Correr

Drauzio Varella · Capítulo 37 de 40

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Correr

Love Story

 

Na outra encarnação, devo ter rolado montanha abaixo. É a única explicação para me dar mal com as descidas, ao contrário da maioria dos corredores, que nelas encontra alívio e prazer. Quanto mais inclinada pior, porque me obriga a jogar o corpo para trás — posição que sobrecarrega a coluna lombar — e a neutralizar a força da gravidade freando o impulso às custas do quadríceps e dos calcanhares.

Machuquei o tendão de aquiles dois meses antes da Maratona de Buenos Aires de 2013. Aconteceu num sítio, na descida íngreme de uma trilha esburacada. Na hora senti uma pontada fraca, mas à noite tive dor. Daí em diante, toda vez que eu pisava em falso com o calcanhar num desnível do terreno, a dor retornava. No plano, não havia problema.

Num domingo, três semanas antes da maratona, depois de correr duas horas e meia pelo Centro, pisei torto numa irregularidade da calçada na avenida Ipiranga e a dor voltou forte. Parei imediatamente e fui andando para casa. Estava perto. Quando cheguei ao cruzamento da pracinha em frente da boate Love Story, o semáforo fechou para os pedestres. Como sempre, àquela hora da manhã, a porta estava apinhada: garotas com saia agarrada e curta, seios saltando por cima dos decotes, equilibradas precariamente em cima do salto-plataforma; rapazes com camisetas apertadas a exibir a musculatura anabolizada, e seguranças de terno cinza, grandes como guarda-roupa de casal.

Para não ficar parado, andei pela calçada. Um rapaz magro e alto, com aparência doentia, que se achava sob a cobertura de um ponto de táxi, me reconheceu:

— Mancando, doutor. Que aconteceu?

Falei do estiramento. Ele prescreveu compressas de arnica gelada, tratamento infalível em sua opinião de corredor bissexto, que anos antes chegara a completar a São Silvestre, a glória de sua carreira. Por educação, perguntei o que ele fazia naquele lugar.

— Eu sofro — respondeu com um sorriso amarelo.

— Sofre de quê?

— De paixão.

Fazia seis meses que conhecera uma menina do Love Story, diferente das outras, segundo ele, habitué dos inferninhos do Centro e das imediações da rua Augusta: “Na primeira noite ela disse que se chamava Pâmela, mas avisou que era pseudônimo. Foi carinhosa na cama, sem os gemidos falsos dessas que fazem de tudo para você acabar depressa e sair de cima”. A despeito da experiência adquirida com mais de cem garotas de programa, conforme contabilizava, a noite com Pâmela deixou saudades: “Passei dias com o sorriso dela na mente”.

Na sexta-feira seguinte voltou à boate. Ela não apareceu. No sábado, chegou à meia-noite, com a casa ainda vazia, e só foi embora às nove da manhã. Nada. O sorriso inesquecível começou a atormentá-lo: “A imagem dela foi tomando corpo nas minhas ideias, do jeito daquelas gordas que pedem licença para sentar do seu lado num cantinho do banco do metrô e, quando a gente vê, estão refesteladas e você espremido feito uva-passa”.

Sua vida de divorciado, sem filhos, com bom emprego, livre para sair com quem quisesse, se tornou monástica. Na única tentativa de esquecer Pâmela, com uma das frequentadoras da boate, achou por bem pagar pelo programa antes de tirarem a roupa, e foi para casa. A moça, que o conhecia de outros carnavais, quis fazer um desconto de 30%, mas ele recusou: “Trabalho é trabalho, não exploro mulher”.

Encontrar a garota virou obsessão. Contrariamente aos hábitos, começou a ir à boate durante a semana. Às vezes, punha o despertador para as quatro da manhã, tomava banho, fazia a barba e pegava o caminho do Love Story. Ficava lá até a hora de ir para o escritório. Foram dois meses nessa angústia, até encontrá-la numa noite de sábado. Ele vinha pela calçada em que estávamos, ela pelo lado oposto. Correu para abordá-la antes que entrasse na boate. Devia parecer tão ansioso, que ela perguntou se estava com algum problema.

