Correr

Drauzio Varella · Capítulo 25 de 40

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Correr

Parte 4 — Correr, correr (here, there and everywhere)

PARTE 4

 

CORRER, CORRER

(HERE, THERE

AND EVERYWHERE)

Perdido em Miami

 

Nem só das memórias de maratonas vivem os maratonistas. Há corridas que despertam emoções e deixam lembranças mais fortes que as das provas de 42 quilômetros.

Depois de um congresso em San Francisco, fui para Miami com o objetivo de encontrar minha mulher, que chegaria no dia seguinte, sem saber para que lugar viajaríamos. Ela ensaiava a peça À margem da vida, de Tennessee Williams, que estrearia em São Paulo. A surpresa que eu havia planejado seria pegá-la no aeroporto e dirigir para Key West, o ponto mais meridional dos Estados Unidos, situado a apenas noventa milhas de Cuba. O dramaturgo, assim como alguns escritores e poetas, entre eles Ernest Hemingway, Robert Frost, Elizabeth Bishop e Ralph Ellison, tinha uma casa na cidade.

Cheguei a Miami no fim da tarde, fui para o hotel, desfiz a mala e me vesti para correr. Na saída, perguntei ao porteiro em que direção devia ir; não conhecia a cidade. Corri por uma rua idílica. As casas eram ajardinadas, com muros brancos, fachadas de linhas retas e terraços amplos, envidraçados. Nas calçadas, as copas dos flamboyants se entrelaçavam numa festa de flores vermelhas e alaranjadas, que ocasionalmente despencavam girando no espaço como helicópteros de brinquedo. Um coral de milhares de cigarras a plenos pulmões fazia a trilha musical. Pediriam ajuda às formigas assim que chegasse o inverno?

Tenho dificuldade inata de orientação. Invejo as pessoas que sabem onde se encontram e que direção tomar, mesmo em paragens estranhas. Meu amigo Philippe Reichstul é uma delas. Quando viajamos juntos, nem presto atenção nos caminhos; deixo por sua conta a tarefa, ainda que eu conheça a cidade e ele não. Meu senso de desorientação é tão dominante que cometo erros de 180 graus. Se, ao sair de um quarto de hotel, acho que o elevador está à direita, não titubeio: vou para a esquerda; quase sempre dá certo.

Mas, quando corro em lugares desconhecidos, meu cérebro surpreendentemente se reorganiza; sei para que lado está cada ponto cardeal, decoro nome de ruas, gravo na memória as mudanças de trajeto e marco os pontos de referência em que ocorreram. Tomo, inclusive, o cuidado de olhar várias vezes para trás a fim de me familiarizar com as imagens do caminho de volta.

Devo ter corrido dois quilômetros até a rua terminar. Virei à direita, junto a uma casa de muro verde, com dois pinheiros no jardim que contrastavam com a paisagem tropical do trajeto até ali. A rua foi dar numa avenida movimentada. Para evitá-la, virei à esquerda, onde havia casas de madeira com jardins mais descuidados. Em comum com as ruas anteriores, apenas o trinado incessante das cigarras.

Com uma hora de corrida decidi voltar. A noite caiu. Como em obediência à batuta de um maestro invisível, as cigarras se calaram ao mesmo tempo. Alguns minutos mais tarde, percebi que não havia passado pela rua em que me encontrava. Retornei e dobrei à esquerda. Em pouco tempo estava perdido num bairro de casas com pintura descascada, varanda atravancada com cadeiras velhas, brinquedos e móveis empilhados. Nas calçadas mal iluminadas, sem nenhuma árvore, todos eram negros. Passei por um grupo de adolescentes que fumava maconha em volta de um poste. Um deles falou num tom intimidador alguma coisa que não entendi.

Ao longe, avistei uma avenida. Lá talvez achasse um táxi; começava a ficar cansado e inseguro. Passei por uma casa em que dois homens bebiam cerveja na penumbra da varanda. Numa voz de Louis Armstrong, o mais encorpado

esbravejou: “This neighborhood is not yours. Go home white man”.* Pela primeira vez, senti na carne o peso da agressão gratuita e preconceituosa que os negros aturam desde a infância.

 

Anos mais tarde, eu viveria uma segunda experiência.

