Correr

Drauzio Varella · Capítulo 15 de 40

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Correr

Chicago, 2009

 

Educamos os filhos ao dar exemplos, palavras são de pouca valia. Nunca precisei dizer para minhas filhas e enteados que a vida sedentária faz mal para o organismo.

Em 2008, minha filha mais nova, Letícia, foi para os Estados Unidos fazer um estágio médico na Cleveland Clinic, em Ohio. Situada às margens do lago Erie, Cleveland é uma cidade típica do Meio-Oeste, com arranha-céus concentrados no centro, ermo depois das sete da noite, uma vez que a maior parte da população mora na periferia ou nas cidades vizinhas. Nas áreas arborizadas em que vive a classe média alta, as casas são amplas, sem muros nem cercas, com jardins gramados, repletos de árvores, flores na primavera e telhados inclinados para suportar o peso da neve que cai sem piedade, pelo menos de novembro a março.

Para o visitante que não é obrigado a passar meses em convívio com a brevidade dos dias escuros e temperaturas que eventualmente chegam a vinte graus negativos, a paisagem branca a perder de vista, a iluminação aconchegante das residências e os pinheiros carregados de neve espalham pela cidade a visão das ilustrações de Natal dos livros infantis.

Por razões de trabalho, comecei a visitar a Cleveland Clinic trinta anos atrás. Sou testemunha ocular de seu crescimento desde as primeiras ampliações, na década de 1980, prenúncio da formação de um dos maiores e mais completos centros médicos americanos. Em Cleveland aprendi a correr no frio. Nas primeiras vezes vestia uma regata, depois uma camiseta de mangas curtas, embaixo de outra de mangas compridas, um blusão por baixo de outro mais grosso, com zíper até o pescoço, comprado na primeira maratona que corri em Nova York, uma calça colante que ia até a canela, calção comprido, duas meias, luvas de montanhista, gorro de lã e boné. À medida que o corpo esquentava, o excesso de agasalho virava um trambolho amarrado à cintura. Demorei para ter coragem de passar um pouco de frio no início.

Quando já me considerava um experiente corredor em temperaturas abaixo de zero, fui a um simpósio do qual participavam três prêmios Nobel de medicina, em Keystone, estação de esqui no Colorado. O encontro comemorava os vinte anos da descoberta dos genes envolvidos na gênese das células malignas: os oncogenes. As conferências aconteciam no período da manhã e depois das seis da tarde, para dar tempo aos participantes que gostavam de esquiar.

Eu, que nunca esquiei nem esquiarei nesta ou na próxima encarnação, aproveitava as tardes para correr no asfalto de uma estradinha, enrolada feito cobra numa montanha próxima do hotel. Era uma subida ininterrupta. De um lado, o precipício com a floresta de pinheiros; do outro, o barranco com um monte de neve suja de terra. Descontado o asfalto cheio de sal descongelante que os tratores espalhavam e as nesgas de verde ainda visíveis nas árvores, o mundo estava vestido de branco. Fantasiado de esquimó, a cada dia aumentei a distância percorrida montanha acima. O esforço da ida era compensado pelo prazer da descida com o corpo aquecido, o blusão mais grosso aberto no peito, o vento gelado no rosto e o cenário de tirar o fôlego de quem vive entre os prédios de São Paulo.

No último dia do simpósio, anunciavam frio mais intenso, mas, quando saí para correr, às três e meia da tarde, a presença do sol, embora sem energia para derreter a revoada aleatória dos flocos de neve, dava a impressão de contradizer as previsões, que falavam em dez graus abaixo de zero para o fim da tarde. O treinamento dos dias anteriores deixou a ladeira menos íngreme. O vapor da expiração que se condensava ao sair das narinas ajudava a ritmar os movimentos respiratórios e a ausência de vento fazia esquecer que, quando eu saíra do hotel, o termômetro já marcava dois graus negativos. Na beira do barranco apareceu uma lebre de olhar atento e orelhas desproporcionais às dimensões do corpo que me olhou fixamente mas não se moveu enquanto passei. Há quanto tempo teriam desaparecido os caçadores daquelas paragens?

