Correr
Adriana Silva
Magrinha daquele jeito, de tênis e jeans, no portão de embarque para Boston, só podia ser maratonista. De elite, porque o rapaz forte ao lado dela parecia ser treinador. Quando me aproximei, as suspeitas se confirmaram: era Adriana Aparecida da Silva, recordista brasileira e pan-americana da maratona feminina.
Adriana tem um olhar doce, encantador, sorriso aberto e modos de moça recatada do interior. As glórias nas pistas não lhe roubaram a simplicidade e a parcimônia ao falar de si.
Nasceu em Cruzeiro, no meio do caminho entre São Paulo e Rio de Janeiro, em 1981. Ela e os três irmãos foram criados pela mãe, separada do marido quando a menina completou três anos. Para ajudar em casa, aos nove foi trabalhar como doméstica. O que ganhavam mal dava para as necessidades básicas, a casa em que moravam era tão precária que nas noites de chuva a mãe cobria os filhos com um plástico, única maneira de protegê-los das goteiras.
Ainda pequena, por brincadeira, Adriana começou a correr na equipe Papaléguas, que treinava crianças da cidade. Ao completar doze anos, foi convidada para disputar uma corrida de cinco quilômetros na vizinha Jacareí. Era a primeira vez que saía dos limites de Cruzeiro. Nem tênis tinha, correu com sapato de couro. Sem entender direito o que se passava, subiu ao pódio para receber a medalha do primeiro lugar e o prêmio em dinheiro.
De volta para a cidade natal, correu ao encontro da mãe: “Vamos para o supermercado”. Nesse dia, realizou o sonho de ver um carrinho cheio de mantimentos. Diante dele, compenetrada, prometeu: “Não vai faltar mais nada para a senhora. Serei atleta profissional”.
Abandonou o emprego e se dedicou de corpo e alma à Papaléguas. Em pouco tempo já recebia trezentos reais de ajuda de custo, num programa da prefeitura, além dos prêmios das corridas que vencia. Permaneceu em Cruzeiro até completar 23 anos, quando foi a terceira colocada na São Silvestre, performance que lhe permitiu subir ao pódio e a transformou em corredora de elite. No mesmo ano, chegou em terceiro lugar também na Meia Maratona do Rio de Janeiro. Ainda em 2004, cumpriu a promessa feita à mãe: comprou-lhe uma casa com dois quartos, sala e um quintal grande, com duas laranjeiras, uma mangueira e um pé de caju.
No ano seguinte viveria os momentos mais incertos da carreira, consequência de um estiramento no tendão de aquiles que se agravou nas sucessivas provas que disputava. A cirurgia para reparar o tendão afastou-a das pistas por seis meses, período em que perdeu a verba de patrocínio. Dos 3 mil reais que ganhava, passou a viver com quatrocentos. Medicada com antidepressivo, achou que a carreira havia chegado ao fim. E talvez fosse verdade, se não tivesse conhecido Claudio Castilho, o treinador que estava com ela à espera do avião para Boston, quando os conheci, quatro dias antes da maratona de 2014. Contratada pelo Clube Pinheiros em 2007, ficava quinze dias num alojamento com outras atletas e o resto do mês com a família, em Cruzeiro.
O ano de 2009 foi decisivo: Claudio sugeriu que ela se tornasse maratonista e se preparasse para disputar a classificação para o Mundial de Atletismo que seria realizado no mês de agosto, em Berlim. Para tanto, era preciso completar uma prova em tempo abaixo da linha de corte: 2h43. A oportunidade se apresentou na Maratona de Florianópolis, em abril. Foi a primeira colocada, com tempo de 2h41, que lhe garantiu o direito a disputar o Mundial, e a fez chorar como nos tempos de criança.
Em 2011, aconteceram os Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, cidade a 1550 metros de altitude, no México, país de origem da favorita da prova, Madaí Pérez. Na fase de preparação, Adriana passou um mês em Paipa, na Colômbia, num centro de treinamento situado a 2600 metros de altitude.
Na prova, largou em quarto lugar, posição que manteve até o quilômetro 12, quando passou pela terceira colocada, mais de dois minutos atrás de Madaí Pérez, que disputava a primeira colocação com a peruana Gladys Tejeda. Ao atingir o quilômetro 35, sentiu que tinha forças para acossar as líderes. A peruana ficou para trás. O povo nas ruas incentivava a conterrânea e gritava para a brasileira: “Despacio, despacito” (Devagar, devagarinho).
No quilômetro 38, Adriana foi para cima da mexicana desgastada pelo calor e pela disputa aguerrida com a representante do Peru. Assim que assumiu a primeira posição, a torcida virou a seu favor: gritava seu nome e a aplaudia, estímulos que a ajudaram a suportar as dores cada vez mais fortes nas pernas e na região lombar e as náuseas dos últimos cinco quilômetros. Nos mil metros finais, o mundo escureceu por alguns segundos, apagão que já tirou de combate corredores renomados, a poucos metros da chegada. Sem enxergar, orientando-se pelas vozes da torcida, resistiu no mesmo passo.
