Correr
O Centro
De uns anos para cá, além de correr no Minhocão, peguei o gosto de correr pelo Centro aos domingos.
Saio de casa pela rua Maria Antônia, em 1968 palco da guerra entre os alunos do Mackenzie, simpatizantes do regime militar, e os da Faculdade de Filosofia da USP, no prédio em frente. Desço a Consolação, na calçada oposta à da igreja de Nossa Senhora da Consolação, projetada em estilo neorromânico pelo mesmo arquiteto da catedral da Sé, em 1909, para substituir a antiga igrejinha do local. Viro à esquerda na avenida Ipiranga, do lado oposto ao do Copan, gigante de linhas curvas projetado por Oscar Niemeyer, onde vive uma quantidade de pessoas maior que a população de muitas cidades. Em frente ao edifício, a aglomeração na porta da boate Love Story, que ostenta na fachada ser “A Casa de Todas as Casas”, lotada até fechar, às dez da manhã. Na praça da República, viro à direita para entrar no calçadão da Barão de Itapetininga, e já estou no meio dos prédios mais encantadores de São Paulo.
Com as lojas fechadas, o Centro está deserto e silencioso. Os moradores de rua que se aconchegam às portas e marquises dos prédios dormem o sono dos justos, cabeça apoiada na sacola com os pertences. São centenas de mulheres e homens deitados em cima de folhas de papelão, jornais velhos, trapos e tudo que lhes possa amenizar a dureza do solo. Embaixo de cobertores cinzentos, alguns descansam ao lado do vira-lata preso à carrocinha em que recolhem material para reciclagem; outros se protegem sob tendas improvisadas com pedaços de plástico e de madeira; outros, ainda, jazem junto à garrafa de cachaça que lhes alegra e arruína a existência. Na maioria são homens solitários, mas há mulheres de todas as idades e casais abraçados sob as cobertas.
A disposição pelas ruas, a porta do prédio escolhido, a presença ou não de marquises protetoras, a qualidade dos trastes que carrega e o conforto do leito em que repousa denunciam a classe a que pertence o cidadão. Os mais privilegiados vivem no conforto das barracas-iglu que uma ONG distribuiu tempos atrás; os catadores de materiais recicláveis dormem sob suas carroças; os remediados se defendem com caixas de papelão, cabanas de plástico e cobertores quadriculados; enquanto a ralé, formada por alcoólatras de rosto inchado e craqueiros em pele e osso, fica jogada em qualquer canto, sem nenhum bem que possa servir de travesseiro, protegida apenas pelo cobertorzinho ordinário, até a cabeça para afugentar a claridade.
No largo São Francisco, há os que transformam em dormitório coletivo a área sob as arcadas da Faculdade de Direito e os que se deitam junto à parede da calçada entre elas e a igreja de São Francisco, ao relento. Um domingo, ao passar por lá, ouvi uma altercação entre uma negra corpulenta sentada num colchãozinho de espuma de borracha, na parte central das arcadas, e uma branca franzina que passara a noite a céu aberto, mais para o lado da igreja. A julgar pela resposta da negra, a vizinha deve tê-la ofendido: “Morta de fome é você, sua invejosa, que dorme no papelão, no meio da rua. Eu me deito em colchão macio, debaixo de um teto”.
Nem bem havia clareado, num outro domingo, eu vinha pela rua Boa Vista, que liga a praça da Sé ao largo São Bento, quando um homem parou em meu caminho. Era um senhorzinho mirrado, sem dentes, de barba e cabelos brancos revoltos, que tinha um olho azul e o outro vazado, vestido com uma calça tão larga quanto encardida e um blusão da New York University confeccionado para alguém com o dobro da estatura dele.
Do jeito que me olhava, supus que tivesse me reconhecido por causa das aparições na TV, como eventualmente acontece quando corro na rua. À medida que me aproximei, ele se deslocou para o lado como se fosse obstruir a passagem. Quando sorri, prestes a desejar-lhe bom dia, ele me encarou com o único olho e vociferou: “Vá pra puta que o pariu”.
Sob a marquise do antigo Mappin, onde hoje estão instaladas as Casas Bahia da praça Ramos de Azevedo, em frente ao Theatro Municipal, obra do arquiteto que deu o nome à praça, existe um dormitório que alberga mais de vinte inquilinos. Como a loja abre aos domingos, nem todos os desabrigados se interessam em passar a noite ali, apesar da generosidade do espaço: “Tenho um primo que dorme lá. É muito bom, não chove nem pega sereno, tem posto de polícia na frente, mas que adianta, acordam a gente às nove da manhã, no melhor do sono”.
Cruzo a rua, contorno o Municipal e atravesso o viaduto do Chá, erigido sobre o vale do rio Anhangabaú, que hoje corre por um canal soterrado. É muito agradável sentir no corpo suado a brisa que circula pelo vale nas primeiras horas da manhã.
Quem vem do viaduto na direção da praça da Sé atravessa a do Patriarca. Toda vez que passo por lá, fico com raiva do pórtico metálico gigantesco projetado sobre a entrada da estação do metrô, que seria muito bonito se não escondesse a fachada dos prédios antigos e a igrejinha de Santo Antônio, cujas primeiras referências datam de 1592, do lado direito. Não consigo entender também por qual razão a estátua do Patriarca José Bonifácio, em tamanho real, foi disposta com a frente para quem vem da rua Direita e com as costas para a praça. Terá sido para que não veja o pórtico?