Uma hora mais tarde, os flocos de neve se aproximaram uns dos outros para formar uma cortina branca, em contraste com as nuvens cinzentas que engoliram o sol. Eu estava naquela fase otimista em que a cadência dos passos nos dá a impressão de haver atingido o estado de moto-perpétuo, capaz de nos levar aos confins do globo terrestre. No silêncio da nevada que abafava até o som do tênis no asfalto, continuei montanha acima. Pouco mais à frente, meus olhos e a estrada se encheram de neve e as nuvens escureceram, ameaçadoras como nos quadros de El Greco. Subitamente, fiquei arrepiado, com os pés insensíveis, frio no peito e nas costas, desmotivado e enfraquecido, com vontade de deitar encostado no barranco e dormir. Nunca havia imaginado que fosse possível sentir sono no meio de uma corrida. Sozinho, naquele ermo, tive medo.

Dei meia-volta e acelerei montanha abaixo, no limite das forças. Não sei se foi o calor gerado pelo esforço muscular ou a temperatura externa que aumentou à medida que desci, ou as duas coisas, o fato é que aos poucos recuperei a disposição. Na metade do caminho, ouvi um ronco de intensidade crescente. Olhei para trás e vi um trator limpa-neve, com cara de poucos amigos, saindo da curva a cem metros de mim. O monte de neve à beira do barranco e o precipício do lado oposto não deixavam espaço para nós dois. Como a razão costuma estar com o mais forte, não hesitei: pulei para cima do monte. Abraçado a ele, com as pernas enterradas até os joelhos no gelo, quase fui soterrado por um banho de neve misturada com terra e com sal descongelante.

Imundo dos pés à cabeça, continuei a descer a montanha na maior velocidade que as pernas puderam alcançar. Minha aparência devia estar tão miserável, que um casal, no único carro que passou em sentido contrário, parou para me oferecer ajuda. Quando respondi que não havia necessidade, a moça na janela perguntou duas vezes:

“Are you sure?”.* Corri tanto, que gastei quase vinte minutos menos do que gastara para subir.

Em 2008, fui a Cleveland várias vezes. Numa delas corri dez quilômetros com minha filha. Era primavera, as árvores tinham a cor mais verde que conseguem adquirir no ano e os jardins das casas pareciam floriculturas: rosas enormes, dálias, papoulas, amores-perfeitos e outras que não conheço. Era uma festa de pássaros cantores e esquilos arredios que trepavam nas árvores carregando pequenas nozes. Grãos de pólen e sementes voadoras viajavam com o vento para infernizar a vida dos alérgicos. O prazer de correr com Letícia me encheu de orgulho, por ela e por mim. Quando paramos, contei que estava pensando em participar da Maratona de Chicago do ano seguinte, e sugeri que corrêssemos juntos. Ela respondeu que jamais conseguiria.

Maratonas assustam porque os despreparados acham que a exaustão os levará ao óbito. Não se dão conta de que só vence os 42 quilômetros quem treina durante meses ou anos. Nem os quenianos quebradores de recordes chegariam ao fim da prova depois de um ano de vida sedentária.

Ela começou a treinar. No inverno de Cleveland, corria nas esteiras de uma pequena academia do prédio onde morava. Quando veio a primavera, voltou a correr nas ruas arborizadas. Num domingo em que pela primeira vez completou trinta quilômetros, ligou para mim assustada: estava na cama, com enjoo e calafrios, sozinha no apartamento, sem saber como agir. Tinha ligado para um casal de amigos médicos, mas não os encontrara.

Fiquei aflito, porém tentei não demonstrar. Sugeri que tomasse suco de laranja em goles pequenos e procurei acalmá-la. Insisti que deitasse e se cobrisse com dois cobertores, que o mal-estar acabaria em alguns minutos e que os sintomas eram frequentes em maratonistas inexperientes. Enquanto conversávamos, chegou Lobato, o amigo médico que recebera seu recado, trazendo uma rapadura comprada sabe lá em que diabo de supermercado da cidade. Quando desliguei, tive certeza de que iríamos juntos para Chicago. Quem é capaz de fazer trinta quilômetros nas semanas que antecedem a prova tem grande chance de conseguir completar os 42.

No domingo da maratona, tomamos café no quarto do hotel, sem fazer barulho para não despertar minha mulher, e seguimos a pé para a concentração no Millenium Park, uma área agradabilíssima localizada junto a um dos maiores museus dos Estados Unidos, o Art Institute of Chicago, na Michigan Avenue, rua central com tantas lojas, hotéis e shoppings que a modéstia típica dos americanos decidiu denominá-la The Magnificent Mile.

