Correr

Drauzio Varella · Capítulo 34 de 40

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Correr

Parte 5 — São Paulo

PARTE 5

 

 

SÃO PAULO

O Minhocão

 

Aos domingos costumo correr no Minhocão, o elevado que faz a ligação leste-oeste de São Paulo.

Todos se referem a ele como uma excrescência arquitetônica, um monstro do urbanismo que desvalorizou os imóveis vizinhos e fez desaparecer em suas entranhas a avenida São João, uma das mais tradicionais da cidade. Não lhes tiro a razão, mas nos últimos vinte anos já percorri tantas vezes seus três quilômetros de extensão, que me afeiçoei ao elevado.

De seu início junto à praça Roosevelt, no Centro, até o final no largo Padre Péricles, em Perdizes, a pista segue na altura do segundo andar dos prédios da São João, altura privilegiada que oferece ao transeunte a possibilidade de bisbilhotar o interior dos apartamentos.

Fechado para o tráfego aos domingos, o Minhocão se transforma na praia dos paulistanos que moram na região central, como disse uma amiga carioca, debochando de meu afeto por ele. De fato, depois das nove da manhã, suas pistas são invadidas por crianças de bicicleta, casais que caminham, gente de idade em cadeira de rodas, pais que chutam bola com os filhos pequenos, cachorros de estimação com donos sedentários que atiram objetos para fazê-los correr atrás, vendedores de coco, água, refrigerante, algodão-doce, milho verde e até de peças de bicicleta.

Como tenho por hábito correr bem cedo, chego antes do tumulto. Às seis da manhã, quando a cidade silenciosa se recupera das extravagâncias do sábado à noite, o ambiente é outro. Grupos de adolescentes vestidos de preto, com latas de cerveja nas mãos, conversam em voz alta e riem na mureta que separa as duas pistas; craqueiros com o cobertor ordinário nas costas, aglomerados na rampa que dá acesso à rua das Palmeiras, fumam cachimbos metálicos; ciclistas paramentados ultrapassam em velocidade os poucos corredores que madrugam como eu, enquanto as primeiras janelas se abrem.

Em contraste com os sobreviventes da noite anterior que compõem a paisagem humana no asfalto, um homem de pijama e barba branca pendura a gaiola do canário na varanda; uma mulher de camisola florida e bobe na cabeça rega o vaso de samambaia; um senhor de camiseta regata e barriga avantajada fuma o primeiro cigarro do dia no peitoril da janela, ao lado da mulher com o olhar perdido; um vulto debruçado no fogão faz café no apartamento mantido na penumbra por um cobertor improvisado em cortina; feirantes armam as barracas na rua das Palmeiras, nas imediações do largo Santa Cecília; um gato se equilibra altaneiro no parapeito de um terraço, ao lado do cartaz que anuncia: “Vidente do amor. Pagamento depois da graça obtida”. Mais à frente, uma sibipiruna plantada na avenida São João expõe com generosidade a copa florida aos frequentadores do elevado. São centenas de flores amarelas que pousam delicadas como passarinhos na folhagem do topo.

Às nove, na calçada do largo Padre Péricles, local em que faço o retorno para correr no sentido da praça Roosevelt, senhoras de andar lento e homens de cabeça branca caminham em direção à igreja para assistir à missa. Não há um jovem entre eles. Que diferença das missas dominicais de quando eu era criança: começavam às sete da manhã, com reprises de hora em hora, diante de plateias lotadas de fiéis de todas as idades. A última, a mais concorrida, acontecia às onze, frequentada pelas meninas mais bonitas do bairro e pelos rapazes mais velhos, que tentavam flertar com elas na saída. O catolicismo era onipresente, a repressão sexual mais ainda.

Na volta para o Centro, a pista fica de frente para o prédio do antigo Banco do Estado de São Paulo, o Banespa, levantado no estilo do Empire State, para ser o mais alto da cidade, posição que ocupou até ser desbancado pelas linhas curvas do Edifício Itália, em 1965. Durante o longo percurso diante do prédio, lembro com carinho do querido tio Odilo, irmão mais velho de meu pai, personagem muito presente em minha infância. Não que a lembrança de sua figura acolhedora deixe de me visitar em outros momentos, mas ela o faz ocasionalmente, enquanto em frente ao Banespa surge todas as vezes, nítida e cheia de vitalidade.

 

Nos dias que sucederam a morte de minha mãe, tio Odilo me levou para acompanhá-lo no trabalho diário que fazia no ramo de representações e vendas. Íamos de carro de um ponto a outro, visitávamos os clientes, almoçávamos na casa dele e voltávamos para a cidade. Uma das visitas foi justo a um funcionário que trabalhava num dos últimos andares do Banespa, previamente anunciada pelo tio como a oportunidade jamais oferecida a um menino de quatro anos como eu.

Lá do alto, um mar de telhados e a serra da Cantareira. Os automóveis eram carrinhos de brinquedo; os transeuntes, formigas quase invisíveis; os postes de iluminação, do tamanho de um palito. Fiquei até confuso com a percepção das dimensões insignificantes do mundo que me parecia tão grande visto de baixo; por outro lado, senti orgulho de viver uma experiência inacessível à molecada da rua, que não acreditaria quando eu contasse a que altura havia subido.

