Correr
Intervalo 1
LESÕES
OSTEOMUSCULARES
O rigor do treinamento e o esforço exigido para completar a prova submetem a estresse a musculatura e as articulações dos membros inferiores. O impacto repetitivo de cada passada transmite ao resto do corpo forças estimadas em duas a três vezes o peso corpóreo do corredor.
Um estudo realizado com participantes da Maratona de Auckland, na Nova Zelândia, procurou avaliar por meio de questionários as relações existentes entre peso corpóreo, altura, experiência prévia em maratonas, tempo e intensidade dos treinamentos, prática de alongamento e aquecimento antes de começar a correr, participação em outros esportes (natação, ciclismo etc.), lesões osteomusculares ou doenças que afetaram o programa de treinamento, uso atual de anti-inflamatórios, medicamentos para asma, pressão alta e diabetes, consumo de álcool e fumo.
As informações sobre lesões precoces foram colhidas nas tendas de atendimento armadas no percurso. As mais tardias vieram pelo correio, nas páginas dos questionários enviados aos participantes com perguntas a respeito de lesões, machucados e problemas de saúde ocorridos durante a prova, imediatamente depois dela e nos sete dias seguintes.
As principais conclusões do estudo foram:
1. Os homens correram mais risco de contraturas e dores na musculatura da parte de trás da coxa e da panturrilha. As mulheres ficaram mais sujeitas a dores nas articulações da bacia.
2. Dores nos joelhos foram relatadas por 25,6% dos participantes. O risco foi maior nos que disputavam a primeira maratona e naqueles que haviam corrido menos quilômetros semanais no período de treinamento anterior às duas semanas que precederam a prova.
3. Embora exerçam efeito protetor para os joelhos, treinamentos mais intensivos aumentaram a probabilidade de dores e contraturas na musculatura anterior e posterior da coxa.
4. Lesões prévias na metade inferior do corpo, que afastaram o corredor dos treinos por pelo menos cinco dias, não aumentaram a incidência de lesões durante a corrida.
5. Surgiram bolhas nos pés de 40% dos corredores.
6. Aquecimento e alongamento antes dos treinos e da prova não diminuíram nem aumentaram o número de lesões.
7. Lesões dos músculos da coxa foram menos frequentes nos participantes com mais de quarenta anos. A explicação seria o “fenômeno da sobrevivência”, de acordo com o qual os mais velhos que ainda correm teriam sobrevivido às contusões e aos problemas de saúde que tiraram das pistas companheiros da mesma faixa etária.
8. Não houve relação entre o índice de massa corpórea (IMC = peso/altura ao quadrado) do corredor e o risco de lesões musculares ou outros problemas de saúde.
A popularidade das maratonas tem crescido de forma contínua desde quando corri a primeira prova, em Nova York. Num período de dez anos, houve 80% de aumento no número de corredores que completaram os 42 quilômetros, nas competições realizadas nos Estados Unidos. Eram 295 mil em 2001, número que em 2011 subiu para 525 mil. Há tantos corredores, que maratonas mais concorridas como as de Berlim, Londres, Chicago, Nova York ou Tóquio selecionam os participantes por sorteio.
Trabalhos mais antigos mostravam que a incidência de lesões osteomusculares durante a prova ou imediatamente depois dela variava de 16% a 92%, conforme o critério adotado. No fim da década de 1980, Walter e Macera encontraram evidências de que treinamentos semanais com mais de 64 quilômetros constituíam fator de risco para a ocorrência de contusões. Com base nesses estudos, muitos especialistas adotaram a norma de reduzir as distâncias percorridas nos treinos.
Numa revisão publicada em 2012, Nielsen e colaboradores questionaram esse critério. Verificaram que maratonistas capazes de correr mais de duzentos minutos semanais apresentavam, em média, dez lesões osteomusculares para cada mil horas de treinamento, número que nos menos preparados variava de 30 a 38.
Pesquisadores dinamarqueses estudaram a questão na Maratona H. C. Andersen, na cidade de Odense, em setembro de 2011. Através de um questionário enviado por e-mail nove dias depois da prova, o grupo procurou identificar a ocorrência de lesões causadas pela maratona, definidas como as que “acometeram músculos, tendões, articulações e ossos”. De acordo com o volume dos treinos, os maratonistas foram divididos em três grupos: abaixo de 30 km/semana, entre 30 e 60 km/semana, e acima de 60 km/semana. Outros fatores também foram considerados: história de lesões nos doze meses anteriores à prova, idade, sexo, índice de massa corpórea, número de maratonas corridas e a distância percorrida no treino mais longo das seis semanas precedentes.