Fazia frio, mas estávamos agasalhados. Mais de 30 mil mulheres e homens formavam uma multidão cheia de cores, ansiosa para ouvir a ordem de partida. Eu, com a sensação de medo que me faz companhia nesses momentos; Letícia, mais assustada ainda. Por sugestão dela, havíamos combinado que cada um correria a seu modo para que ela não me retardasse nem fosse forçada a me acompanhar numa velocidade maior, estratégia que me pareceu lógica até o momento em que foi dada a partida. Tinha sentido deixar de correr ao lado de minha filha, na primeira maratona? Perder aquele momento histórico de nossas vidas, que ela contaria para os filhos e netos anos depois da minha morte?

Comuniquei-lhe minha decisão assim que começamos a correr. Ela se opôs, disse que eu faria o pior tempo da vida. Respondi que já havia completado muitas maratonas e que a alegria de estarmos juntos valia muito mais. Na história da humanidade, a quantos pais de 66 anos foi concedido o privilégio de correr 42 quilômetros com a filha 32 anos mais nova?

Com todo o cuidado para acompanhar o ritmo dela, segui pelas ruas encantado com os prédios de Chicago, cidade que tinha casas e calçadas de madeira quando foi consumida pelo incêndio de 1871. Dizem que o fogo começou num celeiro, no momento em que jogadores de cartas teriam derrubado um lampião a querosene ou uma vaca teria dado um coice num lampião durante a ordenha, boatos jamais confirmados. O fato é que Chicago, castigada por três meses de seca, ardeu do dia 8 ao dia 10 de outubro. A área destruída chegou a nove quilômetros quadrados, nos quais foram encontrados 120 corpos, mas relatos da época afirmam que morreram mais de trezentas pessoas, a maioria carbonizada. Dos 300 mil habitantes, 100 mil ficaram sem abrigo.

A reconstrução teve início no primeiro dia após a extinção das chamas. Nas décadas seguintes, afluíram para lá os arquitetos que projetaram a linha de arranha-céus que eu admirava enquanto corria. Foi a maior concentração de talentos da história da arquitetura americana. A criatividade de Louis Sullivan, Daniel Burnham, John Root, William Jenney — os mais conhecidos — lançou as bases da Escola de Chicago, que influenciaria gerações de arquitetos no mundo inteiro, com a filosofia implícita de que a forma deve seguir a função.

A partir do quilômetro 25 notei Letícia bem cansada. Como o pior ainda estava por vir, pedi que diminuíssemos a velocidade. Na marca dos trinta, ela tirou os fones de ouvido:

— Pai, não acredito que depois de todo esse esforço ainda faltam mais doze.

— Filha, os maratonistas dizem que agora é que as maratonas começam. Procure fazer como os mais experientes: evite pensar na distância que falta, e pense em quantos quilômetros ficaram para trás.

Na velocidade em que íamos, a corrida para mim era um passeio descontraído pelas ruas de Chicago. Consegui relaxar a ponto de tirar demoradamente os olhos do chão e detê-los na paisagem urbana. No quilômetro 36, perguntei se o cansaço estava insuportável. Letícia respondeu que dava para continuar e que os quilômetros restantes equivaliam à distância que anos antes ela e Malu, colega de turma na faculdade, se orgulhavam de correr no Parque Ibirapuera. Insisti que era preciso administrar a exaustão nos seis quilômetros mais duros da prova, e reduzimos ainda mais a velocidade. Repeti várias vezes “você vai conseguir”, palavra de ordem que repito para mim mesmo no fim das corridas longas.

Fomos assim, diminuindo gradativamente a velocidade, até a reta final, quando emparelhamos com uma senhora de cabelos brancos e rosto vincado que aparentava mais de oitenta anos, correndo em passos miúdos porém decididos. Nessa hora, sugeri que fôssemos mais depressa para não aparecer na foto da linha de chegada ao lado de uma corredora de tanta idade. Mais tarde ficaria difícil aguentar a gozação dos amigos sedentários.

Nos últimos metros, Letícia segurou minha mão esquerda. Cruzamos a linha de mãos dadas, erguidas para o alto. Completamos a prova em cinco horas exatas; eu nunca havia corrido tantas horas consecutivas. Demos mais alguns passos e nos abraçamos. Se um pai disser que não chorou numa hora dessas, é desalmado ou mentiroso.

 

* “Tem certeza?”