Correr

Drauzio Varella · Capítulo 21 de 40

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Correr

Intervalo 3

REPERCUSSÕES

DIGESTIVAS

 

Maratonas são provas para pessoas disciplinadas capazes de percorrer distâncias longas com regularidade na fase de preparação. O estresse que os treinamentos e os 42 quilômetros da prova impõem provoca alterações metabólicas e modifica a fisiologia do organismo.

Não há sistema ou aparelho do corpo humano que não seja afetado — para o bem ou para o mal — pelo esforço de correr no limite das forças, por várias horas consecutivas. Anorexia temporária e náuseas ao terminar a prova são queixas comuns; em ocasiões mais raras, o corredor chega a vomitar. Podem ocorrer, ainda, cólicas abdominais, flatulência e alteração da consistência das fezes.

Para dar conta da exigência de oxigênio e nutrientes por parte das contrações musculares que se sucedem durante a corrida, uma parcela expressiva do fluxo sanguíneo é desviada para os músculos. Como consequência, outros tecidos ficarão menos irrigados.

No caso do aparelho digestivo, a diminuição do fluxo sanguíneo pode chegar a 80%. A falta de sangue eventualmente interfere na fisiologia gastrointestinal em graus que vão do aparecimento de sintomas passageiros a quadros mais graves, como a colite isquêmica, em que a hipóxia pode causar até necrose de alças intestinais. Há descrição de casos — felizmente muito raros — de corredores que necessitaram de intervenção cirúrgica de urgência.

Embora não haja evidência clara de que indivíduos mal preparados apresentem maior probabilidade de desenvolver esse tipo de isquemia, com o treinamento apropriado a redução do fluxo sanguíneo no estômago e nos intestinos se torna menos pronunciada. A desidratação causada pela sudorese excessiva e pelo aporte insuficiente de água é uma agravante do quadro isquêmico.

Estudos realizados nos anos 1980 revelaram a presença de sangue oculto nas fezes em 8% a 85% dos corredores. A disparidade é dessa ordem porque os participantes foram avaliados depois de correr distâncias variadas. Com o aumento do número de quilômetros percorridos, o risco de micro-hemorragias digestivas cresce.

Numa pesquisa efetuada entre corredores de distâncias mais longas, 16% se queixaram de pelo menos um episódio de diarreia com sangue visível depois de uma maratona ou de uma corrida disputada com grande esforço.

Diarreia com sangue vivo ou digerido (escuro) nessas eventualidades faz suspeitar de colite isquêmica ou sangramento gástrico, duas complicações que exigem atendimento médico emergencial. A explicação mais aceita para a presença de sangue visível ou oculto nas fezes é a de que os impactos sucessivos das passadas causariam microtraumas nos vasos sanguíneos mais delicados que irrigam as mucosas do estômago e das alças intestinais.

Endoscopias realizadas em dezesseis corredores que tinham terminado de completar a maratona mostraram que todos apresentavam certo grau de gastrite. Em quatro havia também sangue oculto nas fezes; em dois deles, a origem do sangramento era intestinal.

Apesar da inexistência de estudos bem controlados, o uso de medicamentos que contêm ácido acetilsalicílico (AAS, Aspirina, Doril, Engov e muitos outros produtos comerciais) e de anti-inflamatórios não hormonais (cetoprofeno, ibuprofeno, naproxeno, nimesulida etc.) pode fazer sangrar a mucosa do estômago e tornar mais permeável a mucosa intestinal, aumentando o risco de ruptura dos pequenos vasos que a irrigam. É contraindicado tomar ácido acetilsalicílico ou anti-inflamatórios pouco antes, durante ou pouco depois da maratona, prática infelizmente comum entre corredores.

A recomendação de não se alimentar logo antes da prova ou dos percursos mais longos faz sentido: com pouco sangue na região gastrointestinal, a digestão é problemática. Como as maratonas costumam ser matutinas, o ideal é tomar o desjejum pelo menos duas horas antes da prova, tempo médio necessário para ocorrer o esvaziamento gástrico. É preciso evitar a ingestão de quantidades maiores de alimentos gordurosos, porque a presença de gordura retarda o esvaziamento gástrico. O café da manhã deve ser rico em carboidratos, nutrientes essenciais para dar conta do trabalho muscular que virá.