Correr
Parte 3 — Minhas maratonas
PARTE 3
MINHAS
MARATONAS
Nova York, 1993
Eu era fascinado por Nova York. Havia morado lá durante três meses, enquanto fazia estágio num hospital do East Side, nos anos 1980, e retornara diversas vezes em viagens de estudo ou após congressos médicos em outras cidades americanas. Pretextos para passar por lá não faltavam: conferências, cursos, exposições de arte, visitas demoradas ao Museu de História Natural, rever Luís Nasr, o pianista William Daghlian e os amigos deles.
Cheguei cinco dias antes da maratona, em companhia de meu enteado Luciano, que tinha terminado um casamento fazia poucos meses. Andamos pelas ruas, visitamos museus, assistimos a uma ópera no Lincoln Center e fomos à casa de amigos. Do dia para a noite, Nova York foi invadida por multidões de corredores. As lojas de material esportivo organizavam filas do lado de fora.
Na quarta-feira corri duas horas na pista ao redor do reservatório de água do Central Park. Numa das voltas, fui ultrapassado por dois corredores negros de estatura mediana que passaram como um raio. Não tinham um grama de gordura no corpo, os braços eram finos, a cabeça ereta, as passadas largas; pareciam flutuar. Só podiam ser profissionais.
Poucos quilômetros mais tarde, percebi que os dois se aproximavam outra vez e decidi tentar acompanhá-los assim que me ultrapassassem. Corri atrás com todas as minhas forças; tive a impressão de que nunca havia atingido tamanha velocidade. A respiração ficou cada vez mais acelerada, os músculos das pernas retesados pelo esforço mal conseguiam manter a distância que me separava dos corredores, que conversavam tranquilamente, numa língua estranha, como se passeassem pelo parque. Em menos de quinhentos metros, a falta de ar me obrigou a desistir. Como era possível existirem máquinas de consumir oxigênio com a eficiência daqueles dois? Que anatomia era aquela? Quantas horas de treinamento diário seriam necessárias para chegar a tal desempenho?
Na sexta, fui buscar o material para a prova, distribuído num hotel da Sexta Avenida. O número de participantes ainda permitia soluções desse tipo. Sábado pela manhã houve uma pequena corrida de congraçamento que saiu da frente do prédio das Nações Unidas. Depois da entrega de alguns prêmios e da vaia que David Dinkins, prefeito de Nova York, recebeu ao saudar os visitantes estrangeiros que se
reuniam naquele momento “in the best city of the world”,* falou Fred Lebow, o romeno que ao lado de Vincent Chiappetta fundou a Maratona de Nova York, no ano de 1970.
Participaram dessa prova inaugural apenas 126 homens e uma mulher, que desistiu no meio do percurso, na época integralmente disputado no Central Park. O vencedor foi o bombeiro Gary Muhrcke, com a marca de 2h31. Entre os 55 que
conseguiram completar o trajeto, Lebow foi o 45o, com o tempo de 4h12. Cada um dos dez primeiros colocados recebeu como prêmio um relógio de corrida.
Com o aumento do número de participantes, em 1976 o trajeto foi modificado para que os corredores percorressem os cinco bairros da cidade: Staten Island, Brooklyn, Manhattan, Queens e Bronx. Três décadas mais tarde, a Maratona de Nova York se tornou a maior do mundo em número de corredores, acompanhada todo ano nas ruas por 2 milhões de nova-iorquinos.
Assim que Lebow tomou a palavra, ouviu-se uma ovação interminável. Depois de correr setenta maratonas, em diversos países, ele recebera em 1990 o diagnóstico de um tumor maligno no cérebro, contratempo que não o havia impedido de completar a Maratona de Nova York de 1992 em cinco horas e 32 minutos. As boas-vindas que ele nos deu na véspera da prova de 1993, aos sessenta anos de idade, foi sua última oportunidade de ver reunidos os 30 mil corredores daquele ano. Lebow faleceu em outubro de 1994. Foi velado por mais de 3 mil pessoas, no Central Park, junto à linha de chegada da prova que ajudara a criar. Essa foi a maior homenagem póstuma prestada a alguém naquele local, desde a morte de John Lennon.