Foi numa noite fria, em São Paulo, quando encontrei meu amigo Sombra para ouvirmos samba num bar que pertence ao compositor Eduardo Gudin, na avenida Antártica. Sombra é um técnico de som, entroncado, negro de cabeça raspada, espirituoso, que conheci durante a gravação de uma campanha educativa para o Ministério da Saúde, anos atrás.

Chegamos cedo, tomamos alguns chopes (ele mais do que eu), ouvimos músicas lindas e demos risada com as histórias de Sombra, contadas nos intervalos. À meia-noite levantei para ir embora. Ele me fez sentar e telefonou para o filho, Jacob, pedindo-lhe que viesse nos buscar. Não adiantou dizer que poderíamos pegar um táxi.

Em vinte minutos, o rapaz chegou num Fiat. Sentei no banco de trás. Duzentos metros à frente, o carro foi invadido por um facho de luz forte:

— Vamos ser abordados — disse Jacob.

Olhei para trás sem enxergar, cego naquela luminosidade. Recomendei que encostássemos o carro e descêssemos imediatamente com as mãos para cima. A viatura estava parada a dez metros de nós. Protegidos pelas portas da frente abertas, dois policiais apontavam as armas para nós. Com as mãos para o alto, dei meu nome e perguntei se me conheciam. Um deles respondeu aos gritos:

— O senhor eu conheço. Esses dois, não.

Dito isso, ambos avançaram na direção de Sombra e do filho, com as armas apontadas para a cabeça deles. Provavelmente com base em experiências anteriores, o menino logo encostou o corpo contra o carro, com os braços estendidos sobre o teto, e permaneceu impassível enquanto era revistado por trás. O bom senso do filho faltou ao pai, que se indignou:

— Pra que tudo isso? Pra que apontar arma? Atira de uma vez.

O outro PM se precipitou como um raio. Com o revólver quase colado no rosto do meu amigo, ordenava que repetisse aquelas palavras. Achei que ia acontecer uma tragédia. Entrei no meio dos dois e consegui fazer Sombra voltar para o carro. Com o revólver empunhado, o policial encerrou a conversa:

— Teve sorte, negão. Se o doutor não estivesse aqui…

 

Perdido naquela vizinhança hostil, em Miami, a única alternativa seria encontrar alguém que pudesse me indicar o caminho de volta. Mas quem?

Meio quilômetro à frente, vi um senhor negro, alto e magro, de cabelos brancos, regando o canteiro de rosas de uma casa pintada de branco que contrastava com as vizinhas. Parei na cerca de madeira, pedi desculpas e contei que era brasileiro e estava perdido naquela cidade desconhecida. A menção à nacionalidade desanuviou-lhe a expressão inicial, pensei até que fosse sorrir. Explicou que eu não devia continuar na direção da avenida, por lá não circulavam táxis; era melhor que voltasse pelo caminho de ida, embora ele não fizesse ideia da localização do hotel e das ruas que mencionei.

Aproveitei o momento e perguntei se poderia tomar um gole da água que jorrava da mangueira. Ele fechou a torneira e me pediu que esperasse. Voltou com uma jarra e um copo com gelo. No final, aconselhou que eu saísse depressa daquela

área e advertiu: “Those streets are dangerous for you”.**

Foi o que procurei fazer, mas, ao passar pelo poste com os adolescentes da maconha, um deles, gordinho, com o jeans caído bem para baixo da cintura, desceu da calçada com os braços abertos como se fosse obstruir a passagem para me pegar. Desviei pelo meio da rua e acelerei o passo o mais que pude, com o coração disparado. Já me vi espancado, talvez assassinado e enterrado como indigente. Medo infundado: era brincadeira, todos riram.

Já tinha corrido mais de três horas quando encontrei a casa com os dois pinheiros, na esquina da rua dos flamboyants. No quarto do hotel senti um frio que vinha dos ossos. Não adiantou desligar o ar-condicionado. Bebi um suco de laranja, deitei e comecei a tremer embaixo das cobertas. Não estava preparado para correr três horas e quarenta minutos. Se já não tivesse passado duas vezes por essa manifestação de cansaço extremo, teria ficado com medo, ali, sozinho.

Quando melhorei, tirei a roupa na velocidade das moças no striptease, caminhei em câmera lenta até o banheiro, tomei um banho quente e encomendei o jantar. A salada não deixou recordação, mas o cabelo de anjo ao sugo foi o melhor que já comi.

 

* “Este bairro não é o seu. Vá pra casa, homem branco.”

** “Estas ruas são perigosas para você.”