Quando faltavam quinhentos metros, ouviu o grito do treinador: “Vai dar recorde”. De fato, Adriana completou a prova no tempo de 2h36min37, quase um minuto de vantagem em relação ao recorde pan-americano anterior. Com esse tempo, tornou-se também a recordista brasileira, título que detém até hoje, batido anteriormente por Carmem de Oliveira, sua inspiradora, que venceu a São Silvestre de 1995 e muitas provas de rua.
Chegou ao fim da prova sem noção do tempo. Só entendeu que havia quebrado a marca pan-americana quando voltou à Vila Olímpica e viu o Facebook. Passou a noite acordada, com a medalha de ouro ao lado e os gritos da multidão reverberando na memória da ultrapassagem decisiva. “Não tinha com quem conversar, as cinco companheiras de alojamento dormiam.” As portas se abriram. Correu as maratonas mais importantes do mundo e foi a única brasileira classificada para os Jogos Olímpicos de 2012.
Convites não lhe faltam. Disputa duas maratonas por ano, que exigem quatro meses de preparação. Em 2013 correu três provas, mas acha arriscado participar em mais de duas por ano, por medo de que uma contusão a afaste das pistas. Na primeira semana de preparação corre o total de 160 quilômetros, na segunda 180, distância que aumenta até chegar a 215, quando se aproxima a data da prova. Nessa fase, às segundas, quartas e sextas corre vinte quilômetros pela manhã e dez à tarde. Às terças e quintas, faz doze a quinze tiros de mil metros pela manhã e corre doze quilômetros à tarde. Aos sábados, faz os longos, que começam com 25 quilômetros com o objetivo de chegar a 38 nas proximidades da competição. Nas tardes dos dias de semana, antes da segunda corrida do dia, vai à academia do Pinheiros para fortalecer braços e pernas.
Antes das maratonas, passa pelo menos um mês no centro de treinamento em Paipa. No primeiro dia corre duas horas, tempo que vai aumentando gradativamente até atingir três horas, nas quais percorre quarenta quilômetros. É a fase de que mais gosta: “Em Paipa, não há solicitações externas. A vida é treinar e voltar para o alojamento. Dedicação total”.
Retorna cerca de dez dias antes da prova, a tempo de disputar meia maratona. Se não houver alguma agendada para esse período, corre 25 quilômetros em companhia de atletas homens, com a intenção de chegar em uma hora e meia. Na semana anterior à prova reduz a intensidade do treinamento para 90 km/semana. Corre até a véspera, mas em ritmo bem mais lento.
Apesar do desgaste dos treinos não perde peso. Faz seis refeições por dia, mas a dieta não tem nada de especial. Pão com manteiga no café da manhã; carboidrato em gel antes do treino; depois dele bolo, iogurte e frutas, às dez horas; almoço sem restrições ao meio-dia; outro café com leite, pão e manteiga às três e meia, antes do treino da tarde; lanche às cinco e meia, e às oito da noite jantar, variado como o almoço. Antes de ir para a cama, o último lanche. Seu corpo tem apenas 6% de gordura, mas a magreza não lhe tira o porte atlético nem a graça feminina.
No clube recebe assistência médica completa. Os controles ginecológicos mapeiam suas menstruações (que são regulares), para evitar provas que coincidam com esse período, precaução nem sempre possível. “Correr menstruada, com cólica, desconcentra, prejudica a performance e duplica o sofrimento.”
Os anos de carreira e as disputas internacionais não foram suficientes para livrá-la da ansiedade e do medo nos momentos que antecedem a prova nem das dores nas pernas e na coluna que se instalam a partir do trigésimo quilômetro.
Veio em definitivo para São Paulo em 2007, onde morou numa república com quatro atletas. Em 2014, conseguiu alugar um apartamento para trazer a mãe, infelizmente falecida quando o sonho da filha estava para ser realizado.
Em 2010 completou a licenciatura em Educação Física, curso frequentado à noite com grande sacrifício pessoal, para não interferir na rotina dos treinos. No dia a dia, Adriana acorda às sete e meia, treina, almoça e descansa das duas às três da tarde, em casa ou numa sala do clube. Volta para casa ao redor das oito. Dorme às dez e meia.
As pistas não lhe dão trégua: “Não tem sábado, domingo, feriado e nem Natal”. Nos dias seguintes à Olimpíada de Londres, passou dez dias na Disneylândia, sua primeira e única viagem de lazer.
Depois das maratonas, tira uma semana de férias para ficar com a família, em Cruzeiro. Em São Paulo, não namora, não vai a festas nem sai para passear: “Chego em casa tão cansada, tão cheia de dor, que não tenho coragem de levantar do sofá. O máximo que consigo é andar até a cama. Que homem viveria com uma mulher nessas condições?”.