 

Depois da via crucis na Maratona de Blumenau, jurei que jamais correria outra sem estar preparado.

Em 2000, voltei a me inscrever em Nova York, prova que havia corrido anualmente, desde 1993, em tempos que ficavam entre os 3h38 de 1994 e os 3h50 de 1995, em Blumenau. Em 1999, porém, vivi uma situação inusitada: a publicação de Estação Carandiru, meu primeiro livro, baseado na experiência de uma década como médico voluntário na Casa de Detenção de São Paulo, na época o maior presídio da América Latina.

A noite de autógrafos foi numa quarta-feira. Acordei cedo no sábado seguinte, abri a porta do apartamento e apanhei os jornais que assino: Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo. Estação Carandiru estava na primeira página dos três, com chamadas em destaque para os cadernos de cultura. Tomei um susto: jamais pensei que o tema fosse despertar tamanho interesse. Fiquei inseguro e amedrontado com a repercussão, arrependido de ter escrito o livro.

Estação Carandiru ganhou três dos troféus do prêmio Jabuti, o mais importante do mundo literário brasileiro: categoria não ficção, júri popular e melhor livro do ano em 2000. Experimentei a sensação do principiante que acerta em cheio na roleta logo no primeiro número em que aposta. O interesse veio acompanhado de convites para escrever em jornais e revistas do Brasil e do exterior, fazer palestras, dar entrevistas, participar de debates, conferências, e da sugestão feita por minha editora, Maria Emília Bender, de escrever um livro infantil; compromissos alheios à medicina, que alteraram a rotina e me afastaram das pistas, de tal forma que eu chegava a passar quinze dias sem treinar. Um mês e meio antes da maratona, eu mal conseguia correr uma ou duas vezes por semana.

É abissal o contraste entre o esforço para manter a regularidade dos treinamentos e a facilidade para quebrá-la. Duas semanas de vida sedentária são suficientes para desorganizar a programação seguida com disciplina rigorosa durante meses ou anos. A proximidade da prova me encheu de brios, no entanto. É atestado de incompetência desistir depois de inscrito e com os detalhes da viagem já acertados. Aguentar a gozação dos amigos sedentários sempre à espreita da menor hesitação para nos acusar de pusilânimes e decadentes, pior ainda. Por outro lado, em meio a tantos compromissos, como treinar com a frequência e a intensidade necessárias?

Pressionado pelo prazo que restava, tomei uma decisão temerária: dar um jeito de me preparar correndo apenas duas vezes por semana. Às quartas-feiras no Ibirapuera, correria uma hora, o máximo de tempo disponível antes do trabalho; aos domingos, no Minhocão, percorreria distâncias crescentes. Embora sábado fosse um dia mais folgado, ficava reservado ao descanso para o esforço do dia seguinte.

No primeiro domingo, corri dez quilômetros, percurso que aumentei para quinze, vinte, 25, trinta e 35 quilômetros nos cinco domingos seguintes. Pode existir programação mais estapafúrdia? Que treinador com um mínimo de bom senso aconselharia alguém a se preparar de forma tão precária?

Apesar de ter sofrido para completar os 35 quilômetros do sexto domingo, achei que no dia da prova seria capaz de chegar aos 42, afinal conhecia bem o trajeto — seria minha oitava vez em Nova York. De fato, fui relativamente bem até entrarmos no Central Park. Quando faltavam duas milhas, senti um incômodo do lado esquerdo do peito. Era uma dorzinha conhecida, muscular, dessas que surgem por mantermos os braços na mesma posição por muito tempo e que vão embora ao levantá-los e abaixá-los duas ou três vezes, providência que tomei em seguida.

A dor passou, todavia retornou pouco à frente. Ainda fraca, mas dessa vez acompanhada de uma certa ardência que me fez pensar em angina, quadro álgico provocado pela escassez de oxigênio no miocárdio. Parei imediatamente. A dor sumiu, como por encanto. Tive certeza de que o diagnóstico estava correto. Andei uns dez metros e voltei a correr bem mais devagar. Não senti mais nada até o fim da prova, mas cheguei exausto quando o relógio marcava 4h08, tempo pior que o da primeira maratona, corrida sete anos antes.

Enrolado num plástico metálico, andei com dificuldade até a saída do parque. Minha mulher me esperava com os olhos azuis que perderam subitamente o brilho ao ver o estado do marido — do pobre marido, deve ter pensado. Sem dizer nada, passou um braço por minha cintura e puxou o meu por sobre o ombro dela. Aceitei a ajuda sem esboçar reação, e saímos atrás de um táxi, ave mais rara do que o uirapuru nas cercanias das linhas de chegada das maratonas de qualquer cidade do mundo. Vergonhosamente amparado por Regina, fui obrigado a andar mais de cinco intermináveis quilômetros até alcançarmos o hotel do East Side, junto à Park Avenue.

Assim que entramos no quarto, ouvi a descompostura que ela se abstivera de passar no trajeto, por consideração à precariedade de minha condição, conforme explicou no preâmbulo. Fui chamado de irresponsável e de maluco para cima. Escutei em silêncio, deitado na cama de roupa e tudo.