Em contraste com as demais ruas do Centro, a praça da Sé fervilha naquele horário. Moradores de rua fazem fila para receber o café da manhã distribuído por voluntários e formam rodinhas para conversar, tomar o café ou o primeiro gole do dia, com a garrafa de mão em mão. Acocorados no chão, os solitários observam o movimento, apanham sol sem camisa na escadaria da catedral ou dobram os panos que lhes serviram de cama. De Bíblia em punho, um pregador enfurecido descreve as artimanhas de Satanás, para meia dúzia de gatos-pingados.
Nos meus tempos de menino, a praça da Sé era um largo asfaltado no qual se concentravam os pontos iniciais dos ônibus que partiam para a Zona Sul. Um conjunto de prédios de escritório construídos no começo do século XX, em que funcionavam dois cinemas, fazia a separação entre ela e a praça Clóvis Beviláqua, com o quartel do Corpo de Bombeiros, onde meu avô português ganhou a vida como telegrafista, a igreja do Carmo, o colégio e o convento dos carmelitas e os pontos dos ônibus que serviam a Zona Leste e inspiraram o samba de Paulo Vanzolini, que me vem à cabeça toda vez que corro por lá: “Na praça Clóvis minha carteira foi batida. Tinha vinte e cinco cruzeiros e o teu retrato…”.
Com a derrubada dos edifícios que delimitavam as praças, a retirada dos ônibus, a construção da estação do metrô e o plantio de árvores e de palmeiras-imperiais, as duas se fundiram num grande largo, que durante a semana mistura desocupados, maltrapilhos, bêbados, mulheres de salto e homens de gravata a caminho do Fórum da praça João Mendes.
Na Sé, junto ao prédio da Caixa Econômica, desço a ruazinha do sobrado imponente em que morou dona Domitila de Castro Canto e Melo, a marquesa de Santos, namorada do imperador d. Pedro I, casa hoje transformada em museu, e passo pela igrejinha azul e branca do Pátio do Colégio, em torno do qual os jesuítas José de Anchieta e Manuel da Nóbrega fundaram em 1554 a cidade batizada com o nome de São Paulo de Piratininga.
Do lado oposto, no início da rua Boa Vista, vejo o prédio da Associação Comercial, que exibe um impostômetro com números vermelhos rodando em velocidade vertiginosa para contabilizar cada real arrecadado pelo governo, e vou na direção do largo São Bento. Uma esquina antes de alcançar o largo, jamais deixo de entrar à esquerda na rua João Brícola e de diminuir a velocidade diante de um “predinho” de quatro andares com uma porta metálica verde de cinco metros de altura, circundada por cópias de moedas antigas de meio metro de diâmetro, algumas das quais conheci quando criança.
Mantenho o passo mais lento para admirar a fachada de meu prédio preferido, construído no período de 1939 a 1947, no estilo art déco, pelo arquiteto Álvaro de Arruda Botelho: o prédio do Banespa, cujas linhas delicadas me foram apresentadas num passeio pelo Centro em companhia do arquiteto Isay Weinfeld. Do outro lado da rua, a cinquenta metros dele, o Edifício Martinelli, inaugurado em 1929, marco da arquitetura da cidade que se industrializava e crescia, projetado pelo arquiteto húngaro William Fillinger e modificado pelo empreendedor Giuseppe Martinelli com o objetivo de torná-lo o arranha-céu mais alto fora dos Estados Unidos. Para chegar aos trinta andares necessários para tanto, Martinelli construiu a própria casa nos últimos andares, estratégia que lhe permitiu atingir seu objetivo e transmitir aos demais moradores a segurança de que o edifício não desmoronaria. Mais tarde, o prédio do Banespa desbancaria o Martinelli. Entre os dois, uma pracinha com um coreto de madeira e um relógio redondo com ponteiros metálicos que apontam para algarismos romanos. Aí nasce a avenida São João.
Quando tenho a sorte de os sinos da igreja de São Bento começarem a badalar, corro em círculos até desaparecer dos ouvidos a reverberação do último toque. Ao atravessar o viaduto Santa Ifigênia, sou invariavelmente perseguido por outra memória musical. Por mais que queira espantá-los, não consigo impedir que me venham à cabeça os versos mal acomodados do samba de Adoniran Barbosa: “Venha ver, venha ver, Eugênia. Como ficou bonito o viaduto Santa Ifigênia…”.
O batedor de carteira da praça Clóvis, a Eugênia do viaduto e o prédio do Banespa que me traz a imagem do tio Odilo, no Minhocão, fazem parte desses mantras que se intrometem em nossos pensamentos enquanto corremos. Difícil encontrar um corredor que não seja tomado por um deles em determinado momento. Como os portadores de TOC, não somos capazes de evitá-los. Podem vir sob a forma de música ou imagem que se condensa e evapora, como nos casos citados, de frases de exortação do tipo: “Vamos lá, um passo a mais” ou: “Coragem, tá chegando… tá chegando…”, repetidas dezenas de vezes, de conversas trocadas com pessoas imaginárias ou com nós mesmos, ou ainda de palavras alinhadas sem coerência, que emergem de centros cerebrais ativados pelo esforço despendido e pela perspectiva do que ainda falta realizar.
Sigo pela rua Santa Ifigênia, paraíso dos amantes da eletrônica, até desembocar na avenida Duque de Caxias, junto à antiga Estrada de Ferro Sorocabana, inteiramente reformada para a construção da Sala São Paulo, uma das salas de concerto mais modernas do mundo.
Atravesso a avenida e entro na alameda Dino Bueno, obstruída ao longe por uma mancha escura de vultos trágicos que se acotovelam na sarjeta, em meio a quentinhas com restos de comida, garrafas de plástico e papéis atirados para todos os lados. Cheguei à Cracolândia. Vou na direção deles.