Correr

Drauzio Varella · Capítulo 1 de 40

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Correr

Introdução — Sinusite, ladeira e sanduíche

INTRODUÇÃO

Sinusite, ladeira e sanduíche

 

Achei que conseguiria completar a prova em três horas e meia, o que significaria fazer em média um quilômetro a cada cinco minutos. Foi com essa intenção, pelo menos, que me inscrevi na Maratona de Blumenau, em 1995. Estava convencido de que, se conseguisse atingir aquela marca, seria capaz de concluir a prova de Nova York no mesmo ano, com um tempo ainda melhor.

Melhorar tempos anteriores pode virar obsessão. Quando a ideia de correr a maratona vem à cabeça pela primeira vez, o sonho é conseguir concluí-la, não importa o tempo gasto no percurso. Afinal, são 42 quilômetros. Basta correr a primeira, entretanto, para perceber que o resultado final depende diretamente da fase de treinamento e que é possível melhorá-lo, com um pouco mais de dedicação.

Daí em diante fica pior: terminar a prova em mais tempo do que gastamos na anterior sempre deixa uma ponta de frustração. Como a cada maratona estamos mais velhos, torna-se difícil dissociar a piora na performance por falta de treino daquela ligada à decadência física, companheira nefasta da passagem dos anos.

Fiz a inscrição, reservei o hotel e convidei minha filha Letícia, então com vinte anos, para me acompanhar a Blumenau.

Naquela época, eu atendia os detentos no presídio do Carandiru em consultórios improvisados no interior de celas pequenas e mal arejadas, as quais me expunham aos doentes, que tossiam e espirravam em minha direção, sem dar chance de defesa. Pegava um resfriado atrás do outro, curados espontaneamente em três ou quatro dias sem comprometer o treinamento.

Uns vinte dias antes da maratona, por azar, um desses resfriados me derrubou e fiquei sem correr por uma semana. Quando voltei, senti a fronte pesada, os músculos fracos e uma congestão nasal que me forçava a respirar pela boca. Em menos de meia hora achei melhor parar. A sinusite veio acompanhada de acessos de tosse que infernizavam minhas noites e me obrigaram a tomar dez dias de antibiótico. Ainda assim, fiz duas ou três tentativas infrutíferas de voltar às pistas.

Sem treinar havia três semanas, concluí que seria insensatez participar da prova, mas, quando ia avisar minha filha da desistência, ela falou com tanto entusiasmo da viagem, que não tive coragem de decepcioná-la. Com passagens aéreas e estadia pagas, poderíamos passear aqueles dias pela cidade, assistir à corrida e voltar no fim da tarde de domingo, conforme planejado.

Chegamos na sexta de manhã. Blumenau estava em festa, ensolarada, com faixas e cartazes de boas-vindas pelas ruas, grupos ruidosos de mulheres e homens de tênis e agasalhos esportivos por todos os lados. Encontrei vários conhecidos alegres e faladores que me perguntavam em quanto tempo esperava completar a prova. Eu estava chateado, mas bem-disposto, os sintomas da sinusite tinham praticamente desaparecido nos dois dias anteriores. O ambiente festivo, as palavras de estímulo dos companheiros e a vontade de correr falaram mais alto. Fui buscar o material.

Até aí, tudo bem. O problema é que no ônibus que nos levou do hotel ao ponto de partida, numa estrada, sentei ao lado de um rapaz que planejava completar a prova em três horas e meia, exatamente o tempo que eu me havia proposto. Ele e os dois amigos do banco de trás tinham seguido um programa elaborado especificamente com essa finalidade.

Permanecemos juntos na concentração, conversando sobre corridas, contusões, recordes mundiais e provas anteriores, únicos assuntos que interessam a maratonistas nessas ocasiões. Partimos lado a lado e assim nos mantivemos. Um deles tinha um relógio, incrementado para a época, que emitia um bip a cada cinco minutos. Quando atingimos o marco do quilômetro 15, depois de 75 minutos de prova, achei que estava tão bem quanto meus três companheiros, apesar de pelo menos dez anos mais velho.

Seguimos rigorosamente no mesmo passo até completar trinta quilômetros em exatos 150 minutos. Um pouco à frente veio o obstáculo mais temido da prova de Blumenau daquele tempo: uma subida nem tão íngreme, porém interminável. Tentei manter o ritmo, mas senti que precisava diminuir a velocidade, e avisei-os para continuar sem mim.

Naquele trecho, cada curva da estrada parecia trazer o fim da ladeira, impressão frustrada ao atingi-la e constatar que a subida se prolongava até a virada seguinte. Foram quatro ou cinco curvas assim, já não recordo, só ficaram as memórias do esforço, do frescor da mata virgem ao lado, do sol e da ambulância que passou por mim, com um rapaz de branco sentado na parte traseira, de porta aberta: “Tudo bem com você?”. Respondi que sim, ele insistiu: “Tudo bem mesmo?”.

Fiquei impressionado com a organização: uma ambulância para saber como estava cada corredor. No entanto, para minha surpresa, o carro seguiu sem perguntar nada a mais ninguém, até sumir de vista. Achei estranho. O rapaz teria notado em minha aparência sinais de exaustão que me fariam abandonar a prova?

A julgar pelo número de vezes que ouvi os demais darem graças a Deus e gritarem impropérios quando a subida acabou, imaginei que o sacrifício havia sido igual para todos. Estava enganado.

