Correr
Repercussões renais
REPERCUSSÕES
RENAIS
A atividade física intensa submete a função renal a estresse. Durante o exercício prolongado, volumes maiores de sangue são desviados para trabalho muscular, diminuindo a quantidade que chega aos rins para ser filtrada.
A redução do aporte sanguíneo provoca pequenas alterações da função renal que costumam ser assintomáticas, porém nos casos em que a atividade é exaustiva, especialmente quando associada ao calor, à sudorese intensa e à desidratação, o mecanismo de filtragem pode ficar comprometido em diversos graus. Nas situações mais graves pode levar à insuficiência renal aguda.
Nos esforços em que a intensidade das contrações musculares consome mais de 50% da capacidade máxima que os pulmões têm de transportar o oxigênio para os tecidos, além de ocorrer falta de ar, a velocidade de filtração cai, e a eliminação de sódio e o fluxo urinário diminuem. Para compensar a retenção de sódio na corrente sanguínea, os rins absorvem parte da água que deveria ser excretada na urina. Em maior ou menor grau, esse desequilíbrio no balanço entre sódio e água na circulação eventualmente persiste por dois ou três dias depois da corrida.
Insuficiência renal, entretanto, é ocorrência rara em maratonistas. Quando acontece, quase sempre está associada à rabdomiólise, destruição maciça das fibras musculares provocada pelas contrações excessivas. Hematúria — presença de glóbulos vermelhos na urina — é problema mais frequente. Pode ser causada por sangramentos microscópicos ou não, provenientes do próprio rim ou das vias urinárias mais baixas: ureteres, bexiga e uretra.
Kallmeyer e Miller avaliaram 45 atletas que completaram a Maratona de Comrades, prova de 89 quilômetros, e encontraram hemácias na urina de 24,4% deles. A análise da morfologia das hemácias revelou que a maioria vinha do trato urinário inferior.
O efeito dos anti-inflamatórios não esteroides (ibuprofeno, cetoprofeno, nimesulida etc.) na função renal de maratonistas não está bem definido. Essas drogas agem por mecanismos moleculares que acabam dilatando os vasos dos rins, diminuindo o fluxo sanguíneo e interferindo na filtração do sangue. Diversos estudos analisaram a influência dos anti-inflamatórios durante o exercício sem encontrar alterações importantes na função renal. Os casos avaliados, no entanto, não foram os de corredores submetidos aos níveis de estresse das maratonas.
Farquhar e colaboradores examinaram a capacidade do ibuprofeno de reduzir a filtração renal, sob a influência de fatores estressantes como restrição de sal, desidratação e temperatura externa elevada. A redução dos níveis de filtração foi pequena, mas o aumento da intensidade do esforço e a desidratação podem causar quedas mais pronunciadas.
Embora não haja demonstrações claras de que os anti-inflamatórios prejudiquem significativamente a função renal, a prudência recomenda evitar seu uso durante treinamentos e provas mais longas, até que sejam realizados estudos mais completos.