hazel, de alguma forma, percebeu que a intenção dele nunca fora roubá-la.
O coração batia-lhe com força e ela deu graças a Deus por a luz fraca das lamparinas e da tocha esconder o rubor. Hazel clareou a garganta.
– Portanto, o espécime. Podes pô-lo em cima da mesa. – Usou a faca que tinha na mão para apontar.
– Tem razão. – Jack olhou finalmente para o carrinho de mão.
Hazel desviou os olhos enquanto Jack manobrava o cadáver e punha os membros em posição, até que parecesse que estava a dormir debaixo de um sudário.
– Tapado ou destapado?
– Destapado – replicou Hazel. – Pode ficar destapado. Vou vê-lo de qualquer maneira. Quanto te devo? – Tirou uma bolsa com moedas de debaixo do avental. – Creio que são seis guinéus, não é?
– É um cadáver fresco, desenterrei-o esta noite! Dez guinéus.
– Lá porque o desenterraste esta noite, isso não significa que tenha sido enterrado esta noite. Pelo cheiro, não foi de certeza. Sete guinéus.
– Nove, ou volto já para a Cidade Velha e vendo-o ao barbeiro de Haymarket Street. É um bom cliente. Paga sempre o que lhe peço.
– Oito guinéus e três xelins – regateou Hazel. Estendeu as moedas pesadas na palma da mão.
Jack hesitou e depois apanhou-as com a mão.
– Negócio fechado.
Quando já tinha as moedas no bolso, Jack retirou o lençol com um floreado, revelando o cadáver encolhido que estava debaixo dele: uma jovem mulher, engelhada e parecendo de cera. O cheiro inundou a masmorra, um odor enjoativo e doce a carne podre e ovos estragados, um cheiro almiscarado e quente a larvas.
– Toma – disse Hazel, oferecendo a Jack uma laranja cheia de cravinhos espetados. Ela já estava com uma encostada ao nariz. – Ajuda com o cheiro.
Jack aceitou com gratidão.
– Também leu isso num livro?
– Por acaso, li – respondeu Hazel.
O corpo tinha as pálpebras azuis frias e o cabelo parecia de palha. Se Hazel tivesse de adivinhar, diria que tinham as duas exatamente a mesma idade. A mulher – a rapariga – tivera uma vida dura, Hazel conseguia perceber isso, lendo o corpo dela como se fosse um livro. Tinha os pés congelados e as plantas dos pés deformadas pelas solas de sapatos miseráveis. As unhas estavam amarelas e partidas. Tinha os membros cheios de hematomas. Na parte de trás da cabeça, havia uma secção onde o cabelo amarelo-palha fora rapado, revelando cicatrizes e marcas de sucção circulares de um tratamento com ventosas. A rapariga tinha ido a um hospital para pobres e haviam-na tratado sugando sangue da parte de trás do crânio com facas e copos quentes. Hazel nunca vira aquilo a ser feito, mas lera sobre o assunto. Ver as cicatrizes numa pessoa – hematomas de sucção púrpura em círculos perfeitos, como se a mulher tivesse lutado com uma terrível criatura do mar profundo – fez com que procedimento parecesse muito mais brutal do que Hazel imaginara nas páginas dos livros.
A rapariga também tinha mais uma cicatriz, com pelo menos 30 centímetros, no centro do peito, entre os seios, cosida com pontos tão apertados e bem feitos que eram quase invisíveis. Hazel ponderou sobre qual a doença que fora tratada. Talvez alguém tivesse tentado salvar-lhe a vida.
Jack tinha sido pago, ainda assim continuava lá, a olhar para o cadáver por cima do ombro de Hazel.
– Ela tinha… Sabe se ela tinha… a febre?
– A febre romana? – disse Hazel, perplexa.
Jack assentiu. Ouvira os boatos. O padre que encomendara o corpo no cemitério pedira a Deus que fosse descoberta uma cura.
– Não – retorquiu Hazel –, definitivamente, não.
Jack aproximou-se mais.
– Como sabe? Toda a gente diz que ela morreu disso!
– A sério? Não, olha aqui… – Hazel usou o lençol para voltar o corpo de barriga para baixo, de forma a mostrar a Jack a pele lisa das costas do cadáver. – Não tem ínguas. Não tem bolhas. É daí que vem o nome de febre romana.
– Não é por ter vindo de Roma? – Jack ouvira mais do que um ajudante de palco no Le Grand Leon a praguejar contra “esses malditos italianos” por causa da doença que estava a pôr em causa o seu trabalho.
– Não, não é nada disso. É porque o principal sintoma, depois da febre, são as bolhas cheias de sangue. E quando rebentam, parecem facadas. Como aconteceu a Júlio César nos degraus do Senado. Roma. Plaga Romana.