As dores nas pernas eram como torniquetes que apertavam progressivamente as panturrilhas e a face anterior das coxas. Os que vinham de trás me ultrapassavam com facilidade. Ao atingir o quilômetro 40, exausto, senti que não conseguiria chegar ao fim. Não tive dúvida de que seria mais sensato desistir. O problema é que terminar a prova andando, para quem imaginava completá-la em tempo recorde, tem sabor de derrota.

Para a autoimagem, desistir no quilômetro 40 ou no 15o dá na mesma. Parar de correr quando faltam apenas dois quilômetros talvez seja pior, da mesma forma que deve ser maior a frustração do náufrago ao perceber que morrerá na praia. Além do mais, minha filha me esperava. Que decepção ver o pai surgir caminhando entre os corredores, destruído.

Na curva do quilômetro 41 enxerguei a aglomeração do público e a faixa de chegada. Foi até mais penoso. Acho que sofri naqueles 1200 metros finais mais do que na vida inteira. As pernas eram um poço de dores, a cabeça flutuava como se pretendesse abandonar o corpo, em cada pé havia um saco de açúcar de cinco quilos que nos últimos quinhentos metros já pesava vinte; levantá-lo do chão a cada passada era um exercício de halterofilismo. Meu aspecto físico devia estar tão deplorável que um rapaz da plateia passou por baixo da cerca lateral e correu mais de cem metros a meu lado, repetindo palavras de incentivo que soavam insólitas. Demorei a reconhecê-lo. Era um amigo de adolescência com quem eu tinha perdido contato fazia mais de vinte anos.

Terminei a prova em três horas e cinquenta minutos. No funil da chegada, minha filha acenou com os dois braços e gritou meu nome. Ao passar por ela, pedi que me encontrasse no ônibus estacionado a cem metros. Se parasse para abraçá-la junto à grade que nos separava, o saco de açúcar, agora com cinquenta quilos, me pregaria no chão para sempre.

Escalar os três degraus do ônibus foi penitência mais sofrida do que subir de joelhos a escadaria da igreja da Penha. Com a diferença de que Jesus, em sua infinita misericórdia, deve prover de resignação e resistência à dor os fiéis cumpridores de promessas, enquanto abandona à própria sorte maratonistas insensatos.

Quando sentei, as dores e a exaustão se tornaram tão insuportáveis que tive vontade de chorar; muita vontade. Só não o fiz por vergonha dos que estavam perto. Minha filha tentou massagear minhas pernas, mas recuou, assustada com o gemido que dei.

No assento ao lado, um corredor jovem cochilava com a cabeça despencada sobre o tórax. De quando em quando despertava, levava à boca o blusão que segurava, ameaçava vomitar, respirava fundo, endireitava o corpo, olhava para mim, murmurava: “Tá foda”, pegava no sono, e de novo a cabeça despencava.

Um rapaz à paisana se aproximou do meu banco: “Também sou médico e corredor. Estava inscrito, mas tive que desistir por causa de uma contusão. Já passei por esse estado. Aceita um conselho? Um copo de cerveja vai te reanimar”.

Minha filha levantou para ir até o local onde distribuíam cerveja para os corredores, prática contraindicada pelos especialistas e que nunca vi em outras maratonas. Mas estava tão desarvorado que teria aceitado até injeção de estricnina. Consegui tomar meio copo. Num passe de mágica fui alçado das profundezas do quinto círculo do Inferno de Dante, o sangue voltou à pele e a cabeça foi devolvida ao corpo, acontecimento que me fez vislumbrar algum prazer em estar vivo. Em contrapartida, quebrou parte do barato zen que as endorfinas trazem no fim dos 42 quilômetros.

Voltamos para São Paulo às cinco da tarde. No avião, uma tragédia nos esperava, sob a forma de um pequeno sanduíche de carne assada. Eu, que tenho por hábito não aceitar, em voos curtos, lanchinhos emborrachados com gosto de isopor, acabei por fazê-lo para acompanhar minha filha.

Nos últimos degraus do avião, na pista de Congonhas, a humilhação suprema: ao ver minha dificuldade, o funcionário junto à escada deu dois passos solícitos e me estendeu as duas mãos. Descer escada é a pior provação para quem acabou de correr 42 quilômetros, mas dar a impressão de que você precisa ser amparado com as duas mãos para não cair é o fim.

Deitei cedo. Fiquei com medo de que as dores nas pernas me impedissem de pegar no sono, mas resisti à tentação do anti-inflamatório; não gosto de tomar remédio depois de corridas tão longas.

Acordei às duas da madrugada com a boca cheia de saliva e corri para o banheiro. Vomitei até os músculos do tórax doerem. Aliviado, voltei para a cama. Dez minutos mais tarde tive que levantar outra vez. Foi uma das piores gastroenterocolites da vida. Cheguei a desistir da cama e a levar o travesseiro para o banheiro.

Na manhã seguinte, os músculos das pernas, castigados pelo esforço da véspera e pelas toxinas do famigerado sanduíche, estavam dilacerados. Sair do carro no estacionamento do hospital foi um parto a fórceps. Mal dei o primeiro passo, um colega veio em minha direção:

— Nossa! Que aconteceu? Foi operado?

— É que ontem corri uma maratona.

— Quarenta e dois quilômetros?

Respondi que sim.

Ele replicou com olhar de comiseração:

— Isso faz mal para o ser humano.