Correr
Lagoa Rodrigo de Freitas
A volta da lagoa Rodrigo de Freitas tem sete quilômetros e meio de beleza. Envolvidos com o cotidiano, os cariocas que circulam nos carros e ônibus pelas avenidas que a rodeiam não parecem admirá-la, mal-acostumados que estão com o virtuosismo das paisagens da cidade.
Não foi o caso de Von Martius, o naturalista alemão, que fez uma descrição emocionada desse
lago mediterrâneo, de quase légua de diâmetro, cercado e coberto, a norte e a sul, por promontórios do Corcovado. Com os olhos de quem vê de cima, é observado como que de água tranquila, fusca, muito azul, isolado e com aquele aspecto severo, com que aparece na Alemanha algum dos menores lagos dos Alpes. Mas o ar transparente do céu espalhado sobre ele, a vegetação fertilíssima dos trópicos, que, em forma de círculo, o abraça através de rochas gotejantes, campos férteis, largos bosques circundantes, acrescentam [...] um ornamento que procurarás em vão em nossas plagas, formadas com menores dons da natureza.
Perdi a conta de quantas vezes desfrutei do privilégio de correr na Lagoa, mas a cada volta descubro um novo detalhe, nas árvores que florescem, no cantar dos pássaros, nos biguás de pescoço esticado que alçam voo em bandos, na garça que espreita os peixes da beirada, na visão do morro Dois Irmãos com a Pedra da Gávea por detrás, nos barcos com remadores em movimentos sincronizados, no Cristo Redentor visto de lado, nas montanhas vulcânicas que se erguem gigantescas, com bromélias agarradas à pedra.
A pista é compartilhada por pedestres, corredores e ciclistas em convivência civilizada. Moças de corpo bem cuidado dividem o espaço com senhoras de linhas arredondadas, rapazes fortes, corredores esguios, homens de abdômen proeminente, ciclistas, e uma infinidade de pais e filhos concentrados nas áreas próximas às barracas de coco verde e aos pedalinhos em forma de cisne. Há que chegar cedo para correr nos fins de semana, sob pena de quase parar a todo momento, em respeito ao tráfego de pessoas, carrinhos de bebê, velocípedes e bicicletas.
Num daqueles domingos em que os cariocas praguejam contra os céus que ousam negar-lhes o sol e a praia, levantei decidido a dar três voltas na Lagoa. No caminho começou a garoar; não me detive. Quando alcancei a pista junto ao campo do Flamengo, não havia alma viva. A ventania que inclinava a garoa na direção dos meus olhos me obrigou a inverter o sentido do percurso. Impulsionado pelo vento a favor, ganhei velocidade e determinação.
De repente, em obediência a ordens superiores, o vento estancou e a chuvinha arrefeceu. Em poucos minutos, ficou escuro como noite, relampejou duas vezes, trovejou, e despencou uma tempestade tropical. Segui correndo, não havia para onde fugir. A chuva estava tão forte, que era impossível olhar para cima sem que a visão embaçasse. Os pingos grossos ecoavam em minha cabeça sem cabelo, o calção e a camiseta encharcados e colados no corpo não detinham a água, que escorria entre as nádegas e pelo meu sexo. Um spray de água subia toda vez que o tênis batia no chão.
Tomei uma chuva dessas quando era moleque. Devia ter menos de sete anos, nem estava na escola. Também caiu de repente, só que me escondi no armazém do seu Mário, que saiu do balcão apressado em baixar o toldo para proteger a sacaria perto da porta e as freguesas surpreendidas pelo temporal. Embalado pelo som dos pingos no toldo, fiquei encantado com a força da correnteza que, junto ao meio-fio, arrastava pedaços de jornal e tocos de madeira na direção do bueiro da esquina.
Tentação em demasia. Surdo à advertência das mulheres, corri para aquele rio. Andei descalço contra a corrente pela rua inteira, com a água à altura dos joelhos. Quando saí da enxurrada, feliz da vida, com a cabeça para o alto e os olhos fechados para sentir a chuva no rosto, notei que deixava um rastro vermelho na calçada. Tinha cortado o pé.
Na tempestade da Lagoa, os Dois Irmãos, a Pedra da Gávea, as rochas descomunais e o Redentor desapareciam, encobertos pelas nuvens, e seus contornos esmaecidos ressurgiam atrás da cortina de água que caiu impiedosa até o fim da terceira volta.
Quando cheguei em casa, minha mulher me advertiu: “Molhado desse jeito, vai ficar doente”, e esquentou água para fazer chá. Igualzinho minha avó espanhola naquela chuva de mais de sessenta anos atrás.