Como a Maratona de Nova York deve passar pelos cinco bairros da cidade antes de terminar no Central Park, a partida é dada na Verrazano Bridge, situada a 21 quilômetros a oeste do aeroporto Kennedy. Transportar dezenas de milhares de corredores para local tão distante exige estratégia militar.
Às cinco e meia da manhã, os ônibus começavam a sair da frente da Biblioteca Municipal, na Quinta Avenida, entre as ruas 40 e 42. Os organizadores recomendavam que ninguém se apresentasse depois das nove horas, para não correr o risco de ficar preso no tráfego. Como o início da prova seria às 10h45, todos se concentrariam numa área próxima ao local de partida, junto à ponte. Era novembro, fazia muito frio.
Peguei o ônibus ao redor das oito horas. Na fila, li os dizeres bordados nas costas do blusão de um homem magro e alto de cabelos brancos que estava na
minha frente: “70 years old still running marathons”.** Achei incrível que alguém conseguisse correr 42 quilômetros naquela idade, não me passou pela cabeça que um dia eu pudesse estar na mesma condição. Como diz o povo, depois dos quarenta velho é todo aquele com vinte anos mais que nós.
Em 45 minutos, entrei na concentração, ao ar livre, mal agasalhado, num frio de bater dentes, mal-humorado, arrependido daquela ideia, com duas horas de espera pela frente. Os corredores sentavam no chão, encolhidos, encostados uns nos outros, cobertos com agasalhos velhos e sacos plásticos de acondicionar lixo. Dois mexicanos, de calção mas sem camisa, passaram entre nós descontraídos, como se caminhassem por Acapulco. Que gente era aquela? Ainda que estivessem apenas se exibindo, como resistiam ao vento gelado que penetrava os ossos?
À medida que se aproximou o horário da partida, a multidão começou a se movimentar. Muitos andavam para lá e para cá, excitados; outros pulavam para espantar o frio; mulheres faziam fila nas portas dos banheiros enquanto os homens se postavam lado a lado diante de um cano largo de plástico, com dez metros de comprimento ou mais, junto ao qual havia uma placa: “The greatest urinoir of the
world”.***
Quando a voz de Frank Sinatra entoou a previsibilíssima “New York, New York”, os portões se abriram e a massa se deslocou para a ponte. Fiquei emocionado com aquele mundo ondulante de cores, com a diversidade de línguas, com o fato de estar ali, na companhia de brasileiros que não conhecia mas que me desejavam boa sorte, e até com o Frank Sinatra. Ao mesmo tempo, tive a sensação de que algum imprevisto poderia ocorrer nas horas que me aguardavam. Bando de irresponsáveis que se metem numa aventura dessas, sem outro objetivo senão o de chegar ao final.
Esse misto de medo, excitação e emotividade não é exclusivo dos navegadores de primeira viagem. Em maior ou menor intensidade, todo maratonista experimenta tal estado de espírito nos minutos que antecedem a partida. Comigo aconteceu em todas as provas de que participei nos últimos 22 anos. Acho que, no íntimo, temos consciência de que correr 42 quilômetros talvez ponha a vida em perigo, e é essa possibilidade que excita e amedronta.
O clímax da sensação ocorreu quando o alto-falante iniciou a contagem regressiva. Assim que foi dado o tiro de partida, o grito da multidão ecoou pela ponte. Ao contrário da maioria, não gritei nem pulei; fiquei em silêncio, bloqueado pela massa humana que esperava espaço para começar a correr.
Passaram-se exatos doze minutos até eu conseguir chegar à linha de partida. Numa época sem a precisão dos chips, eram minutos perdidos, não descontados no resultado oficial da prova. Já nas primeiras passadas enfrentei o desafio maior das maratonas: cadenciar o passo levando em conta não a disposição do momento, mas a que nos restará no quilômetro 35 ou 38.
Maratonas são provas para bons planejadores, capazes de a todo instante calcular a energia gasta e avaliar a que ainda resta para chegar ao final. É uma prova democrática que exige de todos a mesma sabedoria. Do primeiro ao último colocado, cada qual testará o limite de suas forças. Um pequeno erro no cálculo da velocidade dos quilômetros iniciais pode levar à marca de um tempo medíocre ou à exaustão paralisante, na metade do caminho.