Quando lhe disse que haviam estado juntos fazia dois meses, ela respondeu que mal se lembrava. Em lugar de sentir-se rejeitado, ele admirou-lhe a sinceridade: “Outra teria dito que eu era inesquecível”. Explicou que a procurava desde então e a convidou para sair. Ela não podia, tinha agendado um programa com outra pessoa. Ele tentou convencê-la a ir embora; pagaria o dobro, o cliente se arranjaria com outra. Ela não arredou pé, cumpriria o compromisso. Se, por acaso, o rapaz faltasse, voltaria.

Trinta minutos e cinco cigarros mais tarde, viu-a sair acompanhada de um homem bem mais alto e muito mais forte. Apesar da desproporção física, ele atravessou a rua, desculpou-se com o gigante e perguntou se ela viria no dia seguinte. Pâmela respondeu que ainda voltaria naquela noite. Postado feito estátua na praça, ele esperou mais de duas horas. Sentiu fome e frio.

Com os olhos fixos no entra e sai da boate, cruzou a rua para comprar um cachorro-quente na carrocinha estacionada na esquina, quando ela chegou de táxi. Não comprou o sanduíche nem deixou que ela descesse. Assim que entraram no quarto do hotel, ele quis saber quantos programas ela ainda faria naquela noite. “Com sorte, mais dois.” Ele abriu a carteira e pagou por eles.

Acordaram às onze da manhã e andaram até a padaria. Ela contou que nascera em Educandos, na periferia de Manaus, e se casara aos dezesseis anos para se livrar do assédio do padrasto. O marido, um comerciante com mais de cinquenta, era tão ciumento que ela não tinha licença sequer para ir ao supermercado sem ele. Nas poucas vezes em que saíam, era ele quem escolhia as roupas dela; na rua, vigiava sem trégua seus olhares, pobre da esposa se houvesse um homem na direção deles. A libertação veio três anos mais tarde, depois de uma surra que lhe quebrou o braço. Ainda engessada, com medo de morrer, ela se aproveitou de um descuido para fugir num dos barcos que fazem a linha Manaus-Belém, quase sem dinheiro, com a roupa do corpo.

Já ele pouco falou de si. A infância e adolescência com os pais num bairro classe média de São Paulo, o emprego no departamento financeiro de um escritório de advocacia, pareceram-lhe insignificantes diante de um passado como o daquela mulher. O único acontecimento que houve por bem relatar foi a surpresa da tarde em que flagrou a esposa nua nos braços de um amigo do casal, trauma que o levou à decisão de se relacionar apenas com profissionais.

Contra o princípio que estabelecera de não sair mais de três vezes com a mesma garota de programa, voltaram a se encontrar nas semanas seguintes. Em pouco tempo, estava enredado, pensava nela o dia inteiro, telefonava, queria vê-la todas as noites, pretensão da qual Pâmela procurava se esquivar.

O sofrimento se agravou quando o ciúme lançou contra ele a flecha preta, como na canção: “Só de pensar que ela estaria trepando com outro, eu perdia o sono. Chegava a levantar da cama, ir para a frente da boate e ficar escondido para ver se ela saía acompanhada”. Vê-la aparecer na porta de braço dado com um cliente despertava nele angústias contraditórias: “De um lado, sentia o coração apertado de ciúmes; de outro, ficava morto de tesão. Quando chegava em casa, tinha que me masturbar pensando nela com o cara”.

No dia seguinte, ligava para submetê-la a um inquérito policialesco. Queria saber até que horas ficara na boate, com quantos homens havia saído, a que hotel tinham ido, e por aí afora. A tortura só terminava quando ela começava a chorar ou lhe batia o telefone na cara. Ao perceber que a perderia por causa das brigas, decidiu jogar a última cartada: propôs viverem juntos, ganhava o suficiente para tirá-la daquela vida. A reação foi inesperada: “Ela chorou como criança. Depois disse que não ia se iludir, que já tinha sofrido muito. Beijou meu rosto, virou as costas e me largou falando sozinho”.

Ele achou que a recusa seria passageira. Não foi, apesar dos recados, presentes caros e da insistência em procurá-la. Só se convenceu da irreversibilidade da separação na noite em que Pâmela lhe pediu pelo amor de Deus que se afastasse. Um cliente delegado tinha oferecido ajuda para livrá-la daquela perseguição: “Sofri feito cachorro, mas fiz o que ela queria”.

Nunca mais se encontraram. Nos fins de semana, entretanto, continuava a espreitá-la nas madrugadas do Love Story: “Louco de ciúmes e de tesão”.