Correr
Na Floresta da Tijuca
Num domingo, no Rio de Janeiro, minhas amigas Zélia Duncan e Michelle Negri e eu combinamos nos encontrar no Leblon, seguir pelo Jardim Botânico e subir pela Floresta da Tijuca até a Vista Chinesa e a Mesa do Imperador, no alto da montanha.
Nós três já participamos das maratonas de Chicago, Berlim e Rio de Janeiro, além de corridas de treinamento no Aterro do Flamengo, na lagoa Rodrigo de Freitas e no Centro de São Paulo. Michelle, mais leve e mais jovem, completa 42 quilômetros em menos de três horas e meia, tempo inacessível para Zélia e para mim.
Saímos do Leblon, pegamos a rua Pacheco Leão, que segue ao lado do Jardim Botânico, passamos pelo prédio da TV Globo em que gravo para o programa Fantástico, e entramos na ladeira asfaltada que conduz à Floresta da Tijuca. Dali até a Mesa do Imperador são cinco quilômetros, que sobem sem descanso nem comiseração. Nosso passo era lento para Michelle, que se distanciava, para depois voltar ao nosso encontro por alguns minutos e avançar outra vez.
A floresta que ladeia a estrada é formada por árvores centenárias, altas, com troncos grossos, em meio a outras mais esguias e de uma vegetação rasteira rala. É uma mata secundária plantada no século XIX, a mando de d. Pedro II, preocupado com a falta de água na cidade em consequência da destruição da floresta original pelos agricultores e comerciantes de madeira.
O prazer de correr no frescor da Mata Atlântica deve ter sido semelhante ao que Charles Darwin descreveu, em sua visita ao Brasil no ano de 1832, numa das escalas do Beagle:
Deleite é uma palavra fraca para expressar os sentimentos de um naturalista que pela primeira vez perambulou sozinho por uma floresta brasileira. Em meio à profusão de coisas notáveis, a exuberância geral da vegetação ganha longe. A elegância das gramas, a novidade das plantas parasitas, a beleza das flores, o verde lustroso da folhagem, e acima de tudo a opulência incomum da vegetação me encheram de admiração.
O caminho estava impregnado do aroma de jaca, fruto improvável que brota diretamente no tronco da árvore e dele pende paquidérmico. Originárias da Índia, as jaqueiras levadas para a Floresta da Tijuca se multiplicaram feito praga, graças à facilidade com que as sementes germinam. Preocupações ecológicas à parte, essas jaqueiras davam um show de produtividade naquele início de dezembro. Frutos que deviam pesar cinco quilos ou mais apareciam maduros e ásperos numa delas; menores e esverdeados na vizinha.
Lado a lado, Zélia e eu em harmonia com o silêncio imposto pela mata. Nenhum corredor indo ou vindo, ninguém andando; apenas ciclistas de capacete e roupas agarradas pedalavam montanha acima, em pé, arqueados sobre as bicicletas. Gente treinada, principiantes não se arriscam num terreno íngreme daqueles. Na descida, voltavam outros, em disparada, sentados no selim, com a cabeça e o tronco inclinados sobre o guidão para diminuir a resistência do ar.
Eu não estava bem treinado para subir os cinco quilômetros até o ponto que pretendíamos atingir. Próximo à Vista Chinesa, já bem alto na montanha, tive a impressão de que estava no quilômetro 35 da maratona. Zélia também vinha cansada, mas decidida a ir até o fim, para apagar o trauma de anos antes, quando fora obrigada a desistir no caminho. Michelle ia e voltava como se estivesse no plano.
Avistar o pagode foi um alívio grande, mas não nos detivemos, entusiasmados por Michelle, que anunciou faltarem só trezentos metros para a Mesa do Imperador, o ponto mais alto. Não sei se mentiu ou calculou mal, mas tivemos que correr mais de um quilômetro, que àquela altura pareceram dez. Quando alcançamos a Mesa do Imperador, um grupo de ciclistas descansava diante da vista: o Pão de Açúcar com a enseada de Botafogo e os barcos, a lagoa Rodrigo de Freitas, as praias e, à esquerda, a imponência do Cristo e do Corcovado, que me emociona cada vez que chego de avião ao Rio.
Duzentos anos atrás, quando não existiam aviões nem o Redentor estava de “braços abertos sobre a Guanabara”, o naturalista alemão Karl Philipp von Martius assim descreveu esse capricho geológico carioca:
A parte superior do Corcovado voltada para o mar é precípite e de tal forma declive, que se mostra como um fragmento de enorme ruína proveniente do oceano próximo; uma força demoníaca, que um dia imprimiu a presente forma à terra, parece tê-lo cortado em dois, em linha reta, com o propósito de mergulhar a outra parte no mar profundo. Nenhuma planta pode ter lugar nestas duas paredes íngremes, que nada oferecem senão rochas de cor branco-violeta, granito e gnaisse, que brilham em cores variadas, por causa da mudança de luz, ou são escondidas por nuvens que passam por ali.
Da Mesa do Imperador, cansados da subida, vimos o Cristo pairar acima das nuvens que encobriam as partes mais baixas do Corcovado.