O melhor da Maratona de Nova York está na biodiversidade humana que a corrida expõe em seu percurso, característica incomparável. Por todo o trajeto há gente aglomerada nas calçadas e nas janelas. Pessoas de todas as idades, famílias inteiras a incentivar os que passam, algumas carregando cartazes com o nome de um participante.
Numa esquina a paisagem é a do interior do México, com rádios no último volume na soleira das portas; noutra, estamos em Porto Rico ao som da salsa; depois em Jerusalém, com homens barbudos de chapéu e terno preto, mulheres de peruca com saias xadrez que chegam aos tornozelos e meninos com quipá e costeletas cacheadas. De repente, surge uma banda com homens de saia escocesa e gaitas de foles, outra de rock, outra de jazz, um músico solitário toca trompete no meio do Harlem, onde todos são negros e as senhoras de chapéu florido e vestido escuro voltam da igreja. O povo sai às janelas ou desce barulhento às ruas para comemorar a festa. Que biodiversidade!
Passei bem pelo quilômetro 30, altura em que dizem existir um muro contra o qual se chocam os maratonistas. Corri sem incidentes até o 35, quando senti um peso no mesmo lugar da panturrilha machucada. Reduzi a velocidade. Como a dor não aumentou, fui em frente, morto de medo de ser obrigado a desistir. No quilômetro seguinte, o mesmo peso que pressionava a perna direita se instalou na esquerda. Em vez de assustar, a simetria me acalmou: pouco provável ter distendido ou rompido os mesmos músculos dos dois lados.
A essa altura, o cansaço veio com tudo. Só de pensar que ainda faltavam seis quilômetros, portanto mais de meia hora naquele passo, tive vontade de me jogar no chão e esmurrar o asfalto, como as crianças birrentas. Só não rezei para recuperar a energia perdida porque religião não é meu forte. Mas senti que não estava sozinho: o aspecto físico, a postura e as expressões faciais de meus companheiros de infortúnio eram lamentáveis.
O mundo perdeu a graça. Fiquei com raiva de mim, da ideia absurda que tive naquela tarde no largo São Bento, das pessoas que gritavam na calçada e do sol que esquentava minha cabeça. Ao entrar no Central Park, acho que restavam uns cinco quilômetros, fiquei com ódio das árvores, dos esquilos e até da cidade. Nada conseguia me distrair da ideia fixa de acabar com aquele martírio. Nunca imaginei que o fim fosse tão sofrido.
Quando apareceu a placa dos quarenta quilômetros, achei que chegaria ao final, nem que precisasse me arrastar. Não acabaria a prova andando, questão de honra, tinha ido a Nova York para correr. A visão da linha de chegada provocou uma descarga de adrenalina que espantou o cansaço. Cruzei a linha no momento em que o relógio marcava 4h01 de prova. O passo seguinte já foi andando. Ninguém termina uma maratona e continua correndo.
Nessa hora senti um tuim prolongado nos ouvidos, igual ao da injeção de morfina que tomei antes de uma operação de apêndice, quando estava na faculdade. Segui caminhando como os demais, em obediência às ordens de comando dos voluntários que gritavam para não obstruirmos a passagem. Na multidão silenciosa, alguns se desorientavam, e só não caíam por falta de espaço. Do nada surgiam paramédicos negros, mais altos e fortes do que os jogadores da NBA, empurrando cadeiras de rodas que milagrosamente abriam passagem no meio da massa, na direção do desorientado.
Lentamente, saí do parque com a medalha e um plástico prateado distribuído para aquecer o corpo, no frio cinzento da tarde que caía. Andei quinze minutos contemplando a rua, os transeuntes, os carros, a fachada dos prédios antigos. Quando senti o calor aconchegante do saguão do hotel, estava muito feliz, em paz comigo e em harmonia com o universo.
* “Na melhor cidade do mundo.”
** “Setenta anos de idade ainda correndo maratonas.”
*** “O melhor mictório do mundo.”