Correr
Boston
Boston está para os maratonistas como Meca para os muçulmanos.
Foi a primeira maratona dos tempos modernos, disputada em abril de 1897 por quinze corredores, cinco dos quais desistiram no caminho. A mística não se restringe ao fato de ser a mais antiga, mas à exigência de pré-qualificação: para ser aceito, o candidato precisa comprovar que correu nos doze meses anteriores uma maratona abaixo de determinado tempo, que varia com a faixa etária.
As inscrições são abertas pela internet numa segunda-feira. O primeiro dia está reservado para os que no ano anterior completaram uma prova em mais de vinte minutos abaixo da linha de corte. Portanto, se na faixa etária do corredor o limite for de 3h10, a segunda-feira fica à disposição daqueles com tempos inferiores a 2h50.
Havendo vagas, na quarta-feira estão autorizados a inscrever-se os que o fizeram entre vinte e dez minutos abaixo da linha de corte. No exemplo citado, seriam os que obtiveram tempos entre 2h50 e 3h. Se ainda sobrarem lugares, na sexta-feira inscrevem-se os que terminaram uma prova anterior até cinco minutos abaixo do limite proposto. No caso, os que ficaram entre 3h e 3h05.
Os organizadores levam ao pé da letra a questão dos limites — não admitem um segundo a mais. Se para determinada idade a linha de corte for 3h10, e o melhor tempo do pretendente foi 3h10min01, ele não será aceito. Para o candidato ser qualificado, a maratona da qual ele participou nos doze meses anteriores deve ser oficial, com percurso certificado por um órgão governamental afiliado à International Association of Athletics Federations e com resultados finais acessíveis pela internet.
O quadro abaixo mostra os limites de tempo para cada faixa etária:
IDADE HOMENS MULHERES
18-34 3h05 3h
35-39 3h10 3h
40-44 3h15 3h
45-49 3h25 3h
50-54 3h30 4h
55-59 3h40 4h
60-64 3h55 4h
65-69 4h10 4h
70-74 4h25 4h
75-79 4h40 5h
80+ 4h55 5h
A disputa pelas inscrições é acirrada. No dia 18 de outubro de 2010, os primeiros 20 mil lugares para a prova de 2011 foram preenchidos em apenas oito horas.
A partir de 2012, os organizadores ajustaram todas as linhas de corte para cinco minutos a menos, detalhe que me impediu de tentar a inscrição para o ano seguinte, por muito pouco. Nesse ano, eu tinha corrido a Maratona de Berlim em 4h12, marca insuficiente para ser aceito em Boston em 2013, por apenas dois minutos. Eu estava com 69 anos, idade para a qual as regras novas passaram a exigir 4h10 como tempo máximo.
Por dois insignificantes minutos eu não estava presente na maratona e não vivi a experiência trágica: dois rapazes da Tchetchênia colocaram bombas no meio dos espectadores aglomerados nas proximidades da linha de chegada da Boylston Street, na calçada oposta ao prédio imponente da Biblioteca Pública da cidade. As cenas foram de horror: pessoas ensanguentadas, nuvem escura de fumaça, pernas arrancadas, chuva de cacos de vidro espatifados, correria, desespero, pânico, mais de duas centenas de feridos e três mortos. Entre estes, um menino de oito anos que esperava com a mãe e as irmãs pelo pai corredor.
Armadas em panelas de pressão, duas bombas explodiram num intervalo de treze segundos, quando a prova completava quatro horas de duração. O ataque foi planejado para obter o máximo de letalidade, porque a marca de quatro horas coincide com a chegada de muitos participantes e com a aglomeração dos familiares e amigos que aguardam para saudá-los.
A prova foi suspensa e a cidade parou. O transporte público foi paralisado e proibiram-se os voos a baixa altitude dos aviões pequenos. A população se recolheu a suas casas para deixar as ruas desertas até a polícia localizar os rapazes, um dos quais foi morto e o outro, ferido e preso.
Fiquei chocado com as imagens de desespero no rosto dos que haviam escapado da explosão, mostradas em tempo real pelos telejornais. Em nome de que ideologia ou fé religiosa um fanático assassina indiscriminadamente crianças e adultos que nenhum mal lhe fizeram?