Anatomia: uma história de amor
Capítulo 31
– Já ouviu falar do paradoxo do Navio de Teseu?
O jantar em Almont House era ostensivamente para celebrar o noivado de Hazel e Bernard, embora os dois estivessem sentados em lados opostos da mesa do banquete, e a rapariga estivesse presa ao lado do Barão Walford, que se inclinava cada vez mais para ela enquanto falava, ao mesmo tempo que Hazel tentava desesperadamente afastar-se o mais possível que a cadeira permitisse sem cair. Ao fim de quatro pratos, o barão estava tão perto de Hazel que ela conseguia ver-lhe a saliva nos lábios. A respiração acre obrigava-a a pestanejar para conter as lágrimas.
– Sim, meu lorde, por acaso eu…
– É uma ideia filosófica complicada, mas que posso explicar de uma forma suficientemente simples a uma senhora através de uma história. Imagine um grande navio. Com o tempo, o navio começa a apodrecer. Mas cada tábua podre é rapidamente substituída. Com o tempo, cada pedaço de madeira usado para construir o navio original é substituído. Continuará a ser o mesmo navio?
Lorde Almont estava alguns lugares adiante.
– Não! – replicou com deleite, apontando para Walford. – É um navio diferente. A madeira é toda diferente.
– Ah! – exclamou o barão. – Então, quando é que o navio deixa de ser considerado o mesmo navio?
A explosão do lorde chamara a atenção da sala. Bernard levantou a voz como o pai.
– Então, a meio caminho. Quando metade da madeira for substituída, deixa de ser o mesmo navio.
– Mesmo que todos continuem a chamar-lhe o Navio de Teseu? – argumentou tranquilamente Hazel.
Todos se viraram para olhar para Hazel. Bernard lançou-lhe um olhar furioso.
– Sim, querida – retorquiu ele, com os dentes cerrados. – Não importa o que as pessoas lhe chamam. Quando já vai a mais de metade do caminho, não é o mesmo navio.
– Algumas mulheres – disse Lorde Almont ao filho – ainda não aprenderam que gostamos mais de olhar para elas do que de as ouvir.
O Barão Walford riu-se e o olho de vidro rolou na órbita.
– Ah, ah! Mas, então, voltemos ao navio. Imaginem que levaram toda a madeira podre que foi retirada e começaram a construir um segundo navio no Museu Britânico. Qual deles seria, então, o verdadeiro Navio de Teseu? Aquele que ainda navega com o nome do original ou o que está no museu?
– O segundo – respondeu imediatamente Bernard. – O segundo. O que tem a madeira original.
– Temos um verdadeiro erudito entre nós! – exclamou Lorde Almont, dando uma palmada nas costas de Bernard. O filho fez um sorriso de orelha a orelha.
– Sem dúvida – concordou o Barão Walford, agitando um copo de vinho tinto antes de o esvaziar de um trago.
– Porque está tão filosófico, Walford? – perguntou Lorde Almont.
– Bem – começou o Barão Walford, ajustando o olho falso. – Acho que estou prestes a ter um novo olho. O procedimento já está agendado. De segunda-feira a uma semana, na Sociedade de Anatomistas. Irei ver pela primeira vez em 20 anos, pelo menos é o que diz o médico.
– O que quer dizer? – perguntou Hazel, endireitando-se na cadeira e atenta pela primeira vez em toda a noite. – Que tipo de procedimento vai permitir-lhe ver novamente? Que tipo de olho novo?
– Ora, ora, querida – interveio Bernard.
– Não me quero intrometer, Barão Walford, mas, por favor, que tipo de cirurgia poderia devolver-lhe a visão? Com um olho falso?
O Barão Walford afagou o alto da cabeça de Hazel.
– Nada com que uma jovem precise de se preocupar! Principalmente quando tem um casamento para preparar!
– Pois – soltou Hazel. – Um casamento. Claro.
Depois do jantar, os cavalheiros retiraram-se para a biblioteca, para brandy e charutos, e Bernard saiu para acompanhar Hazel de volta à carruagem.
– Hazel – disse ele depois de pigarrear, assim que saíram para o exterior. – A tua… fantasia de seres… médica ou lá o que é.
– Não é uma fantasia, Bernard – garantiu Hazel. – Vou ser médica. Sei que não é o que tu ou o teu pai querem, mas já ando a estudar há várias semanas. – Assim que começou a falar, descobriu que não conseguia parar.
Bernard olhou nervosamente em redor.
– Eu sou boa nisso, Bernard, sou mesmo. Nem sempre acreditei, mas sou. Tenho andado a tratar meia dúzia de doentes… Neste momento, estou a tratar meia dúzia de doentes. Fiz o parto de uma bebé! Vou passar no meu exame, Bernard, e vou tornar-me médica. Na verdade, tenho quase a certeza de que já o sou.
A boca de Bernard abriu-se e depois fechou-se como a de um peixe fora de água.
– Acalma-te, Hazel!
– Eu estou calma, Bernard. Perfeitamente calma. Mas tenho de te dizer que, se não me deixares continuar com isto, não tenho a certeza se posso casar contigo.
Bernard olhou para a porta fechada de Almont House, como se estivesse a pensar em voltar a entrar e falar com o pai. Puxou o colete à cintura
– Ótimo. Pronto, está bem. Não há necessidade de dizer isso, Hazel. Vamos ser racionais.
– Estou a ser perfeitamente racional, Bernard.
Ele tornou a clarear a garganta.
– Muito bem. Dizes então que vai haver um exame? Algum tipo de exame para ser médico?
– O Exame Médico Real, sim. Daqui a uma semana.
– Uma semana – repetiu Bernard. – Perfeito. Faz esse tal Exame Real. E se passares, podemos… bem, podemos pelo menos falar disso como uma hipótese de… futuro.
Hazel ficou ligeiramente mais animada.
– Então, estás a dizer que há uma hipótese? Quer dizer, uma hipótese de que talvez estejas disposto a deixar-me… a deixar-nos…
Bernard esfregou as têmporas.
– Mas… Está bem. Faz o exame e depois… depois decidimos a partir daí. Mas, Hazel, juro por Deus. Juro. Se chumbares nesse exame, promete-me que acabas com isso. E o meu pai nunca poderá descobrir.
– Nunca – garantiu Hazel.
– Prometes-me, Hazel?
– Prometo.
– Ótimo. – Bernard beijou-a no cimo da cabeça e ajudou-a a entrar na carruagem. – Meu amor. Cuidado para não abanar a carruagem na rua! – gritou ao condutor. – É a minha futura esposa que vai aí dentro!
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