Correr
Intervalo 4
HIPONATREMIA
Os sintomas da hiponatremia podem ser imperceptíveis, discretos ou muito graves: cólicas abdominais, tontura, fraqueza, vômito, alteração do estado mental, agitação. Sem tratamento, pode causar edema pulmonar e cerebral, coma e morte, nas situações extremas.
Depois da linha de chegada das primeiras maratonas que corri, era relativamente comum ver corredores que se desorientavam, caminhando trôpegos, com o olhar vidrado, na direção contrária à da massa que acabava de completar a prova, como se estivessem alcoolizados. É provável que esse quadro fosse provocado pela hiponatremia, desequilíbrio hidroeletrolítico caracterizado pela diminuição da concentração de sódio na corrente sanguínea.
A hiponatremia é diagnosticada quando os níveis de sódio caem abaixo de 135 nmol/L (valores entre 135 e 145 são considerados normais). A sintomatologia se instala no decorrer da maratona ou algumas horas depois. Enquanto dura a corrida, cerca de 75% da energia gerada pelo metabolismo é dissipada do corpo sob a forma de calor. A evaporação do suor na pele é parte importante do sistema de refrigeração.
O líquido que escorre no suor não é água pura; nela vêm dissolvidos vários íons: sódio, potássio, ferro, cálcio e outros. O volume de água perdido através da sudorese varia com o tamanho do corpo, a temperatura externa, a intensidade do exercício, a umidade do ar, a aclimatação e as características individuais. Dependendo das condições climáticas e do esforço despendido, a perda de água pode ultrapassar 1800 mL/hora. Para compensá-la, as maratonas oferecem água e diversas soluções hidratantes disponíveis no mercado.
Há três mecanismos principais para explicar a hiponatremia induzida pelo exercício:
1. Os atletas perdem água e eletrólitos enquanto correm. Ao beber água, repõem o líquido perdido, mas não corrigem as perdas de sódio e de outros íons.
2. Os corredores ingerem volumes maiores de líquido do que aquele perdido. No percurso da maratona, o corredor costuma emagrecer um a dois quilos apenas em perdas metabólicas, sem contar a água evaporada no suor. Por essa razão, se, ao terminar a prova, o atleta estiver com o mesmo peso ou mais pesado do que antes dela, é porque está hiper-hidratado. O aumento da quantidade de água na circulação dilui e faz cair a concentração de sódio (hiponatremia).
3. Existe retenção de líquido, como consequência da produção inadequada dos mediadores que controlam o equilíbrio hidroeletrolítico.
O risco de desenvolver hiponatremia é maior para aqueles que correm em dias mais quentes, consomem mais de três litros de líquido durante a prova, ganham peso no decorrer dela, têm índice de massa corpórea abaixo de 20, pertencem ao sexo feminino, param para urinar mais vezes e demoram mais de quatro horas para completar os 42 quilômetros.
Um estudo prospectivo mostrou que, entre 488 maratonistas, 13% apresentaram hiponatremia leve e 0,6% (três casos) hiponatremia grave. Atletas que, durante a prova, usam suplementos de sal ou bebidas contendo sódio correm menos risco, mas ingerir volumes grandes dessas soluções pode agravar o quadro, porque a quantidade de água ingerida dilui o sódio, reduz sua concentração no sangue e sobrecarrega os rins, que não conseguem eliminá-la, fenômeno que pode causar edema cerebral e até morte.
Em 2005, foi publicada a “Primeira Conferência Internacional de Consenso sobre Hiponatremia Associada ao Exercício”, da Conferência de Cape Town, na África do Sul. O consenso recomenda que atletas participantes de eventos de ultra-endurance (corridas de mais de cinquenta quilômetros, triátlon etc.) tenham acesso a exames para determinação dos níveis sanguíneos de sódio no próprio local da prova. A reposição de sódio pode ser feita por boca ou por via intravenosa, conforme a necessidade.
Os médicos que prestam atendimento nesses locais devem estar preparados para fazer o diagnóstico diferencial entre hiponatremia, desidratação e insolação, porque os tratamentos são distintos.
O corredor precisa estar atento à quantidade de líquido ingerida. Evitar grandes volumes em dias que não estão quentes, em que a sudorese não é intensa, ou quando perceber algum inchaço (o relógio marca o pulso, o anel não sai do dedo).