Lesões osteomusculares ocorreram em 10,3% dos 662 participantes que responderam aos questionários. O risco entre os que correram menos de 30 km/semana na fase de treinamento foi 2,34 vezes superior ao daqueles que ficaram entre 30 e 60 km/semana. Entre estes e os que somaram mais de 60 km/semana não houve diferença significante.
O risco foi mais alto entre os corredores com menos de 35 anos de idade (2,3 vezes maior), entre os que corriam sua primeira maratona (o dobro) e entre aqueles com lesões prévias. Sexo, índice de massa corpórea e a distância percorrida no treino mais longo nas seis semanas anteriores não interferiram nos riscos.
Na prevenção de lesões, o limite de 30 km/semana nos treinos que antecedem a maratona é bem mais baixo que o de 60 km/semana nos dois ou três meses anteriores à prova, encontrado por Kretsch na Maratona de Melbourne, em 1980. Uma relação inversa entre o número de milhas corridas por semana e o risco de lesões musculoesqueléticas no dia da maratona também foi descrita por Caselli na Maratona de Nova York, em 1997.
Considerando que outros estudos também dão suporte ao efeito protetor do aumento das distâncias percorridas nos dois ou três meses que antecedem a prova, não há evidências científicas para fixar o limite de 60 km/semana, nessa fase. Parece que, quanto mais o atleta corre nos treinos, mais protegido fica, haja vista o número de quilômetros percorridos pelos corredores de elite na fase de treinamento.
Correr em pistas com declive aumenta o risco de lesões no quadríceps (o músculo robusto da face anterior da coxa), porque o obriga a funcionar como breque, submetendo-o a um estresse mais intenso do que nas subidas ou em terrenos planos.
Um dos problemas mais preocupantes nas corridas de longas distâncias é a rabdomiólise, processo consequente à ruptura maciça de fibras musculares, que pode causar complicações que vão da exaustão muscular a alterações cardíacas, renais e metabólicas. É preciso suspeitar de rabdomiólise quando logo depois da corrida surgirem: dores musculares mais fortes e persistentes; febre baixa, com ou sem calafrios, e urina escura que mancha a roupa.
O diagnóstico é feito por meio de um exame de sangue, no qual é dosada uma enzima, a creatinoquinase (CK): o indicador mais sensível da microdestruição das fibras musculares. Na população geral, aumentos de cinco vezes nos valores de CK são considerados indicativos de rabdomiólise. Nos maratonistas as elevações acontecem duas a doze horas após a agressão muscular e se mantêm por mais um a três dias. Na quarta hora depois do final da prova o aumento médio é de 540%. A maioria dos corredores elimina o excesso de CK através da hidratação oral adequada. Nos casos mais graves, particularmente naqueles associados à desidratação, há necessidade de reposição intensiva de líquido por via intravenosa.
Cuidado especial deve ser tomado pelos corredores que fazem tratamento com estatinas para reduzir os níveis de colesterol, porque um dos efeitos colaterais dessa classe de medicamentos é exatamente a toxicidade muscular, que em geral se manifesta por dores nas pernas e elevação dos níveis sanguíneos de CK. Esses corredores precisam avaliar com seus médicos a conveniência de suspender o tratamento por alguns dias, antes da prova.
Embora maratonistas apresentem duas a três vezes mais risco de lesões musculoesqueléticas do que corredores de distâncias mais curtas, não existem evidências de que tais problemas provoquem limitações crônicas ou definitivas.
A intensificação dos treinos à medida que a prova se aproxima eleva o risco de lesões e amedronta o corredor. Não é tarefa simples conciliar a necessidade de percorrer distâncias cada vez mais longas, aumentar a velocidade, e ao mesmo tempo evitar distensões musculares e estiramentos de tendões e ligamentos causados pelo uso exagerado. No calor do esforço preparatório, nem sempre é perceptível o limite de resistência dos músculos e articulações; ultrapassá-lo justamente nas semanas que antecedem a prova é muito fácil.
Nada é mais frustrante do que ser forçado a desistir de uma maratona depois de meses de esforço e disciplina. Um corredor profissional me ensinou uma medida elementar que tem me ajudado nos treinamentos mais pesados: “Doeu, diminua a velocidade. Se a dor não passar, pare imediatamente”.