Correr

Drauzio Varella · Capítulo 2 de 40

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Parte 1 — A largada, ou a vida começa aos cinquenta

PARTE 1

 

A LARGADA,

OU A VIDA

COMEÇA AOS

CINQUENTA

Uma tarde na cidade

 

Homem que é homem veste terno e vai para a cidade, aprendi quando pequeno. Não que me houvessem ensinado, mas no bairro operário de São Paulo em que morávamos existia uma barreira bem definida entre as crianças no futebol da calçada, os adolescentes com macacão de trabalho e marmita a caminho das fábricas e os homens de paletó e gravata que iam ao Centro para pagar a luz, a água, o telefone, os impostos ou depositar o salário no banco.

Em minha imaginação, a vida adulta também me encontraria na cidade, de terno cinza, gravata escura, óculos e capa de chuva, acessórios que considerava essenciais para a elegância masculina.

Passados tantos anos, ainda conservo o fascínio pelo Centro antigo, região que a maioria dos mais jovens desconhece. A familiaridade com os nomes e o traçado das ruas, a arquitetura da primeira metade do século XX, a imponência das portas dos prédios, as fachadas art déco e a multidão de transeuntes evocam imagens e sensações da época em que eu andava por lá, agarrado à mão protetora de meu pai.

Num mês de dezembro, 22 anos atrás, enquanto a paisagem do Centro antigo me trazia memórias da infância, um tipo grandalhão que vinha em sentido contrário nas proximidades do largo São Bento segurou meu braço, sorriu e fez a pergunta que deveria ser proibida por lei federal: “Lembra de mim?”. Tentativas malogradas para localizar personagens como aquele, esquecidos em algum escaninho, só lhes ressaltam o prazer de atormentar suas vítimas.

Por sorte, após alguns segundos de constrangimento que meu algoz saboreou com sadismo risonho, reconheci em seu rosto uma expressão longinquamente familiar. Arrisquei o nome e o sobrenome de um colega de turma do antigo ginásio, no Liceu Pasteur. Ele abriu um sorriso e anuiu com a cabeça, como se o feito de lembrar de um homem com quarenta quilos a mais, sem cabelo, com quem eu perdera contato havia 35 anos fosse mera obrigação.

A conversa foi um monólogo arrastado em que ele falou sobretudo do passado, dos filhos e contou as gracinhas dos cinco netos, a alegria de sua vida de funcionário público aposentado aos 52 anos. Aguardei mudo a primeira chance para fugir daquele astral deprimente. Quando consegui, ele quis saber minha idade, curiosidade única a meu respeito. Respondi que estava com 49 e apertei sua mão em despedida. Sem largar dela, meu ex-colega do Liceu adquiriu ar solene: “Ano que vem, cinquenta, idade em que tem início a decadência do homem”.

Retomei o caminho, com a história da decadência na cabeça. Atolado em trabalho, cheio de ideias e desejos para realizar, eu vivia numa efervescência intelectual oposta à do amigo aposentado. Não sentia no corpo o peso da idade; ao contrário, estava sem fumar havia treze anos, abstinência que me devolvera o fôlego e a atenção aos reclamos do corpo. Tinha até começado a correr num ou noutro fim de semana, prática ocasional que todos consideravam desaconselhável.

Quando cheguei ao largo, o carrilhão da igreja de São Bento anunciou a hora, melodia que trouxe à lembrança as missas fúnebres de parentes e amigos de meus avós, às quais eu assistia fascinado pela estética da liturgia e pela harmonia sonora

do latim: “Dominus vobiscum et cum spiritu tuo”,* o cálice de prata que o padre levantava, o dourado do manto, a vibração do sino do coroinha, a pose constrita dos fiéis ao voltar para seus lugares depois de receber a hóstia, meus joelhos magros no flagelo do genuflexório de madeira, a choradeira das mulheres de véu e as lágrimas que cintilavam no rosto dos homens com fitas pretas costuradas na lapela do paletó. Éramos expostos mais cedo ao mistério da morte, naquele tempo.

Ao som dos sinos, nasceu a ideia de me propor um desafio para provar que a decadência não começaria aos cinquenta, no meu caso. Decidi correr a Maratona de Nova York, em novembro do ano seguinte. Quem consegue correr 42 quilômetros deve ser capaz de enfrentar o futuro com mais otimismo e sabedoria, pensei.

Escolhi Nova York porque foi na pista em torno do Reservatório do Central Park que corri pela primeira vez, no início da década de 1980, em companhia do querido e inesquecível Luís Nasr, pintor talentoso, que nos privaria do convívio com seu humor e inteligência brilhante trinta anos mais tarde.

* “O senhor esteja convosco e com o vosso espírito.”