Correr
A maratona das maratonas
Acordei duas vezes na madrugada que antecedeu a maratona de 2014. Às cinco horas achei melhor levantar.
Um café a duas quadras do hotel estava aberto desde as quatro. Comprei dois daqueles pães redondos com um buraco no meio — que eles chamam de bagel —, queijo, café e voltei para o quarto. Tive que fazer força para terminar o segundo pão. Depois, os americanos se queixam da obesidade.
Vesti a roupa, respondi e-mails até as oito horas, saí e acompanhei a turba na direção do parque onde se concentravam os ônibus escolares que nos levariam ao ponto de partida, na cidadezinha periférica de Hopkinton. Organização de dar inveja: de acordo com a cor e o número de inscrição preso com alfinetes à camiseta, identificava-se o ônibus que conduziria cada um de nós. Sentei no fundo, no único banco individual. Por causa do tráfego, demoramos quase uma hora para chegar às casas brancas de Hopkinton, lugarejo com menos de 15 mil habitantes. Difícil não ser intimidado pela distância que o ônibus percorre. Voltar tudo aquilo correndo?
A concentração acontece numa área imensa, com grandes tendas brancas armadas para servir de abrigo, que podem ter mil utilidades menos a de proteger contra o vento frio. Na grama, aguardei a chamada da minha onda enrolado num plástico que achei no chão, sob o sol anêmico e fugidio. Quando os alto-falantes convocaram a terceira onda, saímos rumo à linha de partida, que fica a mais de um quilômetro. No caminho, um rapaz de dois metros que vinha atrás de mim reclamou para o amigo: “Essa prova tem mais de 43 quilômetros”.
O trajeto começa com uma descida de cerca de mil metros. Excitados, aos gritos, muitos dispararam para aproveitar o declive. Resisti à tentação: todo cuidado é pouco nos quilômetros iniciais. Até encontrar o ritmo ideal das passadas, o menor exagero pode levar à exaustão antes do final.
De Hopkinton até a Boylston Street, em Boston, a corrida atravessa cidadezinhas muito parecidas, de pequenas casas de madeira branca, com telhado inclinado para enfrentar o peso do inverno: Ashland, Framingham (onde fizeram o estudo famoso sobre a relação dos níveis de colesterol com o risco de ataques cardíacos), Natick, Wellesley, Newton e Brookline.
Por causa do atentado de 2013, o policiamento estava reforçado. Além dos helicópteros que nos sobrevoavam, havia um policial a cada cem metros, de ambos os lados da estrada. A fim de demonstrar repúdio ao ataque do ano anterior e solidariedade com os corredores que prestigiavam a prova, a população veio em massa para aclamar o evento.
Em outras maratonas, os espectadores se concentram em determinadas áreas, deixando espaços vazios eventualmente extensos. Em 2014, mesmo em partes não habitadas da estrada espectadores nos aplaudiam e, aos gritos, nos exortavam a seguir em frente. Lamentei tanto alarido: um dos prazeres das corridas é o silêncio quebrado pelo som rítmico das passadas no asfalto.
Costumo correr sozinho, sem ouvir rádio nem música. É a contrapartida ao tumulto em que passo os dias, em meio às solicitações dos pacientes, aos horários a cumprir, aos e-mails cobrando respostas que não tenho e ao inferno do celular que não para. Sinto inveja daqueles que terminam o trabalho no fim da tarde e vão para casa com a sensação do dever cumprido. Por mais que me empenhe, não há uma noite em que eu consiga ir para a cama sem lembrar do telefonema que não dei, dos e-mails que não pude enviar, da mensagem do WhatsApp que não respondi, dos convites para palestras, reuniões e compromissos sociais que preciso encontrar as palavras adequadas para recusar.
É no silêncio da corrida que me encontro comigo mesmo. Passo uma, duas horas, sem falar nem ouvir os outros, atento ao ritmo das respirações, às contrações dos músculos da pernas, às pisadas, às mudanças de velocidade e às dores que porventura apareçam, contato com o corpo impossível de manter durante os afazeres diários.
Quando passamos por Wellesley, diante de um college feminino havia uma fila de garotas numa balbúrdia infernal. Seguravam cartazes: “Kiss me, I love sweated
men”; “Kiss me, you’ll never regret”; “Kiss me, I’ll make you happy”.* A manifestação era tradicional, colorida, estridente e compacta; ocupava mais de duzentos metros do lado direito da estrada. Perto do final, no cartaz de uma menina rechonchuda: “Kiss
me, I’m sexually frustrated”.** Já tínhamos percorrido 21 quilômetros, e poucos se animavam a atender aos apelos. A gordinha frustrada foi a que recebeu mais beijos. Um quilômetro à frente ainda era possível escutar o vozerio das adolescentes.