– Também leu num livro? – perguntou Jack.
– Por acaso, aprendi isso em primeira mão.
Jack deu mais um passo para junto de Hazel.
– Então, consegue dizer como que é que ela morreu?
Em resposta, Hazel pegou na faca maior e fez uma longa incisão vertical ao longo do tronco do cadáver, como tinha visto o Dr. Straine fazer na aula. Fez uma pausa, olhando para baixo, incrédula. Olhou para Jack, depois para o corpo e novamente para o rapaz.
– Por acaso – replicou Hazel –, sei exatamente porque é que ela morreu. Não tem coração.
– Batimentos? Pois, está morta. Isso até eu sabia.
– Não – contrapôs Hazel. – Vê. Ela não tem coração, literalmente.
Jack olhou para o espaço vazio do peito. Estava tudo tão vermelho e tão molhado que ele não sabia o que procurava.
– Aqui. – Hazel apontou com a faca para o centro do tronco da mulher. – Por baixo das costelas. À frente dos pulmões.
– Não vejo nada – confessou Jack.
– É esse o problema.
O coração desaparecera. No seu lugar, não havia nada. Apenas o vácuo de outras vísceras e escuridão com um brilho vermelho devido à luz das velas. As veias tinham sido grosseiramente cauterizadas, as grandes artérias fechadas, cosidas. Nenhum animal lhe comera o coração; tinha sido roubado.
– Então – prosseguiu Jack, encostando-se à parede húmida da masmorra para se equilibrar, quase chamuscando o casaco com a tocha –, alguém a abriu e… e… tirou-lhe o coração? Credo, porquê?
Hazel olhou para o corpo. Mesmo com o tronco aberto, a mulher tinha um ar sereno.
– Talvez tivesse inimigos. Sabes quem ela era? O nome dela ou outra coisa qualquer?
Jack abanou a cabeça. O cemitério estava demasiado escuro para conseguir ver a lápide.
– Talvez tenha sido um acidente – sussurrou Hazel. Tornou a olhar para as cicatrizes do sangramento do corpo. – Talvez tenha sido levada para um hospital e alguém a tivesse tentado salvar, mas não sabia como.
– Salvá-la do quê?
Hazel apenas pôde encolher os ombros.
Jack queria ficar. Não conseguia explicar – gostaria que houvesse uma razão para continuar ali, para encostar o corpo ao de Hazel e sentir o cheiro metálico de relâmpagos agarrado a ela, um cheiro peculiar misturado com sabão de bergamota e castela. Queria ver as mãos da rapariga, hábeis e sem luvas, a trabalhar. O rosto dela parecia de pedra, profundamente concentrado, impossivelmente belo na agudeza dos seus ângulos.
– Bem, então, vou andando – obrigou-se Jack a dizer. Pegou na laranja com cravinhos para a devolver, mas Hazel fez-lhe sinal de que não a queria.
– Guarda-a para a próxima vez.
– Vai haver uma próxima vez? – quis saber Jack.
– Vais recusar um cliente que paga, Jack Currer?
– Nem por sombras! Só acho que, provavelmente, deveria perguntar à senhora o que está a planear fazer com estes cadáveres.
– Pensava que, por esta altura, isso já fosse perfeitamente óbvio para ti – reagiu Hazel. – É para estudar.
Jack abriu a boca para responder, mas limitou-se a suspirar, abanando a cabeça com uma incredulidade alegre.
Levou o carrinho de mão em direção à pequena porta e à relva negra como tinta para lá dela.
– Jack, preciso de um corpo que tenha realmente tido a febre… se conseguires arranjar um. Quero examiná-lo. Quero ver se consigo descobrir uma cura. – Nunca tinha admitido em voz alta, nem sequer para si própria, que a sua ambição era, de facto, curar a febre romana.
Jack não troçou nem se riu dela. Apenas assentiu.
Hazel pôs-lhe mais algumas moedas na mão.
– É o pagamento – disse-lhe. – Adiantado.
– Vou ver o que consigo fazer.
Hazel voltou-se novamente para o cadáver.
Jack ficou à porta a observar, enquanto Hazel respirava fundo várias vezes para se preparar e depois começava a fazer uma lenta incisão no couro cabeludo do cadáver. A rapariga não levantou os olhos do cérebro que acabara de pôr a descoberto, com as curvas de um cinzento leitoso visíveis sob uma lasca de crânio branco.
– Adeus, Hazel Sinnett – despediu-se Jack, fechando a porta atrás de si. As dobradiças fizeram um som estridente.
Jack já tinha dado vários passos ao longo do caminho do jardim quando a ouviu sussurrar-lhe através da escuridão:
– Adeus, Jack Currer.
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