Correr
Haga Park
Passei dois meses no Radiumhemmet, o centro de oncologia do Instituto Karolinska, em Estocolmo, um dos mais importantes da Europa. Fiquei alojado com minha mulher num pequeno apartamento para hóspedes, no primeiro andar do Serviço de Radioterapia. Ela fazia uma visita ao Dramaten, o teatro oficial onde Ingmar Bergman e outros diretores renomados montavam suas peças.
No hospital, o expediente começava às oito e terminava impreterivelmente às quatro da tarde. Na Suécia, nem os médicos escapam da rigidez das leis que proíbem o trabalho depois do horário estabelecido em negociações com os sindicatos. Acostumado com o sistema brasileiro, em que somos obrigados a emendar plantões noturnos com a rotina do dia seguinte, 36 horas sem dormir, eu estranhava a vida calma e organizada dos meus colegas, que chegavam em casa antes das cinco.
Perto dali há um parque grande, um dos maiores da cidade. Na parte central de Estocolmo não existe lugar feio, sujo ou malconservado. O parque não fica atrás. No primeiro fim de tarde livre corri até lá. O caminho de entrada desembocava numa área gramada do tamanho de três ou quatro campos de futebol, onde o terreno apresentava um declive acentuado, seguido por um aclive que ao longe terminava num bosque.
A grama estava entremeada com uma plantinha rasteira que espalhava uma infinidade de flores amarelas e azuis, brotadas a cinco centímetros do solo. A luz da tarde e as ondulações do terreno criavam mosaicos em que predominavam verdes, amarelos ou azuis, dependendo do ângulo de visão do observador, efeitos que me lembraram os quadros de Monet e uma paisagem japonesa do filme Sonhos, de Akira Kurosawa.
Segui pela estradinha asfaltada que tangenciava essa área central, devagar, quase andando, extasiado com a vista e com o privilégio de correr naquele lugar, naquela cidade, iluminado pelos últimos raios de sol de uma tarde de outono.
Devo ter corrido uma hora ou mais pelo interior do parque. Quando voltei para a entrada, a luz tinha caído. No meio do gramado havia três lebres, na parte alta um vulto de mulher brincava com uma criança de passos trôpegos. Aquele campo enorme, decorado com flores miúdas, era meu, da mãe com o filho, das lebres e de mais ninguém.