Os veteranos dizem que é preciso cuidado com as ondulações do trajeto de Boston, porque a alternância de subidas duras com descidas que incitam a aumentar a velocidade descontrola o corredor. Têm toda a razão. No quilômetro 26, por exemplo, há uma descida de cerca de oitocentos metros até o rio Charles, seguida de uma ladeira forte, a cujo topo muitos chegavam andando. Fiquei surpreso. Imaginei que a exigência de pré-qualificação eliminasse os maus planejadores, forçados a caminhar quando ainda faltava mais de um terço da distância a cumprir. Mais tarde, li que Dave McGillivray, diretor da prova por vários anos, considerava aquela subida o maior desafio de todo o percurso.
Depois dela, surgem outras ladeiras, conhecidas como Newton Hills. A quarta é o Heartbreak Hill, que se levanta entre os quilômetros 32 e 34, temido “paredão” da prova. Embora a subida nem seja tão íngreme, 27 metros na vertical, está situada num momento delicado do trajeto. O nome Heartbreak Hill foi dado a essa ladeira em 1936, quando o campeão americano John Kelley, ao ultrapassar Ellison “Tarzan” Brown, consolou-o com um tapinha no ombro, ironia que teria “partido o coração” do adversário. Cheguei ao topo com relativa facilidade, consequência dos treinos nas subidas e descidas de Higienópolis e do Pacaembu. Nessa hora, senti que completaria a prova, ainda que fosse preciso diminuir o ritmo.
Não sou capaz de descrever o que se passou no intervalo entre o quilômetro 35 e o 39, amnésia temporária repetida em diversas maratonas. Não sei explicar. É como se a exaustão causasse um déficit de memória que nem a adrenalina liberada pela perspectiva do fim próximo conseguisse espantar. A primeira lembrança que tenho dessa fase foi a de ver as ruas lotadas e de ouvir um espectador nos incitar em inglês: “De agora em diante, tudo é descida”. Não era bem verdade, mas a esperança me ajudou no esforço derradeiro.
Nos dois últimos quilômetros, eu só conseguia pensar no momento de pisar na Boylston Street. Tentava me distrair procurando na multidão das calçadas um tipo exótico, um cartaz engraçado, alguém com roupa extravagante, o rosto de uma mulher bonita, em vão: o que restava de energia para o pensamento estava concentrado na imagem do portal de chegada.
Quando virei finalmente a esquina da Boylston, tomei um choque: o portal estava muito mais longe do que eu imaginara. As calçadas repletas que nos
exortavam aos mantras de “go, go, go”*** e a claridade do sol só serviam para aturdir-me os sentidos. A exaustão das pernas se espalhava pelo corpo, a linha de chegada ficava mais distante. Cadê minhas filhas? Será que passei sem vê-las? Que loucura levaria alguém a explodir uma bomba de pregos no meio de tanta gente? Não há limite para a perversidade humana.
Faltavam menos de cem metros quando um arrepio percorreu meu corpo e me deu energia para acelerar o passo, até atingir o piso azul da chegada, entre os corredores que erguiam os braços em pose triunfal para os fotógrafos. Não levantei os meus. Segui andando. Peguei a primeira garrafa de água que me ofereceram e o agasalho de plástico para manter o corpo aquecido. Uma menina loira disse
“Congratulations”**** e pendurou a medalha em meu peito. Mantive a cabeça baixa, com o olhar na direção do asfalto negro para evitar o reflexo do sol no branco das camisetas à minha frente, claridade fotofóbica que me castiga a retina nos finais de maratona. Não conheço a explicação nem sei se esse desconforto visual acontece com outros corredores.
No meio da multidão, ouvi a voz de minhas filhas junto à cerca metálica. Abracei as duas. Tinham acompanhado a prova inteira em tempo real pela internet no celular: “Pai, você completou em quatro horas e dois minutos”. Foi a melhor marca dos últimos anos, a mesma da primeira maratona que corri em Nova York para provar que a decadência não havia chegado aos cinquenta anos. Nem aos setenta, pensei naquela hora.
* “Me beija, adoro homens suados”; “Me beija, você não vai se arrepender”; “Me beija, eu o farei feliz”.
** “Me beija, sou sexualmente frustrada.”
*** “Vai, vai, vai.”
**** “Parabéns.”